Expedição Kon-Tiki completa 70 anos: homenagem e tributo a Thor Heyerdahl

Por Claudio Tsuyoshi Suenaga

Knut Haugland, Bengt Emmerik Danielssen, Thor Heyerdahl, Erik Hesselberg, Torstein Raaby e Herman Watzinger

Em 1947, Thor Heyerdahl (1914-2002), biólogo, geógrafo, antropólogo, arqueólogo, explorador e escritor norueguês, junto de cinco conterrâneos (Knut Haugland, Bengt Emmerik Danielssen, Erik Hesselberg, Torstein Raaby e Herman Watzinger), realizou o feito de percorrer 8 mil quilômetros de Oceano Pacífico a bordo da “Kon-Tiki” (nome do herói mítico polinésio da solitária Ilha de Fatuhiva, pertencente ao grupo das Ilhas Marquesas, que segundo a tradição oral teria trazido os antepassados ​​dos ilhéus desde o leste),[1] réplica de uma jangada primitiva de pau-de-balsa que construiu com materiais e técnicas pré-colombianas, demonstrando que os mares não se constituíam em barreiras intransponíveis, como se pensava, mas antes em autênticas “vias expressas” a interligar povos e continentes.

A tese de Heyerdahl, publicada pela primeira vez em 1941 enquanto trabalhava no Museu da Colúmbia Britânica,[2] era a de que os traços etnológicos e linguísticos comuns entre a Polinésia e a América do Sul eram o resultado de duas ondas migratórias. A primeira, de povos incaicos, teria ocorrido por volta do ano 500, ou seja, os primitivos povoadores das Ilhas dos Mares do Sul teriam partido do Peru – em balsas de madeira – e não da Indonésia, no sudeste asiático, como era consenso entre a comunidade científica da época, tanto mais porque, conforme Heyerdahl observara, o vento e as correntes oceânicas fluíam do leste para oeste. Centenas de anos depois, um segundo grupo étnico teria chegado ao Havaí em canoas duplas provenientes da Colúmbia Britânica. O principal argumento contra as ideias de Heyerdahl era a de que os pré-colombianos não possuíam barcos capazes de cruzar o Oceano Pacífico, o que se constituía em falácia ou ignorância, já que bastou uma simples ida à biblioteca para que Heyerdahl desenterrasse relatórios deixados pelos primeiros europeus que haviam atingido a costa do Pacífico na América do Sul repletos de esboços e descrições das enormes jangadas manobráveis dos indígenas, os quais possuíam vela quadrada, quilha corrediça e um comprido remo de direção na popa.

Thor Heyerdahl segurando o modelo do que viria a ser a jangada de balsa, o Kon-Tiki

Uma vez que os cientistas receberam a sua tese com frieza e cepticismo, Heyerdahl decidiu lançar-se em uma expedição marítima para prová-la. A tosca embarcação, uma balsa de junco totora similar às utilizadas pelos mochicas (cultura que floresceu no norte do Peru entre 100 a.C. e o ano 800), foi construída no Peru com troncos de pau-de-balsa (Ochroma pyramidale, madeira leve e resistente, mais leves do que a cortiça, encontrada entre as matas tropicais ao norte da América do Sul até o sul do México) cortados nas florestas ao sopé da Cordilheira dos Andes, no Equador (trazidos para o Peru flutuando rio abaixo), e amarrados uns aos outros com cordas de cânhamo, sem um único prego, cravo ou cabo.

Fotos do livro de Thor Heyerdahl, “A Expedição Kon-Tiki: 8.000 km numa jangada através do Pacífico” (7ª ed., São Paulo, Melhoramentos, 1959)

Nos nove dos mais grossos troncos de balsa selecionados para serem os toros mestres, fundos sulcos foram escavados para impedir que as cordas que passavam por eles para amarrar toda a jangada não escorregassem. Os nove troncos foram então colocados lado a lado na água para que pudessem todos cair livremente na sua posição natural flutuante antes de serem fortemente amarrados uns aos outros. O toro mais longo, de 13,70 metros de comprimento, foi colocado no centro e se projetava bem além dos outros numa e na outra ponta. Toros cada vez mais curtos foram postos simetricamente a um e a outro lado de modo que os lados da jangada tivessem 9 metros de comprimento e a proa emergisse como um arado grosseiro. Depois que os nove troncos de balsa foram fortemente amarrados uns aos outros com corda de cânhamo de 1 polegada e de ¼ de polegada, de comprimentos diferentes, os toros finos de balsa medindo 30 centímetros por 5,50 metros foram amarrados de través sobre aqueles, com intervalos de cerca de 90 centímetros. Sobre a estrutura foi posta uma coberta de proa medindo 3,60 metros por 5,50 metros feita de taquaras amarradas à jangada na forma de sarrafos separados e cobertos com esteiras soltas de bambu trançado. No meio da jangada, perto da popa, ergueram uma pequena cabana aberta feita de bambu com paredes também de bambu e telhado de fasquias de bambu com folhas de bananeira que se encaixavam umas nas outras como se fossem telhas. Media 2,40 metros por 4,20 metros, e para diminuir a pressão do vento e do mar era de altura tão baixa que não podiam ficar em pé sem bater a cabeça no teto. As paredes e a coberta eram feitas de fortes hastes de bambu amarradas e eram tapadas por uma sebe de varas também de bambu. À frente da cabana levantaram dois mastros de mangueiro (de uma dureza de ferro) de 8,80 metros de altura que se inclinavam um para o outro e no topo eram amarrados em cruz.

A enorme vela quadrada de lona medindo 4,60 metros de altura por 5,50 metros de largura, tendo ao centro a cara barbada de Kon-Tiki (uma cópia fiel da cabeça do rei sol esculpida em pedra vermelha sobre uma estátua nas ruínas da cidade de Tiahuanaco), pintada de vermelho pelo artista Erik, foi carregada numa verga feita de dois paus de bambu amarrados. Os nove enormes toros de madeira afilavam-se ligeiramente nas extremidades à moda indígena, para poderem deslizar com mais facilidade na água, e tábuas bem baixas para proteção contra borrifos foram ligadas à proa acima da superfície do mar. Em vários lugares onde existiam grandes fendas entre toros, introduziram ao todo cinco sólidas pranchas de abeto cujas pontas imergiam na água sob a jangada. Foram postas mais ou menos a esmo e penetraram a 1,50 metros na água, tendo 25 metros de espessura e 60 centímetros de largura. Ficavam seguras no respectivo lugar por meio de cunhas e cordas e serviam de pequeninas quilhas paralelas. Quilhas deste tipo eram usadas em todas as jangadas de pau-de-balsa no tempo dos incas e eram destinadas a evitar que as jangadas chatas de pau vogassem para qualquer lado à mercê do vento e das ondas. Não puseram nenhuma grade ou proteção em volta da jangada, mas tinham um toro de balsa, comprido e delgado, que de cada lado oferecia apoio aos pés. A construção toda era uma cópia fiel das antigas embarcações do Peru e do Equador, com exceção dos guarda-borrifos, colocados nas proas, que posteriormente se verificou serem inteiramente desnecessários.[4]

Respeitadas as linhas gerais, a tripulação estava livre para arrumar os demais detalhes a bordo como lhe aprouvesse. Embaixo da cabana, entre as vigas transversais, oito caixotes foram amarrados. Dois foram reservados para instrumentos científicos e filmes, e os outros seis foram distribuídos a cada um dos tripulantes, tendo cada um sido inteirado de que poderia trazer consigo coisas de seu uso privado que coubessem no seu caixote. Sobre os caixotes foram postas esteiras de junco trançado e os colchões de palha.

Knut e Torstein reservaram um canto da cabana de bambu para o transmissor de ondas curtas que com os seus 13.990 kc (kilociclos por segundo ou milhares de ciclos por segundo, um termo obsoleto para kilohertz) não emitia mais do que 6 watts, tendo mais ou menos a mesma potência de um maçarico elétrico. Durante a viagem, a dupla sempre esteve às voltas para manter em funcionamento a pequena estação de rádio de 30 centímetros acima da superfície da água. Todas as noites eles se revezavam para enviar ao éter informações e observações acerca da viagem que radioamadores avulsos captavam e retransmitiam ao Instituto Meteorológico de Washington e a outros centros.

Cozinhando no fogareiro “Primus”

Do lado externo da parede da cabana, Bengt instalou um fogareiro “Primus” no fundo de um caixote vazio solidamente amarrado ao convés. Este caixote, abrigado contra os ventos alísios de sudeste que, via de regra, sopravam do lado oposto, era a “cozinha” onde fritavam os peixes e preparavam outros pratos.[5]

O Kon-Tiki levava provisões para quatro meses na forma de sólidas caixinhas de papelão impermeabilizadas com uma camada uniforme de asfalto e dispostas lado a lado sob a coberta de bambu entre as nove baixas vigas transversais que sustentavam a coberta. Numa fonte cristalina jorrando de uma alta montanha, encheram 56 latinhas de água, contendo ao todo 250 galões de água potável, as quais foram amarradas entre as vigas transversais de maneira que a água do mar pudesse sempre borrifá-las. Sobre a coberta de bambu amarraram o resto do material e grandes cestos de vime cheios de frutas frescas que comeram dentro de poucas semanas antes que apodrecessem. Dos duzentos cocos que levaram, a metade que havia sido posta entre as provisões especiais abaixo do convés, com as ondas a banhá-las incessantemente, se estragaram devido ao contato com a água salgada. Foram os olhos dos cocos que absorveram a água e os amoleceram, ocasionando a invasão da água salgada.[6]

Como os antigos navegadores incas, por sua vez, se preparavam para suas viagens há mil anos atrás? Heyerdahl forneceu-nos um quadro bastante factível:

“Fossem quais fossem os planos desses adoradores do Sol, ao fugirem de sua pátria eles certamente se proveram de mantimento para a viagem. Carne seca, peixe e batata doce eram a parte mais importante de seu primitivo regime alimentar. Quando os navegantes em jangada daqueles tempos se fizeram ao mar, ao longo da erma costa do Peru, dispunham de amplo abastecimento de água a bordo. Em vez de vasilhas de barro, geralmente usavam enormes cabaças que resistiam a golpes e choques, enquanto ainda mais próprias ao uso em jangada eram as grossas hastes de gigantescos bambus; furavam todos os nós e introduziam a água por um buraquinho no fundo, que vedavam com um batoque ou com breu ou resina. Trinta ou quarenta dessas grossas hastes de bambu ficavam à sombra e se conservavam frias – a uns 26º C, na corrente equatorial – graças à água fresca do mar que as estava sempre banhando. Um depósito dessa espécie continha duas vezes a quantidade de água que nós usamos em toda a nossa viagem, e podia ser levada quantidade ainda maior simplesmente amarrando mais hastes de bambu na água, por baixo da jangada, onde, além de não ocuparem espaço, nada pesavam. Verificamos que, volvidos dois meses, a água doce começou a alterar-se e ter um gosto ruim. Mas, a esse tempo, a gente já deixou bem atrás a primeira área do oceano onde há pouca chuva, e já chegou, há muito, a regiões nas quais grossas pancadas de chuva podem equilibrar a provisão de água. Distribuímos diariamente para cada homem um bom litro de água, e raro era o dia em que a dose se esgotava. Ainda mesmo que os nossos predecessores tivessem partido de terra sem provisões adequadas, enquanto vogavam pelo mar, ter-se-iam arranjado com a corrente, na qual havia peixe em abundância. Não se passou um dia em toda a nossa viagem em que não houvesse peixes em redor da jangada e que não pudessem ser facilmente apanhados. Mal houve um dia sem que ao menos peixes-voadores viessem espontaneamente cair a bordo. Sucedeu até que grandes bonitos, comida deliciosa, subiam à jangada com as massas de água que entravam pela popa, e ficavam a rabear na embarcação quando a água escorria por entre os toros como num crivo. Morrer de fome era impossível.”[7]

Sobre o Kon-Tiki viajaram os seis destemidos noruegueses durante 101 dias, do Porto de Callao, na costa do Peru, de onde partiram em 28 de abril, até os recifes do Atol de Raroia, no Arquipélago de Tuamotu, extremo sul da Polinésia, aonde chegaram em 7 de agosto, provando que os povos pré-colombianos possuíam habilidades muito avançadas para a navegação em alto mar e, portanto, podiam perfeitamente ter chegado à Polinésia por volta do ano 500 desta maneira, seguindo a trajetória do Sol e se deixando levar pelo vento e pela Corrente de Humboldt [corrente oceânica que percorre o Pacífico, assim denominada em homenagem ao geógrafo, naturalista e explorador alemão Alexander von Humboldt (1769-1859), que a descobriu e a estudou].

A aventura, inédita em seu gênero, foi das mais arriscadas e perigosas – praticamente ninguém acreditou no sucesso da expedição e não faltaram os que tentassem dissuadi-los a abandonarem tão desvairada ideia. Até apostas foram feitas em torno do número de dias que a jangada aguentaria. Completamente sozinhos em alto-mar, estiveram muitas vezes às voltas com violentas tempestades, cercados de tubarões e quase viram a jangada destroçada pela fúria da arrebentação. Contrariando porém todos os prognósticos desfavoráveis, o sucesso coroou a expedição sobre a qual mais tarde se escreveram dezenas de livros e centenas de artigos e reportagens.

Não obstante tamanha façanha, só superada em termos de importância à chegada do homem a Lua 23 anos depois, Heyerdahl ainda teve de continuar enfrentando a incompreensão e a reticência. O manuscrito de Kon-Tiki, oferecido primeiramente às editoras americanas, foi rejeitado sob a alegação de que o público não iria se interessar por uma história em que ninguém – à exceção do papagaio verde, presente de despedida de uma pessoa amiga de Lima, levado a bordo à guisa de mascote, que dois meses após a partida foi tragado por um vergalhão que invadiu a embarcação pela popa – havia morrido. E Heyerdahl provou mais uma vez o quanto estavam errados. A epopeia que narrou em detalhes emocionantes em seu livro majoritariamente voltado ao grande público, Kon-Tiki ekspedisjonen [8] vendeu mais de 30 milhões de exemplares e foi traduzido para 67 idiomas desde que foi lançado em 1948.

Em American Indians in the Pacific: The theory behind the Kon-Tiki Expedition, lançado em 1952, Heyerdahl se vale dos dados incontestáveis e abrangentes que coletou durante a expedição para tentar convencer a comunidade acadêmica de que os primeiros colonos da Polinésia saíram do Peru por volta do ano 500 e que uma nova vaga de colonos chegou da costa noroeste da América do Norte entre 1000 e 1300.

As cenas mais emocionantes filmadas durante a sensacional viagem foram editadas em 1950 por Olle Nordemar na película em preto-e-branco Kon-Tiki, vencedor do Oscar de melhor documentário em 1951. Em 2012, a história da Kon-Tiki finalmente virou filme (intitulado, como não poderia deixar de ser, Kon-Tiki) com roteiro de Petter Skavlan, direção de Joachim Ronning e Espen Sandberg e com o ator Pål Sverre Valheim Hagen no papel de Thor Heyerdahl.

Eleito em 1999 o norueguês do século, Heyerdahl nasceu na cidade de Larvik (no condado de Vestfold, a cerca de 105 quilômetros a sudoeste de Oslo) em 6 de outubro de 1914. Seu pai era dono de uma fábrica de água mineral e de uma cervejaria, enquanto sua mãe, bióloga darwinista, dirigia o museu local. Desde tenra idade ele percorria as florestas adjacentes e escalava as montanhas de trenó. Apesar do seu gosto pela natureza e pela aventura, ele permaneceu com medo da água depois do trauma de quase morrer afogado na infância e não aprendeu a nadar senão aos 22 anos de idade.

Thor Heyerdahl e Liv Coucheron Torp

Recém-graduado em Zoologia e Geografia na prestigiosa Universidade de Oslo, bem como recém-casado, Heyerdahl recebeu uma ajuda financeira para pesquisar a vida animal na pequeníssima e isolada Ilha de Fatuhiva, pertencente ao grupo das Ilhas Marquesas. Na véspera de Natal de 1936, junto com sua esposa Liv Coucheron Torp (de quem se divorciaria em 1947 em decorrência do ressentimento gerado por conta de seu total engajamento na Expedição Kon-Tiki), foi para lá fugir àquilo que considerava ser o “punho de ferro da civilização”. O casal em plena lua de mel foi adotado por Teriieroo, o chefe da Ilha de Taiti. A experiência de viver ao estilo primitivo, no entanto, não se mostrou das mais aprazíveis. Logo que chegou em Fatuhiva, Heyerdahl descobriu que os nativos estavam sofrendo de uma série de doenças, incluindo a lepra e a elefantíase, induzidas pelo contato com os europeus.

Liv Coucheron Torp

Ele e Liv passaram meses morando em uma rústica choupana por eles mesmos construída sobre estacas, debaixo das palmeiras e perto da praia, alimentando-se de raízes, frutos silvestres, peixes e camarões de rio, embora logo descobrissem que o estômago moderno estava desadaptado à dieta primitiva. Liv adoeceu gravemente e Heyerdahl teve que apelar à medicina moderna para salvá-la.

O tempo em que permaneceu na ilha, no entanto, não foi desperdiçado. Após cair acidentalmente em um rio, Heyerdahl descobriu que podia nadar. Enquanto pesquisava as origens transoceânicas dos animais da ilha, dedicou-se a conhecer as tradições dos polinésios. Como teriam ido ali parar e que tipo de herança cultural teriam trazido com eles? De um ex-canibal, o velho Tei Tetua, único sobrevivente de todas as extintas tribos da costa oriental de Fatuhiva, Heyerdahl ouviu a história do mítico herói Tiki, a quem os nativos consideravam ao mesmo tempo deus, chefe e filho do sol. Desde então, uma única questão passou a orientar a sua vida e as suas teorias: como e quando o homem primitivo aprendeu a fazer travessias marítimas? Heyerdahl contou em detalhes as experiências que viveu em Fatuhiva em seu livro Green was the Earth on the seventh day, publicado em 1997.[9]

A sua convicção na existência de laços entre os povos antigos jamais diminuiu, muito pelo contrário. Em 1953, liderou uma expedição arqueológica norueguesa ao Arquipélago das Galápagos (grupo de treze ilhas no Oceano Pacífico a cerca de 1.000 quilômetros a oeste da costa do Equador que por sua elevada biodiversidade atraiu a visita do jovem Charles Darwin em 1835), onde, seis anos antes, quase desembarcara com a balsa Kon-Tiki. Em meio a árvores de cactos, entre lagartos gigantescos e as maiores tartarugas do globo, desenterrou, com a ajuda dos arqueólogos E. K. Reed e Arne Skjölsvod, mais de dois mil fragmentos de jarros (pertencentes a 130 jarros diferentes) deixados pelos precursores dos incas que haviam partido das costas da América do Sul e ali aportado depois de terem navegado ao largo com suas balsas. Peritos em Washington analisaram os fragmentos e estabeleceram que mil anos antes de Colombo, os precursores dos incas tinham realizando repetidas visitas às Ilhas Galápagos.[10]

No ano seguinte, Heyerdahl, que tem parte de sua família no Brasil,[11] veio ao nosso país como convidado para participar do Congresso Internacional de Americanistas, em São Paulo, ao que aproveitou para conhecer e estudar os nossos índios. Assessorado pela indigenista Harald Schultz, de quem obteve muitas e preciosas informações, e acompanhado de sua segunda esposa, a bela Yvonne Dedekam-Simonsen (com quem havia se casado em 1949 e de quem se divorciaria em 1979), e da pesquisadora Wilma Chiara, Heyerdahl penetrou incógnito nas selvas do Brasil Central e esteve na Aldeia dos Carajás, perto de Aruanã, nas margens do Rio Araguaia.[12]

O Cruzeiro, Ano XXVII, Nº 5, 1954-11-13, pp.34-B a 34-E. [Arquivos de Claudio Tsuyoshi Suenaga]
No início de 1955, Heyerdahl começou a planejar uma expedição arqueológica à Ilha da Páscoa (assim chamada por ter sido descoberta na tarde do dia de Páscoa de 1722 pelo holandês Jacob Roggeveen, mas chamada pelos nativos de Rapanui, ou, conforme a denominação mais antiga, Te Pito o te Henua, ou “Umbigo do Mundo”), a primeira de grande porte e de longa permanência jamais realizada na mais distante e solitária ilha do Pacífico conhecida por suas centenas de misteriosas estátuas gigantes. Obteve o patrocínio do então príncipe Olavo V da Noruega (1903-1991, rei a partir de 1957), e a permissão, da parte do governo do Chile, por intermédio do Ministério do Exterior da Noruega, para que a expedição pudesse escavar na Ilha da Páscoa. Em setembro, à frente de um grupo de 23 homens (incluindo cinco arqueólogos, um médico, um fotógrafo, além de especialistas das mais diversas áreas) e acompanhado de sua esposa Yvonne, de sua filha Anette e de seu filho Thor Jr., Heyerdahl, chegou ali a bordo de um navio que alugara de uma usina de enlatamento de peixe de Stavanger devidamente reequipado com peças de recâmbio, aparelhamento especial e demais suprimentos suficientes para um ano.

Fotos do livro de Thor Heyerdahl, “Aku-Aku: O segredo da Ilha da Páscoa” (São Paulo, Melhoramentos, 1959)

As escavações – as primeiras empreendidas na ilha – conduzidas pelos cinco arqueólogos (três norte-americanos, um norueguês e um chileno), logo descobriram que a ilha teve no passado uma grande quantidade de bosques que haviam sido derrubados pelos moradores nativos e que estes cultivavam muitas plantas oriundas da América do Sul. Datações feitas por Carbono-14 mostraram que a ilha havia sido ocupada desde aproximadamente o ano 380 (portanto cerca de mil anos mais cedo do que se acreditava) em três épocas culturais distintas, a segunda das quais concebeu os moais, as famosas estátuas gigantes de pedra. Escavações indicaram também que muitas obras feitas de pedras (encaixadas com precisão admirável) eram deveras semelhantes às construídas pelas antigas civilizações peruanas.

No topo do penedo de Orongo, a equipe de Heyerdahl encontrou pinturas rupestres que representavam botes de junco em forma de crescente e munidos de mastros, um dos quais possuía amarras laterais, afora uma grande vela quadrada. A esse respeito, pormenorizou Heyerdahl:

Thor Heyerdahl e sua esposa Yvonne segurando um modelo de bote de junco

“É sabido que, outrora, os habitantes da Ilha da Páscoa construíram para seu uso botes de junco para um e para dois homens, iguais aos que os incas e os predecessores haviam usado ao longo da costa do Peru, desde tempos imemoriais. Mas ninguém jamais tivera notícias de os antigos nativos da Ilha da Páscoa haverem feito botes de junco, de proporções suficientes para aplicação de velas. Eu tinha pessoalmente razões especiais para me interessar por isto: velejara no Lago Titicaca em botes de junco desta espécie, levando índios montanheses, do planalto de Tiahuanaco, na qualidade de tripulantes. Eu sabia que se tratava de embarcações esplêndidas, de incrível capacidade de carga e de insuspeitada velocidade. Ao tempo das conquistas espanholas, grandes botes de junco desta categoria se encontravam também em uso no mar aberto, ao largo da costa do Peru; e antigos desenhos, encontrados em jarros dos tempos pré-incaicos, mostram que, durante o mais remoto dos períodos da civilização peruana, o povo construiu navios propriamente ditos, com juncos, exatamente como os antigos egípcios armaram barcos de papiro. Jangadas, compostas de troncos de balsa e embarcações com forma de bote, feitas de junco de água doce, constituíam meios inafundáveis de transporte, que o povo do Peru preferia para todo o seu tráfego marítimo. Eu também sabia que os barcos de junco podiam flutuar durante muitos meses, sem começar a fazer água; um barco de junco do Lago Titicaca, que amigos peruanos levaram para o sul do Pacífico, enfrentou as vagas como um cisne, singrando duas vezes mais rápido do que uma jangada de balsa. E agora os botes de junco apareciam, de súbito, numa velha pintura de forro, na casa nº 19, de Ed, já em ruínas, à orla da cratera do maior vulcão da Ilha da Páscoa.”[13]

O arqueólogo Arne Skjölsvod desenterrou perto da cratera Rano Raraku o corpo de uma estátua gigantesca que estivera metida no chão com apenas a cabeça acima do nível do solo. No peito da estátua havia uma imagem representando um grande bote de junco com três mastros e várias velas, sendo que do convés do bote, uma longa linha corria para baixo, até uma tartaruga esculpida à altura do estômago do gigante. Heyerdahl registrou que “todos eles se manifestavam convencidos de que este era o próprio navio de Hotu Matua, porquanto ele desembarcara na ilha com várias centenas de homens a bordo de dois navios tão espaçosos que Oroi, o pior inimigo de Hotu Matua, realizara a viagem na qualidade de clandestino. Não há honus, ou tartarugas, de nenhuma espécie na ilha nos dias de hoje; entretanto, quando Hotu Matua chegou, um de seus homens fôra ferido ao tentar agarrar uma tartaruga enorme, na praia, em Anakena”. Arguiu Heyerdahl que “aqueles infatigáveis gênios da engenharia não eram apenas meros peritos construtores em pedra; fôra na qualidade de marinheiros, de categoria mundial, que eles haviam encontrado o seu caminho para este pequeno paraíso, o mais solitário do mundo, onde, durante séculos, foram capazes de construir as suas estátuas de pedra em paz. Uma vez que eles dispunham do junco totora, e faziam uso dele para armar pequenas embarcações, não havia, com efeito, razão alguma pela qual não pudessem ser capazes de aumentar-lhes as proporções, de acordo com as conveniências, pelo processo de atar juncos mais longos, e em maior quantidade, em feixes adequados.”[14] Heyerdahl apurou ainda que “no século passado, o Padre Roussel teve informação da existência de grandes navios que poderiam transportar quatrocentos passageiros e que possuíam proa altaneira, erguida como o colo de um cisne, ao passo que a popa, igualmente alta, se apresentava dividida em duas partes separadas. Muitos dos barcos de junco, que nós encontrávamos pintados em antigos jarros no Peru, são exatamente como estes. O padre Sebastião viera a saber que houve um grande navio, com a forma de uma jangada rasa, ou chata. Isto se chamava vaka poepoe, e era também usado quando os navegadores encetavam longas viagens, com muitas pessoas a bordo.” A expedição encontrou em estátuas, bem como na própria pedreira, várias dessas figuras representando embarcações feitas de feixes de juncos nitidamente separados, incluindo um bote com mastro e vela quadrada e um bote de junco com mastro atravessando diretamente o umbigo redondo de um moai de 10 metros.[15]

Heyerdahl armou suas tendas no antigo local de residência do lendário rei Hotu Matua, e quando começou a trazer à luz do dia estátuas descomunais e esculturas estranhas de que ninguém nunca antes tivera notícias, os habitantes da Ilha da Páscoa logo começaram a atribuir-lhe poderes supernaturais e a considerá-lo como um dos seus antepassados que regressara para junto deles. Com o transcorrer dos meses, os vínculos que ligavam o “Senhor Kon-Tiki” aos nativos tornaram-se inquebrantáveis. Os insulares admitiram que ele possuía um poderoso aku-aku (espécie de espírito protetor, de uso privado, que o ajudava em tudo quanto ele empreendia) e então o iniciaram nas suas tradições mais secretas, permitindo que se tornasse o primeiro europeu a adentrar em suas cavernas subterrâneas repletas de esculturas de pedra, as quais revelaram aspectos inusitados sobre a cultura e a religião da Ilha da Páscoa. Havia pelo menos quinze dessas cavernas de família (pertencentes somente aos descendentes dos orelhas-compridas e indivíduos que possuíssem sangue de orelha-comprida em suas veias) ainda em uso, sendo que muitas outras permaneciam ocultas. Mediante astutas negociações em que teve de vencer uma série de tabus e superstições, Heyerdahl obteve dezenas dessas valiosas esculturas de pedra, algumas remontando a centenas de anos. A mais valiosa era uma peça representando um bote de junco redondo com três mastros e velas espessas, profundamente sulcadas, que se situavam em orifícios redondos, ao longo da coberta abaulada.[16]

A corroborar as teorias de Heyerdahl, alguns moradores da ilha contaram que de acordo com suas lendas eles originalmente haviam chegado provenientes do Leste, que só poderia ser a América do Sul.

Após ter permanecido na Ilha da Páscoa por quase um ano (de setembro de 1955 a agosto de 1956), a expedição resolveu rumar para Rapa Iti [chamada de Rapa Iti (“pequena”) para ser distinguida da Ilha da Páscoa, chamada de Rapa Nui (“grande”)], uma das ilhas do Arquipélago das Austrais, na Polinésia Francesa, a 1.240 quilômetros ao sul do Taiti, descoberta pelo capitão inglês George Vancouver em 1791. Heyerdahl queria investigar a antiga lenda, contada pelos nativos de Rapa Iti, de que a ilha fôra povoada primeiramente por mulheres que ali chegaram (muitas delas grávidas) a bordo de barcos primitivos procedentes da Ilha da Páscoa.[17] Com uma área de 40 km², seus cumes mais elevados em Morongo Uta (“Paz de Espírito”) se parecem com as pirâmides do México cobertas de vegetação ou com as fortificações escalonadas dos incas. A intenção era escavar justamente o topo da colina que consiste em uma série de plataformas ou terraços planos feitos de pedra, encimados por uma torre de vigia. A vegetação que a revestia foi removida completamente e uma área vermelho-escura da rocha foi exposta. Ao redor, se erguiam outros picos que consistiam em pirâmides artificiais. De acordo com Heyerdahl, “era errado denominar aquilo de fortaleza. Era errado dizer que aquilo constituía um conjunto de terraços agrícolas. Porque lá em cima, nas alturas extremas, a inteira população da ilha tivera, outrora, sabe Deus quando, o seu lugar permanente de moradia.”[18]

Apesar de haver abundância de chão plano no leito dos vales, os que primeiramente ali chegaram optaram por escalar as faldas acima e atingir o topo das escarpas mais inacessíveis, fixando-se ao redor dos picos mais elevados. Como constatou pessoalmente Heyerdahl,

“atacaram a rocha viva com instrumentos de pedra e transformaram o topo da montanha em torre inexpugnável. Ao redor e abaixo dessa torre, o rochedo inteiro foi cavado e modelado em terraços enormes. […] Outrora, aquela deveria ter sido uma aldeia muito bem fortificada. Um fosso gigantesco, com parapeito do lado elevado da aldeia, barrava o caminho a quem quer que fosse que se avizinhasse procedendo do espinhaço do sul. Centenas de milhares de pedras de basalto duro tinham sido penosamente carregadas, do leio do vale ao topo da montanha, para dar apoio aos terraços sobre as quais se haviam erguido as cabanas, para que eles não ruíssem e não se precipitassem no abismo, sob os efeitos das violentas tempestades de chuva, comuns em Rapaiti. Os blocos de pedra, não lavrados, haviam sido juntados de maneira magistral, sem emprego de reboco; aqui e acolá, um canal de drenagem corria através da muralha; ou, então, umas pedras compridas se projetavam e formavam uma espécie de escada, indo de um terraço a outro. Havia lá mais de oitenta terraços, naquela aldeia de Morongo Uta; e todo o conjunto acusava uns 55 metros de altura, com a expansão de uns 450 metros. Era, assim, a maior estrutura contínua jamais descoberta em toda a Polinésia. […] a população de Morongo Uta cortara nichos pequenos, em forma de domo, na rocha, por trás dos terraços, e ali construíra, para seu próprio uso, templos em miniatura; no chão plano de tais templos havia renques de quadrados de pequenos prismas de pedra, que se alinhavam na orla como se fossem peões de xadrez. As cerimônias que não podiam ser levadas a termo em frente àqueles templos de bolso eram realizadas lá em cima, na plataforma superior da pirâmide, por baixo da abóbada descampada do céu, na companhia do Sol e da Lua. […] Todos os outros cumes eram ruínas de aldeias fortificadas do mesmo tipo de Morongo Uta. Com frequência, paredões continuavam acima dos flancos dos vales, como se fossem lances de escadarias; por toda parte, podiam encontrar-se relíquias de um sistema artificial de irrigação, com canais que se ramificavam, partindo de correntezas, e que conduziam água aos terraços de faldas de montanhas, os quais, de outra maneira, teriam permanecido secos.”[19]

Mas o que havia induzido aquele povo a refugiar-se em tão grandes alturas? Para Heyerdahl, a resposta era bastante evidente:

“O povo de Rapaiti sentia-se atemorizado quanto a um poderoso inimigo de fora – um inimigo que era conhecido por ele, e cujas canoas de guerra poderiam aparecer na linha do horizonte, sem aviso. Talvez que os primeiros habitantes da ilha tenha sido empurrados para aquele lugar fora de mão, procedendo de outra ilha, que o mencionado inimigo já houvesse conquistado. Poderia esta outra ilha ter sido a Ilha da Páscoa? Poderia a lenda de Rapaiti haver surgido de um grão de verdade, como a história da batalha do fosso de Iko? As batalhas dos canibais, na terceira época da Ilha da Páscoa, teriam sido o bastante para espavorir qualquer povo, pondo-o em fuga em direção do mar, e fazendo isso até mesmo a mulheres grávidas, ou com suas crianças. Em época ainda mais recente, ou seja, no século passado, uma jangada de madeira, com tripulação de sete nativos, aportou sã e salva, na Ilha de Rapaiti, depois de vogar ao largo de Mangareva, que nós mesmos havíamos visitado, no nosso percurso da Ilha da Páscoa para cá.”[20]

Tal como a Pedra da Gávea e demais montanhas do Rio de Janeiro, os picos de Rapaiti haviam sido trabalhados pela mão do homem

“como se fossem monumentos marítimos à memória de navegadores sem nome, de uma idade já esquecida – navegadores que tinham muitas centenas de milhares de milhas atrás de si, quando desembarcaram neste lugar isolado do mundo. Todavia, muitas centenas de milhas não eram suficientes para remover de seu espírito o medo de que outros singradores do mar pudessem seguir-lhe as pegadas. O oceano é vasto, mas até mesmo o barco mais miúdo, que consiga flutuar, pode vencer grandes distâncias, desde que se lhe dê tempo. Até mesmo a machadinha de pedra das dimensões mais reduzidas fará com que a rocha ceda, desde que mãos perseverantes a martelem durante o tempo que para isso se requerer. E o tempo era uma comodidade de que os povos antigos possuíam uma provisão inexaurível. Se o tempo é dinheiro, eles tinham uma enorme fortuna nas prateleiras terraceadas das suas montanhas inundadas de sol – uma fortuna muito maior do que a de qualquer magnata dos dias de hoje.”

Os pormenores da expedição à Ilha da Páscoa e a Rapa Iti foram registrados por Heyerdahl em seu livro Aku-Aku: Påskeøyas hemmelighet (Aku-Aku: O segredo da Ilha da Páscoa), publicado em 1957.

No final dos anos 1960, depois de ter visto cerâmicas incas em que apareciam navios de junco semelhantes às do Egito faraônico, Heyerdahl começou a fazer planos para seu regresso ao elemento oceânico, desta vez para provar que a civilização do Vale do Nilo havia chegado à América antes de Colombo. Com base em desenhos e modelos do Antigo Egito, o Rá, assim batizado em referência ao deus sol egípcio, foi construído por fabricantes de barcos do Lago Chade, no centro-norte da África, usando papiro obtido do Lago Tana, na Etiópia. Se os barcos de papiro com suas proa e popa concebidas especialmente para singrarem em águas rasas navegavam apenas pelo Nilo, depreendeu Heyerdahl que bastava apenas que lhes fossem aumentadas a proa e elevadas a popa com a ajuda de cordas para que se tornassem capazes de viajar pelo mar.

A tripulação do Ra, da esq. p/ dir.: Yuri Senkevich (União Soviética), Santiago Genoves (México), Carlos Mauri (Itália), Thor Heyerdahl (Noruega), Norman Baker (Estados Unidos), Abdullah Djibrine (Chade) e Georges Saourial (Egito)

E assim, em 25 de maio de 1969, Heyerdahl e sua tripulação multinacional composta por Norman Baker (Estados Unidos), Carlos Mauri (Itália), Yuri Senkevich (União Soviética), Santiago Genoves (México), Georges Sourial (Egito) e Abdullah Djibrine (Chade), dos quais apenas Heyerdahl e Baker possuíam experiência em navegação, deixaram o Porto de Safim (ou Safi), antigo entreposto fenício na costa oeste do Morrocos, numa tentativa de provar que os barcos de papiro dos antigos egípcios tinham sido capazes de atravessar o Atlântico. Porém, 2 meses e 2.800 milhas (5.180 quilômetros) depois, o Rá foi atingido por uma forte tempestade a 600 milhas (1.110 quilômetros) de Barbados e, devido a uma falha no projeto, ou, segundo outras versões, a uma falha da tripulação que não puxou o cordame em direção à curva da popa, ficou completamente encharcado e afundou. A tripulação foi forçada a abandonar o barco a algumas centenas de quilômetros antes das Ilhas do Caribe e foi salva por um iate que passava nas proximidades.

Uma nova tentativa foi empreendida por Heyerdahl logo no ano seguinte com um barco semelhante, o Rá II, construído com junco totora por Demetrio, Juan e Jose Limachi, índios bolivianos habituados a navegarem nesse tipo de embarcação milenar nas águas do Lago Titicaca. Por precaução, o Rá II foi construído com feixes de papiro curto que tem a tendência de ficar menos saturado de água. A Expedição Rá II, constituída basicamente pela mesma tripulação do Rá I, à exceção de Djibrine, substituído pelo japonês Kei Ohara e pelo marroquino Madani Ait Ouhanni, partiu igualmente do Marrocos em 17 de maio e em 12 de julho de 1970 chegou com sucesso a Bridgetown, capital de Barbados (o país mais oriental do Caribe, nas Índias Ocidentais), demonstrando que os antigos marinheiros egípcios poderiam perfeitamente ter realizado viagens transatlânticas navegando com a Corrente das Canárias, corrente marítima do Atlântico Nordeste (cujo nome deriva das Ilhas Canárias, ao longo das quais a corrente passa) que flui para sudoeste ao longo da costa noroeste da África até à região do Senegal, onde inflete para o oeste, afastando-se da costa e transformando-se na Corrente Equatorial do Norte, que cruza o Atlântico de leste para oeste. Em 1972 foram lançados o livro The Ra Expeditions, escrito por Heyerdahl, e o filme Ra (ou The Ra Expeditions), dirigido por Heyerdahl e Lennart Ehrenborg, indicado para o Oscar de melhor documentário.

No final de 1977, Heyerdahl resolveu empreender outra viagem com um barco de junco, desta vez para demonstrar que por volta do ano 3.000 a.C., o comércio e a migração teriam ligado a Suméria, na Mesopotâmia, com a Civilização do Vale do Indo, no que é hoje o Paquistão, além de uma série de outros centros culturais no Oriente Médio e no nordeste africano. Construído no Iraque pelos mesmos índios bolivianos do Ra II, o Tigris (Tigre) contou com uma tripulação internacional de onze homens, incluindo Heyerdahl: Norman Baker (Estados Unidos), Carlo Mauri (Itália), Yuri Senkevich (União Soviética), Germán Carrasco (México), Hans Petter Bohn (Noruega), Rashad Nazar Salim (Iraque), Norris Brock (Estados Unidos), Toru Suzuki (Japão), Detlef Zoltze (Alemanha) e Asbjørn Damhus (Dinamarca). Medindo 18 metros de comprimento, 6 metros de largura, com um peso estimado em 33 toneladas, mastro duplo e vela quadrada de 10 metros de altura, o Tigris partiu em 24 de novembro de 1977 de Al-Qurnah, uma pequena vila no sul do Iraque onde os rios Tigre e Eufrates se encontram, e navegou através do Golfo Pérsico rumo ao Paquistão, fazendo em seguida o seu caminho de volta para o Mar Vermelho. Ao contrário dos barcos anteriores, o Tigris possuía condições de manobrabilidade, podendo rumar para o destino especificado com antecedência e não apenas flutuar à mercê das correntes marítimas e do vento.

Ao deixar o Rio Shatt al-Arab, formado pela confluência dos rios Tigre e Eufrates e que deságua no Golfo Pérsico após um percurso de cerca de 200 quilômetros, o Tigris rumou a Bahrein, um pequeno estado insular do Golfo Pérsico com fronteiras marítimas com o Irã a nordeste, com o Qatar a leste e com a Arábia Saudita a sudoeste. Em tempos antigos esta região foi um importante centro comercial para os sumérios e, portanto, uma parada natural e obrigatória para a expedição. Depois navegaram para Muscat (Mascate, também conhecida como “cidade amuralhada”) no Golfo de Omã, cujos vestígios de ocupação humana remontam a 6000 a.C. e onde se encontram remanescentes de cerâmica de Harappa, indicativos de contatos com a Civilização do Vale do Indo, e de lá para Karachi, o centro financeiro, comercial e portuário do Paquistão e a capital da província de Sind, no sul do país.

Em 3 de abril de 1978, após mais de quatro meses no mar e com o Tigris ainda em plenas condições de navegabilidade, esta que acabou sendo a última das expedições épicas de Heyerdahl teve de ser interrompida por causa dos combates da Guerra de Independência da Eritreia,[22] da Guerra na Somália,[23] da furiosa Guerra de Ogaden,[24] e principalmente pela recusa do Iêmen do Norte (ou República Árabe do Iêmen) em permitir que penetrassem em suas águas do outro lado do Golfo de Aden (reentrância no norte do Índico, à entrada do Mar Vermelho, entre a costa norte da Somália e a costa sul da Península Arábica, na extremidade sul do Iêmen).[25] Os membros da expedição desembarcaram no país neutro Djibouti após terem percorrido 6.800 quilômetros através do Golfo Pérsico e do Mar Arábico. No litoral de Djibouti, a tripulação resolveu deliberadamente queimar o barco como um protesto contra as sangrentas guerras que assolavam a região do Mar Vermelho e do Chifre da África. A intenção de Heyerdahl era encerrar a expedição em Massawa (ou Maçuá), cidade portuária da Eritreia, na costa do Mar Vermelho, a noroeste de Asmara, local de grande importância geográfica ao longo da história, ocupada pelo Egito, Império Otomano, Itália, Reino Unido e Etiópia, pois foi através desta “porta” que ele tinha transportado os materiais usados na construção tanto do Ra I como do Ra II.

O jornalista, escritor e aventureiro norueguês Ragnar Kvam Jr., que em 1987 vendeu tudo o que possuía, comprou um veleiro e embarcou em uma extensa circunavegação, em sua biografia autorizada de Thor Heyerdahl dividida em três volumes (o primeiro foi publicado em 2005, o segundo em 2008 e o terceiro em 2013), revelou que as ambições desta expedição eram bem maiores do que Heyerdahl havia anunciado publicamente. De acordo com Kvam Jr., Heyerdahl pretendia contornar o Cabo da Boa Esperança para provar que os antigos povos da Mesopotâmia haviam cruzado o Oceano Atlântico.[26]

O incansável Heyerdahl ainda envolveu-se na investigação da povoação inicial das Ilhas Maldivas, no Oceano Índico, a sudoeste do Sri Lanka e da Índia e ao sul do continente asiático, constituído por 1.196 ilhas. Em Tenerife, a maior ilha do Arquipélago das Canárias, descobriu uma pirâmide com orientação solar datada do tempo dos guanches, o povo nativo de tez e olhos claros, cabelos por vezes loiros e elevada estatura que faria parte dos povos protoberberes que colonizaram o norte de África, desde o Egito à atual Mauritânia há treze mil ou quinze mil anos atrás.

Inspirado em Heyerdahl, em 1984 o advogado, explorador e aventureiro argentino Alfredo Barragán, junto com mais quatro compatriotas (Jorge Iriberri, Horacio Giaccaglia, Daniel Sánchez Magariños e Félix Arrieta), organizou e empreendeu o que batizou de “Expedición Atlantis”. Com fervor romântico e muita bravura, em 22 de maio partiram do Porto de Tenerife, nas Ilhas Canárias, e 52 dias depois, em 12 de julho, tendo percorrido 3.200 milhas náuticas (5.000 quilômetros), chegaram em La Guaira, capital do estado e do município de Vargas, no centro-norte da Venezuela, a 30 quilômetros de Caracas, provando que 3.500 anos antes de Colombo, navegantes africanos poderiam perfeitamente ter chegado às costas da América levados apenas pelas correntes marítimas. A travessia foi feita com uma balsa de troncos muito semelhante ao Kon-Tiki, medindo 13,60 metros de comprimento por 5,80 metros de largura, dotada de uma cabana de bambu, sem timão e com somente uma vela.

De 1988 a 1992, Heyerdahl liderou amplas escavações em Túcume, a maior concentração de pirâmides em todo o mundo, com 250 estruturas piramidais construídas de tijolos de barro (adobe) por volta do ano 1100 e espalhadas em uma área de 220 hectares a 33 quilômetros ao norte da cidade de Chiclayo, noroeste do Peru. Ao lado do sítio arqueológico (chamado pela população local de “El Purgatorio”) se encontra a pequena cidade de Túcume, no centro da província de Lambayeque, o maior vale do litoral norte do Peru. A fundação da cidade entre 1000 e 1100, coincidiu com a queda de Batán Grande – que acabou queimada e abandonada – ao longo do Rio Chancay. Acredita-se que o local foi ocupado primeiramente pelo povo de Sicán ou Lambayeque entre 1000 e 1370, seguido pelo de Chimú entre 1370 e 1470, e finalmente pelos incas entre 1470 e 1532 (data da chegada dos espanhóis). Em 1547, o local foi abandonado.

Bastante erodidas devido a abundante chuva que cai nesta parte da costa peruana, as pirâmides teriam servido de centros de cultos religiosos e/ou palácios residenciais para a elite aristocrática. Das 26 grandes pirâmides, a principal delas é a Pirâmide do Sol (Huaca del Sol), com uma base de 345 metros, 160 metros de largura e 50 metros de altura. Usada para rituais, cerimônias e como tumba real, foi construída pela cultura Mochica (100-800) perto do pico vulcânico de Cerro Blanco, próximo a Trujillo, no Vale do Moche. Por volta do ano 450, oito plataformas haviam sido concluídas. A técnica consistia em ir adicionando novas camadas de tijolos diretamente sobre as antigas. Mais de uma centena de diferentes comunidades contribuíram na confecção dos 130 milhões de tijolos de adobe que a compõem e que faz dela a maior estrutura de adobe pré-colombiana construída nas Américas.

A segunda maior pirâmide é Huaca de la Luna, com uma base quadrada de 87 metros e 21 metros de altura. A 5 quilômetros ao sul de Trujillo e a 500 metros da Huaca del Sol, foi construída  pela mesma cultura Moche ou Mochica (100-800 d.C.) em época posterior. Composta de três plataformas sobrepostas (construídas ao longo de seiscentos anos), delimitada por grandes paredes de adobe com áreas de interconexão, a Huaca de la Luna era um centro de culto da fertilidade agrícola. Em um altar cerimonial do último templo construído, foram descobertos os restos de quarenta soldados sacrificados. As esculturas retratam divindades com cabeça de condor e raposa, pescadores, uma cobra, enormes caranguejos com facas cerimoniais, personagens de mãos dadas e sacerdotes. Huaca Larga ou Grande Pirâmide, construída entre 1000 e 1350, mede 450 metros de comprimento, 100 metros de largura e 40 metros de altura. A leste de Huaca Larga, o Templo da Pedra Sagrada é pequeno e tem a forma de U. Dentro de Huaca I, na ala sudeste, com 32 metros de altura e rampa de acesso longa, alta e estreita, se encontra Huaca las Balsas. Um pássaro mítico é representado de muitas maneiras em Huaca las Balsas: de pé na crista de uma onda, segurando um objeto redondo ou remando em jangadas. A figura do pássaro é tão importante que é decorado com um grande cocar em forma de meia-lua, símbolo de poder. Essas imagens são recorrentes nas sete camadas sobrepostas, cada uma cobrindo a camada anterior. As cenas relacionadas com jangadas e criaturas do mar perfazem a quase totalidade das encontradas em Huaca las Balsas.

By Amanda Efthimiou [https://amaiou.com/2016/04/08/chiclayo-chachapoyas/]
Bastou ouvir a lenda de que o lugar foi fundado pelo rei Naymlap, um herói mítico que teria partido do México com sua corte de servos e soldados em uma grande frota de jangadas de balsa e construído a cidade com a ajuda de camponeses locais em torno de Cerro La Raya, uma elevação rochosa que fica no meio da planície, para que Heyerdahl rumasse sem demora para lá. Ao ver aquela paisagem que lhe “parecia de outro planeta”, ficou tão fascinado que não se limitou a armar uma tenda nos arredores, mas construiu ali um casarão. Todos os dias ele ia a cavalo ao local das escavações para supervisionar os trabalhos que estavam sendo patrocinados conjuntamente pelo Museu do Kon-Tiki[27] e pelo Instituto Nacional de Cultura do Peru (atual Ministério da Cultura). O seu maior colaborador era o arqueólogo peruano Walter Alva (1951-), especialista em cultura Moche que em 1987 descobriu em Sipán o corpo intacto de um senhor Moche cheio de joias e ouro que a National Geographic Society descreveu como “o mais rico túmulo pré-colombiano intacto do Hemisfério Ocidental”.

Walter Alva, Thor Heyerdahl e Guillermo Ganoza em Tucume

Heyerdahl pretendia descobrir os segredos enterrados naquele que foi o centro de um vasto império que permaneceu inatacado durante mil anos até cair nas mãos dos incas. As escavações encontraram vários túmulos contendo fantásticos objetos funerários, incluindo belas estatuetas de prata. Também foram achados indícios de que ali se praticava um comércio inter-regional com o Equador, o Panamá e o Chile (donde se originariam objetos de lápis-lazúli). Uma bem preservada parede de adobe estava decorada com o desenho de homens a bordo de dois navios de grande porte feitos de junco e rodeados por peixes e aves marinhas. Também foi encontrado um pote de cerâmica negra que mostrava dois homens a bordo de um barco de junco. O projeto de Heyerdahl culminou com a criação de um museu em Túcume ao lado de Huaca I.

Olav Heyerdahl (nascido em 1977) cresceu ouvindo as histórias contadas por seu avô Thor Heyerdahl. Quando a Expedição Kon-Tiki estava às vésperas de completar sessenta anos, Olav resolveu ao mesmo tempo homenageá-la e desempenhar seu próprio papel na saga. A maneira que encontrou para fazer isso foi construir uma jangada de madeira de pau-de-balsa da mesma maneira como o seu avô e com ela percorrer o mesmo trajeto da Kon-Tiki.

A Expedição Tangaroa (The Tangaroa Expedition), como foi batizada, em referência ao deus do mar maori Tangaroa, tornou-se possível graças ao apoio financeiro de vários patrocinadores, entre eles Branding Larvik, Skagen Fondene e AGR, além do apoio da Universidade de Bergen, na Noruega, e do auxílio prestado pela Marinha Peruana e pela SIMA (Servicio Industrial de la Marina). A equipe foi novamente composta por seis homens, sendo quatro noruegueses, um sueco e um peruano: Torgeir Sæverud Higraff (historiador, engenheiro mecânico e líder da expedição), Anders Berg (fotógrafo sueco), Olav Heyerdahl (carpinteiro, engenheiro civil, mergulhador e neto de Thor), Bjarne Krekvik (capitão), Øyvin Lauten (diretor-executivo) e Roberto Sala (ex-oficial da Marinha Peruana e especialista em navegação).

Os troncos foram cortados assim como antes nas florestas do Equador em novembro de 2004 e selecionados em fevereiro de 2005. Enquanto a Kon-Tiki usou nove troncos (lembrando que o mais longo media 13,70 metros de comprimento), a Tangaroa usou onze, sendo que o mais longo media 16 metros, enquanto os demais 14 metros. Apesar da madeira ser das mais leves, ainda assim os troncos pesavam juntos mais de 20 toneladas. A construção da balsa Tangaroa começou na primavera de 2006. Como se fez na Kon-Tiki, cordas de cânhamo foram usadas para amarrar os troncos e as vigas transversais sem que fosse preciso apelar para um único prego, parafuso ou fio de arame. A cabine de bambu foi feita desta vez em estrutura reforçada para resistir a ondas gigantes e tempestades. O telhado e as paredes da cabine, bem como o deque, foram cobertos com esteiras de totora vindas de Puno (cidade no sudeste do Peru, às margens do Lago Titicaca). Em relação à que foi usada na Kon-Tiki, a vela quadrada foi consideravelmente ampliada e aperfeiçoada. Enquanto a predecessora media 4,60 metros de altura por 5,50 metros de largura, a atual media 16 metros de altura por 8 metros de largura, possuía maior aderência e permitia até mesmo que navegassem contra o vento. As nove pranchas guara medindo 4 metros de comprimento por 50 centímetros de largura podiam ser elevadas ou abaixadas de modo a orientar a balsa na direção desejada, enquanto que as cinco utilizadas na Kon-Tiki (medindo 1,50 metros por 60 centímetros) eram fixas e não podiam ser elevadas ou abaixadas. Na época, Heyerdahl não sabia como usar as guaras para manobrar a balsa. Destarte, sua tripulação estava totalmente à mercê dos ventos. Somente anos mais tarde, em 1953, é que Heyerdahl compreendeu o seu engenhoso mecanismo de funcionamento, que consiste em elevar ou abaixar as pranchas de acordo com as condições específicas do vento para manter a balsa na direção desejada. A tripulação da Tangaroa soube aproveitar-se muito bem disso e dispondo de todo o aparato tecnológico do século XXI do qual não abriram mão (GPS, painéis solares, notebooks e aparelhos de dessalinização), reduziu sensivelmente a sua estadia no mar. Enquanto a tripulação da Kon-Tiki lutava diariamente para enviar notícias por meio de um transmissor de ondas curtas, a da Tangaroa atualizava as informações diretamente em seu website.

Na sexta-feira, dia 28 de abril de 2006, a Expedição Tangaroa iniciou sua longa jornada rumo a Polinésia, no mesmo local (Porto de Callao) e na mesma data em que Thor Heyerdahl partiu com a Kon-Tiki em 1947. As muitas bandeiras içadas representavam as nacionalidades dos tripulantes (Noruega, Suécia e Peru), bem como os países participantes da expedição (Equador e Polinésia Francesa), além da Comunidade de Larvik, na Noruega. Quando a Kon-Tiki estava a meio caminho através do Pacífico, a tripulação pescou uma cavalinha-serpente (Gempylus Serpens), espécie rara de peixe jamais capturada viva. Por uma estranha coincidência, a Expedição Tangaroa capturou uma amostra semelhante, quase nas mesmas coordenadas, 59 anos depois.

Olav, que também fazia parte da Expedição Plastiki, que procurava chamar a atenção para a saúde dos nossos oceanos, particularmente para a grande quantidade de detritos plásticos, comparou as condições do Pacífico à época da expedição de seu avô com as daquele momento e constatou significativas e tristes mudanças. A Corrente de Humboldt estava repleta de lixo e detritos diversos. Enquanto a tripulação da Kon-Tiki pescava atum às fartas, a da Tangaroa só conseguiu capturar um único atum durante toda a viagem. Pior ainda em relação aos tubarões e as baleias, que costumavam rodear constantemente a Kon-Tiki, enquanto a Tangaroa não chegou a avistar nem um único exemplar deles.

Tangaroa chegou a cobrir em um só dia a distância de mais de 80 milhas náuticas (148 quilômetros), superando o recorde de velocidade da Kon-Tiki. Esta segunda expedição mostrou que a viagem pode ser feita bem mais rapidamente apenas aproveitando melhor as correntes e os ventos por meio de uma vela maior e do uso adequado das pranchas guara.

Assim é que enquanto a Kon-Tiki levou 101 dias para completar a viagem, a Tangaroa foi um mês mais rápida, desembarcando no Atol de Raroia em 8 de julho. A viagem foi feita sem conflitos, situações dramáticas ou incidentes. Os tripulantes disseram que agora eram melhores amigos do que quando haviam iniciado a jornada. Um muito orgulhoso Thor Heyerdahl Jr. saudou seu filho mais novo Olav com estas palavras: “A expedição foi planejada e realizada de uma maneira que superou todas as expectativas, e eu sei que meu pai teria ficado muito orgulhoso se tivesse vivido para ver esta expedição.” Com imagens de Anders Berg e direção de Havard Jenssen, o documentário A Tangaroa Expedition (Ekspedisionen Tangaroa) foi lançado em DVD em 2007.

As teorias de Heyerdahl, a despeito de tantos indícios e provas a favor, continuam a ser contestadas, por vezes de forma virulenta, no meios científicos-acadêmicos. Enquanto a noção de migração através do Pacífico já não é um anátema, o da migração cultural transatlântica continua sendo controversa, em parte porque, como é usualmente aceito, as grandes civilizações da América do Sul floresceram muito tempo depois das do Egito e do Oriente Médio. De qualquer forma, suas viagens pelos oceanos o convenceram da unidade essencial da humanidade (“O oceano não nos separa, mas nos une”, disse ele), bem como o de que bem antes dos europeus, antigas culturas do Oriente Médio, do norte da África, da Ásia e da América do Sul já andavam a “civilizar” o mundo espalhando as suas influências nos campos da arquitetura, da astronomia e da religião. E é precisamente isso que pretendo provar navegando com uma réplica de um barco faraônico do Egito ao Brasil.

Inspirado em Heyerdahl, concebi o projeto de construir uma réplica, a mais exata possível, de um navio egípcio empregando materiais semelhantes e obedecendo aos mesmos princípios, técnicas e padrões utilizados pelos antigos egípcios, para com ele partir do Porto de Safaga (nas coordenadas 26º 44 N, 33º 56 E), navegar pelo Mar Vermelho, contornar a costa oriental da África e o Cabo da Boa Esperança, cruzar o Oceano Atlântico e finalmente desembarcar no Porto do Rio de Janeiro (nas coordenadas 22 54’ 23” S, 43 10’ 22” O) ou em algum outro ancoradouro carioca como o Porto de Itaguaí (antigo Porto de Sepetiba, na cidade de Itaguaí), o Porto de Niterói (na Baía de Guanabara, centro da cidade de Niterói), o Porto de Angra dos Reis (na cidade de Angra dos Reis, sul do Rio de Janeiro) ou o Porto do Forno (na extremidade norte da Praia dos Anjos, na cidade de Arraial do Cabo, sudeste do litoral carioca).

Via Cabo da Boa Esperança, a distância de 8.863 milhas náuticas (16.414 quilômetros) entre o Porto de Safaga e o Rio de Janeiro, a uma velocidade média de 5 nós (9,25 km/h), pode ser coberta, sem paradas e salvo complicações, em torno de 74 dias. Como é nossa intenção realizar vários estudos e pesquisas adicionais pelo caminho, calculamos o tempo da viagem em no mínimo 90 e no máximo 150 dias. A jornada seria bastante abreviada caso optássemos pela via do Canal de Suez e do Estreito de Gibraltar, já que a distância se reduziria a 6.646 milhas náuticas (12.308 quilômetros). À mesma velocidade média de 5 nós, o tempo da viagem ficaria em torno de 55 dias. Contudo, como essa rota já foi percorrida pela Expedição Rá II de Thor Heyerdahl em 1970, bem como considerando que as viagens marítimas egípcias se faziam pela rota do Mar Vermelho, preferimos o caminho mais longo. Para efeito de comparação, a distância do Brasil ao Egito via aérea é de 4.375 milhas (7.041 quilômetros). Um voo comercial normal entre o Brasil e o Egito leva em torno de 8 horas e 45 minutos, a uma velocidade média de 434 nós (805 km/h).

Tal périplo indicaria a viabilidade de os antigos egípcios terem realizado a mesma viagem naqueles tempos ao menos uma vez, o que explicaria os vários indícios arqueológicos da presença daquela cultura em nosso país e no continente americano.

Por extensão, reforçaríamos a possibilidade de os egípcios terem estabelecido uma autêntica “civilização global” já naqueles tempos, o que explicaria os surpreendentes paralelos culturais – como a crença na ressurreição do mortos, a mumificação, a construção de pirâmides escalonadas, calendários e hieróglifos – em todos os continentes. Cairia por terra, consequentemente, ou ao menos desmentiríamos parcialmente a falsa noção de que os egípcios não eram grandes navegadores como os fenícios ou os gregos e que quase não se aventuraram nas suas embarcações para além do curso do Nilo ou das proximidades da costa africana.

Pelo que se tem notícia, nenhuma expedição marítima egípcia ousou ir mais longe do que a do faraó Necho II (660 a.C.-593 a.C.), que governou o Egito a partir de 610 a.C., durante a 26ª Dinastia. Necho II mandou fazer um canal que ligava o braço oriental do Nilo ao Mar Vermelho e organizou uma expedição com uma tripulação mista de fenícios e egípcios, liderado pelo fenício Hanon, para circunavegar o continente africano, antecipando-se em dois milênios e um século ao navegador e explorador português Vasco da Gama (1460 ou 1469-1524), que em 1498 se destacou por ter sido o comandante dos primeiros navios europeus a navegar da Europa para a Índia, no que contornou a costa ocidental, a extremidade sul e a costa oriental do continente africano para assim aceder às riquezas da Índia. A expedição egípcio-fenícia saiu do Mar Vermelho, contornou toda a costa africana e três anos depois retornou ao Egito pelo Mar Mediterrâneo.

Se não restam dúvidas de que antigos egípcios construíram grandes e elaborados barcos para navegar ao longo do Rio Nilo e do Mar Vermelho, a questão agora é saber se atravessaram o Oceano Atlântico e chegaram ao continente americano, particularmente ao Brasil. Indícios arqueológicos diversos a indicar que não só desembarcaram mas procuraram estabelecer sua cultura também por aqui, não tem sido aceitos pela arqueologia oficial sob o argumento cada vez mais superado e falacioso de que não possuíam nem técnicas nem conhecimentos náuticos suficientes para cruzar oceanos. O nosso objetivo é provar exatamente o contrário.

Saiba mais sobre o Projeto Sahuré e junte-se a nós nesta empreitada.

Ancient Egyptian ship by Elias Tsiantas

Notas

[1] Ao estudar as lendas do deus sol Viracocha [em quíchua, Apu Kun Tiqsi Wiraqutra, sendo que tiqsi significa “fundamento, base, início”, enquanto wiraqutra provém da fusão dos vocábulos wira (gordo) e qutra (lago, lagoa)], o ser supremo, criador do Universo e de tudo o que existe, equivalente ao deus judaico-cristão, Heyerdahl se deu conta de que o nome original de Viracocha usado no Peru em tempos idos era Kon-Tiki ou Illa-Tiki, que significa Sol-Tiki ou Fogo-Tiki: “Kon-Tiki era sumo sacerdote e rei-sol dos lendários ‘homens brancos’ dos incas que tinham deixado as enormes ruínas nas margens do Lago Titicaca. Reza a lenda que Kon-Tiki foi atacado por um chefe chamado Cari que veio do Vale Coquinho. Numa batalha travada numa ilha do lago Titicaca, os misteriosos brancos barbados foram trucidados, mas Kon-Tiki e seus companheiros mais chegados escaparam e, mais tarde, aportaram à costa do Pacífico, de onde finalmente desapareceram sobre o mar para as bandas do ocidente. Já eu não tinha dúvida de que o branco deus-chefe Sol-Tiki que, segundo os incas, havia sido, pelos pais destes, expulso do Peru para o Pacífico, era idêntico ao branco deus-chefe Tiki, filho do sol, quem os habitantes de todas as ilhas orientais do Pacífico reconheciam como o primitivo fundador da sua raça” [Heyerdahl, Thor. A Expedição Kon-Tiki, 7a ed., São Paulo, Melhoramentos, 1959, p.16-17].

[2] New York, International Science, 1941.

[3] Heyerdahl, Thor. A Expedição Kon-Tiki: 8.000 km numa jangada através do Pacífico, 7a ed., São Paulo, Melhoramentos, 1959, p.20 e 22.

[4] Ibid., p.55 e 56, 61 e 115.

[5] Ibid., p.60, 67, 86, 87 e 130.

[6] Ibid., p.16, 91, 59 e 60.

[7] Ibid., p.88.

[8] Títulos em inglês: The Kon-Tiki Expedition: By raft across the South Seas e Kon-Tiki: Across the Pacific in a raft. No Brasil, o livro foi publicado em maio de 1951 pela Editora Melhoramentos com o título de A Expedição Kon-Tiki: 8.000 km numa jangada através do Pacífico, com uma bela encadernação e capa dura azul com detalhes dourados.

[9] Heyerdahl, Thor. Green was the Earth on the seventh day, Cary, North Carolina, Kodansha America, 1997.

[10] IDEM, Aku-Aku: O segredo da Ilha da Páscoa, São Paulo, Melhoramentos, 1959, p.10-11.

[11] O pai de Thor, Bertrand, teve mais três filhos além dele. Um dos filhos também se chamava Bertrand. Bertrand (segundo) veio para o Brasil antes de 1920, onde teve uma filha, Shirley, que seguiu com a família no Brasil.

[12] Gueiros, José Alberto (reportagem) & Wilma Chiara (fotos). “Novas aventuras de Thor Heyerdahl – Kon-Tiki”, in O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 13-11-1954, ano XXVII, nº 5, p.34-B a 34-E.

[13] Heyerdahl, Thor. Aku-Aku: O segredo da Ilha da Páscoa, São Paulo, Melhoramentos, 1959, p.171-172.

[14] Ibid., p.177 e178.

[15] Ibid., p.178 e 179.

[16] Ibid., p.208.

[17] Ibid., p.309.

[18] Ibid., p.323.

[19] Ibid., p.324 e 325.

[20] Ibid., p.326.

[21] Ibid., p.328.

[22] Conflito em que o governo da Etiópia lutou contra forças separatistas da Eritreia de 1961 a 1991.

[23] País membro da Liga Árabe que para reforçar a sua relação com o resto do continente africano se juntou a outras nações africanas e começou a apoiar o Congresso Nacional Africano na África do Sul contra o regime do apartheid e os separatistas eritreus na Etiópia.

[24] Guerra ocorrida nos anos de 1977 e 1978 entre a Etiópia e a Somália na disputa pelo território de Ogaden, com a União Soviética que de aliado da Somália passou a apoiar a Etiópia, que anteriormente tinha sido apoiada pelos Estados Unidos, o que levou este a apoiar a Somália.

[25] O Iêmen do Norte esteve em situação de guerra civil quase contínua até 1970. Nos anos 1970, passaram a ocorrer vários confrontos entre este Estado e a comunista República Democrática do Iêmen, com duas breves guerras civis (em 1972 e em 1979). Em 1981 finalmente chegou-se a um acordo para a constituição de um Estado reunificado, acordo esse promulgado somente em 22 de maio de 1990, quando ambas as repúblicas se fundiram na República do Iêmen.

[26] Kvam Jr., Ragnar. Thor Heyerdahl. Mannen og havet – Bind I (2005); Thor Heyerdahl. Mannen og verden – Bind II (2008); Thor Heyerdahl. Mannen og mytene – Bind III (2013).

[27] The Kon-Tiki Museum Institute for Pacific Archaeology and Cultural History, sediado em Oslo, uma das atrações turísticas mais populares na Noruega, abriga artefatos e objetos originais das expedições de Thor Heyerdahl, entre eles a balsa Kon-Tiki, o barco de papiro Ra II e uma réplica do Tigris.