Entrevista com Fernando Cleto Nunes Pereira, ufólogo pioneiro vinculado às Forças Armadas

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga e Pablo Villarrubia Mauso

Nascido em 9 de maio de 1924 na cidade de Vitória, capital do Espírito Santo, Fernando Cleto Nunes Pereira é um dos pioneiros da Ufologia Brasileira e um dos mais bem informados no que tange a assuntos oficiais pelo estreito vínculo que sempre manteve – e procurou preservar – com autoridades e altas patentes das Forças Armadas. O fato que mudou profundamente sua vida ocorreu na noite de 16 ou 17 de julho de 1948, quando viu um UFO nas proximidades da Enseada de Botafogo, próximo à esquina da Rua Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro. Foi a partir daí que começou a se interessar pela Ufologia, sem descuidar de sua família e de sua carreira de funcionário do Banco do Brasil e do Banco Central, pelos quais se aposentou.

Um de seus objetivos precípuos sempre foi o de despertar a atenção para a unificação teórica dos conceitos científicos, “sem a qual o homem não entrará na era estelar já dominada pelos construtores dos discos voadores.” Sua convicção da necessidade de uma reformulação dos conceitos físicos nasceu na manhã de 2 de novembro de 1954, quando participava da histórica reunião no auditório da Escola Técnica do Exército (ETE), no Rio de Janeiro. Por ordem da Escola Superior de Guerra (ESG), o coronel-aviador João Adil de Oliveira, chefe do Serviço de Informações do Estado-Maior da Aeronáutica (EMA), proferiu conferência abrindo o 1º Inquérito Oficial Brasileiro para estudar os UFOs. Na plateia, o alto escalão das Forças Armadas – inclusive o chefe do EMA, brigadeiro Gervásio Duncan, e o tenente-brigadeiro Eduardo Gomes –, técnicos, cientistas e convidados credenciados, entre eles Cleto e o repórter da revista O Cruzeiro, João Martins. Foi nessa ocasião, aliás, que o coronel Adil apresentou Martins a Cleto.

Fac-símiles da edição de 11 de dezembro de 1954 da revista O Cruzeiro. [Arquivos de Cláudio Suenaga]
Edição de 27 de novembro de 1954 de O Cruzeiro. [Arquivos de Cláudio Suenaga]
A reunião redundaria em um pronunciamento público, o primeiro da história mundial em que um governo reconhecia oficialmente a existência dos UFOs, isso em decorrência dos discos voadores estarem desde o mês de outubro sobrevoando insistentemente a Base Aérea de Gravataí, no Rio Grande do Sul. Oficiais-aviadores, sargentos, praças e civis observavam praticamente todos os dias a presença de estranhos corpos circulares, de cor prateada. No dia 26 de outubro, o Comando da Base Aérea de Porto Alegre, V Zona Aérea, liberou à imprensa um relatório detalhado a respeito, incluindo avistamentos em vários outros pontos do Rio Grande do Sul. A Base solicitava aos cidadãos em geral que, caso observassem algo similar, comunicassem ao Comando por escrito, detalhando o local, hora, tipo de observação – se a olho nu ou por meio de instrumentos –, características do objeto, etc. Cabe lembrar que a Europa, principalmente a França e a Itália, andava desde setembro às voltas com uma onda que incluía casos de aterrissagem e desembarque de seres que, embora esquivos e fugidios, tentavam estabelecer contatos com humanos. Refletindo-se no Brasil, atingiu especialmente o Rio Grande do Sul. O primeiro objeto foi visto às 21h40 da noite de 12 de outubro pelo comandante da guarnição do Corpo de Bombeiros de Pelotas, tenente Adil Quites, pela sua família e por soldados.

Cleto pôde então perceber, muito admirado, que os homens presentes àquela reunião não conseguiam compreender, à luz das ciências, certos aspectos do comportamento dos UFOs relatados por aviadores. Naquele dia se deu conta que ali estava o ponto principal da questão e, infelizmente, com solução distante no tempo futuro. Desde então, Cleto vem desenvolvendo um sem número de pesquisas em sua incansável busca para decifrar o enigma das inteligências extraterrenas.

Dolores Barrios na edição de 16 de outubro de 1954 da revista O Cruzeiro. [Arquivos de Cláudio Suenaga]
Coincidências, se é que podemos chamá-las assim, intercalaram esse percurso. A primeira em 31 de dezembro de 1954. No meio do caminho de uma visita ao coronel Adil, viu um disco voador sair de dentro de uma nuvem branca que pairava sobre o Aeroporto Santos Dumont. A segunda foi no mesmo dia. Às 21h00, estava em companhia da esposa no saguão do Cine Metro, em Copacabana, esperando pelo início da sessão do filme Rapsódia. Cleto viu então uma pessoa estranha no meio da multidão. Era um homem louro que se aproximou e lhe perguntou: “Cavalheiro, tudo isso é para ver Rapsódia?” Sua esposa também o viu e achou que era um marciano. Cleto apontou a espantosa semelhança daquele louro com Dolores Barrios, a mulher loira fotografada pelo  repórter e seu amigo pessoal João Martins (1916-1998) numa das convenções de discos voadores realizada no topo leste do Monte Palomar, defronte a rústica hospedaria denominada “Skyline Lodge”, a 250 km ao sul de Los Angeles.

Na edição de 16 de outubro de 1954 de O Cruzeiro, Martins reportou que, ao entardecer do primeiro dia da reunião, surgiram nas redondezas uma mulher e dois homens de aspecto estranho. Ninguém sabia como tinham vindo nem quem eram. Começou a correr o boato de que eram “venusianos” disfarçados. Um deles estava de óculos, o que era atribuído a um “requinte de caracterização”. Martins os abordou e perguntou-lhes, sentindo-se um tanto ridículo, se eram ou não de Vênus. A mulher sorriu e respondeu calmamente que não. “Acha que, como diz o senhor Adamski, eles são de Vênus?”, voltou a indagar Martins. “Eles são de Vênus”, afirmou ela, enigmaticamente. Martins pediu-lhes que fornecessem seus nomes, endereços e profissões: Dolores Barrios, desenhista de vestidos, Donald Morand e Bill Jarmarkt, músicos, residentes em Manhattan Beach, Califórnia. Conforme assinalou Martins, “todas as respostas e informações eram lacônicas, vagas, precedidas de uma ligeira pausa, durante a qual os três se entreolhavam silenciosamente. E só a mulher falava. Eram de fato muito esquisitos. Fotografei-os na manhã seguinte, bem cedo. E depois disso não mais foram vistos. Deixaram um halo de mistério, uma suspeita que qualquer pessoa, friamente, achará absurda. A semelhança da mulher com o ‘venusiano’ desenhando por Adamski era realmente marcante.”

Para Cleto, os seres vistos pareciam andróginos. Os anjos também eram. Os anjos apareciam sempre em número de três. Dois nas ações principais, fora de suas naves, e um outro dentro delas. Nos relatos de 1952 e 1954, observou-se a mesma coincidência numérica: dois tripulantes desembarcados, enquanto um permanece na nave – como nossos astronautas na Lua.

O Cruzeiro, 20 de novembro de 1954. [Arquivos de Cláudio Suenaga]
Como se sabe, a história dos UFOs no Brasil começou no dia 7 de maio de 1952, quando o fotógrafo Ed Keffel e o repórter João Martins fotografaram um disco voador sobrevoando as imediações da Pedra da Gávea, na Barra da Tijuca, zona sul do Rio de Janeiro. A Força Aérea Brasileira (FAB) começou a investigar o caso no dia 10 de maio, apenas três dias depois das fotos terem sido batidas. Uma equipe de técnicos construiu uma réplica exata do disco em madeira. Oficiais à paisana foram vistos pelos pescadores atirando o modelo para o ar no exato momento em que o disco original apareceu. Procederam a levantamentos e elaboraram diagramas detalhados indicando a posição, a trajetória e a distância. Descartaram, por fim, a possibilidade de fraude e concluíram que as fotos eram autênticas. Os jornalistas estrangeiros que conversaram com os pescadores ouviram deles a versão de que o disco era um modelo arremessado para o ar, e apressadamente divulgaram que tudo havia sido uma brincadeira. A Força Aérea dos Estados Unidos [United States Air Force (USAF)] comunicou ao Serviço de Imprensa da Embaixada que não considerava as fotos autênticas, pois as sombras no objeto não coincidiam com as das árvores.

Fernando Cleto Nunes Pereira apresentando o programa televisivo “O Enigma do Espaço”. Foto publicada na edição de 31 de outubro de 1959 da revista O Cruzeiro. [Arquivos de Cláudio Suenaga]
O segredo em torno dos testes da FAB só foi parcialmente quebrado durante uma conferência na ESG em 3 de outubro de 1954, ocasião em que se reafirmou a veracidade das fotos. Cleto resgatou a documentação no Ministério da Aeronáutica e, com o aval do coronel Adil, fez com que seu conteúdo se tornasse conhecido por meio de uma série de 12 programas intitulado O Enigma do Espaço, exibida pela extinta TV Continental, Canal 9, em 1959, um dos primeiros – senão o primeiro – e raros inteiramente dedicado à Ufologia da TV brasileira.

Olavo Fontes

Olavo Teixeira Fontes (1924-1967), médico gastroenterologista e ufólogo pioneiro, à época representante da Organização de Pesquisas de Fenômenos Aéreos [Aerial Phenomena Research Organizations (APRO)], escreveu um longo artigo publicado em número especial do boletim daquela organização, em outubro de 1961. Fontes, que havia tomado conhecimento do relatório por intermédio de Cleto em 11 de outubro de 1959, contou que os negativos estavam em poder do laboratório de reconhecimento da FAB. O tenente-brigadeiro Eduardo Gomes apresentou a um público seleto, no qual se incluía Cleto, os resultados de sua pesquisa oficial. Enviou cópias da reportagem e das fotos para a APRO, o que resultou na inclusão do caso no Relatório Condon (1969), que o classificou como “inconsistente”.

Após tantos anos, a ufóloga pioneira Irene Granchi lamentou que as fotos tivessem caído em descrédito, apesar de seus esforços. Cleto guardava em seu apartamento na Rua Toneleros – onde em 1954 o jornalista Carlos Lacerda sofreu um atentado à bala que vitimou o major Rubens Florentino Vaz, atentado esse que culminaria no fim do governo e no consequente suicídio do presidente Getúlio Vargas em 24 de agosto do mesmo ano –, em Copacabana, um farto material sobre o caso, parte do qual pudemos consultar. Cleto era um dos poucos que ainda desfrutavam da amizade de João Martins, que residia num apartamento da Rua Ayres Saldanha, também em Copacabana.

Em 1962, Cleto concedeu uma entrevista ao seu colega do Banco do Brasil Alcedo Coutinho, representante da Revista AABB – CIÊNCIA, de Recife, Pernambuco. Cleto deixou de lado as particularidades de milhares de casos relacionados com os discos voadores para abordar de forma preferencial o misterioso problema da propulsão dos UFOs. A entrevista atestava sua preocupação com a identificação do grau cultural das inteligências que constroem os discos voadores. No seu entender, para que a “propulsão por campos” pudesse ser atingida pela civilização humana, imprescindível seria que a ciência desse um novo passo no campo teórico para identificar a causa da gravidade. Defendia que o Brasil, na ocasião ingressando na era espacial, devia fundir o assunto dos discos voadores com o programa espacial. Isso porque estava certo de que os UFOs constituíam um exemplo vivo e gritante de que a “propulsão por campos” já havia sido encontrada pelas inteligências que os construíram. E quem na Terra primeiro dominasse o segredo dessa propulsão teria enorme supremacia sobre as demais nações. Por isso pensava que os nossos esforços deveriam desde o primeiro momento ser voltados para a pesquisa dessa forma de propulsão, o que daria ao Brasil independência e personalidade no campo científico internacional.

Advertia aos brasileiros que iriam dirigir as nossas pesquisas espaciais para que não desprezassem os dados que tínhamos no Brasil sobre os UFOs espalhados em alguns arquivos particulares, porque eles constituíam um ótimo ponto de partida para se chegar a compreender o segredo da “propulsão por campos”, desde que manipulados por cientistas interessados. Entendia que paralelamente aos programas brasileiros deveriam ser estabelecidos profundo estudo e pesquisa permanente em torno do comportamento dos UFOs, porque eles já constituíam um exemplo palpável daquilo que os nossos cientistas ainda sonhavam.

Em agosto de 1974, portanto três anos antes de se isolar do assunto “discos voadores”, quando deixou de aceitar qualquer convite para conferências ou programas de televisão, pensava muito na unificação de todos os grupos de estudos dos discos voadores que existiam no Brasil. Sentindo dificuldades, resolveu então procurar em Brasília uma importante autoridade da FAB. Depois de um relato verbal de suas preocupações, recebeu o apoio daquela autoridade, que até destacou um oficial no Rio de Janeiro para ser um elemento de ligação e apoio. Tal autoridade argumentou de forma lógica que o órgão apropriado para sua exposição seria o EMFA. Cleto aceitou de pronto a sua sugestão e fez uma “exposição de motivos” ao EMFA, em Brasília (DF).

O assunto de sua exposição foi “A Segurança Nacional e os OANIs” (Objetos Aéreos Não Identificados, sigla usada pela FAB). Com ela, Cleto tencionava informar à Cúpula Militar do Governo Federal sobre a estranha presença de “forças desconhecidas” que estavam operando de forma misteriosa, crescente e ostensiva dentro de nossas fronteiras nacionais. Oferecia sugestões práticas e exequíveis em favor de um “Plano de Ação” capaz de manter as autoridades militares informadas da evolução tática dessas forças, que, até certo ponto, apresentavam características preocupantes se examinadas pelo prisma de “Segurança Nacional”. Solicitava que o assunto fosse examinado cuidadosamente pelos chefes dos serviços de informações e, se possível, levado ao conhecimento do comandante-em-chefe das Forças Armadas.

No capítulo 12 da exposição, escreveu: “Quando uma autoridade superior das Forças Armadas resolve criar uma comissão para investigar problemas relacionados com atividades de OANIs, o oficial destacado para cumprir a missão se sentirá plenamente justificado e acobertado para o desempenho da ingrata missão de pesquisar o insólito e impalpável. Mas tal chefe teria que se utilizar de oficiais e sargentos para uma série de investigações de âmbito externo e na área civil. Temos fortes razões para supor que tais subordinados nem sempre estariam preparados para tal tipo de missão e por isso procurariam desincumbir-se das tarefas de modo mais rápido e simples, o que, fatalmente, iria prejudicar os objetivos colimados. Seria até natural que os não-espe­cializados e destreinados no assunto se sentissem envergonhados de sair em ambiente civil formulando perguntas incomuns. […] Por outro lado, entendemos que as Forças Armadas não devem correr o risco de se expor num assunto que por sua própria natureza é contraditório, provocando divergências até entre os estudiosos. Nada impediria que um chefe militar se inclinasse para uma das muitas direções possíveis permitidas pela pesquisa e assim induzisse o governo a se comprometer publicamente num sentido que posteriormente se revelasse desaconselhável, sobretudo quando se investiga um fenômeno imprevisível e conturbador.”

Urgia, na acepção de Cleto, criar uma organização nacional. Alguma medida séria devia ser tomada para reunir todo esse pessoal numa só organização central. O principal objetivo da nova organização seria tentar deduzir da estratégia que se esconde por trás da fantástica atividade dos UFOs. Para isso os líderes existentes seriam reunidos e automaticamente considerados membros da nova organização, que teria um nome científico para facilitar o recebimento de donativos e apoio oficioso. Assim se poderia dar início à montagem de um modelo brasileiro de trabalho voltado para o enigmático problema dos UFOs, valorizando o imenso esforço de dezenas de pesquisadores voluntários e, concomitantemente, estabelecendo um seguro ponto de apoio para o próprio Governo Federal, que, por meio do EMFA, poderia acompanhar o desenvolvimento dos acontecimentos.

Na exposição de motivos, ressaltou que muita coisa estranha vinha ocorrendo com a aviação comercial nos últimos 20 anos. Ainda recentemente, dois aviões internacionais – um da Alitalia e outro da Air France – haviam tido os seus pneus furados na pista do Aeroporto do Galeão, local que vinha sendo sobrevoado por UFOs desde o início da construção da nova estação de passageiros. Acrescentou que UFOs tinham levantado um carro do Corpo de Bombeiros que foi em socorro de um dos aviões, deslocando-o e fazendo-o capotar. Dois passageiros de nível universitário, ambos engenheiros – químico industrial e engenheiro elétrico –, fizeram declarações à imprensa de que a responsabilidade pelos acidentes cabia aos discos voadores.

Cleto alertou de que estaria ocorrendo algo, em âmbito mundial, que ia além de um simples levantamento antropológico, zoológicos, botânico e dos demais recursos naturais ou artificiais da Terra. Eram muitos os acontecimentos que reputava estranhos e graves e que eram do completo desconhecimento de uma autoridade central. O exame conjunto de centenas de ocorrências permitia-lhe supor que, além dos simples testes de natureza psicológica, existia um amplo planejamento de tipo militar visando preparar um conjunto de informações por meio de uma ação efetiva e permanente que já estaria sendo executada pela aplicação de testes em ações táticas de forma subjetiva no sentido da anulação de nossos meios de defesa quando, simultaneamente, estariam testando variadas formas para lançar o pânico em diversas situações.

Parecia-lhe oportuno, portanto, focalizar mais dois casos. O primeiro por já constar de um boletim de um Centro de Pesquisas de OANIs situado em Pelotas, no Rio Grande do Sul. O minucioso relatório, que incluía casos de localidades do Brasil e do lado uruguaio,  registrava como 300 ovelhas de raça foram mortas e delas retiradas todo o sangue por técnicas desconhecidas, além de fetos retirados por furos de três centímetros de diâmetro. O interesse dos “disconautas” pelo sangue dos animais, talvez pelas proteínas que contém, já parecia evidente a Cleto.

Em 1970, na esteira do sucesso de Erich von Däniken e seu Eram os Deuses Astronautas? (São Paulo, Melhoramentos, 1968), Nunes Pereira lançou seu primeiro livro, produto de 20 anos de estudos: A Bíblia e os Discos Voadores: A Missão dos Astronautas Extraterrenos (Rio de Janeiro, Ediouro). Atendo-se exclusivamente à interpretação do livro sagrado, o ufólogo Nunes Pereira apresentou-se como “o primeiro autor a examinar a Bíblia em bloco, como um todo, em ordem cronológica dos livros que a compõem, para então sustentar teses novas relacionadas com a presença de seres extraterrestres entre nós. Estudou a própria história religiosa da humanidade para, finalmente, atribuir uma missão transcendental aos ufonautas que nos rondam.”

Uma de suas teses é o que chamou de “Projeto Cristão”, um plano feito fora da Terra para ser executado em nosso planeta. Advertiu Cleto: “Os materialistas encontrarão neste livro maior número de elementos em favor de suas posições ateístas. Nós, porém, queremos afirmar a nossa fé na existência de um só Deus, que tanto é dos judeus como dos cristãos, budistas, islamitas e demais crenças.” Acreditava firmemente na vitória final do cristianismo e de que “a humanidade é constituída de marionetes ou robôs que representam no palco do planeta atos de uma peça com objetivos superiores. Dentro do grande palco as futuras guerras já anunciadas pelos profetas serão inevitáveis e a desolação já se aproxima do mundo de forma irreversível.”

Nunes Pereira é autor de outros dois livros referenciais da literatura ufológica brasileira: Sinais Estranhos (Rio de Janeiro, Hunos, 1979) e Que Ciência Constrói Discos Voadores? (Rio de Janeiro, Record, 1994).

A entrevista que vocês irão ler agora, realizada por ocasião da visita que lhe fizemos em seu apartamento na histórica Rua Toneleros, no bairro de Copacabana, Rio de Janeiro, em 21 de fevereiro de 1996, está sendo publicada pela primeira vez na íntegra, sem qualquer corte ou modificações. Uma versão editada dela foi publicada pela revista UFO [Campo Grande (MS), Centro Brasileiro de Pesquisas de Discos Voadores (CBPDV)/Mythos Editora, nº 132, Ano 23, Diálogo Aberto, p.12-18] em abril de 2007, sob o título “Veterano Fernando Cleto Nunes Pereira: Experiências de um pioneiro e a necessidade de unificar teoria e prática na Ufologia”.

Suenaga – Quem lhe apresentou o João Martins foi o coronel Adil, não foi?
Cleto – Não houve uma apresentação formal. Eles foram os últimos a chegar, a reunião já estava em andamento quando eles entraram. Quando a reunião acabou, de civis eram apenas ele e eu e o comandante de um navio. Aí começamos a conversar e fiquei sabendo que morávamos no mesmo bairro.

Mauso – E aquela versão de que o Martins e o Keffel tinham ido fotografar um criminoso nazista que era visto com frequência na Barra da Tijuca?
Cleto – Essa versão é mentirosa. Eles na verdade foram fazer uma reportagem sobre os casais de namorados e a o prato de camarão da Barra da Tijuca, tanto que no filme aparece o camarão e um casal de namorados. A verdade verdadeira que ficou debaixo do pano é que o Martins e o Keffel eram muito amigos. O Keffel havia passado uma temporada no Sul e há dois meses não vinha ao Rio. Assim que retornou, conseguiram do chefe deles a incumbência de fazer uma reportagem sobre os namorados na Barra da Tijuca, onde poderiam pôr a conversa em dia enquanto saboreavam um delicioso camarão. Bateram a chapa de um camarão e nisso aparece o disco voador. Essa é a verdade.

Mauso – O Keffel deve ter recebido o copyright, o direito autoral pelas fotos.
Cleto – Não, não recebeu nada. O Cruzeiro entregou para a FAB, e a FAB trancou os negativos no cofre. E lá ninguém sabe onde foram parar, porque eles dizem que queimaram tudo isso aí.

Praia das Toninhas, a mais exuberante da região, entre as praias Grande e Enseada, a cerca de 10 minutos do centro de Ubatuba. Assim chamada em função das toninhas (golfinhos), que aproveitam suas águas quentes para realizar o acasalamento e aparecem perto da praia no início do verão. [Fotos tiradas por Cláudio Suenaga durante sua estadia em Ubatuba em  23 de dezembro de 2012]
Fragmento de metal do UFO que explodiu em Ubatuba.

Suenaga – No dia 14 de setembro de 1957, o célebre colunista social Ibrahim Sued  informava em sua seção diária no jornal O Globo, que havia recebido diversos fragmentos metálicos recolhidos por um pescador logo após a explosão de um disco voador nas proximidades da Praia das Toninhas, em Ubatuba, litoral norte de São Paulo. Os exames laboratoriais vieram a atestar que se tratava de magnésio em algo grau de pureza. O que o senhor poderia acrescentar sobre o Caso Ubatuba pesquisado pelo seu amigo Olavo Fontes?
Cleto – O magnésio em estado de pureza já na época podia ser obtido em laboratório, embora por um preço bem elevado. Mas com aquele grau de pureza não. Os fragmentos que examinei na minha mão, com a permissão do Olavo Fontes, tinham a forma de curvatura. Se você ampliasse a curvatura, ela daria um volante de automóvel. A informação que o Sued recebeu foi a de que uma coisa veio voando rasante sobre o mar, e quando chegou perto dos pescadores deu uma subida e explodiu. Não era bem um disco voador, mas uma sonda que explodiu na frente deles e largou os fragmentos no mar e na praia. Isso é o que eu posso acrescentar.

Mauso – Parte desse material não teria sido enviado aos Estados Unidos?
Cleto – O Olavo Fontes enviou parte desse material para que fossem feitos exames lá.

Mauso – E parece que o material ficou lá, enquanto que a outra parte ficou com ele.
Cleto – Aí eu não sei. Eu conhecia a esposa dele. Ele me recebia algumas vezes mas era uma pessoa muito fechada.

Suenaga – O que o levou a escrever A Bíblia e os Discos Voadores?
Cleto – No capítulo 6 de Sinais Estranhos eu explico em detalhes porque escrevi o livro.

Mauso – Foi por causa do impacto que veio do céu, em 1962.
Suenaga – A onda de choque que abalou o céu.
Cleto – Uma onda de choque. Em resumo, quanto mais estudava a Bíblia, mais ficava com medo porque estava indo contra as leis de Deus. Quando chego nas muralhas de Jericó, eu tomo um susto. Porque a ordem de Deus para Josué era para que passasse na marra. E na parte em que ele dá as sete voltas, toca as trombetas, enfim, cheguei à conclusão de que um disco voador emitiu uma onda de choque sobre o território e derrubou os muros de dentro para fora. Quando cheguei ali não tive coragem de ir para frente. Tenho que dormir hoje, amanhã tenho que abrir aqui. Preciso tomar coragem, decidir se vou em frente ou não. Meu lema era a de seguir meus pensamentos onde quer que me conduzissem, fossem quais fossem os resultados. No dia seguinte, quando meus filhos foram dormir, fechei a porta, sentei-me à mesa e abri o livro. Aí ouvi uma voz na minha cabeça dizendo: “Quebra a muralha de seus tabus religiosos. Você está certo. Quebre as muralhas de seus tabus religiosos. Nós estamos sobre a sua cidade e vamos dar uma prova disso agora.” Assim que a voz  falou, o prédio estremeceu e eu fiquei meio abobalhado com aquela trovoada. Peguei um papel e escrevi: Uma onda de choque sobre o Rio de Janeiro às 23h30. Aí fui para cama me sentindo esmagado, não havia dúvida de que tinha acontecido aquilo. Às 1h30 minha mulher entra no quarto vindo da sala e me chacoalha dizendo: “Cleto, Cleto, acorda, houve um terremoto no Rio de Janeiro. O povo está na rua de camisola e pijama.” Eu falei que já sabia daquilo. Durante três dias a imprensa ficou noticiando e discutindo a onda de choque. Mas não foi propriamente uma onda de choque. Um geólogo chegou a afirmar que no Rio de Janeiro não havia possibilidade de haver terremoto, e que portanto só podia ser uma onda de choque provocada por algo que tivesse explodido no ar. Daí não tive mais dúvidas. O que aconteceu comigo em 1962 foi uma verdade indiscutível. Mergulhei no estudo da Bíblia quase que teleguiado, dirigido por esse fenômeno. Fui em frente e escrevi esse livro.

Suenaga – O que seria o Projeto Cristão?
Cleto – O Projeto Sêmen foi o primeiro projeto. Eles inocularam uma semente nova para acelerar a evolução na Terra. Então eles trouxeram os judeus. E depois fizeram dos judeus seus escravos, invadiram o Vale do Canaã, mataram, destruíram. Mas sempre tinha um objetivo por trás, o dízimo, sempre tinha um objetivo por trás. Quando Jesus atacou os vendilhões do templo, ele quis acabar com as oferendas, os sacrifícios, o assalto à Terra. O Projeto Cristão é um projeto feito fora da Terra para não ser mais exclusivo dos judeus. Esse teria sido o objetivo.

Malba Tahan

Suenaga – Foi difícil publicar o livro?
Cleto – Terminei de escrever A Bíblia e os Discos Voadores em 1968 mas só o publiquei em 1970. Nesses dois anos fiquei criando coragem para publicar. Até que encontrei um grande astrônomo e matemático que foi a uma reunião da Ordem Rosacruz que eu frequentava. Tinha uma porção de gente lá. Assim que entrei na reunião, adivinhe quem estava sentado na cadeira de balanço: o matemático Malba Tahan [Pseudônimo do escritor, professor e matemático carioca Júlio César de Mello e Souza (1895-1974), autor de 56 livros, entre eles o famoso O Homem que Calculava (1938), que conta a história de um árabe que usa a matemática para resolver qualquer tipo de problema], rindo, simpático. Aí tive aquela intuição. Eu estava levando uma vida muito asceta nesse período. Passei seis anos estudando a Bíblia, passei a viver uma vida de sacerdote, comecei a conhecer todas essas obras místicas. Estudei parapsicologia e psicologia. Quando entrei, vi aquele homem ali. Temi que ele estivesse ali para me destruir. Ele começou a falar e não deixava mais ninguém falar. Notei que ele conhecia muito bem a Bíblia. Todo mundo começou então a me provocar: “Como é Cleto, vai falar ou não vai?” Desculpei-me com o professor Malba Tahan dizendo que não me sentia à vontade para palestrar na presença dele porque não sabia que ele conhecia tão bem a Bíblia, mas já que era assim não precisaria ficar explicando certos aspectos e poderia ir direto às minhas proposições. Mencionei meia dúzia de passagens em ordem cronológica, do Gênesis ao Apocalipse. Quando cheguei no ponto-chave, que era a Estrela de Belém ou a Astronave de Belém, ele ficou olhando espantado para mim. Já tinha dado a ele cinco ou seis elementos para balançar. A Astronave de Belém iluminou o Menino Jesus e mais adiante largou os superastronautas que foram anunciar o nascimento do Messias. Depois, prosseguindo, a Estrela de Belém volta para carregar Jesus na ascensão do Senhor. Aí ele interrompeu e falou: “Chega, o senhor destruiu todos os meus 60 anos de vida. Realmente abalou todas as minhas convicções e eu vou lhe pedir seis meses pra rever tudo isso. Eu vou me retirar”. Assim que ele saiu, o pessoal místico começou a bater palmas para mim, porque todos sabiam que ele tinha ido lá para me destruir. E isso me deu uma força muito grande para publicar o livro. Eu não queria magoar ninguém. Tanto é que na abertura do livro advirto aqueles que professam alguma religião para que não o leia sob o risco de perderem a sua fé. Eu mesmo sofri muito para me acostumar à ideia.

Suenaga – O senhor era católico?
Cleto – Católico. Sofri muito.

Suenaga – Como o senhor encara a Ufologia Norte-Americana?
Cleto – Não está servindo de exemplo para ninguém e não serve de modelo para nós. Acho que é fantasia demais. A série Arquivo X, por exemplo, espalhou muitas inverdades.

Suenaga – Qual a opinião do senhor sobre o Caso Roswell?
Cleto – O Caso Roswell eu não considero como verdadeiro. A minha ideia é a seguinte. Se a USAF nega e esconde o fato, como é que eu vou afirmar que é verdade? Não há como. Então desde aquela época eu alertava meus colegas ufólogos de que se admitíssemos a possibilidade disso, daríamos margens a todo tipo de especulações, e foi o que ocorreu.

Suenaga – O senhor acha bobagem tudo o que o Milton Cooper e o John Lear andaram divulgando?
Cleto – Tudo fantasia. Você vê que a base é George Adamski, até o disco que eles descrevem é baseado em Adamski, como a do detalhe de que ele roda de um lado e do outro.

Suenaga – Falando em Adamski, como o senhor encara os casos de contatados como Adamski, Bethurum, etc?
Cleto – Tem dois contatados que eu respeito um bocado. Um é o George Adamski e o outro é o Daniel Fry.

Suenaga – Quais são os elementos que corroborariam o que eles alegaram?
Cleto – Eu acho quase impossível forjar o tipo de fotografia que o Adamski tirou dos discos. É uma coisa inacreditável que alguém que queira forjar um disco bata uma fotografia mostrando certos detalhes tão de perto. Não sei se vocês repararam, isso eu não falei a ninguém, mas vou dar um exemplo. O disco do Adamski é uma cúpula que fecha, e embaixo tem três bolas. Essas esferas giram para um lado e para outro. Se essas três esferas forem fotografadas girando em alta velocidade, se transformam no disco da Barra da Tijuca, o primeiro fotografado no mundo, em 7 de maio de 1952, enquanto o de Adamski só foi em 20 de novembro de 1952. O Adamski, de tão desacreditado que foi, chegou a pirar um pouco. Ele sofreu uma distorção de personalidade, então mais adiante ele passou a sentir necessidade de inventar.

Dolores Barrios, a estranha mulher de Monte Palomar. Quem é esta mulher? Poderia ser de outro planeta? Foto publicada na edição de 16 de outubro de 1954 de O Cruzeiro. [Arquivos de Cláudio Suenaga]
Suenaga – A pessoa loira que o que o senhor viu no Cine Metro era mesmo idêntica a Dolores Barrios?
Cleto – Era idêntica. Naquele dia fiquei até tarde escrevendo, estava com a cabeça até aqui de disco voador, saindo disco voador de tudo quanto é lado. Foi o último dia, depois de três meses, do inquérito militar sobre os UFOs. Pouco antes tinha visto um disco voador sair de uma nuvem. Então resolvi ir ao cinema com minha esposa para esquecer esse negócio. E no cinema aconteceu o contrário.

Suenaga – A esposa do senhor também achou que era parecida?
Cleto – Também achou. Ela ficou apavorada, quis fugir. Um ou dois meses depois eu fui à Sociedade Teosófica Brasileira (STB), e o almirante, no final da palestra, disse ao João Martins que aquela estranha mulher do Monte Palomar que ele havia fotografado era de Agartha, do mundo subterrâneo. Fiquei curioso e disse ao João Martins que havia acompanhado todas as reportagens dele, exceto aquela. E por sorte ele tinha um exemplar no carro e me entregou a revista aberta na página que trazia a foto da Dolores. Assim que eu vi a foto, meu cabelo e todos os pêlos de meu corpo ficaram arrepiados. Só aí é que compreendi o que tinha ocorrido no cinema.

Suenaga – O senhor acha mesmo que a Dolores Barrios possa ser uma extraterrestre?
Mauso – De repente podia ser também uma espiã ou qualquer coisa assim.
Cleto – Eu estou intimamente convencido de que ela é uma extraterrestre. Como é que pode aparecer uma mulher dessa no Monte Palomar, e aí aparece um homem com a mesma fisionomia no Cine Metro e faz a miséria que fez? Acho que ela é ele.

Suenaga – Fale mais sobre o Caso do Português de Brasília que diz ter viajado a Marte em outubro de 1957 e que o senhor pesquisou em 1966.
Cleto – Ele estava nas proximidades do Pico do Jaraguá em São Paulo quando foi levado. Ele viu 200 seres iguais a Dolores Barrios em Marte. Disseram a ele que a Bíblia foi escrita sob a inspiração deles e baseada no Deus único conhecido por eles. Tenho a impressão de que foi verdade a história dele. Mas era português, com um sotaque bravo. No dia em que fui entrevistá-lo em Brasília, ele era dono do bar e garçom ao mesmo tempo. Ficou com medo que eu o raptasse porque mostrei a ele a foto da Dolores Barrios. Ele achou que estava ligado a ela.

Cláudio Suenaga segurando a réplica da Pedra do Espaço confeccionada a mando de Fernando Cleto Nunes Pereira. Foto de Pablo Villarrubia Mauso.

Mauso – O senhor esteve com o contatado espanhol Alberto Sanmartin?
Cleto – Eu estive com ele duas vezes em São Paulo. Lembro que fizeram uma novela em que a Pedra do Espaço foi mostrada. Eu orientei a Janete Clair, contei a história da Pedra para ela, e ela foi inserindo o caso na novela. E no final ela queria que eu fosse o cientista que aparecia decifrando os sinais da Pedra do Espaço. Eu não aceitei porque aquilo era uma novela e eu era um ufólogo sério, não quis misturar realidade com fantasia. De qualquer forma, dei muito crédito ao caso. Tanto que mandei fazer uma réplica em bronze da Pedra do Espaço.

Suenaga – Do que lhe pareceu ser feita a Pedra?
Cleto – Era um material orgânico meio roxo. Uma massa esquisita.

Mauso – O Sanmartin lhe pareceu ser uma pessoa honesta?
Cleto – A mim me pareceu. Eu só tive uma dúvida com relação a ele. Ocorre que a parte que mais me interessou na sua história não foi a Pedra do Espaço com seus sinais gravados, os quais interpretei como sendo a pedra filosofal. O que mais me interessou foi a mensagem dos seres que lhe entregaram a Pedra, que se constituía numa espécie de lei universal, uma coisa assim. E quando lhe indaguei sobre a mensagem, ele falou que tinha certeza de tudo, menos da tal mensagem. A história dele é até certo ponto verdadeira, mas, no meu entender, como ele se sentiu desorientado, a partir de certo momento começou a perder a compostura.

O Cruzeiro, 14 de novembro de 1973. [Arquivos de Cláudio Suenaga]
Suenaga – Qual foi a melhor filmagem de discos voadores que o senhor analisou?
Cleto – Foi um filme feito à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas, de frente para a Pedra da Gávea, a uns quatro quilômetros de distância. Comprei os originais desse filme na TV Tupi. Levei o coronel Adil e o João Martins na casa do Olavo Fontes, na Avenida Atlântica, para mostrar o filme a eles. Mas no momento de passar o filme, o projetor quebrou. Alguém então sugeriu que passasse o filme na mão mesmo, quadro a quadro. Ora, o filme projetado normalmente durava cerca de dois minutos e mostrava apenas uma bolinha pulando para lá e para cá. Projetado quadro por quadro, porém, mostrava uma bolinha que virava duas, duas que viravam quatro, quatro que viravam oito, oito que viravam um colar de pérolas, que virava um cacho de uva. Todos ficaram embasbacados. Quatorze anos depois, a professora Irene Granchi telefonou para mim pedindo um trabalho científico para levar ao astrofísico e ufólogo Josef Allen Hynek nos Estados Unidos. Resolvi então aproveitar os dois mil fotogramas do filme. Não tinha equipamentos profissionais, de modo que fiz tudo na mão. Pegava uma luzinha e olhava, aí escolhia uns pedaços e cortava. Fiz o diapositivo em séries de 16 quadros por segundo. E observei que uma luz cruzava o céu de lado a lado a 75.000 km/h. Pela angular, a luz se aproximava a até 1.250 m de distância. E numa fração de 1/16 avos por segundo, a luz corta um quadro. Lá nos Estados Unidos, entretanto, não deram importância. Aí publiquei o trabalho em O Jornal. Foi a única vez que o doutor Walter Bühler ligou para mim e me parabenizou dizendo que era o maior trabalho de Ufologia que ele já tinha visto.

Suenaga – E quanto às 12 fotos de um UFO tiradas por um repórter fotográfico da redação do jornal O Globo em 1974?
Cleto – Devo acrescentar que antes desse repórter bater as fotos, uma amiga da professora Irene Granchi, que até namorou um de meus filhos, filmou o UFO vindo da Pedra da Gávea e passando pelo Cristo Redentor. O filme também capta vários automóveis parados na entrada do Túnel Rebouças com os motoristas pasmos observando o UFO. E do outro lado, o repórter de O Globo bateu as 12 fotos. Mostraram essas fotos ao astrônomo Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, e ele classificou o UFO como sendo um meteoro ou um cometa. Como um astrônomo pode dizer uma besteira dessa? Eu fui até a redação de O Globo e o repórter me deu as 12 fotos. Ele até mandou me entrevistar e nisso esculhambei o Mourão. Anos depois nos encontramos e ele se tornou meu amigo.

Gerson Maciel de Britto

Suenaga – O senhor contestou o caso do avião da Viação Aérea de São Paulo (VASP) pilotado pelo comandante Gerson Maciel de Britto, o Vôo 169, ocorrido em 08 de fevereiro de 1982.
Cleto – Se eu não estivesse afastado da Ufologia na época, esse caso jamais seria considerado verdadeiro. Houve uma reunião aqui em Botafogo para discutir o caso. Eu só fui a pedido da professora Irene e para mostrar as 12 fotos ao Mourão. O Britto prometeu que iria, mas acabou não comparecendo. Dois engenheiros de vôo da Panair ali presentes, sendo que cheguei a trabalhar na Panair antes que fosse liquidada, provaram que o UFO visto pelo Britto e pelos passageiros não passava do planeta Vênus. Provaram mostrando que o UFO estava seis graus abaixo da asa esquerda, e naquela posição estava exatamente o planeta Vênus. Os tripulantes e passageiros do avião a quatro quilômetros de altitude, viam Vênus sobre a asa. E a asa do avião faz sempre dois movimentos. Então parecia que Vênus subia, descia, ia para frente e para trás. Como apresentava um brilho intenso naquela época do ano, também acabou confundindo. Perdi a conta de quantos ufólogos e pessoas me levaram para ver um disco voador e quando chegava lá tinha de explicar que na verdade era apenas Vênus.

Suenaga – Vênus é o objeto astronômico que mais confunde.
Cleto – O que mais confunde. A ponto de no Caso do Vôo 169 o comandante Britto ter até tentado entabular uma conversação telepática com os tripulantes do UFO, ou melhor, Vênus. Depois de conversar muito com Vênus telepaticamente e de alimentar a certeza de que era um UFO, ele acabou entregando o comando ao co-piloto e pegou o microfone para chamar a atenção dos passageiros e pedir que olhassem através das janelas do lado esquerdo do avião. Se todos os passageiros tivessem seguido sua recomendação e se levantado ao mesmo tempo para se dirigirem ao lado esquerdo, certamente teria criado uma instabilidade no avião. Por sorte muita gente não acreditou, entre eles o cardeal-arcebispo de Fortaleza, Dom Aloísio Lorscheider. O Mourão fez questão de repetir o mesmo vôo dois ou três dias depois e constatou que era Vênus. Note que o UFO só mudou de posição quando o Britto virou o avião para pousar no Rio de Janeiro. Aí ele foi baixando e o disco sumiu. Lógico, Vênus estava baixo no horizonte. Por causa disso, como vocês sabem, o Britto acabou afastado do comando da VASP.

Suenaga – Em 1975 o senhor viu outro UFO na cidade de Guarapari, no Espírito Santo.
Cleto – Tive a impressão de que ele ia me pegar. A luz já estava bem perto quando se desviou e partiu, quebrando a barreira do som. Esse caso conto em detalhes em meu livro Sinais Estranhos.

Mauso – Ele jogou um foco de luz?
Cleto – Jogou um foco que era transparente. A luz não era como essas de farol, parecia compacta.

Suenaga – Luz sólida?
Cleto – Parecia que havia alguma solidez nela. Não digo que fosse sólida. Mas quando chegou pertinho deu uma guinada para o outro lado.

Fotografias feitas por um sargento-fotógrafo da FAB, de marcas deixadas no solo pelo OVNI que atacou Tiago Machado. Foto contida no livro “Sinais Estranhos”.

Suenaga – Um documento oficial que o senhor possui, assinado por uma alta patente das Forças Armadas – cujo nome foi omitido, assim como o de outros militares envolvidos –, corrobora a veracidade do Caso Tiago Machado, atestando que, ao todo, cerca de 500 moradores da Vila Pinheiros, em Pirassununga, a 206 km de São Paulo, saíram para ver o disco voador na manhã de 6 de fevereiro de 1969. Os técnicos constataram que o capim amassado nos terrenos do Instituto Zootécnico da Indústria e Pecuária (IZIP), onde o disco pousou, adquirira uma coloração amarelada e exibia uma faixa queimada. Dizem que depois de ter sido atingido na perna pelo raio disparado pela arma de um dos ufonautas, o Tiago foi levado pela Força Aérea de Pirassununga.

Cleto – Que eu saiba, ele foi apenas levado ao hospital para tratamento. A FAB, tendo à frente o brigadeiro José Vaz da Silva, ouviu mais de 300 testemunhas, inclusive o médico que examinou o Tiago, e todos foram coerentes no que relataram. Quando estava escrevendo sobre esse caso para o meu livro Sinais Estranhos, um antigo amigo meu me ligou e marcou um encontro comigo. E por coincidência me contou mais detalhes a respeito e me forneceu as fotos e os documentos que publiquei. Até o Exército se meteu no caso. Os telefones da cidade ficaram mudos durante duas horas. Este foi o primeiro caso ufológico no Brasil em que os telefones ficaram mudos.

Suenaga – Os ufonautas levaram ou não o maço de cigarros que o Tiago jogou em direção a eles?
Cleto – Não levaram, deixaram lá.

Pintura (óleo sobre tela) ilustrativa do momento em que Tiago Machado é atingido por um raio desconhecido. Desenho contido no livro “Sinais Estranhos”.

Suenaga – Qual o grau de importância que o senhor confere ao caso?
Cleto – Considero o Caso Tiago Machado o mais importante da Ufologia Brasileira, o mais balizado em documentação, pelo menos até o dia em que estava escrevendo o livro. Queria abrir Sinais Estranhos com um caso incontestável para logo em seguida abrir a minha guarda e contar os casos ocorridos comigo, mistérios que ocorreram ao longo de minha vida pessoal.

Suenaga – O Regime Militar conseguiu encobrir todos os casos muito bem.
Cleto – O único caso que vazou e veio a púbico parcialmente foi o caso do chupa-chupa, uma vez que foi uma coisa regional demais, perdida no norte do Brasil. Mas não valia a pena jogar aquilo para o grande público. O negócio meio assustador.

Mauso – O senhor teve acesso a esse material do chupa-chupa lá em Brasília ou em Belém?
Cleto – Não. Só recentemente é que um amigo meu me enviou cópias do relatório da Operação Prato. Tomei um susto quando recebi. Não podia nem imaginar que aquilo existia. Mas as fotografias não me deram. Os filmes tentarei conseguir no Núcleo do Comandando de Defesa Aeroespacial Brasileira (Nucomdabra).

Suenaga – O senhor abre seu último livro, Que Ciência Constrói os Discos Voadores?, reproduzindo o relatório confidencial que entregou ao EMFA em 1974.
Cleto –Na ocasião, fui a Brasília conversar com o chefe do Serviço de Informações da Aeronáutica (SIA) e coloquei os discos voadores como um problema de segurança nacional. Sei que esse trabalho foi muito bem recebido lá, mas pelo que sei nunca o aplicaram. Então eu abro o livro com uma síntese do que recomendei ao EMFA, e no capítulo 2 eu entro na teoria que eu queria entrar. No capítulo 3 eu faço uma mistura de Ufologia e cosmologia. Jogo os círculos mágicos da Inglaterra, os círculos enigmáticos, jogo com um caso de ciências.

Edílcio Barbosa em matéria na revista O Cruzeiro de 30 de março de 1980. [Arquivos de Cláudio Suenaga]
Suenaga – Quem era o chefe do SIA na época?
Cleto – Era o brigadeiro Milton Vassalo. E ele falou assim: “Você mandou isso para mim, achei ótima a sua ideia, mas eu vou ter que mandar ao EMFA. Por que você não faz direto ao EMFA?” E ele me destacou um oficial do Gabinete do Ministro aqui do Rio de Janeiro, o Gabinete era lá mas tinha um Gabinete aqui para me ajudar num caso específico que eu estava pesquisando, e que eu queria ver se era uma fraude. Queria o apoio e precisava do apoio da FAB para saber se era fraude e eu apurei que era fraude. Tratava-se do Caso de Edílcio Barbosa, aquele cara que anunciou que um disco voador iria aterrissar no dia 7 de março de 1980 em Casemiro de Abreu e reuniu 25 mil pessoas lá. Todo mundo me telefonava. A Rede Globo veio aqui e eu gravei uma entrevista na véspera, mas não deu em nada porque esse Barbosa era um falsário.

Mauso – E o que aconteceu com o Barbosa?
Cleto – Ele acabou morrendo.

Mauso – Mas ele teve que fugir da cidade?
Cleto – Isso eu não sei. O Barbosa ficou vários e vários meses falando que via discos voadores, falava em brigadeiro, em FAB, uma porção de coisas. Aos poucos fui dando corda até que marquei um encontro com ele na porta do Ministério da Aeronáutica. Ele nunca mais apareceu. E aí eu peguei a ficha dele. Nunca foi da Aeronáutica, nunca foi nada, era tudo mentira, tudo fantasia dele. E ele acreditava que conversava com extraterrestres todos os dias, todas as horas. Foi um desses casos de desanimar mesmo. Mas que a gente aprende pesquisando.

Suenaga – No livro o senhor chega a explicar como é o funcionamento dos discos voadores?
Cleto – Não entro na questão do funcionamento das naves nem me interessa como elas funcionam. O objetivo do livro é chegar a uma unidade final, a unidade da física. O Einstein chegou ao efeito fotoelétrico. O efeito fotoelétrico permitiu depois a construção da televisão. Mas quando ele ganhou o Prêmio Nobel pelo efeito fotoelétrico, ele não pensava em construir uma televisão. Então eu acho que ninguém pode entender os alienígenas que constroem os discos voadores sem dar um passo adiante rumo à unidade da física. Nós temos três físicas em choque. Precisamos unificá-las para chegar a uma visão nova do universo. Sem que antes cheguemos a entender o que é a gravidade e a eletricidade, nós não vamos entender como funcionam os discos voadores. Vamos ficar feitos os xavantes olhando os aviões no ar. De modo que esse é um trabalho de física teórica que principia com a filosofia do movimento. Durante anos estudei a filosofia do movimento e constatei que os físicos não querem saber de filosofia. Então resolvi começar a discutir essa ideia com os cientistas.

Suenaga – E vice-versa, pois os filósofos não querem saber de física.
Cleto – Eu não me incluo em nenhum dos dois casos. Desde aquele dia em 1954 na reunião no EMFA quando notei que os militares não sabiam explicar o comportamento dos discos voadores, lancei-me a rever os conhecimentos científicos existentes. Comecei a ler os livros de Einstein e de outros físicos e tomei um susto, já que todos estavam em choque. O Einstein acreditava que haveria um substrato final no universo, que ele seria finito, indestrutível, indivisível, que seria responsável pelo arcabouço inteiro do universo. Ele estava desenvolvendo isso mas não chegou a concluir. Ele acreditava que o macrocosmos e o microcosmos são duas estruturas de campo. Ele queria chegar a uma unificação de campo, duas estruturas de espaço que não podem ser distintas, uma sendo gravitacional e a outra eletromagnética. Era preciso haver uma forma de unir o campo gravitacional e o campo eletromagnético. Não chegou também a um final. E peguei a maravilha que é a relatividade, restrita e geral, e me apaixonei mais por isso do que pela Ufologia. E persegui essa ideia de encontrar uma forma, até que tive um insight. Esse insight é que me fez ver o universo unido, ou melhor, todas as físicas unidas e chegando a uma visão final. E a coisa é muito simples. O essencial é conhecer a relatividade para entender melhor o livro. E infelizmente 99% dos físicos do mundo não entendem da relatividade porque não se interessam, porque não dá dinheiro, é parte teórica. Você vai conversar com um físico e ele fala de tudo, menos de relatividade.

Suenaga – E quais foram as conclusões às quais o senhor chegou sobre a relatividade?
Cleto – Vou tentar explicar em linhas bem simples. A relatividade restrita ou especial afirma que a velocidade da luz é a constante universal (c). A velocidade máxima da luz no vácuo é de 300.000 km/s. Luz e matéria são aspectos distintos de uma única realidade, ou seja, matéria é luz materializada e luz é matéria desmaterializada. A conclusão a que eu chego é que se a matéria é luz, temos que conservar o movimento da luz. Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma (Lei de Lavoisier). E o movimento não pode se perder. Se a velocidade da luz é de 300.000 km/s, e a parte que diminui se interioriza, então eu crio duas variáveis do movimento, o interno e o externo. A soma dos dois movimentos dá sempre a velocidade c. Então não é só a luz que é velocidade no universo. O universo inteiro tem absoluto c. Mas como c é uma constante da luz, eu troco c por a, movimento absoluto. Então o universo seria feito por uma unidade final de movimento. Essa unidade final de movimento seria esse jogo de variável interna e externa. No fim, vai ser o segredo para explicar todo o universo. Nós todos temos a mesma velocidade. Eu, a luz, você, uma formiga, o sol, uma galáxia, todos estamos à velocidade da luz. Existe uma forma bem simples de você constatar isso. A velocidade da luz não aceita adição nem subtração. Se você partir em direção ao sol numa velocidade de 100.000 km/s, a luz que chegava a você a 300.000 km/s vai continuar chegando a 300.000 km/s. Se você se afastar de uma fonte luminosa a 200.000 km/s e a luz chegava a você a 300.000 km/s, ela vai continuar chegando a você a 300.000 km/s. O movimento dela é independente de todos os outros movimentos do universo. É o paradoxo da velocidade da luz. Quando você passa do movimento absoluto ele permanece. Porque todos têm o mesmo movimento, então não existe um referencial no universo. O movimento é absoluto, por isso todos medem a velocidade da luz da mesma forma, 300.000 km/s em qualquer situação. Eis o princípio do movimento absoluto ou do absolutismo, a física absolutista ou a relatividade absolutista. Ela acrescenta duas coisas e fecha tudo. Einstein dizia que espaço e tempo são inseparáveis. O relógio é a régua. Um modifica o outro automaticamente. Acrescento o peso, que é a gravidade, o eletromagnetismo e a direção. Assim, qualquer um que se alterar, fará com que os quatro se alterem simultaneamente.

Suenaga – Alguns ufólogos defendem a hipótese de que os UFOs roubam eletricidade.
Cleto – Não roubam. Eles inundam a região de onde se aproximam com um campo eletromagnético tão intenso que anulam os campos elétricos. Eu cheguei a essa conclusão por uma série de razões mas ninguém tem coragem de tocar no assunto.