50 Tons de Greys – Os fantasmas de São Francisco de Sales

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

Os últimos moradores que Pablo Villarrubia Mauso e eu entrevistamos antes de deixarmos São Francisco de Sales foram José Batista Nunes (vulgo Nenê Batista, nascido em 2 de setembro de 1914) e sua esposa, Maria Marras da Silva, nascida em 1918, os quais tiveram treze filhos – o primeiro nascido em 1936 –, um dos casais mais antigos da região, conhecedores de muitos “causos”. Maria Marras é neta de Alexandre Marras da Silva, que como escrivão presidiu a segunda eleição no distrito, antes da emancipação. A maioria dos eleitores, que mal ultrapassavam uma dezena, era quase toda analfabeta, segundo Nenê Batista, e prevalecia a política oligárquica. Ambos são naturais de São Francisco de Sales, de onde se ausentaram durante certos períodos – alguns mais breves, outros bem mais longos – por motivos de trabalho, mas indefectivelmente sempre retornavam à terra de origem. O casal era fiel da Igreja Congregação Cristã.

O antigo casal de moradores e testemunhas de estranhos fenômenos em São Francisco de Sales, José Batista Nunes (vulgo Nenê Batista) e sua esposa, Maria Marras da Silva. Foto de Cláudio Tsuyoshi Suenaga.
José Batista Nunes. Foto de Pablo Villarrubia Mauso.

Em sua juventude, Nenê Batista empregava-se em fazendas para onde levava a família e realizava todos os tipos de serviços – principalmente fabricar carros de boi, sua especialidade, tendo passado onze anos em uma sede de São José do Rio Preto. Em São Francisco de Sales, trabalhou na serraria da fazenda de Jerônimo Pedro Villas Boas, pai de Antonio Villas Boas, de quem é parente distante. Lá presenciou estranhos fenômenos, como o do monjolo (“Minjolo”, em seu linguajar) que batia sozinho: “Um dia estava dormindo e escutei o minjolo bater, plauuu! Uai! Aí batia outra vez. Ahhh! É o tal negócio. A assombração vai lá e solta o minjolo. Mas não tinha ninguém lá.” Na Estrada do Coqueiro (chamada de “Coqueiros”), que conduz a Rio Verde (GO), foi aterrorizado por “assobios” arrepiantes, uma espécie de grito sobrenatural, que para ele era uma assombração:

“Quando morava nos Coqueiros, do outro lado do Rio Verde, numa ponte acima, o patrão ficou doente e mandou que buscasse remédio para ele. Fui no pasto, peguei um cavalo, mas ele era um danado de um passarinheiro (animal esperto que se assusta com qualquer coisa). De tarde cheguei lá no Américo Rosa, um farmacêutico de olho torto. Ele manipulou o remédio e explicou como é que era para o patrão tomar. Tinha outro espírito que morava na passagem de Joaquim Mariano… Aí quando cheguei num córrego estreitinho, passei assim distraído e o trem gritou dentro do meu ouvido, mas um grito que tremia tudo de um lado pro outro. Até o cavalo empinou e eu quase caí. Tasquei do revólver 38 e mandei bala. Mais adiante encontrei um homem chamado Tiago. Ele perguntou o que eu estava matando por lá, ao que respondi que não estava matando nada, que era uma coisa que havia gritado no meu ouvido.”

Quando não ouviam esse grito, acrescentou Maria Marras, as pessoas viam no meio da estrada o “farolão”, uma intensa luz branca do tamanho de uma bola de futebol que flutuava a menos de 1 metro de altura e perseguia os viajantes. Nenê Batista contou ter visto essa luz certa noite em sua juventude: “Olhei para trás e vi aquele farolão vindo atrás de mim. Era uma luz grande e muita clara, tão clara que dava até para ver os capinzinhos na beira da estrada. Quando batia o pé ela parava, e logo em seguida ela voltava a andar outra vez. Perto de uma árvore grande de jatobá na beira da estrada, ela parou e ficou lá quietinha. Aí vim embora, atravessei uma fazenda, atravessei outro córrego, e de lá do córrego olhei e vi que ela ainda estava lá.”

Maria Marras da Silva. Foto de Pablo Villarrubia Mauso.

Maria Marras, por sua vez, contou que em sua infância, por volta de 1925, via na sede da fazenda desse lugar assombrado chamado “Coqueiros” uma luz que andava no pasto, uma luz que parecia “duas pessoas, um casal, mas só do pescoço para baixo”: “E quando nos casamos fomos morar justamente naquele lugar porque ele tinha pegado lá uma casa para reformar. Eu avisei a ele: ‘Olha Nenê, aqui é muito assombrado, aparece isso e isso.’ Eu era menina mas ainda me lembro.” Maria Marras prosseguiu, reforçando as palavras: “Lá era assombrado. Eu me lembro porque fui criada nos Coqueiros. E ali na passagem do Garcia era muito assombrado. Ali tinha uma casa muito antiga. Por baixo assim, no fundo do quintal, era um pantanal, um brejo, lá era assim trançado, tudo quanto era praga dava nesse brejo e ninguém ia lá. À noite, por volta de umas 9 horas, eu saía na porta da cozinha e via aquela luz andando no pasto. Eram duas pessoas, um casal que brigava muito e tinha morrido lá. Mas eu os via só do pescoço para baixo.” Maria Marras ressaltou que não dava para ver o rosto, já que a mulher levava uma “uma lamparina de luz fraquinha na mão. A gente via só do pescoço para baixo, mas dava para perceber que era um homem e uma mulher andando como se estivesse procurando alguma coisa no meio do capim. A mulher iluminando com a lamparina e o homem falando com ela.”

Com a chegada da luz elétrica, assinalou Maria Marras, esses “espíritos” foram como que afugentados, ao que arrematou Nenê Batista: “Porque é como dizem: o povo vivia no escuro, até que Jesus Cristo veio e trouxe a luz. Então aquele que obedece ao Senhor está na luz. E aquele que não obedece está nas trevas.”

Segue abaixo a íntegra da entrevista, que infelizmente foi cortada do apêndice do meu livro 50 Tons de Greys: Casos de Abduções com Relações Sexuais, recém-lançado pela Biblioteca UFO. Optei por transcrever o palavreado original do casal e assim preservar toda a riqueza de seu linguajar, hoje praticamente extinto.

P – Como era esse monjolo que batia sozinho?

R – Um dia estava dormindo e escutei o minjolo bater, plauuu! Uai! Aí batia outra vez. Ahhh! É o tal negócio. A assombração vai lá e solta o minjolo.

P – Mas não tinha ninguém lá?

R – Não tinha ninguém.

P – O senhor tem alguma outra história de assombração para contar?

R – Aqui tinha um homem chamado Horácio, que o povo considerava que era meio mentiroso. Ele falava que aqui em São Francisco havia três espíritos andantes. Bão, a gente escutava mesmo, tinha dia que a gente escutava esse assobio. Aí eu alembrava que ele falou isso. É o tal que tá por aí. Aí eu tava morando nos Coqueiros, do outro lado do Rio Verde. Não nessa ponte, numa ponte de cima. Aí o patrão ficou doente e mandou que buscasse remédio pra ele, que contasse como ele tava pro Américo Rosa. Fui no pasto, peguei um cavalinho, mas ele era um danado de um passarinheiro. Passarinheiro é esse animal esperto, qualquer coisinha eles assusta assim. Aí eu peguei o cavalinho, arriei, isso era de tarde. Aí eu vim. Cheguei lá no Américo Rosa, era um farmacêutico do olho torto assim. Aí falei o que era, naqueles tempos eles manipulavam remédio, aí manipulou remédio, explicou como é que era pra ele tomar.

P – Tinha outro espírito que morava na passagem do Joaquim Mariano…

R – É. Aí eu fui. Eu lembrei. Opa. Vou passar no outro que o homem falou, rapaz. É capaz de nóis encontrar o… Aí quando chegamos num corguinho estreitinho, passei assim distraído, óia, um trem que gritou dentro desse ouvido meu aqui ó, mas um grito que tremia tudo de lado pro outro, até o cavalinho fez assim. Quase que eu caía. Tasquei do 38 e mandei bala, eu andava armado. Ainda olhei… dei uns dois tiros lá e… lá mais adiante encontrei um homem chamado Tiago. “Oi, que que ocê tava matando por aí?” Eu falei: “Matando, heim?” É uma coisa que gritou no meu ouvido, mas que gritou um grito forte mesmo, aí eu falei: “O senhor vai… ele para lá numa moitinha assim de lado lá” Tá bom, vamo simbora.

P – Quantos anos o senhor tinha nessa época?

R – 25 anos.

P – Onde é que foi, exatamente?

R (Maria Marras) – Aqui na Estrada do Coqueiro, que vai para Rio Verde. Antiga linha, porque agora tem a rodovia. Essa estrada ia aqui, atravessava um tal de Jacuzinho, quando entrava dentro desse capão de mato ali, toda vida, quando eles não ouviam esse grito viam um caixão. De longe um caixão lá, de duas cor, no meio da estrada, Estrada dos Cavaleiros.

P – Um caixão?

R (Maria Marras) – É, via aquele caixão, aparecia aquele caixão. Muitos viram um caixão, e outros aquela voz que gritava dentro do ouvido.

R – Aí eu tava fazendo um carro puxado de boi, carro de madeira. Aí então eu fui numa fazenda buscar um móvel da mesa, que eu não tinha o móvel. A madeira pra fazer a mesa do carro. Aí fui lá. Montei nesse cavalinho mesmo, era o cavalinho que eu andava nele. Aí cheguei lá. Falei com o homem lá, era carpinteiro, fazia carro também, ele se chamava  Pimenta, eu falei: “Você pode me emprestar o seu molde de esquerda pra eu riscar uma esquerda do carro que eu tô fazendo pro Zé Francisco?” Aí ele: “Empresto, pode levar.” Aí peguei o molde, pus no ombro, e é grande, comprido, só que é madeira. Pus no ombro, e vou no cavalinho. Era mais ou menos pro meio-dia, assim. Tinha um corguinho lá também. Quando desci no corguinho, subi, gritou assim: “Téééééééém!” Um negócio… o cavalinho ficou meio assim… Aí eu peguei… passando muito tempo, eu já morava aqui. E eu falei na Riolândia passar pros Coqueiros, não sei mais o que fui fazer. Aí… depois vim embora, com a bicicleta, e passando pelos Coqueiros. Aí atravessei a ponte pra cá, tem um… passei assim, tinha uma baixadinha, um matinho assim, e um poço d’água quando subia… eu cheguei ali e apeei pra passar. Olhei pra trás assim, aquele farolão lá vindo atrás de mim. Isso era mais ou menos 9 horas da noite… Eu tô cansado, passei o poço lá, parei. Eu olhando, mas era uma luz só, grande assim, branco, tão claro que até ficava branco. Via até os capinzinhos assim na beira da estrada. Eu vou parar aqui que ele vem devagarzinho, vem atravessando, eu mando ele parar pra dar um aperto. Aí, fiquei parado olhando, ela veio devagarzinho, eu fui estranhando aquele negócio… isso aí não é caminhão não. Aquela bola assim branquinha, eu não via nada de lá, só via o chão.

P – Estava baixo, a um metro de altura mais ou menos?

R – Menos de um metro. Aí eu estranhei daquilo. Ela parou, não atravessou não. Vi que não era caminhão, condução nenhuma. Aí eu montei na bicicleta… e ela me alumiando, veio atrás de mim. Quando bati o pé assim, parava, e olhava ela, na distância daqui ao portão assim.

P – Tão perto assim?

R – Aí ela andava outra vez. Batia o pé no chão, olhava. Ficava olhando muito tempo, mas que coisa esquisita, interessante, não tem nada segurando ela. Aí, chegou cá no alto, tinha um jatobá na beira da linha, uma árvore de jatobá grande, ali ela parou, ficou quieta lá. Aí vim embora, atravessei uma fazenda, atravessei outro corguinho, de lá do corguinho, olhei e tava lá.

P – O que era isso?

R – Não sei que negócio era esse.

P – Era branca ou amarela?

R – Da cor de farol de caminhão. Tamanho de uma bola de futebol.

P – Nessa época quantos anos o senhor tinha?

R – Era novo. Bão, passando mais uns tempos, teve uma outra vez. Eu tava vestido com uma capa, eu tava num burro. Aí ia nesse lugar mesmo que eu tava morando, em Coqueiro. Quando atravessa a Ponte dos Coqueiros pra cá, tem um mata-burro, ali é divisa de uma fazenda com a outra. É um mata-burro. Ali é que aparecia, quando nesse dia que ia de bicicleta, que vi primeiro, nesse mata-burro. Bom, aí, fez que vinha… lá de longe eu olhei, no mata-burro, um carro lá. Vai ver que o burro vai refugar daquele carro lá. Óia, a luz alumiava até a orelha do burro assim, clarinho, um sereninho de chuva, levezinho. Aí lá vai, lá vai, nóis vai de encontro. Aí quando foi chegando perto eu firmei. Quando nóis pegou aqui, ela sumiu que eu não vi pra onde ela se foi.

R (Maria Marras) – Quando nóis morava na fazenda Barbosa, o Nenê foi buscar leitoa lá na casa do Zé Francisco, lá na passagem do Ribeirão do Meio.

R – Eu fui fazer um fogão pra um compadre meu, filho desse Zé Francisco que eu tava fazendo carro pra ele. Aí mudou pra lá. Ele falou: “Compadre, você vem fazer um fogão pra mim?” Aí fui a cavalo, eu tinha um cavalo, e falei pra ele: “Ô compadre, você vai lá no pasto, pega o cavalo e arreia ele pra mim que eu vou terminar aqui e vou embora.” Tava escuro já. Tava acabando de terminar com a lamparina. Eu falei: “Eu quero ir embora.” Ele respondeu: “Não, pousa compadre. Amanhã você vai ver a mulher que tá sozinha lá.” Eu disse: “Você pega o cavalo, arreia ele pra mim que eu vou embora.” Aí, mal me despedi dele, montei no cavalo e, vamo embora. Tá bom. Vou até um corguinho, espraiada assim a água, espraiada…

R (Maria Marras) – Passagem do Garcia. É Ribeirão do Meio.

R – Tinha uma porteira do outro lado. Aí eu passei, abri a porteira, passou o cavalinho beirando o corguinho. Lá em riba, virava assim, largava o córrego e chegava na linha do automóvel. Tá bom. Quando passei a porteira que eu abeirei o córrego, pra outra banda do córrego. Ele assobiava num vidro, quando a gente pega um vidro e assobia. Beirando o corguinho, eu de um lado e ele de outro. De vez em quando gritava, assobiava no vidro. Que negócio será esse, não mora ninguém por ali? Eu conheço isso tudo aí. E nóis vai, e de vez em quando assobiava. Quando chegou na boca que tem, pra chegar nas linha… Daqui um pouco ele atravessou também. Aí gritou pertinho de mim. Vai ver que era algum companheiro que tava atirando por aí que perdeu aí… e aí não respondi não. Aí fui fazer um cigarro. Pus as pernas em cima do arreio, vinha picando o fumo pra enrolar. Aí eu parei, enrolei o cigarro, pus na boca, acendi fogo, ele pertinho fez “Ôu”, eu também fiz “Ôu”. “Quem é ocê? Quem é ocê!?” Gritou outra vez e aí o chapéu foi lá pra ponta dos cabelos. E ele vinha atrás… vai pular na garupa, vai vai… e estava pertinho. Eu olhava, mas tava escuro, eu não via nada. Até descer na cabeceira do Córrego da Égua ele veio, aí ele foi ficando, ficando… Quando cheguei em casa, ainda escutava o grito dele, e subi.

R (Maria Marras) – Só escutava os gritos.

R – Esse grito dentro do ouvido não vi.

R (Maria Marras) – E ele conversou, perguntou quem era ele, ele falou: “Quem é você?”

R – Então eu lembro… agora sumiu isso aí, não tem mais.

P – Já não tem mais isso? A senhora nunca viu?

R (Maria Marras) – Eu via umas coisas meio diferentes, mas não incomodava não. Essa luz não cheguei a ver não.

R – Ói, ainda tenho outro ainda. Maria, aquele dia também fiquei muito admirado.

R (Maria Marras) – Lá onde ele vai contar agora, eu nasci lá na sede da fazenda, eu fiquei lá até a idade de sete anos, mas tinha recordação de que lá era muito assombrado. E nóis casando fomos morar naquele lugar, ele pegou lá uma casa pra reformar, eu falei pra ele: “Olha Nenê, aqui é muito assombrado, aparece isso e isso.” Eu era menina mas ainda lembro. E aí eu contando pra ele, ele falou: “Você vai, não é mentira, você pensa que é mentira, não é não. Aí um dia passou apertado.”

R – Nóis morava numa varanda de um paiol de pôr milho. Então, tinha a frente de jogar o milho lá, aqui tinha uma parede que nem essa aí, e o quarto que nem ali ó.

R (Maria Marras) – Ficou só nóis dois na fazenda e uma criancinha.

R – A parede vinha numa altura só assim, pra cima tava aberto. Então de modo que subisse ali no milho, via nóis deitado lá no córrego. E aí, nóis tá lá deitado. Os porco, tinha porco, tinha muito porco. Nóis tinha um pote de beber água, tinha uma varanda assim, e lá era de pau a pique. Tinha uma mesinha, um banco, e nessa um pote de água. E é tampado com umas tampa de lata de querosene. Ali tava o copo. Bão, entre as galinha, tinha umas galinha na porta, as galinha escorregou, ficou espantada. Aí veio, deu umas varada na tampa, decepou. Parece que era vara. Bateu: pá, pá, pá. Nessa hora eu já pulei lá com o revólver na mão. É um cara aí, vou queimar ele. A lua tava clara, saí no terreiro, olhei tudo, não vi ninguém.

P – Como se chamava esse lugar?

R (Maria Marras) – Era lá dos Coqueiros. Lá era assombrado. No tempo da minha meninice lá, vivi ali até os 7 anos, minha família passava os maior que eram os meus irmão, meu pai, os empregados que trabalhavam na fazenda, vinha as coisas, mas criança não soma com nada, mas eu ouvia eles falar o que é que vi né, depois minha mãe morreu, fui embora pra Rio Preto, fui criada por lá. Mas tenho aquela lembrança, porque fui criada nos Coqueiros. E ali nessa passagem do Garcia, ali era muito assombrado. Ali tinha uma casa antigamente, muito antiga. Por baixo assim, no fundo do quintal, era um pantanal, um brejo, lá era assim trançado tudo quanto era essas praga que dá em brejo, essas coisa, ninguém entrava lá. E esse homem tava só ele e a mulher, era uma Sexta-Feira da Paixão, chamava Eduardo Borges, e era casado de pouco tempo, isso a família dele contava, né. E começou a mexer com uma galinha, pousava na beira da casa, e a lua muito clara. Ele ia lá, não tinha nada, e depois começou umas voz lá dentro do brejo. Aquilo falava, chorava, parece que havia duas pessoas discutindo… e aquilo vai, vai, vinha vindo pra porta da pocilga, e lá tinha aquele pantanal. E aquela voz vem vindo, aquilo chorava, aquilo falava, ele falou pra mulher dele, a Alessandra: “Óia, eu agora vou resolver minha vida, porque desse jeito não pode ficar, e eu vou encontrar, se for coisa do coisa ruim eu vou requerer.” Aí ela falou: “Não vai, Eduardo.” Ele insistiu: “Não, eu vou.” Logo ele apareceu. Era a mãe e o filho. A mãe chamava Rita, e o filho chamava Isaque. Eles brigava muito no tempo que eles tinha vida, e eles morreram e ficaram brigando lá. E Sexta-Feira da Paixão eles vieram ali porque sabia que tinha coragem de requerer, né? Aí ele requereu, aí a mãe e o filho tava brigando no vale, que era pra ele tirar umas esmolas de quatro dias e levar para o padre Jerônimo, que era um padre de Campina Verde, celebrar missa e contar pro padre. E aí aquilo desapareceu e nunca mais perturbou ele. Aí passaram muito tempo, e o velho que trabalhava nas fazenda interessou comprar um terreninho lá na fazenda Barbosa, pra dentro um tantos quilômetros. E aí ele fez lá uma casinha, uma terra de arroz, nóis morava ali dentro, e tinha um pasto muito grande cercado. Ele saía pra trabalhar, posava fora, nóis tinha um irmão meu que tava com 14, 16 anos, morava lá com nóis, eu tinha uns três meninos pequenos só. Aí quando era lá pras 9 horas da noite eu via uma luz andando assim no pasto. Saía na porta, aquela luz andava no pasto, eu via duas pessoas, mas do pescoço pra baixo.

P – Do pescoço pra baixo?

R (Maria Marras) – Não dava pra ver o rosto, que é lamparina, sabe? A mulher com uma lamparina na mão, aquela luz de lamparina, fraquinha, né? A gente via pra baixo, a gente sabia que era um homem e uma mulher. Era só chegar às 9 horas da noite, podia sair na porta da cozinha via eles andando, como se tivesse procurando alguma coisa no meio do capim. A mulher alumiando e o homem falando com ela. E nisso aí, nóis moramos lá dois anos, todo dia se quisesse ver ele via, aí um dia ele viu eles passar num córrego, numa pinguela, ele vinha chegando pra casa, ele trabalhava noutra fazenda, ele veio pra pousar em casa. Meu marido ia descendo de encontro com ele, ele vinha pra casa e o casal ia descendo. E tinha um morador que morava do outro lado, e ele viu que aquele casal de gente foi e entrou na casa dele, aí ele pensou: é capaz que eles que vai lá passar com a minha mulher, que sempre ia pousar lá, que eu era sozinho, ele chamava Odércio, ele e a mulher ia pousar lá, fazer companhia. Eu gosto de andar depressa porque não tá sabendo aonde eu vou. Aí chegou lá ele falou assim: “Ói, vocês vêm lá de casa, nóis vamo agora. Um casal de gente entrou aqui com lamparina na mão. Olhou pra todo lado não tinha nada. Não tinha face deles, era um homem e uma mulher.”

P – Como estavam vestidos?

R (Maria Marras) – De roupa mesmo.

P – Era fantasma, espírito?

R (Maria Marras) – É, deve ser espírito.

P – Em que ano foi isso?

R (Maria Marras) – O ano era 1942 ou 43. Antigamente tinha mesmo essas coisas.

P – Vocês são católicos?

R (Maria Marras) – Nós somos crentes, da Congregação Cristã. Antigamente nessa época, nóis não era crente. Agora nóis não vê mais essas coisa, graças a Deus.

P – Com a chegada da luz elétrica essas coisas foram acabando.

R (Maria Marras) – Foi acabando, parece que agora é muito pouca gente que vê alguma coisa.

R – Porque é como dizem que o povo vivia no escuro. Quando Jesus Cristo veio na terra foi luz. Então aquele que obedece ao Senhor tem a luz. E esses que não obedece ao Senhor tá andando em trevas.

P – Vocês conheceram o Antonio Villas Boas?

R (Maria Marras) –  Nóis conhecia ele desde criança. Porque nóis somos aqui de São Francisco, às vezes saía pra fazer algum servicinho mas logo voltava. Aonde nóis demorou mais porque comprou uns oito alqueires de terra foi na fazenda Barbosa, e nóis fiquemos lá trabalhando.

P – Vocês ouviram falar do caso dele?

R (Maria Marras) – Eu ouvi falar, mas não sei certeza. Correu essa notícia, agora a gente não sabe. Eu conheci ele desde criança, ele também conheceu, ele moço, namorando e tudo. Depois ele casou e foi embora, mas eu ouvi essa notícia de que pegaram ele na beira do rio e levaram. E ouvi falar isso mesmo, mas eu ainda não sei o fundamento disso.

P – Ele era uma pessoa séria?

R (Maria Marras) – Ele era muito sério. Família muito boa.

R – O pai dele é até parente meu.

P – Ah, é parente do senhor?

R (Maria Marras) – São parentes distantes.

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