Entrevista com Fabio Puentes, o maior hipnólogo do mundo

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

Fabio Puentes, reconhecido internacionalmente como um dos maiores e mais gabaritados hipnólogos do mundo, formado em hipnose clínica na Espanha e psicologia na Universidade da República do Uruguai, sua pátria de origem, pugnava pelo que poderíamos chamar de “hipnose total” ou “hipnose de resultados”, pois atuava nas mais diversas áreas, como a clínica, a terapêutica, a forense – a pedido da Polícia, para ajudar na investigação de crimes de difícil solução –, a esportiva e a empresarial. Na clínica colaborava em cursos, palestras e seminários do grupo LER/DORT, do Instituto de Neurologia e Cirurgia de Trauma do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), Associação Paulista de Cirurgiões Dentistas, Academia Brasileira de Osseointegração e da Associação Odontológica para Pacientes Especiais. Na esportiva treinava atletas individuais e times com vistas à melhoria do desempenho e do rendimento. Na empresarial atuava como assessor de Saúde Mental Laboral e Consultor de Motivação Empresarial, ministrando cursos e seminários de auto-hipnose para eliminar o estresse e incrementar as vendas e a motivação, o que incluía, ao final, o desafio de caminhar pelo fogo para eliminar medos e ultrapassar limitações, como fazem os faquires hindus, por exemplo, que sempre se valeram da auto-hipnose para atingirem estados alterados de consciência e ficarem totalmente insensíveis à dor. Puentes é autor dos livros Hipnose: Marketing das Religiões[1] e Auto-Hipnose: Manual do Usuário,[2] que muitos consideram, ao lado do clássico O Mundo Misterioso do Hipnotismo,[3] do poeta, escritor (inclusive de ficção científica), cineasta e artista plástico André Carneiro, como os melhores do gênero.

Ao elaborar Auto-Hipnose: Manual do Usuário, Puentes tinha em mente colocar à disposição um manual para que qualquer pessoa pudesse aplicar em si mesma as forças auto-hipnóticas, já que, de acordo com ele, “no fundo toda hipnose é uma auto-hipnose. O hipnoterapeuta pode colaborar em dirigir ou induzir ao transe, porém, sempre é o sujeito quem está no comando.” Ou seja, “o hipnólogo orienta o paciente, mas na realidade é o sujeito-aluno que, através de seus próprios esforços, consegue alcançar o estado de auto-hipnose”. Isso quebra a noção errônea e pré-estabelecida de que durante o estado hipnótico o hipnotizado não controla suas reações físicas e psíquicas nem controla as reações mais profundas.

“A melhor maneira de entender o que é a hipnose”, esclarece Puentes no livro, “é saber o que não é a hipnose”: “Não é sonho, não é estar sob o poder de ninguém, não é sinal de debilidade mental, não é apenas um fenômeno psicológico, mas também um fenômeno biológico, não é um tratamento em si, não é uma panaceia, não é um método, não é um fim.” Não é sonho porque “a hipnose está no extremo oposto ao coma”, ou seja, o sujeito permanece “super acordado”. Não é estar sob o poder de ninguém porque “a capacidade de entrar em hipnose é inerente a um indivíduo, como o é tocar piano, que pode melhorar mediante instruções e prática. O hipnólogo simplesmente ajuda o paciente a fazer uso de uma condição que ele já tem.” Não é sinal de debilidade mental porque “quando o índice de inteligência é maior, existe mais habilidade de concentração. As pessoas melhor dotadas são as de imaginação fértil. As de raciocínio analítico são menos hábeis. Para essas pessoas é preciso melhorar os canais de comunicação para poderem pular os obstáculos de excesso de dedução.” Não é apenas um fenômeno psicológico, mas também um fenômeno biológico porque “sob transe hipnótico se produzem mudanças nos registros das ondas cerebrais dos eletroencefalogramas. O que demonstra ser também um fenômeno biológico. O cérebro produz seus próprios calmantes, as endorfinas, que também são euforizantes, tendo até cem vezes o poder da morfina. Estas substâncias são segregadas na corrente sanguínea em estados emocionais fortes como: colapsos, choque, euforia. Com técnicas de hipnose e de auto-hipnose se pode praticar e obter este fenômeno de uma maneira mais à vontade.” Não é um tratamento em si porque “os tratamentos são realizados mediante o transe hipnótico”. Não é uma panaceia porque “a hipnose não cura absolutamente nada, simplesmente ajuda e pode até abreviar a cura”. Não é um método porque “é um instrumento de ajuda terapêutica”. Não é um fim porque “é um meio para se conseguir o que se quer”.

A hipnose é definida por Puentes como “um estado de concentração incrementada” – ao contrário do que se pensa, diametralmente oposto ao do sono ou do sonho, porque o sujeito fica super acordado e com a atenção intensamente enfocada, excluindo os estímulos externos e os internos (voz de consciência) – que clarifica a mente e elimina toda negatividade, capacitando-nos a desenvolver melhor nossas potencialidades. Nesse “estado de concentração exagerada” temos ingressado na maioria das vezes sem notá-lo, como quando ficamos absortos lendo um livro ou assistindo a um filme ou novela, porque parece um estado normal da mente. “Como a ansiedade estaria no centro de quase todos os problemas, e no estado de relaxamento hipnótico não existe a ansiedade, o estado de relaxamento hipnótico, por si só, seria benéfico”, afiança Puentes.

A técnica da hipnose, de acordo com Puentes, consiste em

“eliminar ou diminuir o lado crítico do consciente. Com a hipnose acontece exatamente o mesmo que acontece quando alguém bebe umas doses de álcool a mais, e se sente mais audaz, com mais coragem, capaz de enfrentar o mundo. Assim como o álcool, a hipnose inibe em parte e até totalmente o lado crítico do consciente. As sugestões destinadas a capacitá-lo a alcançar metas específicas, entram na mente pré-consciente ou inconsciente (subconsciente) e permanecem ali, ativas, exercendo influências na conduta e nos sentimentos.”

Um dos motivos que mais contribuem para facilitar a hipnose é o fato de que “a expectativa pelo fenômeno é muito mais mágica que o fenômeno em si”. Desse modo, “há políticos que, sem sabê-lo conscientemente, quando se comunicam em seus discursos, exaltando a vontade popular, empregam técnicas de hipnose. Hitler foi uma amostra bem clara disso”. Em Hipnose: Marketing das Religiões, Puentes assinala que “os padres, pastores e dirigentes religiosos, assim como chefes de seitas, sempre souberam utilizar bem as técnicas da hipnose, utilizando tons de voz, cânticos, tambores, velas, decorações, figuras, etc.”

Em entrevista concedida a este autor e ao jornalista, ufólogo e explorador espanhol Pablo Villarrubia Mauso, Puentes alertou que o controle da mente por meio de processos sugestivos vem sendo aplicado de modo sub-reptício por todos os setores da sociedade, inclusive e principalmente os religiosos e os políticos. À minha pergunta se determinados grupos e seitas ufológicas que alegam contatar discos voadores não estariam usando a hipnose para induzir inocentes e desavisados a verem o que queriam que vissem, Puentes respondeu que

“quando se está em grupo, se entre cinco, três veem discos voadores, os outros dois, para não serem excluídos, ridicularizados e taxados de idiotas, ficam na expectativa de verem algo a qualquer momento. Então qualquer luzinha ou qualquer vaga-lume serve e se converterá na mente deles em um autêntico disco voador. O aumento pelo interesse em torno dos discos voadores se imbrica diretamente com a proliferação de igrejas, astrólogos, videntes e místicos em geral. As pessoas não acreditam mais em coisas comuns, em políticos, instituições e até mesmo na ciência. Charles Manson dizia que se desse ordem a uma pessoa e esta a cumprisse, era devido a hipnose. Jim Jones, na Guiana, não só instou 930 pessoas ao suicídio coletivo como também fez com que estas atentassem contra um dos instintos mais primários do ser humano, ou seja, a proteção aos filhos. Isso é uma hipnose violentíssima que inibe por completo a crítica consciente das pessoas em prol de determinadas bandeiras políticas ou religiosas levando-as à prática de atos totalmente ilógicos e irracionais. Talvez por esse mau uso que muitos fizeram da hipnose é que o povo ainda teme que o hipnotizador vá tomar posse de seu cérebro, ordenando que faça coisas condenáveis. Mas não é assim que funcionam os mecanismos da hipnose, que, nunca é demais lembrar, sempre estiveram plenamente incorporados ao dia a dia, seja no discurso dos políticos, dos pastores, dos roteiristas de filmes e novelas ou dos publicitários. No meu caso, aplico a hipnose para a saúde, o bem-estar e o desenvolvimento pessoal, bem como para a superação de todo tipo de problemas ou limites que, em última instância, são definidas pela mente.”

Cumpre ressalvar, todavia, que não se recomenda usar indiscriminadamente a hipnose para recuperar supostas lembranças de abusos sexuais na infância por parentes próximos ou abdutores alienígenas em naves espaciais – o que Puentes não faz –, não só pelo fato de na maioria dos casos ser extremamente perigoso – e que se torna ainda mais perigoso quando é feito por curiosos e diletantes e não por profissionais habilitados –, mas também pelo seu caráter nitidamente invasivo, imoral e degradante. As “recordações” assim adquiridas irremediavelmente se incorporam ao repertório mental já bastante confuso dessas pessoas perturbadas que passam a acreditar em eventos que jamais ocorreram no plano real. Se tais lembranças não fossem de eventos tão assustadores, horrendos e dolorosos, talvez não gerassem maiores preocupações. Não obstante, ao nutrirem ilusões de males sofridos e estimularem a produção de fantasias, esses hipnólogos frequentemente causam danos irreparáveis aos que inocentemente neles depositaram sua esperança e confiança.

Fiquemos atentos, pois muitos dos “estranhos fenômenos” nada mais são do que eficazes técnicas de auto-hipnose efetuadas por pessoas que dedicaram muitos anos da própria vida à experimentação e ao desenvolvimento de tais técnicas.

[1] Puentes, Fabio. Hipnose: Marketing das Religiões, São Paulo, CenaUn, 1999.

[2] IDEM, Auto-Hipnose: Manual do Usuário, São Paulo, CenaUn, 1996.

[3] Carneiro, André. O Mundo Misterioso do Hipnotismo, São Paulo, EdArt, 1963.

Fabio Puentes, Cláudio Suenaga e Celso Coelho (editor da CenaUn) diante da sede da CenaUn – Comércio e Editora Ltda, então situada na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, 733, loja 24, Centro, Bela Vista, São Paulo. Foto tirada por Pablo Villarrubia Mauso em 19 de fevereiro de 1997.

Segue abaixo a entrevista realizada com Fabio Puentes por Pablo Villarrubia Mauso e Cláudio Suenaga.

Pablo – No mundo você é o hipnotizador mais rápido?
Puentes – Eu sou o mais rápido e o único que atua em todas as áreas da hipnose: a forense, clínica, animal, esportiva, empresarial, tudo o que a hipnose faz.

Mauso – Qual sua opinião sobre o Rubens Faria (Dr. Fritz?)?
Puentes – Eu acho que ele sabe o que está falando. Fala muito bem, sabe perfeitamente bem o que está falando. Até certo ponto é uma hipnose violenta o que ele faz, a pessoa não sente dor. Ele brinca muito com a expectativa da pessoa. E a hipnose é uma soma de fé, expectativa e desvio de atenção. Essas três coisas ele maneja muito bem. Quando ele dá a injeção ele dá fora, não dá no corpo, ele diz que dá no corpo espiritual. Agora, ele corta realmente, ele mexe com a coluna, ele mexe com as vértebras, e a pessoa não sente dor. Isso é uma hipnose violentíssima e não sangra. Minha mãe que tinha um tumor, ele abriu e mexeu ali com o tumor. Tentou tirar mas não pôde tirar porque o laudo dizia que era impossível tirar, não tirou realmente, ele respeita muito o laudo. E quando começou uma hemorragia no pâncreas, os médicos que estavam com ele cortaram a hemorragia e costuraram. O mais interessante é que na minha mãe doía somente a costura porque foi o outro que fez. Aí entra a expectativa. A costura feita por outro doía, a cirurgia em que ele mexeu não doía. Ele é muito prático, como engenheiro sabe o que tá fazendo, ele leva a medicina a um nível muito prático. Minha formação não aceita a incorporação de entidades. Acho que estaríamos frente a três teorias: a de que são espíritos não encarnados que seriam de natureza diabólica, a de que são espíritos desencarnados que é a teoria espírita, e a teoria de espíritos reencarnados. Acho que inconscientemente, porque acho que a pessoa é honesta, faz isso inconscientemente. Quando ele fala como Fritz, muda o semblante, não usa óculos e fala com certo sotaque alemão. Que ele corta, corta. Já o dr. Queiroz, de Pernambuco, fazia cortes muito superficiais, eu pude ver pessoalmente. O que o povo se esquece é o seguinte. Se o médico de dez pessoas, cura da nove, é obrigação dele, ele estudou. Agora, se um curandeiro de cem, cura cinco, é o máximo. Isso está dentro das possibilidades. Eu acho que muitas pessoas que vão ali estão desenganadas da medicina ortodoxa, clássica. Então qualquer coisa que sirva como paliativo, não de sobrevida, mas de melhoria de qualidade de vida, isso é importante. Ele não promete sobrevida, ele promete melhoria na qualidade de vida. Que isso acho que é totalmente aproveitável.

Cláudio Suenaga (ao fundo) acompanhando as operações mediúnicas realizadas por Rubens Faria Jr., que dizia incorporar o espírito do Dr. Fritz. Foto tirada por Pablo Villarrubia Mauso em 31 de janeiro de 1997 no galpão do Grupo de Ideal Espírita “André Luiz”, na Rua dos Patriotas, 940, Ipiranga, São Paulo, SP.

Mauso – Como você explicaria a questão da não infecção, da falta de assepsia.
Puentes – Não sei se essa falta de assepsia se dá assim ou não. Ele disse que maneja certas energias que… algumas pessoas videntes ou dotadas de capacidades paranormais disseram que via os pacientes rodeados de uma aura de luz azul, que seria uma aura que desinfetaria a luva, assim como a seringa. Isso é ponto de vista espiritual. Realmente ali é uma falta de higiene total. É preciso verificar se em algum caso houve problema de infecção.

Mauso – Os bisturis eles desinfetam, a seringa não, a seringa também ele não aplica. Mas o bisturi eu vi limpo, e via álcool lá dentro.
Puentes – Os melhores hospitais aqui do Brasil tem problemas de higiene horríveis, com infecção hospitalar.

Suenaga – Pode acontecer que alguém morra daqui a algum tempo, mas a pessoa não vai poder voltar lá para denunciar, provar que foi lá…
Puentes – Ninguém denuncia porque como se está se falando de dr. Fritz, um espírito, quem vai culpar um espírito. Há uma impregnação psíquica da pessoa… A hipnose faz a pessoa entrar num ciclo neuroendócrino que faz a pessoa aumentar o seu sistema imunológico através de uma visualização de melhorias de estado que faz todos os valores do sangue se multiplicarem. Aumentar os leucócitos etc. Eu penso o seguinte: o fato de não ter resposta agora não quer dizer que não virei a ter daqui a uns 10 anos. Ali acontece coisas interessantíssimas, mas nem tudo o que acontece ali é interessante. Uma coisa importante: o povo sempre quer ter uma cura encantada. Você viu que chegava uma pessoa em cadeira de rodas, com problemas de nascimento, tetraplégicos, por problemas que não funcionam os músculos, ele dizia para essas pessoa que não podia fazer nada. No caso da minha mãe ele falou que não podia fazer absolutamente nada. A minha mãe insistiu, ele operou e falou: é realmente complicado. Ou seja, ele entende alguma coisa de medicina. E há muitos médicos ali trabalhando com ele. Ele pede laudo, comprovação, exame. Dizem que com esse Arigó doía muito, não sei porque não o conheci.

Suenaga – Você não considera o brasileiro um povo muito crédulo?
Puentes – O povo brasileiro acredita muito e demais. O melhor é inimigo do bom. Lembro de uma reportagem numa revista em que perguntam ao Tomas Green Morton se ele havia cobrado US$ 200 mil de um capitalista do jogo do bicho. E ele morreu. E o que aconteceu. Eu cobrei US$ 200 mil, mas ele morreu contente. Se ele morre dando risada então cumpri o prometido. É um povo muito crente e esse já é um passo de avanço para haver uma cura milagrosa. Tá com a expectativa de curar.

Mauso – E como se explica essa credulidade do povo brasileiro? O que está por detrás disso?
Puentes – Excesso de carga religiosa. Eu pessoalmente não sou amigo da religião. Eu gosto da religiosidade que é outro papo diferente. Você vê aqui um sincretismo afro-cristão terrível, há uma proliferação monstruosa de igrejas evangélicas, usando técnicas de computador para atingir classes A e B. São mais uma auto-ajuda do que propriamente um credo religioso. Há terreiros umbandistas, candomblé, da igreja cristã também, e tem uma dominação portuguesa que foi muito dominadora, e sempre imperou o terror e o temor. O brasileiro que me desculpe, mas não é um povo muito corajoso não. Prefere ficar na comodidade, na “segurança”, ou com lucro secundário, a atingir a luz. Meu livro novo se chama Hipnose: marketing da religião. Tá todo mundo apavorado… Não tô denunciando ninguém, não tô metendo o dedo no olho de ninguém, simplesmente eu conto como a religião foi usada desde o início da história da humanidade como marketing religioso, onde imperava sempre o terror. É muito mais marqueteiro mostrar o Satanás e exorcismos do que uma pessoa rezando a Deus, não é verdade.

Suenaga – O que se passa nas igrejas ditas pentecostais é uma forma de hipnose em massa, as pessoas vão lá, dizem que são curadas, ou seria só crença?
Puentes – É uma hipnose em massa mas a hipnose não cura absolutamente nada, isso é um erro das pessoas. A hipnose é um paliativo. Você está com dor de dente ela tira a dor de dente, mas depois a dor começa de novo. Há um filme que ilustra bem isso chamado Fé demais não cheira bem, um trocadilho de palavras. Mostra todos os truques que um pastor americano faz para iludir o povo. Esse filme eu recomendo, é com o Steve Martin. O pastor monta o seu circo, coloca seus futuros fregueses cadeiras, e os fregueses vão comentando coisas. E tem várias pessoas distribuídas com microfones sem fio que estão transmitindo. Se senta um senhor de camisa floreada, de óculos, que fala espanhol e diz que veio da Espanha porque tinha uma doença no joelho. Aí com computador puxam um currículo seu. Quando entra o pastor, falam tudo sobre esse senhor, e ao mesmo tempo que estão falando se dirige a essa pessoa e fala o seu problema. As pessoas ficam impressionadas porque ninguém falou nada pra ele. E aí vai. Como toda hipnose, se você bater bem na primeira vez, as demais ficam mais fácil. Porque se dá a hipnose coletiva, a expectativa, o desejo de acreditar.

Suenaga – Tem alguns grupos por aí que contatam discos voadores como o RAMA. A gente desconfia que eles também usam uma forma de indução para as pessoas verem alguma coisa.
Puentes – Apareceu uma série de profetas alternativos agora, o século está acabando. E com o RAMA é interessante. Há uns 5 anos atrás foram um monte de repórteres para o Peru porque tinha aparecido disco voador. Não apareceu nada. Viram uma luz que podia ser um trator à distância. Mas o que acontece, se entre cinco ou seis, três veem discos voadores, o quarto e o quinto não veem, são idiotas ou podem ver a qualquer momento. Então qualquer luzinha, qualquer vaga-lume que aparece vão achar que é disco voador. Aí entra o processo da pessoa querer aparecer e não ficar no ridículo. Mas tudo isso é controvertido, tanto discos voadores, como a proliferação de igrejas, horóscopo, vidente, as pessoas não acreditam mais em coisas comuns, não acreditam em políticos, nem nos líderes. Charles Manson disse que se dá uma ordem para uma pessoa que o segue, essa pessoa cumpre a ordem dele, porque é uma hipnose. Temos um Jim Jones que na Guiana morreram 930 pessoas, chegando ao ponto de não só se suicidarem mas atentarem contra o instinto mais primário que há, mataram seus filhos. Isso é uma hipnose violentíssima em que a pessoa inibe totalmente sua crítica consciente, para em prol da bandeira religiosa ou política fazerem coisas totalmente ilógicas.

Suenaga – As novelas não são uma forma de hipnose também? A pessoa fica uma hora diante da novela, nem pisca…
Puentes – São três novelas, três horas.

Suenaga – Isso é uma forma de manter o povo sob controle…
Puentes – Sob controle, não tem que pensar. Agora já estão projetado o Carnaval no Rio em julho.

Suenaga – Na Bahia é o ano inteiro…
Puentes – Os Carnavais estão no inverno também… E futebol. O que você pode esperar de um país em que uma boa ideia é uma cachaça e onde a paixão nacional é uma cerveja? Da Gaulle já falou: isso não é um país sério. Outra coisa que eu aprendi. É que a dívida da ditadura ficou na fotografia: Itaipu, estrada, etc.

Mauso – Por que auto-hipnose e não hipnose?
Puentes – Porque acho que a hipnose em si não soluciona nada, somente remove os sintomas. Tiro os sintomas por um momento. Na auto-hipnose não, a pessoa aprende a controlar seu funcionamento mental e neurológico e fazer com que esse sintoma fique controlado por mais tempo. Uma pessoa por exemplo que tem depressão, com a hipnose tira a depressão, mas com o tempo volta a depressão de novo. Agora, com a auto-hipnose controla a depressão e muito bem por muito tempo. Eu posso tirar a fobia de uma pessoa com a hipnose para viajar de avião, agora com a auto-hipnose ela aprende a viajar sempre de avião. Como dizia Lao Tsé: “Se tá com fome eu dou um peixe pra você comer hoje. Agora, se ensino a pescar você vai comer o resto da vida.” A auto-hipnose seria ensinar a pescar. Então acho a auto-hipnose muito mais honesta de ensinar do que a hipnose em si. Ah, mas a hipnose não existe, o que existe realmente é auto-hipnose, a pessoa se deixa hipnotizar por indução própria. A pessoa tem mais confiança em si mesma, eu faço auto-hipnose, eu comando o meu cérebro. Porque o povo ainda tem medo que se introduza no seu cérebro… e não conhece a hipnose que fazem os pastores, os políticos, os publicitários. A auto-hipnose é mais sincera, mais limpa, mais cristalina.

Mauso – Aqui no livro você começa falando de histórias sufis que seriam em modo de piadas. Não exatamente piadas, porque seria com uma moral satírica…
Puentes – Consta três, quatro, cinco histórias sobre Deus que em realidade é assim: do céu, não cai nada, o único que cai nestas latitudes é chuva. Em países como a Suíça cai neve também, mas aqui somente chuva, e tem lugares que nem chuva cai. Na minha concepção, Deus não pode ajudar ninguém, porque se ajuda um prejudica outro. Temos um cérebro para pensar, para raciocinar, para deduzir, para tirar conclusões, para usá-lo e não estamos usando nem 10%.

Mauso – Isso não é difícil aplicar num país como o Brasil em que muitas pessoas esperam que as coisas caiam do céu? Em vez de fazer alguma coisa?
Puentes – Acho que aqui não é difícil, aqui é impossível. Mas eu sou rebelde. Tem vestibular aqui no Brasil que tem por finalidade um meio para continuar. O aluno se passa no vestibular ganha um carro. Não importa, contanto que meu filho entre na faculdade. Conheço pessoas que tem duas faculdades e são vendedores de carro, e é psicólogo, advogado…

Mauso – O que te parece essa programação neurolinguística?
Puentes – Não deixa de ser nada mais nada menos do que hipnose.

Mauso – Eles fazem o mesmo que faz a hipnose…
Puentes – A hipnose é mais de comunicação. Eu faço muita neurolinguística e não sabia que era neurolinguística. Muitas técnicas que eu fazia era neurolinguística.

Mauso – Eu vejo aqui que começa a definir o que é hipnose e o que não é hipnose, por que começa dizendo?
Puentes – Porque é muito mais fácil dizer o que não é hipnose do que o que é hipnose. Não é sono, não é estará sob o domínio de ninguém, não é um fim em si mesmo, não é debilidade mental. A hipnose é uma ferramenta de trabalho.

Suenaga – Parece que o sr. é uma das pessoas que hipnotiza com mais rapidez no mundo, tenho visto em alguns programas o sr. fazer hipnose em jovens. Impressiono-me com a rapidez com que as pessoas são hipnotizadas. Como é essa técnica?
Puentes – É uma técnica que desenvolvi. Com um papo eu atingia facilmente. Eu não tenho uma Academia hipnótica. Não sou médico, não sou psicólogo, nem sou dentista. Dentre os alunos que tenho os que aprendem mais facilmente são os dentistas porque dentro do seu aprendizado é o que está mais aberto. O médico e o psicólogo está muito fechado em seu ovo acadêmico, ele não se permite, nem tem permissão do Conselho Regional de cada sistema deles, de poder ver além da medicina. Na hipnose eu tenho uma frase que os médicos gostam muito: nunca se esqueça, por mais profissional que seja em sua área, de deixar a capa de bruxo pendurada atrás da porta. Os que procuram a hipnose vem procurando aquele toque mágico: me cura já.

Suenaga – Inconscientemente a pessoa já está auto-sugestionada. Já vai esperando que vai ser hipnotizada. Tem pessoas que são difíceis ou impossíveis de hipnotizar?
Puentes – Todo mundo é hipnotizável, depende da velocidade de cada um. Por exemplo, se você sair aqui de São Paulo e ir até Fortaleza, se você vai de avião são 2 horas e meia. Se você vai de carro são 3 dias. Se vai de bicicleta são 3 meses. Se você é hipnotizado já, daqui a uma semana ou um mês, se você é hipnotizado fica mais fácil de fazer a hipnose. Há barreiras pessoais, emocionais, profissionais, religiosas. Há muitas religiões que combatem a hipnose, acham que é coisa satânica, e não sabem que a hipnose é usada por todas as religiões.

Mauso – Nos anos 40 ou 50 veio para o Brasil um tal de irmão Vitrício.
Puentes – Fazia letargia. Tenho um livro de irmão Vitrício. Ele foi o primeiro que começou a hipnose em palco. Os profissionais da saúde querem pegar a hipnose como uma propriedade. Os primeiros que utilizaram a hipnose foram o irmão Vitrício que era irmão marista, e o dr. Paixão, que era advogado. Foram os primeiros que começaram a mexer com hipnose no Brasil. Irmão Vitrício fazia muita letargia, hipnose com toque. Seria uma hipnose misturada com do-in, parecido com acupuntura.

Mauso – De onde procede essa técnica?
Puentes – Todos derivam da época de Mesmer, magnetismo animal, passes magnéticos que vão levando à letargia.

Suenaga – O sr. usa a técnica de indução pela voz, o toque, qual é a técnica?
Puentes – Eu bombardeio usando três canais de entrada que são o visual, o auditivo e o sinestésico. Mas eu mexo muito com a expectativa do paciente. A hipnose de palco me deu muita segurança. Porque se um paciente vai ao consultório, e não entra em hipnose, você diz, bom, você está muito nervoso, a culpa é sua, tome um banho e volte amanhã, se preocupou tanto, coitado do Fábio… Agora no palco não posso dizer para voltar amanhã. No palco eu tenho que fazer hipnose sim ou sim. Pra que falo que hipnólogo, pra fazer hipnose. No palco a pessoa vai mais facilmente predisposta a ser hipnotizada. Então a hipnose de palco dá essa vantagem.

Suenaga – O coletivo, a massa funciona melhor…
Puentes – Sim, mas você tem que atingir a massa. No palco você não pode errar. As pessoas ainda associam hipnose com ridículo. No consultório sozinho eu até posso fazer o ridículo, mas no palco, na frente de todo mundo.

Suenaga – No Programa Livre, o sr. pegou uma rapaziada lá e fez eles fazerem umas coisas engraçadas…
Puentes – Engraçada sem ferir nunca o orgulho de ninguém. Porque todo lugar em que eu tenho ido o pessoal me pede mais hipnose. Eu tenho certo carinho e respeito muito a pessoa que é hipnotizada. Porque para mim a hipnose em público… eu tenho que ter cuidado para não ofender certas pessoas.

Pablo Villarrubia Mauso, Fabio Puentes e Cláudio Suenaga. Foto de Celso Moacir de Coelho.