Entrevista com Fernando Grossmann, o criador da Ufologia Gótica: “Os extraterrestres são predadores da espécie humana”

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

 “Um espectro ronda a humanidade, o espectro do vampirismo ufológico”. Com essas eloquentes palavras – parafraseando e reciclando o Manifesto do Partido Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels –, um dos decanos da Ufologia Brasileira, Fernando Grossmann, inicia o seu Manifesto Gótico, libelo que resume quase três décadas de lutas incansáveis e inamovíveis contra pretensos “anjos salvadores” que, apesar desse rótulo santificador, ao que tudo indica, não passariam na verdade de perigosíssimos predadores, preocupados apenas em satisfazer suas necessidades biológicas.

Em maio de 1975, no Boletim da Associação de Pesquisas Exológicas (APEX), nº 4 a 7, deu o primeiro “brado de alerta” no Brasil e no mundo sobre o “vampirismo ufológico”. Ao escrever seu artigo “Anjos ou Demônios?”, em especial o capítulo “Eram os Vampiros Astronautas?”, Grossmann criava a “Ufologia Gótica”, ele mesmo filho de romenos de origem judaica e descendente direto dos  habitantes dos Cárpatos.

O fenômeno do vampirismo ufológico, fartamente documentado por casos de animais que aparecem mortos, exangues, com marcas características, parasito-vampirescas, e por gente que diz ter sido hipnotizada, puncionada e aspirada por estranhos seres, é um fato incontestável. Segundo Grossmann, seriam “extraterrestres que precisam de sangue em sua ‘medicina espacial’, tal como precisamos em nossa medicina terrestre. Extraem sangue de suas vítimas por meio de instrumental mecânico sofisticado e hipnotizam por instrumentos e processos ignorados por nossa ciência, mas obedecendo a princípios científicos comuns. Seu comportamento é aleivoso, esquivo, fugidio. Sugam o nosso sangue e levam nossos órgãos, como peças de transplante, de reposição fisiológica, para eles e, talvez, para seus robôs biônicos. São seres biológicos e não ‘seres espirituais’, como pretendem os defensores das ‘correntes angelicais’. Aproveitam-se, inteligentemente, dos fanáticos místicos da Terra, dando cobertura logística, à eles favorável, às mais desenfreadas seitas de desvairados.”

Longe, portanto, de uma natureza angelical, diáfana, evanescente, imponderável, intangível e outras pieguices místicas, os extraterrestres constituiriam-se em autênticos “predadores biológicos” da humanidade. Grossmann conclui que o ser humano cometeu o erro de julgar-se o degrau mais alto da cadeia alimentar, o predador universal, a espécie que devora todas as demais espécies: “A casuística ufológica nos alertou para o fato de que existiria um predador situado num patamar mais alto do que o da espécie humana, um predador específico da espécie humana. Eu enquadraria esse predador na categoria dos seres góticos, que além de hematófagos seriam também biotróficos, ou seja, devoradores de energia.”

Nascido em 18 de setembro de 1932 em Campos de Goitacazes, no estado do Rio de Janeiro, Grossmann começou a se interessar pela Ufologia na adolescência, aos tempos do pós-Segunda Grande Guerra, quando acompanhava pelos jornais as primeiras notícias em torno do aparecimento de estranhos objetos voadores nos céus, logo alçados à condição de mito moderno com a repercussão mundial alcançada por casos clássicos como os de Kenneth Arnold e Roswell. Frequentou a Associação Brasileira de Estudos de Civilizações Extraterrestres (ABECE), fundada em São Paulo em 1968 e presidida pelo professor Flávio Augusto Pereira. Em fins de 1974, participou de uma comissão que extinguiu a ABECE e criou em seu lugar a APEX, presidida pelo doutor Max Berezovsky, e assim como quase todos os seus gabaritados membros, conforme descobri e divulguei em trabalhos anteriores, foi alvo da espionagem política dos agentes do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS).

Exercendo ativamente um posto na diretoria e encarregado da pesquisa de campo, investigou casos célebres como o de João Prestes Filho, queimado e morto por uma luz misteriosa em Araçariguama, interior de São Paulo, episódio que serviu de ponto de partida para que elaborasse a “Hipótese Gótica”. Seguidor do norte-americano Charles Hoy Fort (1874-1932), autor de O Livro dos Danados, de quem pegou emprestado a frase “Creio que alguém nos pesca”, foi o primeiro no Brasil a relacionar criptozoologia com Ufologia. Entomologista e apicultor, trabalhou nos laboratórios do Departamento de Zoologia da Secretaria de Estado dos Negócios da Agricultura em São Paulo, onde teve a oportunidade de conviver de perto com o zoólogo e compositor Paulo Vanzolini, diretor do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP). Conferencista, autor de vários artigos em periódicos nacionais e internacionais, estudioso das questões ligadas ao judaísmo e à história em geral, necessitaríamos enfim de despender muito mais espaço para listar todas as suas capacidades e aptidões. Por ocasião desta entrevista nos idos de 1998, aprimorava a “Hipótese Gótica” e presidia o Núcleo Espeleológico “Arne Sakhnussem” e a Fundação Carpática de Pesquisas Góticas, sediadas em sua “casa ecológica”, erguida em uma área das mais privilegiadas do Horto Florestal, no bairro do Tremembé, zona norte da capital paulista.

Enquanto respondia pacientemente às minhas insistentes perguntas em frente ao Planetário do Parque do Ibirapuera, zona sul de São Paulo, um helicóptero teimava em rondar nossas cabeças, ao que Grossmann disparou: “Os pássaros são bem-vindos, mas os helicópteros não”. Vamos à entrevista.

Cláudio Suenaga e Fernando Grossmann defronte ao Planetário Professor Aristóteles Orsini, no Parque do Ibirapuera em São Paulo

Suenaga – Quando e de que maneira começou o seu interesse pela Ufologia?
Grossmann – Em 1945, mais ou menos aos 13 anos de idade, acompanhava pelos jornais as notícias referentes ao término da Segunda Guerra Mundial e ao Oriente Médio. Foi dessa maneira que tomei conhecimento das primeiras notícias ufológicas vindas dos Estados Unidos, como Kenneth Arnold e Roswell. Posso dizer portanto que meu interesse nasceu junto com o início da chamada Era Moderna dos Discos Voadores. Anos mais tarde passei a frequentar os fóruns da ABECE, participei da fundação da APEX e fui me tornando um militante da causa ufológica. Passei a pesquisar, a escrever, a fazer conferências e a procurar aprofundar meu nível de conhecimento. Cheguei até a formular uma hipótese ufológica, que considero a contribuição máxima que um ufólogo pode prestar à Ufologia, já que toda a bagagem anterior é usada para a formulação de uma hipótese. Ainda continuo ávido por qualquer notícia ufológica que saia na imprensa ou que saiba por meio de outras pessoas. Desenvolvi um sistema de triagem para separar o joio do trigo e não embarcar em alegações ingênuas, e mesmo diante de casos aparentemente sérios, minha conduta é de pesquisar objetivamente sem deixar escapar nenhum detalhe. A Ufologia é uma luta permanente para separar o joio do trigo, o que é confiável do que não é confiável, o que está dentro da lógica e o que é contrário a ela. E isso tudo eu prossigo fazendo até hoje, cada vez com maior entusiasmo.

Foto histórica rara de Fernando Grossmann posando ao lado de ufólogos pioneiros em 1975. Da esquerda para a direita (alto): Irene Granchi, Willi Wirz, Silvio Lago e Max Berezovsky.

Suenaga – A hipótese que você elaborou e que chamou de “Hipótese Gótica”, incorporou-se ao seu próprio modo de pensar. Esmiúce-nos o que seria essa hipótese e qual a relação dela com suas origens.
Grossmann – Em 1974 eu procurava classificar os casos dentro de uma determinada categoria. A certa altura percebi que a maioria tinha semelhanças com os da literatura gótica. Meus pais são da Romênia, destarte, desde criança, estava familiarizado com o folclore das regiões carpáticas e da Transilvânia. Nada acontece por acaso. Sem querer me colocar num plano superior a quem quer que seja, eu era a pessoa que reunia as condições de me tornar um instrumento da história e criar uma hipótese ufológica, a hipótese gótica. A literatura gótica, como você sabe, trata de vampiros, lobisomens e seres evanescentes que atravessam paredes, seres com os mesmos poderes e características daqueles encontrados na casuística ufológica. Penso que o sobrenatural de antigamente é o ufológico da atualidade, interpretados sob dois diferentes contextos culturais. As casuísticas justapõem-se, os contrastes culturais é que seriam divergentes. Antes de cogitar uma explicação extraterrestre, o homem, na ânsia de encontrar uma explicação para fatos que estavam além de seu conhecimento, apelou para o sobrenatural.

Suenaga – Cite alguns casos que se enquadram dentro da categoria gótica.
Grossmann – Em 1977, apenas dois anos depois da publicação de meu artigo “Anjos ou Demônios?”, no boletim da APEX, a hipótese gótica se confirmava e se consolidava com o fenômeno chupa-chupa nas regiões adjacentes a São Luís do Maranhão e a Belém do Pará. A onda foi muito bem pesquisada e relatada pelo ufólogo e biólogo Daniel Rebisso Giese em seu livro Vampiros Extraterrestres na Amazônia. Os militares do 1º Comando Aéreo Regional (COMAR) de Belém investigaram e a médica sanitarista Wellaide Cecim Carvalho incorporou a sintomatologia médica à Ufologia. É importante ressaltar que o fenômeno chupa-chupa não se restringiu ao Pará e ao Maranhão, e nem ocorreu pela primeira vez nesses estados. Ele é um fenômeno mais antigo e mais disperso, mas a sintomatologia não era conhecida. Embora as testemunhas relatassem alterações fisiológicas, estas não eram valorizadas ou corretamente interpretadas pelos ufólogos, que não incorporavam essa sintomatologia médica ao fenômeno chupa-chupa, nem sequer conheciam por esse nome. O caso mais antigo que encontrei é da década de 30, acontecido no bairro de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, conforme foi descrito no livro UFOs e Abduções no Brasil (Novo Milênio, 1992), da professora Irene Granchi. Ela não se tocou que era um caso chupa-chupa, muito menos que era um caso gótico, e relegou a sintomatologia a segundo plano. O curioso no fenômeno chupa-chupa é o quanto está relacionado com locais próximos a água. Esse caso de Jacarepaguá ocorreu perto de uma represa. Em março de 1946, João Prestes Filho havia acabado de retornar de uma pescaria às margens do Rio Tietê, quando foi atacado por uma luz desconhecida. Caso similar ao de Prestes ocorreria na Ilha dos Caranguejos, em São Luís do Maranhão, onde o chupa-chupa matou uma pessoa, descarnando-a parcialmente, e provocou ferimentos em outras três. Na década de 60, houve ainda o Caso das Máscaras de Chumbo, no Morro do Vintém, em Niterói, no Rio de Janeiro, e em 1986 o Caso Grumari, no litoral fluminense, onde dois jovens tiveram morte semelhante ao das Máscaras de Chumbo. Todos esses casos reunidos permitiram-me inferir que o mesmo fenômeno pode atuar em diferentes níveis de intensidade. Pode levar simplesmente à perda de um pouco de sangue ou chegar a extremos, com morte e descarnamento, como no caso Prestes.

Fernando Grossmann segurando a fita cassete contendo a gravação da entrevista com Araci Gomide, uma das testemunhas do Caso Prestes

Suenaga – Em seu artigo “Anjos ou Demônios?”, você conclui a propósito que o ser humano cometeu o erro de se julgar o degrau mais alto da cadeia alimentar.
Grossmann – Sabemos que na natureza, desde os mais minúsculos seres até os mais volumosos, todos devoram a todos. É a chamada cadeia alimentar. Toda espécie possui um predador específico que se alimenta daquela espécie. O ser humano cometeu o erro de se julgar o predador universal, a espécie que devora todas as demais espécies, pois a casuística ufológica nos alertou para o fato de que existiria um predador situado num patamar superior ao da espécie humana, um predador específico da espécie humana. Eu enquadro esse predador na categoria dos seres góticos, que além de hematófagos seriam também biotróficos, isto é, devoradores de energia. O Prestes, por exemplo, sofreu uma ação biotrófica, toda a biovitalidade dele foi sugada ao extremo, de modo que só restaram tecidos mortos. Enquanto morria, ele dizia categoricamente que não sentia dor nenhuma, apesar de pedaços de carne estarem se desgrudando de seu corpo. Já em outros casos, a intensidade da ação foi suficiente para matar mas não queimar ou descarnar, como no das Máscaras de Chumbo. Na Ilha dos Caranguejos, houve descarnamento apenas parcial.

August Ferdinand Möbius

Suenaga – Por que o mundo dos predadores e o mundo dos predados seriam mundos paralelos?
Grossmann – Tem se falado muito em mundos paralelos, mas a minha concepção foge do convencional. Uns entendem os mundos paralelos como sendo diferentes níveis de vibrações. Outros se baseiam no Paradigma de Möbius, a famosa fita de August Ferdinand Möbius [1790-1868, matemático alemão que trabalhou principalmente com geometria e topologia; o mais célebre de seus curiosos estudos topológicos é a tira que leva seu nome, uma superfície contínua que apresenta apenas um lado] que é o modelo físico dos mundos paralelos. Isso não resolve o problema porque as eventuais dobras do espaço-tempo, etc, se situariam em nível galáctico, seriam distâncias incomensuráveis, e esses fenômenos atuam junto de nós. Eu proponho um modelo de mundo paralelo baseado na intercalação de ciclos biológicos. Um inicia onde termina o outro, o que torna o mundo dos predadores indiscerníveis, indevassáveis e impenetráveis para os predados. O predador tem a capacidade de penetrar o mundo do predado, mas o predado não tem a capacidade de penetrar o mundo do predador. Nós, por exemplo, manipulamos insetos como as abelhas e temos a capacidade de decodificar o sistema de comunicação delas, a linguagem que usam. Elas, porém, não têm a capacidade de discernir como nos comunicamos. Elas apenas podem perceber a presença de uma força que interfere no mundo delas, à qual às vezes respondem contra-atacando agressivamente. Até chegam a nos atingir, mas são incapazes de descobrir quem somos e o que pretendemos.

Suenaga – Você costuma comparar o procedimento dos UFOs fazendo analogias com um pescador sentado à beira de um rio pescando lambaris.
Grossmann – O pescador não tem interesse algum em comunicar-se com os lambaris. Procura não ser pressentido pelas suas vítimas para não espantá-las, mas conhece muito bem seus hábitos e costumes. E toda vez que surge dentro da água um misterioso objeto não identificado, em forma de anzol, com uma apetitosa minhoca espetada na ponta, um lambari desaparece misteriosamente, sem deixar rastros. Conhecendo profundamente nossos hábitos sociais e psicologia, eles nos lançam seus anzóis arquétipos via telepática, sob forma de atraentes doutrinas místicas e promessas de salvação. Isto naturalmente em troca de submissão, e milhares de terrestres mordem a isca. Já existia a famosa frase de Charles Fort: “Alguém nos pesca!”.

Suenaga – Na sua opinião, de onde vêm “eles”?
Grossmann – “Eles” não vêm mundos distantes, de incomensuráveis distâncias, há milhares de anos-luz. “Eles” vêm de um lugar muito mais próximo do que poderia supor Grammostola. “Eles” vêm do próprio corpo de Grammostola, onde realizam suas metamorfoses.

Suenaga – Você se referiu à alegoria da Aranha e da Vespa Caçadora que elaborou para servir de paradigma à interpretação do Fenômeno UFO em geral e da abdução e da casuística gótica em particular. No que consiste essa alegoria?
Grossmann – Nós temos um predador específico que seria hematófago e biotrófrico e que nos abduz tal como a Vespa Caçadora (Pepsis) “abduz” a Aranha Caranguejeira (Grammostola, também caçadora) para fins reprodutivos. Tudo indica que nós fazemos parte não só do sistema alimentar deles, mas também do reprodutivo. Todo o fenômeno da abdução indica que somos material biológico para a reprodução “deles”. Há uma interdependência entre o predador e o predado. O predador não visa exterminar o predado, e sim usufruir dele até um determinado grau. O extermínio do predado levaria também ao extermínio do predador que dele depende para sobreviver e continuar se reproduzindo (Para entender melhor, ver a alegoria “De onde ‘eles’ vêm?”).

Suenaga – Qual a posição que a criptozoologia ocupa na ciência e qual a conexão dessas criaturas com as teorias correntes sobre a evolução da vida na Terra?
Grossmann – A posição que ocupa é muito maior do que se supõe à primeira vista. Há seres que estão sendo vistos e relatados há milênios, mas cujas existências ainda são postas em dúvida. Hoje em dia são vistos cada vez mais próximos dos locais habitados. Os ufólogos procuram explicar os seres criptozoológicos como sendo ufonautas ou seres manipulados pelos ufonautas. É uma teoria interessante que ainda precisa ser comprovada. Eu tenho uma outra que passa necessariamente pela revisão da origem e da evolução da vida na Terra. Há bilhões de anos, a nossa atmosfera era bastante diferente e não contava com a camada protetora de ozônio. Eu acho que a vida veio de fora – estou de acordo com a panspermia de Svante Arrhenius – e se desenvolveu no fundo do mar e subterraneamente em galerias e bolsões das camadas superficiais da Terra. A superfície da Terra foi a última fronteira a ser conquistada, isso quando o reino vegetal modificou a composição de nossa atmosfera e surgiu a camada protetora de ozônio. Os remanescentes dessa fauna criptozoológica sobreviveram em nichos ecológicos não ocupados ou não detectados por nós e continuaram a aparecer esporadicamente até chegarem à era atual. E justamente agora que estamos destruindo a camada protetora de ozônio e degradando o meio ambiente em geral, tornando as condições favoráveis para a proliferação dos remanescentes criptozoológicos, essas criaturas têm aparecido cada vez mais e em maior número.

Suenaga – Tomando a clássica obra Viagem ao Centro da Terra, de Júlio Verne, você admite a existência de civilizações sob a crosta terrestre?
Grossmann – Em primeiro lugar, gostaria de rebater a hipótese inicial da Terra Oca, que não tem chance de corresponder à realidade. Mas isso absolutamente não invalida a idéia de mundos subterrâneos. Na minha concepção, existem bolsões mais superficiais, já que a Terra se assemelha a um queijo suíço, cheio de cavidades. Nesses bolsões ou cavidades existem nichos ecológicos não detectados por nossa ciência. Inúmeros casos falam de discos voadores saindo de crateras de vulcões ou do fundo do mar. A hipótese de mundos subterrâneos explica muito mais do que a hipótese extraterrestre, sem excluí-la, naturalmente. Explica por exemplo a presença quase diária de UFOs em nossa atmosfera desde tempos imemoriais. Em seu livro Passaporte para Magônia, o astrofísico e ufólogo francês Jacques Vallée resgata antigas lembranças e tradições de contatos com inteligências não-humanas registradas pela memória coletiva dos povos ao longo da história.

Fernando Grossmann e Cláudio Suenaga no Arquivo do Estado de São Paulo

Suenaga – Até agora usamos o termo “extraterrestres” meramente por convenção e força de expressão, por ser esse um termo de uso comum para designar os ufonautas. Todavia, em sua conferência intitulada “Extraterrestres: A Hipótese Infantil da Ufologia”, você tece severas críticas e lança outras alternativas.
Grossmann – A hipótese interplanetária foi a primeira a ser aceita, mas ela sofreu deformações por ter se tornado absoluta. A veracidade de uma hipótese não exclui a veracidade de outras hipóteses. Quando se fala em confusão com fenômenos astronômicos, meteorológicos, etc, isso é uma verdade que corresponde a uma certa porcentagem da casuística. Quando se fala em armas secretas de potências litigantes, isso também é uma verdade que corresponde a outros tantos por cento. Quando se fala na hipótese interplanetária, ela continua sendo uma possibilidade que pode estar acontecendo. Quando se fala em mundos paralelos e em viajantes do tempo, também. Uma hipótese não exclui outra. Não obstante, a explicação para a presença quase diária de UFOs desde a Pré-História, converge para a consolidação de uma hipótese não interplanetária. Além disso, as seitas místicas e pseudomísticas valeram-se da hipótese interplanetária para justificar todo tipo de atrocidades que cometeram em nome dos novos deuses extraterrestres. Um dos erros mais típicos, uma das doenças do período infantil da Ufologia, é que se chegou até a cogitar a existência de civilizações tecnológicas na lua. Com o desenvolvimento da astronomia, da astronáutica e dos seus meios de prospecção, os adeptos da hipótese extraterrestre tiveram de ir afastando essas civilizações tecnológicas cada vez mais para longe, para Vênus, Marte, para os satélites de Júpiter – sendo que erroneamente escolheram Ganimedes, o maior dos satélites galileanos, quando atualmente se sabe que os melhores candidatos para abrigar vida são os menores – Europa e Io –, para os planetas de outras estrelas etc. À medida que nossos meios prospectivos avançavam, tiveram que ir empurrando cada vez mais para longe a procedência dos discos voadores.

Entrevista originalmente publicada na revista Sexto Sentido, Mythos Editora, nº 41, ano 3, junho de 2003, p.14 a 19. Capa: “Predadores de outros mundos: estaria a humanidade sendo caçada por ETs?”.

 

 

O Manifesto Gótico

Por Fernando Grossmann

“Um espectro ronda a humanidade, o espectro do vampirismo ufológico”

Em maio de 1975, no Boletim da APEX no 4 a 7, um dos diretores da APEX deu o primeiro “brado de alerta” no Brasil e no mundo sobre a atividade hematófaga dos ufonautas, ou seja, sobre o “vampirismo ufológico”. A escrever seu artigo “Eram os Vampiros Astronautas?” (In “Anjos ou Demônios”), o autor criou a Ufologia Gótica.

O autor, acusado de “irreverência”, sofreu dentro da própria Ufologia, e entre os próprios ufólogos, discriminações, preconceitos, depreciações, tentativas de desmoralização e intimidação, operações de “fustigamento” por parte de “obscuras forças” e até mesmo coisas piores. Sob fortes pressões das “correntes angelicais” que dominavam a Ufologia naquela época, optou por afastar-se da APEX, onde sua presença estava sendo considerada inconveniente. “Limpou a área”, para que a APEX pudesse prosperar. Seu nome foi varrido da Ufologia e conheceu o significado de uma antiga palavra grega: ostracismo. Transpôs vivo o ano de 1975, devido um verdadeiro milagre de não mais de um centímetro, de “erro de trajetória”. A heresia era imperdoável!

Dizem que os movimentos de rotação e translação da Terra trazem muita novidade e curiosidade na superfície do planeta e que a “realidade” é dura, inflexível, arrogante e irreverente. Decorridos apenas dois anos, em 1977, enquanto o autor de “Anjos ou Demônios?” desaparecia totalmente do cenário ufológico, rompendo seus últimos vínculos com aquela geração de ufólogos, a Ufologia Gótica por sua vez prosperava, definitivamente consolidada. Irreverente, foi o fenômeno chupa-chupa ocorrido na região amazônica, e o fenômeno chupacabras que se iniciava na América Central e México. Do chupa-chupa ao chupacabras, a vampiragem foi se revelando universal.

Há poucos anos atrás, os “ufólogos angelicais” desprezavam a casuística gótica procurando invalidá-la, enquanto legitimavam a casuística angelical. Como muito bem disse Abraham Lincoln, “é possível enganar a poucos, durante todo o tempo; é possível enganar a todos, durante pouco tempo; mas não é possível enganar a todos durante todo o tempo.”

Nossa camada de ozônio que nos protegia dos efeitos mortais e mutagênicos dos raios ultravioletas já foi para o espaço, e criaturas peludas, parecidas com “lobisomens”, estranhas à zoologia terrestre, são avistadas frequentemente por toda a parte, até mesmo desvinculadas de avistamentos ufológicos.

Em seus arquivos e bibliotecas, com a mente totalmente liberta de “psicopáticas imposições angelicais”, em suas pesquisas sob a luz mortiça da Lua, por florestas, campos, montanhas, vales, cavernas, mangues, ilhas, etc, com os pés fincados na terra e os olhos perscrutando a realidade em todos os quadrantes celestes e terrestres, entrevistando e contatando pessoas livres de dogmas e preconceitos, despertando “forças telúricas”, o autor volta agora à luz do dia, com o vigor de um “abalo sísmico” e constata que a casuística gótica ocorre em maior quantidade do que se supunha. Revisando antigos casos ufológicos paulistas da década de 40, descobre que o fenômeno chupa-chupa já ocorria em São Paulo há mais 50 anos atrás! Mas isso, como diria Rudyard Kipling, já é outra história.

“Os Lobisomens existem, eu os encontrei”.

“O crepúsculo dos homens… é a alvorada dos vampiros!”

 

 

De onde “eles” vêm?

 A alegoria da Aranha (Caranguejeira Errante) e da Vespa Caçadora  (Cavalo de Cão), como paradigma para a interpretação do Fenômeno UFO em geral e da casuística gótica em particular

 Por Fernando Grossmann

“Creio que alguém nos pesca.” (Charles Fort)

A Aranha (Grammostola – também caçadora), conhece bem o ambiente em que vive e locomove-se nele com desembaraço, embora lenta e cautelosamente. Programada geneticamente, a Vespa Caçadora (Pepsis) realiza suas “patrulhas” de rotina à caça de determinada espécie de Aranha. Grammostola percebe algo não identificado no ar. Alertada por instintos ancestrais, procura se proteger e esconder-se, o que nem sempre consegue! Pepsis, captando com suas antenas as estridulações de Grammostola e conhecendo muito bem sua anatomia e fisiologia, não tem dificuldade alguma para rastreá-la e atacá-la com uma certeira ferroada em seus gânglios nervosos, inoculando veneno que a paralisa. Em seguida, Pepsis cava um buraco onde enclausura Grammostola, depositando nela um ovo.

No fundo de um buraco de Avispa, não morta, porém anestesiada, Grammostola faz algumas indagações. “Quem são ‘eles’?” Após a incubação, o ovo eclode, nascendo uma larvinha. “Que pretendem ‘eles’, abduzindo-nos dessa maneira?”, se pergunta Grammostola? A larvinha, também movida por conhecimentos ancestrais, devora inicialmente as partes periféricas, não vitais de Grammostola. Caso contrário, Grammostola morreria e apodreceria, e a larvinha também morreria sem completar sua metamorfose.

Em seus últimos estertores, Grammostola ainda consegue formular sua derradeira pergunta, da qual não chegaria a saber a resposta: “De onde vêm ‘eles’?” A larvinha termina de devorar as partes centrais e vitais de Grammostola, da qual sobra apenas a carapaça de quitina vazia. Em seguida, a larvinha “Pupa” aguarda o momento certo para emergir à luz do dia em busca de aranhas.

Post Scriptum

Grammostola morreu! Assumo a gravíssima responsabilidade de alertar o mundo e a humanidade terrestre sobre a espantosa revelação contida na última indagação de Grammostola, formulada em seus últimos estertores, abduzida por “eles” no fundo de um buraco em alguma parte do continente sul-americano, submetida ao mais supremo e inaudito “terror cósmico”, não morta, porém anestesiada, tendo seu corpo devorado por uma larva “deles”.

De onde vêm “eles”?Eles” não vêm de mundos distantes, de incomensuráveis distâncias, há milhares de anos-luz. “Eles” vêm do um lugar muito mais próximo do que poderia supor Grammostola. “Eles” vêm do próprio corpo de Grammostola, onde realizam suas metamorfoses.

Nota do Autor – Malthus relembrado

O gênero de Vespas Pepsis não deve ser considerado “inimigo” do gênero de aranhas Grammostola. Pepsis não movem uma “guerra de extermínio” contra Grammostola, não faz parte da “cadeia alimentar” de Pepsis e sim de sua cadeira reprodutiva. Afinal de contas, a existência de Pepsis depende da existência de Grammostola. Extinta Grammostola, estaria igualmente extinta Pepsis, impedida de se reproduzir. Pepsis somente elimina uma parte excedente da população de Grammostola, a qual, se persistisse, terminaria gerando atritos e guerras territoriais entre populações de Grammostola. Pepsis só consegue eliminar os exemplares de Grammostola de menor vitalidade, contribuindo assim para a “seleção natural” e para a “sobrevivência do mais apto”.

Portanto, Pepsis predando Grammostola em proporções limitadas, contribui para o progresso de Grammostola. Pepsis deve ser considerado “Anjo Salvador” de Grammostola. Pepsis deve ser considerado amigo de Grammostola. Mui amigo, mui amigo. Por que Pepsis não se comunica com Grammostola? Pepsis não necessita apresentar embaixadores na Organização das Aranhas Unidas e prefere um relacionamento bilateral com Grammostola e consegue Grammostola em quantidade suficiente para atender a sua cadeia reprodutiva e fim de papo. Pepsis não é de “conversa fiada”. Meditações filosóficas são para Grammostola no fundo do buraco, não morta, porém anestesiada.