Entrevista à Revista UFO

Entrevista com Cláudio, realizada pela Revista UFO por ocasião do lançamento do livro Contatados.

Revista UFO – Suenaga, seu novo livro, lançado agora pela coleção Biblioteca UFO, apresenta ao leitor o universo dos contatados, que sempre foi um terreno movediço e polêmico dentro da Ufologia. Por que você escolheu justamente este tema?

CTS – Não escolhi nem muito menos fui escolhido pelo tema, mas impelido a abordá-lo
em decorrência de meus estudos e pesquisas no campo histórico-religioso, voltados precipuamente a tudo relacionado a pregadores, profetas, gurus, líderes messiânicos, movimentos milenaristas, enfim, a toda corrente que legitima suas pretensões ambiciosas em nome de um futuro hipotético. Ao longo dos anos, por dever de ofício, digamos assim, mas também por acaso, acabei entrevistando muitos contatados, bem como seus seguidores, por vezes acompanhando-os de perto em suas ações e até tomando parte de cultos místico-religiosos – sempre na condição de “observador-participante”, cabe sublinhar. Constatei que em volta deles e em todos os lugares e situações que se apresentam, praticamente não há espaço para a dúvida. Ninguém está livre para manifestar-se dizendo: “Isso não pode ser”, porque correrá o risco de ser convidado a retirar-se ou até mesmo ser agredido pelos sequazes. Quando as seitas ufológicas, os ufólogos místicos e os contatados se tornaram a corrente predominante na Ufologia Brasileira em meados dos anos 90, logo se arrogando como os únicos e exclusivos detentores da “verdade”, da “ética” e da “moral”, numa atitude típica e correlata à da esquerda política igualmente totalitária, messiânica e milenarista, denunciei que tudo não passava de uma jogada destinada a manipular e explorar as massas desalentadas, carentes e desorientadas. Por trás da aparente pregação libertária e dadivosa das seitas ufológicas e dos contatados, esconde-se o desejo inconfesso de impor controles cada vez maiores à sociedade.

Revista UFO – A obra apresenta as experiências de dezenas de homens e mulheres que alegaram estar em contato direto com ETs ao longo da história. Qual foi o critério que você usou para escolher estas pessoas para relatar seus casos?

CTS – Selecionar apenas uma parcela entre centenas de “mensageiros” ou “emissários” do cosmos, cada qual mais fantástico e interessante do que o outro, inicialmente acarretou grandes dificuldades, razão pela qual decidi optar pelos critérios de relevância histórica e originalidade, considerando a verdade como sendo nada mais do que a convicção de seus protagonistas. Claro que não iria deixar de fora aqueles que foram os pioneiros, tais como Adamski, Fry, Bethurum, Allingham, Tassel, Menger etc, bem como não pude deixar também de incluir e recuperar nomes menos conhecidos e até injustamente esquecidos como o da pintora Alex Madruga, a qual considero o “elo perdido” da Ufologia, pois sua narrativa já trazia incorporada vários elementos que posteriormente seriam típicos das abduções. Resolvi também promover o ingresso no panteão dos contatados de um nome antes ligado apenas à literatura e ao espiritismo – mais exatamente ao fenômeno da Transcomunicação Instrumental ou TCI –, até como homenagem póstuma singela. Refiro-me à genial escritora Hilda Hilst, que durante sua vida manteve vários contatos com UFOs em sua chácara em Campinas (SP). Àqueles aos quais dediquei mais tempo pela oportunidade que tive em poder realizar uma pesquisa mais acurada, foram Alberto Sanmartin, Aladino Félix e Gênesis Moreira. Quanto aos dois primeiros, logrei acesso a uma vasta documentação até então mantida em arquivos particulares ou reservados e acabei por entrevistar pessoas direta ou indiretamente ligadas a eles. Quanto ao Gênesis, por residirmos na época no mesmo bairro, pude conviver de perto com sua família durante dois anos, acompanhando tudo o que se passava com ele.

Revista UFO – Você acredita que o contatismo é um fenômeno social? Crê que existe mesmo a possibilidade de seres humanos estarem frente a frente com seres espaciais?

CTS – Mais do que um fenômeno social ou meramente psicológico, o contatismo é um fenômeno histórico e religioso de longa duração que se afigura como a continuidade daquilo que o ser humano vem buscando obcecadamente desde que adquiriu consciência, ou seja, o retorno ao cosmos, ao tempo de origem – o in illo tempore, situado não apenas no princípio do tempo, mas também no seu final – e o conseqüente reatamento com sua verdadeira condição, plena e gloriosa, rompida devido a uma maquinação tramada por demiurgos ou seres nefastos empenhados em provocar a sua queda e mantê-lo afastado de sua natureza divina, como insistem em preceituar as mais diversas tradições religiosas e mitológicas, incluindo a judaico-cristã. É a nostalgia da origem, do Paraíso, de quando os seres divinos viviam na Terra junto com os homens. Esse nosso desejo de viver na presença divina e num mundo perfeito, foi traduzido e transposto pelos contatados para uma linguagem espacial, moderna, apreensível pelo homem laicizado e tecnicizado que na azáfama das tensões e problemas de seu atribulado cotidiano, enxerga nesses “escolhidos por ETs”, a possibilidade de recriação de sua cosmogonia, coisa que não é mais oferecida pelas religiões tradicionais. Engana-se quem pensa que a ciência e a tecnologia irão preencher e eliminar a necessidade pelo transcendente, pelo que está além da realidade perceptível, como querem os céticos cientificistas, por exemplo. Como disse o historiador romeno das religiões Mircea Eliade, “o homem moderno, queira ele ou não, conserva ainda os vestígios do comportamento do homem religioso, embora esvaziados das significações religiosas. Faça o que fizer, é um herdeiro. Não pode abolir definitivamente o seu passado, porque ele próprio é o produto deste passado”. Respondendo à outra pergunta, a questão não é crer na possibilidade desses contatos estarem ou não se realizando. O fato é que – descartando as fraudes deliberadas – estão sim se realizando, mas não exatamente da forma como querem ou descrevem os contatados. Os seres que estão por trás disso, que podem ser extraterrestres ou daqui mesmo, estão a manipular a consciência humana a partir de elementos retirados dela própria. Como alertou o astrofísico e ufólogo francês Jacques Vallée, funciona entre nós uma ciência do engano que espalha desinformação em larga escala. A organização por trás disso tem um nome: Comunidade Secreta. Isso o que Vallée chamou de Comunidade Secreta nos anos 60, já deixou de ser secreta desde o início dos anos 90, basta ver essa elite governante autonomeada que integra a cúpula da Organização das Nações Unidas (ONU) destruindo o governo soberano das nações e criando um outro governo no lugar, um governo totalitário de abrangência global. Não se trata de mais uma teoria conspiratória, pois neste caso a conspiração é aberta, escancarada e está aí para todos verem. De tão explícita, as pessoas se recusam a acreditar que isso seja verdade, negando a própria realidade. O projeto de mundo planificado está sendo implantado de maneira sutil e “natural”, exatamente como preconizava o escritor inglês H. G. Wells em seus livros The Open Conspiracy [A Conspiração Aberta] e The New World Order [A Nova Ordem Mundial], que se constituem na “bíblia” dos novos utopistas, em conluio com Organizações Não Governamentais (ONGs), visionários socialistas, revolucionários comunistas, movimentos fundamentalistas, financistas globalistas, sociedades secretas, líderes da Nova Era, ricos capitalistas e suas fundações milionárias isentas de impostos. Esta “nova ordem” está vindo junto com a imposição de novas formas de vida e a destruição de todos os valores e princípios éticos e morais construídos ao longo de milênios de civilização. Aos que ainda se indignam e prezam pela autonomia de sua consciência, só restariam o auto-exílio, o desespero, a resignação ou a tentativa quixotesca de organizar a resistência contra o estrangulamento das liberdades.

Revista UFO – Na sua opinião, esses homens e mulheres que alegaram estar em contato direto com ETs são pessoas diferentes, especiais? Elas têm algum legado a oferecer aos ufólogos ou às pessoas em geral? Qual?

CTS – Os contatados, por terem sido “escolhidos” por uma “divindade”, neste caso extraterrestre, para cumprirem determinada missão cujo objetivo final seria trazer a vitória do bem sobre o mal, corrigir a imperfeição do mundo e implantar o Paraíso terrenal, se sentem vivendo em um outro tempo, o ilud tempus mítico, e por uma série de características inusitadas que apresentam e das quais foram revestidos, podem sim ser considerados especiais. Conforme definiu o sociólogo alemão Max Weber, o que faz alguém ser encarado como detentor de qualidades pessoais extraordinárias, é em primeiro lugar e essencialmente sua personalidade carismática, e não há contatado que não tenha o seu carisma. Nem importa tanto se é dotado ou não de capacidades sobrenaturais ou paranormais, o que importa mesmo é que seja carismático. O legado que oferecem a todos, se é que se pode chamar isso de legado, é o da indagação filosófica, o da inspiração pela busca metafísica, por vezes excêntrica e anárquica, da verdade última, da unidade cósmica, ao lado da exaltação romântica da vitalidade e do vigor primevos, já que as religiões oficiais foram transformadas em grandes estruturas de poder e por conseguinte de manipulação política sórdida, em completo detrimento de suas bases morais e espirituais. Os movimentos gnósticos, ateus e materialistas contribuíram em muito para corroer a tradição judaico-cristã, fazendo abrir um enorme vácuo espiritual, vácuo esse que hoje está sendo preenchido em grande parte pelo islamismo. E o que resta desse vácuo, está sendo preenchido pelas diversas correntes místicas e esotéricas, incluídas aí as seitas ufológicas e os contatados. No campo político propriamente dito, a esquerda é arrogante, manipulacionista, populista, messiânica e totalitária, enquanto a direita é um equívoco ou simplesmente não existe, como no Brasil, resumindo-se a uma camarilha que só pensa em auferir vantagens e proventos pessoais. Nem a religião nem a política conseguem assim resolver minimamente os problemas à nossa volta ou oferecer esperanças. Os contatados e líderes de seitas ufológicas sempre souberam se aproveitar bem desse vazio deixado aberto no imaginário popular pela religião e pela política, preenchendo-o, ainda que improvisada e precariamente, com todo tipo de ficções científicas e fantasias escatológicas.

Revista UFO – Qual é a diferença que você faz entre o fenômeno das abduções e o do contatismo? E como cada situação pode auxiliar na compreensão das visitas que recebemos de seres extraterrestres?

CTS – Antes é preciso notar que há muito mais semelhanças do que diferenças entre um fenômeno e outro. Em ambos há uma “saída do tempo” comum, comparável à experimentada pelos heróis e personagens míticos. O tempo, ou uma parte dele, morre, o que se dá na passagem a um universo temporal alheio que promove a integração a outros ritmos e a uma outra “história”. O tempo no Fenômeno UFO tende a ser vivenciado como um tempo forte, sagrado, cuja repetição a posteriori significaria recriar uma realidade anterior poderosa e marcante. O tempo sagrado é o tempo de origem, aquele instante prodigioso da realidade em que ela se manifestou pela primeira vez. Os contatos imediatos têm conseguido alçar-se ao regime ontológico [Tudo o que é repetitivo e se encontra no mesmo estado] dos mitos, transformando uma situação particular em situação exemplar. No caso do contatismo, o contatado é gentilmente convidado a participar de uma vida trans-humana, a integrar-se ao cosmos ou aos “deuses”. No caso das abduções, o abduzido é submetido a uma espécie de ritual xamânico de iniciação. Ele é violentamente arrancado de sua família e do seu meio, sendo transportado para um local desconhecido onde sofre torturas, mutilações, escarificações e lhe é incutido uma nova língua e um novo conjunto de conhecimentos e informações. Sua vida anterior é deixada para trás, é como se passasse por uma morte e um renascimento. Destarte, tanto os contatismos como as abduções indicam a passagem de um modo de ser a outro, de uma situação existencial a outra, como que mostrando ao homem que ele não está acabado, que ele deve nascer uma segunda vez, desta vez espiritualmente.

Revista UFO – Seu livro contém alguns capítulos bastante longos e detalhados, em que você descreve casos específicos em minúcias. Isso deve ter demandado uma pesquisa bastante demorada. Quanto tempo você dedicou à obra? E quais foram as principais dificuldades que você encontrou para escrevê-la?

CTS – Este livro foi escrito paulatinamente ao longo de mais de uma década, em períodos intercalados. As maiores dificuldades, para variar, foram a falta de tempo e de recursos. A pesquisa em si, tanto de gabinete em arquivos públicos e particulares, como de campo, entrevistando pessoas, foi em grande parte bastante cansativa, mas também prazerosa. Apenas no que se refere ao contatado Aladino Félix, foram necessários cinco anos de laboriosas buscas em empoeirados arquivos, de estudos especializados e de consultas a jornais, revistas antigas e fotografias, de transcrição de entrevistas e de decodificação de rascunhos e apontamentos.

Revista UFO – Sabemos que sua tese de mestrado em História, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), no campus de Assis, foi uma espécie de embrião do livro que agora você está lançando pela Biblioteca UFO. Quanto tempo você dedicou a ela (a tese) e quais foram os principais desafios que encontrou para realizá-la?

CTS – É bom deixar bem claro que o presente livro não é a tese em si, mas apenas uma pequena parte dela. O livro na verdade é o desdobramento de um tema o qual não pude desenvolver na ocasião. O conteúdo integral da tese, devidamente atualizado, revisado e acrescido de novos dados, informações, ponderações e análises, optei por dividir em três livros ainda inéditos, a saber: A História Oficial dos UFOs: De Mito Moderno à Realidade Histórica, A História Oficial dos UFOs no Brasil: Do Disco Voador da Barra da Tijuca ao ET de Varginha, e A História Oculta do Regime Militar Brasileiro, sobre as conspirações e os atentados terroristas do escritor, contatado e líder messiânico Aladino Félix, o Dino Kraspedon ou Sábado Dinotos. Apenas elaborando o projeto da tese e me preparando para o processo de seleção, foram seis meses. A tese levou cinco anos para ficar pronta e exigiu tremendos sacrifícios de minha vida pessoal, não só pela rigorosidade intrínseca a esse tipo de trabalho acadêmico, como também pelas inúmeras dificuldades enfrentadas, muitas delas derivadas de preconceitos, incompreensões e da falta de apoio institucional, exceção feita ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Enfrentei ainda oposições de setores obscuros que em vários momentos tentaram impedir a continuidade do projeto, fosse por meio da restrição ao acesso a certos arquivos ou documentos oficiais ou de golpes desferidos contra todo um planejamento. Por outro lado, contei com o valioso apoio de pessoas que nunca deixaram de acreditar na viabilidade de meus esforços, mesmo nos momentos mais difíceis.

Revista UFO – Qual foi a receptividade que sua tese teve perante a banca examinadora da Unesp operante e o colegiado acadêmico em geral de professores e alunos? Alguma rejeição? Alguma surpresa?

CTS – Ainda que muitos duvidassem que o Fenômeno UFO pudesse ser objeto de estudo acadêmico e me encarassem com certa relutância, desconfiança e indulgência, a receptividade, tanto entre os alunos como entre os professores, tirando os contras, foi excelente. Na banca examinadora, além de contar com a presença de meu orientador, o antropólogo professor doutor Benedito Miguel Angelo Perrini Gil, que foi aquele que desde o início acreditou em mim e no meu projeto, tive a honra de ser sabatinado pelo sociólogo da Universidade de São Paulo (USP), professor doutor Lísias Nogueira Negrão, um dos maiores especialistas em messianismo e seitas religiosas no Brasil, e pelo historiador da Unesp, especialista na obra de Joaquim Nabuco, professor doutor Milton Carlos Costa. O problema é que no transcurso da elaboração da tese, encontrei poucas pessoas com quem pudesse manter um diálogo pertinente, uma vez que a ignorância que impera em relação ao Fenômeno UFO – bem como em relação a outros temas até bem mais relevantes – nos meios universitários é atroz. E o que é pior, muitas atitudes em relação ao meu trabalho eram típicas de quem primeiro toma posição para depois estudar o assunto. Ratificando o diagnóstico do filósofo Olavo de Carvalho, “a universidade não foi pensada no Brasil em termos de valores, de cultura. Foi formada em função de um maquiavelismo político de esquerda que acabou com a universidade”. Ainda de acordo Carvalho, “o brasileiro é negligente com o conhecimento e se contenta em exercer um teatro de aparências em que parecer amável e simpático é a preocupação primordial, uma característica particularmente agravante nos meios acadêmicos”. A universidade no Brasil infelizmente tem servido a outras finalidades, principalmente de ordens políticas e mercadológicas, marginalizando a busca pelo conhecimento. No Brasil, em termos gerais, o grande problema é a falta de cultura, de leitura, as pessoas não leem livros. Canso de receber e-mails de indivíduos que me atacam com ódio vociferante sem terem entendido nada do que escrevi e ainda querem entabular uma discussão comigo. Ora, como vou discutir com um sujeito que não lê livros e desconhece conceitos elementares?

Revista UFO – Contatados já está sendo considerado por vários ufólogos como a fonte de referência mais consistente sobre o fenômeno do contatismo. Você pretende expandir seu trabalho? Como e quando?

CTS – Expandir em termos de narrar novamente as histórias contadas e recontadas por outros contatados, dificilmente, pois seria por demais repetitivo, a não ser que me concentre em um caso em especial. As alegações são quase sempre as mesmas, variando muito pouco, portanto para mim bastam as que já foram analisadas. Ademais, Contatados faz parte de uma trilogia de livros histórico-religiosos que se complementam, pois tratam do fenômeno do milenarismo, do messianismo, da crença e do fanatismo. Os outros dois títulos que escrevi são Sangue no Céu: O Apocalipse Agora, que é um dos poucos no Brasil a destrinçar as seitas religiosas – incluindo as ufológicas, naturalmente –, e o já mencionado A História Oculta do Regime Militar Brasileiro. Ambos os livros ainda estão inéditos.

Revista UFO – O subtítulo da obra é Emissários das Estrelas, Arautos de Uma Nova Era ou a Quinta Coluna da Invasão Extraterrestre?, e você o coloca em tom de questionamento. Mas o que são, para você, os contatados?

CTS – Os contatados se autodenominam e se autoproclamam “Emissários das Estrelas” e “Arautos de Uma Nova Era”, mas penso que eles estão mais para a “Quinta Coluna da Invasão Extraterrestre”. Eles não percebem ou não querem se dar conta de que não estão agindo autonomamente e por expensas próprias, e sim servindo como autômatos num plano geral muito maior de dominação do qual são apenas títeres induzidos e treinados a recrutarem outros títeres que por sua vez serão levados a recrutarem outros títeres e por aí vai. Parasitar um corpo para se apropriar de seu espírito é a mais velha e axiomática das táticas de controle. O contatado é como o médium que se deixa possuir e usar sem saber exatamente a que tipo de seres está servindo. Para o ex-padre jesuíta espanhol Salvador Freixedo, inaugurador e mais ardoroso defensor da corrente que propugna que os extraterrestres não passariam de seres nefastos disfarçados de deuses que apenas usam os seres humanos como fontes de recursos para suprir suas próprias necessidades biológicas e espirituais, essas “entidades” assumem diversas formas ao se apresentarem ao homem, adaptando-se aos padrões de determinada época e cultura, bem como se valem de artimanhas e ferramentas místicas para manejá-lo, da mesma forma que o homem quando necessita dos animais. Freixedo adjudica que o exercício da liberdade de escolha é uma das poucas coisas que ainda restam ao homem diante do controle totalitário que lhe é exercido. Se o homem não exercer esse preceito, estará se prestando ao ridículo, efêmero e degradante papel de “mula” ou “aparelho”, aceitando placidamente a domesticação de sua natureza espiritual e transcendente e permitindo o domínio por parte de outras forças que sempre procurarão mantê-lo ignorante de sua própria condição.

Revista UFO – A essência de seu pensamento se expressa em seu engajamento pessoal, intelectual e espiritual pela reabilitação do pensamento crítico-filosófico e autonomia da consciência individual contra quaisquer tipos de dogmas, ideologias e totalitarismos, que, no seu entender, afrontam e ultrajam o ser humano, pondo em perigo essa própria condição. Exponha-nos com mais detalhes as linhas de seu pensamento.

CTS – Meu pensamento foi influenciado por filósofos como Eric Voegelin, Xavier Zubiri, Ortega y Gasset, Mário Ferreira dos Santos e Olavo de Carvalho; historiadores como Norman Cohn, Johan Huizinga e Mircea Eliade; antropólogos como Edward Evan Evans-Pritchard, Claude Lévi-Strauss, Bronislaw Malinowski e Arnold van Gennep; e escritores como Karl Kraus, Georges Bernanos e Gilbert Keith Chesterton, entre tantos outros. A exemplo de Carvalho, adotei como princípio supremo e fundamental “a defesa da capacidade e interioridade humana e da consciência individual contra a tirania da autoridade coletiva e da realidade que se pretende absoluta e verdadeira por ser massificante e totalizante, sobretudo quando escorada numa ideologia pretensamente científica”. De modo que tenho repulsa aos coletivismos, relativismos, academicismos, historicismos e ideologizações. Essas ideologias são o positivismo, o cientificismo, o evolucionismo, o socialismo, o comunismo etc. Voegelin foi um estudioso alemão que causou comoção nos meios acadêmicos ao classificar os movimentos políticos modernos como o iluminismo, o positivismo, o marxismo, o fascismo, o nazismo e a psicanálise como gnósticos, de modo que não passariam de novas versões de um movimento que se iniciou num sectarismo da Antiguidade, foi combatido como heresia pela Igreja Católica e que culminou nos totalitarismos do século XX. Extraordinariamente reavivado em nossa época, o gnosticismo, com sua “revolta contra a realidade”, palpita no fundo da heresia modernista e é mais do que nunca uma força quase que inamovível na história mundial. Também são considerados gnósticos movimentos modernos como o romantismo, o idealismo, a teosofia, o “tradicionalismo” guénoniano, o modernismo, o espiritualismo, o simbolismo, o surrealismo, a nova era etc. Enquanto os gnósticos antigos buscavam abolir totalmente a realidade e escapar para o além, os gnósticos modernos buscam impor a ordem do além na realidade. Marxistas, fascistas, nazistas, milenaristas, líderes messiânicos e contatados, ao pretenderem impor a qualquer custo uma revolução milenarista, imbuídos que estavam – e ainda estão – da ideia da “imanentização do eschaton”, do fim da história e da instalação de um Paraíso utópico na Terra, provocaram – e ainda estão provocando – cada qual seus estragos escatológicos. De minha humilde posição, ouso dizer que a humanidade já se encontra sob a égide desses poderes monolíticos, discricionários e totalitários gnósticos que se valem de todos os meios para assumirem o controle sobre tudo e todos não apenas como um “Estado dentro do Estado”, e sim como um “Estado acima do Estado”. Aos que ainda se indignam e prezam pela autonomia de sua consciência, só restariam o auto-exílio, o desespero, a resignação ou a tentativa quixotesca de organizar a resistência contra o estrangulamento das liberdades.

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