Entrevista ao Jornal Paulista

ETs saem da “clandestinidade acadêmica” em tese defendida por nikkei

Texto de Edilson Saçashima, em Entrevista com Cláudio Suenaga para o Jornal Paulista, nº 12.029, ano 50, 1997-05-17

Relatos de experiências com se­res extra-terrestres (ETs) estão dei­xando os livros de ficção científi­ca para ocuparem as páginas de uma tese de mestrado defendida numa das mais conceituadas universidades do País, a Unesp (Uni­versidade Estadual Paulista). O au­tor da façanha é o nissei Cláudio Suenaga, mestrando em História, que conseguiu levar sua paixão a um reduto que até há pouco tempo não se relacionava bem com o tema ocultismo (onde se encontra o es­tudo dos objetos voadores não-­identificados – OVNIS). “As uni­versidades estão abrindo espaços para casos tidos como sem explicações lógicas e científicas, como os milagres, por exemplo”, revela Suenaga. Em seu trabalho, o nissei irá apresentar alguns documentos que comprovam, segundo ele, o envolvimento do regime militar brasileiro (1964-85) com casos de supostas aparições de ETs e discos voadores.

Os documentos que o história­ dor conseguiu reunir junto ao Ar­quivo do Estado mostram que o ex­tinto Dops (Departamento de Or­dem Política e Social) investigou atividades de ufólogos (pessoas que estudam aparições de OVNIS e ETs), como o caso do comerci­ante Onilson Patero, que em maio de 74, afirmou ter tido dois conta­tos com OVNIS nas proximidades de Guarantã (interior de São Pau­lo). Patero colocou que, no segun­do encontro, viajara num disco vo­ador, e por isso teria ficado seis dias desaparecido, só reaparecendo numa fazenda em Colatina, Espí­rito Santo. O delegado responsá­vel pelo caso, HermínioTheodoro, enviou um relatório sobre o ocor­rido ao Dops, onde dizia que, ao contar para jornalistas sua “via­gem”, Patero estava na companhia de quatro ufólogos, que foram de­vidamente identificados ao Dops para eventuais investigações. “Isso prova a preocupação do governo militar com o fenômeno OVNI”, conclui Suenaga.

Se os militares realmente se preocuparam com os ETs, o atual governo democrático nega qualquer envolvi­mento com o fenômeno. “OVNI é qualquer obje­to não-identificado, se­gundo as normas internacionais de tráfico aéreo, ou seja, pode ser um avião ou um balão mete­reológico. Os ufólogos estão enganados ao en­quadrarem o termo OVNI apenas como sendo discos voadores”, afirma o Centro de Co­municação Social do Ministério da Aeronáu­tica, que não mais res­ponde sobre questões relativas a OVNís.

O governo não é o único a desacreditar o tema do trabalho de Suenaga. A Igreja Cató­lica mantém uma relação bastante cética quarto à existência de seres de outros planetas. “O debate sobre ETs ainda é muito restrito a para­cientistas. Não há provas e nem ri­gor científico nestes estudos”, de­fende padre Fernando Altemeyer Júnior, vigário de comunicação da Arquidiocese de São Paulo. “A Igreja não dará nenhuma credi­bilidade a eles enquanto não hou­ver dados conclusivos e fundamentados em metodologia científica”, conclui padre Fernando. “E é justamente fundamentação que bus­co em minha tese”, rebate o histo­riador.

O budismo, por sua vez, é mais flexível sobre o tema ETs. “E pro­vável que existam outras formas de vida fora da Terra. O budismo acre­dita que o ser humano é apenas uma das manifestações neste imen­so universo”, expõe Coen Mu­rayama, presidenta das Seitas Bu­distas do Brasil. “A religião budista prega o respeito a todas as formas de vida, conhecidas ou não”, com­plementa.

Com ou sem credibilidade, Suenaga mantém sua tentativa de legitimar o estudo de aparições alienígenas. “É inegável a impor­tância da Ufologia para a História”, defende. “É preciso ter uma análi­se bastante criteriosa sobre o tema. Acredito que 99% dos casos rela­tados são fraudes mas existe 1% que é absolutamente legítimo”, co­loca o nissei de 26 anos, que des­de criança se interessa por seria­dos de ficção científica e fenôme­nos sem explicação.

Céticos ou não, o tema sobre a existência de vida fora da Terra sempre seduziu os seres humanos, principalmente em períodos de cri­se. A quatro anos da virada do mi­lênio, o desenvolvimento científi­co e as diversas crises (AIDS, na­cionalismos, entre outras) aflo­rando em todo o planeta dão um sabor especial ao debate. No entanto, respostas conclusivas sobre o tema talvez só apareçam no pró­ximo século.

Cláudio Suenaga (esq.) na redação do Jornal Paulista, no bairro da Liberdade, centro de São Paulo. O repórter Edilson Saçashima, que entrevistou Suenaga, é o de preto, sem óculos.

Ver também:

Ufologo Paulistano Claudio Suenaga Defende Tese Em Assis Sobre OVNI [Voz Da Terra 1999 04 14 P. 8]