Entrevista a Jeanne Callegari

Entrevista realizada pela jornalista Jeanne Callegari

Jeanne – Por que investigar um tema tão controverso, como a Ufologia e os contatados?
Suenaga – Esta sua pergunta inicial é um convite à auto-análise. E como tudo que remete a nós mesmos, a nossas escolhas pessoais, por mais que tente lhe responder isso da maneira mais sincera, satisfatória e completa possível, ainda assim ficarei devendo. O que posso lhe adiantar é que se passei a me interessar pelo tema já na mais tenra infância, no final dos anos 70, é porque me sentia atraído por todo tipo de revistas, livros, seriados e filmes de ficção científica. Mais tarde, na adolescência, entre dezenas de motivos, muitos deles de ordem existencial e emocional, comecei a estudar Ufologia pelo fato dela proporcionar a ampliação máxima dos conhecimentos e horizontes de visão, forçando a busca de respostas em todas as áreas do saber, quer sejam filosóficas, científicas, religiosas, espirituais etc. E eu sempre procurei estudar de tudo, sempre tive essa tendência de buscar o conhecimento em termos universais e multidisciplinares. Quando fiquei mais velho e mais amadurecido – não necessariamente mais inteligente – resolvi então me arriscar levando o tema à universidade, daí que acabei me tornando o primeiro sujeito no Brasil a defender uma dissertação de mestrado sobre Ufologia.
No que tange particularmente ao assunto contatados, tema de meu primeiro livro, fui impelido a abordá-lo em decorrência de meus estudos e pesquisas no campo histórico-religioso, voltados precipuamente a tudo relacionado a pregadores, profetas, gurus, líderes messiânicos, movimentos milenaristas, enfim, a toda corrente ou movimento de massas que legitima suas pretensões ambiciosas em nome de um futuro hipotético e aposta na ruptura da ordem histórica, valendo-se de todo tipo de ações, legítimas e ilegítimas, para restaurar uma mirífica “Era Dourada”, inaugurar uma “Nova Era”, inventar uma nova sociedade ou reinventar a própria natureza humana – como diria Hannah Arendt –, o que os tornam assaz perigosos. Tanto mais perigosos eles se tornam à medida que procuram acelerar as mudanças históricas, ansiando mesmo pelo “fim da história” e fomentando a irrupção e a propagação de movimentos revolucionários fanáticos, sectários, irracionais e sangrentos.
Em suma, todos os contatados, praticamente sem exceção, estão imbuídos de uma mentalidade revolucionária, que por si só é mal intencionada, pois consiste em inverter a realidade e a ordem da realidade. Trata-se de um sonho gnóstico, a de criar outra realidade no lugar desta, uma realidade que está somente dentro da cabeça deles. O discurso deles é basicamente o mesmo, e o que sempre pregaram e continuam pregando é a insurgência de uma “Nova Era” messiânica, é a realização do milenarismo, de um mundo totalitário em que a democracia é suprimida e substituída por um governo global formado por uma elite autonomeada de “super-homens amorais”, para empregar um termo do historiador inglês Norman Cohn. Isso já está acontecendo, e faz tempo que está acontecendo sob a égide da estratégia mais perversa e astuta que já houve, aquela que fora preconizada pelo filósofo marxista italiano Antonio Gramsci, ou seja, o domínio do imaginário mediante o domínio da cultura. O que faz de Gramsci um dos sujeitos mais nefastos e universalmente apreciados pelos inimigos da liberdade, é que como dirigente se entregou à realização do ideário comunista como um projeto coletivo de reforma do ser humano como um todo, a qual passaria, entre outras coisas, por intentar fazer do “eu”, um “nós”, ou seja, dissolver a consciência do sujeito individual numa espécie de “ser” coletivo.
Ora, essa estratégia revolucionária, que faz uso de tudo e de todos, e logicamente usou e continua usando os contatados e a Ufologia como um todo, é mais antigo do que andar para frente. Como há tempos o filósofo Olavo de Carvalho vem alertando, quer em seus artigos ou em seus livros, isso está no cerne da mentalidade gnóstica/revolucionária. Porque o gnóstico considera que ele tem linha direta com Deus, isso se ele não for o próprio Deus. Ele quer ter um direito que ninguém deveria ter. Só a iniciativa espontânea da sociedade, que é sempre variada e autocontraditória, que só se resolve pela somatória ao longo do tempo, e de muito tempo, só a sociedade inteira é que pode gradativamente reformar a si mesma, e jamais com a coerência de um plano que venha de cima ditado pelos “iluminados”. A mentalidade revolucionária acredita que ela possui o direito de reformar a sociedade inteira para estabelecer o Reino Messiânico, quer dizer, eles tomam o papel de Deus. O Juízo Final é colocado após o tempo, fora do tempo, acima do tempo, na eternidade. Veja que os contatados e líderes de seitas em geral colocam o Juízo Final para dentro da história, como se fosse um momento do tempo. Isso é mentalidade revolucionária. Não preciso dizer que a mentalidade revolucionária é o pior flagelo que já se abateu sobre a espécie humana desde que ela existe. Os revolucionários de qualquer espécie – quer sejam fascistas, nazistas, comunistas, socialistas, positivistas, anarquistas, líderes messiânicos, contatados etc – , cada um deles se coloca na posição de Deus, de quem vai instaurar o Paraíso na Terra. Basta o fulano pensar dessa maneira para se tornar perigoso. E os contatados sempre tiveram uma mentalidade e uma perspectiva revolucionária. Eles sempre interpretaram a história dentro de uma concepção hegeliana da história, ainda que inconscientemente. Só que para eles o fim da história e a instauração do socialismo, do comunismo e do totalitarismo, viria com a chegada dos “ETs salvadores”…
Quando as seitas ufológicas, os ufólogos místicos e os contatados se tornaram a corrente predominante na Ufologia Brasileira em meados dos anos 90, logo se arrogando como os únicos e exclusivos detentores da “verdade”, da “ética” e da “moral”, numa atitude típica e correlata à da esquerda política igualmente totalitária, messiânica e milenarista, fui praticamente o único a denunciar que tudo não passava de uma jogada destinada a manipular e explorar as massas desalentadas, carentes e desorientadas. Por trás da aparente pregação libertária e dadivosa das seitas ufológicas e dos contatados, esconde-se o desejo inconfesso de impor controles cada vez maiores à sociedade, e é isso tudo que procuro expor em meu livro.

Jeanne – Susan Clancy, psicóloga de Harvard, estudou os abduzidos. Ela diz que achava que o meio científico deveria prestar mais atenção ao tema, não por as histórias serem verdadeiras, mas porque elas dizem algo sobre o ser humano e sobre a psicologia do homem em particular. Você concorda com essa posição?
Suenaga – Apesar de não me filiar a corrente a qual ela pertence e de discordar de muitas das proposições e conclusões dos psicólogos, concordo inteiramente com o que ela diz nesse tocante. Os meios científicos e acadêmicos em geral deveriam sim prestar mais atenção à Ufologia, não a encarando meramente como um fenômeno físico ou não-físico, mas como um fenômeno psicológico, social, cultural, religioso e até político-ideológico, já que sempre serviu e tem servido de instrumento para a conquista e manutenção do poder.

Jeanne – Susan concluiu que os abduzidos – em sua maioria – não são loucos nem mal-intencionados, mas que passaram por experiências explicáveis, como paralisia do sono e criação de memórias que nunca existiram. O que você acha dessas explicações?
Suenaga – Na Ufologia não há uma panaceia, uma explicação única que sirva para tudo, como pretendem aqueles que defendem esta ou aquela teoria ou posição. De modo que penso que esses diagnósticos explicam uma boa parcela dos casos, embora não todos. Vou citar alguns exemplos.
Na década de 70, Alvin H. Lawson ministrava aulas sobre o pensamento crítico na Universidade Estadual da Califórnia, valendo-se dos UFOs como tema central. Ele resolveu então realizar ali uma experiência interessante: induziu, por meio da hipnose, 10 mulheres e seis homens, entre 12 e 65 anos, a acreditarem terem sido raptados por UFOs. Os relatos que forneceram não diferiam em nada daqueles colhidos espontaneamente: o objeto voador foi descrito como tendo a forma aproximada de um disco em torno do qual giravam anéis como os do planeta Saturno; no interior da nave havia painéis de controles, luzes muito fortes e telas de televisão; os tripulantes eram humanóides, robôs ou animalescos; estes paralisaram o seqüestrado e o examinaram numa mesa de operações; as mensagens eram de cunho pacifista e ecológico; os seqüestrados receberam ordens para esquecer a experiência; efeitos físicos descritos: cansaço, bem-estar, inquietude e excitação; efeitos psicológicos descritos: perplexidade, ansiedade e paranormalidade.
A hipnoterapeuta Sharon Filip, de Seattle, recordava-se perfeitamente bem de um contato imediato que tivera na infância. Chris ainda guardava recordações do trauma que sofrera aos cinco anos de idade quando se perdera dos pais num shopping center. Ambos estavam convencidos de que suas memórias eram reais. Mas podiam ser totalmente falsas. Sabe-se hoje que o cérebro humano possui a faculdade de criar falsas memórias de incidentes traumáticos como abusos sexuais, por exemplo. “Desde que o sugestionamento seja eficiente, é possível fazer com que as pessoas acreditem que viveram experiências que jamais aconteceram”, afirmou a psicóloga Elisabeth Loftus, da Universidade de Washington, em Seattle. No caso de Chris, sua memória foi implantada numa experiência de laboratório em que a equipe de Loftus aplicou perguntas chave de modo a sugerir que o incidente havia realmente ocorrido. Chris passou não só a acreditar na existência do fato mas também a inventar novos detalhes. Mesmo quando a equipe revelou que havia forjado o fato, o adolescente não quis acreditar. As crianças são especialmente vulneráveis às técnicas de sugestionamento. Não por acaso, a maioria dos abduzidos alega ter sofrido o primeiro seqüestro ainda na infância.
Psicólogos como Robert Baker, da Universidade de Kentucky, vêem nas histórias de abdução sintomas de doenças físicas ou psíquicas. Já outros como o já falecido John Mack, da Universidade de Harvard, insistem em tomá-las como fatos concretos. Para Baker, a chamada paralisia ou apinéia do sono, por exemplo, pode desencadear alucinações aparentemente reais: “Quando se hipnotiza as pessoas, a imaginação delas é acionada. E quando imaginação é acionada, tudo se torna possível. As experiências parecem reais. Se não parecessem reais, não seriam alucinações”. Os raptados costumam referir-se a um período de tempo do qual não conseguem extrair lembranças: “Eles não conseguem lembrar-se de nada simplesmente porque nada aconteceu”, arrematou Baker. Susan Blackmore, psicóloga da Universidade do Oeste da Inglaterra, em Bristol, referendou-o dizendo que “todos nós queremos acreditar que aquilo de que nos lembramos realmente aconteceu”. As falsas memórias podem ser reconfortantes, pois através delas as pessoas atribuem a culpa dos seus problemas a outros.
Muitos relatos de abdução podem ainda ser atribuídos ao que os psicólogos denominaram de “traumas de nascimento”. O que os abduzidos comumente reportam: túneis, portas e salas em forma de útero, luzes brancas e difusas, instrumentos cirúrgicos. Façamos a correlação: o feto se move ao longo de um canal – túnel –, até sair pela vagina – porta – e ver-se dentro de uma sala branca – hospital –, onde é manipulado por estranhas criaturas – médicos e enfermeiras – que lhe espetam e cutucam instrumentos. O psicólogo e ufólogo argentino Roberto Banchs em seu ensaio intitulado “Abduções: A Experiência Traumática e o Caminho Regressivo” [Perspectivas Ufológicas, México, nº 7, fevereiro de 1996, p.12 e 15], assevera que “O nascimento, como recordação ou recriação, constitui um dos momentos mais dramáticos na vida de todo indivíduo. Angústia e prazer. Êxtase místico, consciência cósmica ou transcendental, estados alterados de consciência ou ‘experiência oceânica’ como alegremente se chamou a esse gozo, ante-sala, ventre materno, ‘rito de iniciação’, de passagem, de angústia, que deixará sua marca”. Para Banchs, os extraterrestres não vêm do espaço, mas constituem uma realidade intra-humana: “Há episódios com alto conteúdo simbólico que, claramente, guardam uma estreita relação com a vida das testemunhas e seu entorno”.
O interior do disco voador afigura-se, pois, como um útero materno quente e protetor. Houve casos de abduzidos que apareceram em posição fetal no interior da nave, iluminado por uma luz difusa. Entre as sensações comumente experimentadas, estão a paralisia, a absorção, o desvanecimento e a perda de consciência. Em um outro ensaio intitulado “Engenheiro White: Um Caso de Fantasia Pré-natal” [Ibid., p.22-23], Banchs assinalou que dentro do ventre materno há presença de luz; a mãe transmite não só certas imunidades, como também fortes emoções que provocam contrações no útero, determinando a paralisação momentânea do feto; no final da gravidez, o bebê vira-se de cabeça para baixo e a pressão na parte superior do abdômen da mãe desaparece, permitindo que ele respire com maior facilidade – daí a sensação de ser absorvido; ao sair para o ambiente externo, o bebê vê uma luz intensa, muito mais do que aquela que havia dentro do útero; devido a grande quantidade de energia desprendida no nascimento, o bebê pode perder as forças e desvanecer.

Jeanne – Terry Matheson analisou o Fenômeno UFO como um produto cultural. Martin Kottmeyer escreveu sobre o background cultural dos relatos de abdução. Vi que você escreveu sobre isso, em um livro ainda não publicado. Qual é esse background?
Suenaga – Esse background é formado por todo um conjunto de tradições, lendas, mitos, folclores, contos de fadas, histórias populares de ficção científica, filmes etc, os quais sempre foram dirimidos, obliterados e distorcidos pelos ufólogos e pesquisadores aferrados à crença nos discos voadores, refratários às categorias que os contrariam ou os colocam em xeque e comprometidos emocional e ideologicamente em provarem de qualquer maneira e a qualquer custo a existência de visitantes extraterrestres. A pressão exercida pelos demais ufólogos não permite que eles julguem com isenção e liberdade as noções que o próprio grupo sedimentou.
De acordo com Martin S. Kottmeyer, que se incumbiu de traçar paralelos entre os casos ufológicos e cenas de filmes e seriados de televisão, os ufólogos sistematicamente cortam dos relatórios as fontes culturais provenientes desse conjunto de tradições, principalmente da ficção científica, não porque estejam tentando deliberadamente enganar o público, e sim por causa de sua parcialidade inconsciente como militantes pró-UFOs.
Outro pesquisador que destacaria, pela agudeza de sua linha de abordagem, é o sociólogo francês Bertrand Meheust, que se debruçou sobre a literatura de ficção científica do período anterior à Primeira Guerra Mundial e descobriu que dezenas de obras versavam sobre objetos aéreos estranhos que faziam parar motores de automóveis, que perseguiam trens e carros, que atingiam pessoas com raios estranhos e as levavam para o interior de estruturas esféricas. A abdução por alienígenas era o tema central de muitas histórias, a maioria em francês ou inglês, publicadas entre 1880 e 1940.
E como esse background vem sendo construído hoje? Da mesma forma como sempre foi, ou seja, por meio do pensamento mítico. Significativamente, contatados, abduzidos e testemunhas em geral, não costumam se expressar em linguagem histórica ou conceitual, mas mítica. O pensamento mítico, tal como o artesão que conserta ou fabrica utensílios e adornos a partir de restos e pedaços de outros objetos, trabalha com um repertório de elementos retirados de outros conjuntos culturais. Esses conjuntos heteróclitos poucas vezes afiguram-se perfeitamente adequados ao que se pretende representar ou definir a título de resultado final. Por serem restos de construções anteriores, cada elemento já traz em si um número delimitado de aplicações. Valendo-se de resíduos culturais – palavras, experiências, objetos –, o pensamento mítico reordena incansavelmente os acontecimentos para descobrir e lhes conferir sentidos. Ele não cria nada de novo, limitando-se ao já existente. É por essa razão que até hoje nenhum relato ufológico trouxe algo que não fosse reminiscente do arcabouço de nossa própria cultura: lendas, tradições, crenças, fábulas, folclores, contos de fadas, ficções científicas etc. Não por acaso, todos os mitos – e a Ufologia é um mito moderno – têm em comum uma semelhança estrutural da qual cada mito específico é uma versão entre outras possíveis.

Jeanne – Naves espaciais são o mito moderno, como defendeu Jung?
Suenaga – Considerando que o Fenômeno dos UFOs eclodiu como a continuação, sob uma fachada tecnológica, dos antigos sistemas de crenças, projetando no céu o folclore da era espacial, não há como contestar isso, com a vantagem de que, ao invés dos mitos clássicos, distantes e encobertos pela névoa do tempo, temos a oportunidade de lidar com um dos poucos mitos vivos, dinâmico, atual, contemporâneo, em pleno curso de sua elaboração narrativa. É sintomático que no curso e predomínio da globalização que privilegia o homo economicus, o individualismo, a escolha racional e a razão instrumental, simultaneamente à expansão dos mercados e à intensificação dos fluxos das forças produtivas, multipliquem-se as aparições de UFOs e diversifiquem-se as modalidades de suas manifestações. Na Ufologia nunca foram tão intensos os debates em torno da diversidade, identidade, vivência, resistência psicológica às abduções, ao mesmo tempo em que se desenvolvem teorias e práticas terapêuticas e sistemáticas sobre afetividade e subjetividade, buscas ou afirmações do “eu”, em contraponto ao “outro” [O alienígena]. Conforme vimos na minissérie Taken, de Steven Spielberg, é como se os objetivos dos extraterrestres de emaranhassem e se confundissem com os nossos. O que se apresenta inicialmente como algo discrepante, difícil, intrincado, opaco ou indefinível, com o tempo revela-se articulado, significativo, esclarecido, conceituado, explicado e inteligível. É como se cruzassem histórias que se configurassem e se reconfigurassem movendo-se em um roteiro de criadores e criaturas, de clichês e fabulações artísticas. Podemos ter muitas objeções em relação a escola junguiana, e eu mesmo tenho muitas, mas cabe reconhecer sua validade e sua importância, principalmente por ter rompido com o rígido ortodoxismo da psicanálise freudiana e resgatado uma variedade inesgotável de repertórios individuais e culturais. Daí que o próprio Carl Gustav Jung tenha escrito um livro inteiramente dedicado aos UFOs, o que seria inimaginável por parte alguém como Freud, que não se permitia se afastar de certos postulados monolíticos por nenhum procedimento imaginável.

Jeanne – O governo representa um papel importante nas histórias ufológicas. Principalmente como conspirador, que mantém secretas informações e locais como a Área 51. Na sua opinião, qual o papel dos governos no desenvolvimento da mitologia UFO? O que eles escondem?
Suenaga – Maquiavel dizia que o governante deve ocultar a verdade sob muitas mentiras para que se torne impossível encontrá-la. Sem dúvida essa égide foi muito bem aplicada pelos governos, principalmente os totalitários, em relação ao Fenômeno UFO. O próprio termo UFO, cabe lembrar, foi cunhado pelos militares norte-americanos como tentativa de enquadramento a uma ordenação. Há 60 anos, logo após o rescaldo da Segunda Guerra Mundial, começava junto com a Era Atômica e a Guerra Fria, a Era Moderna dos Discos Voadores, saudada com um misto de expectativa messiânica e temor apocalíptico. Debelada a barbárie nazista, enfrentava-se agora, simultaneamente, a ameaça do avanço do totalitarismo comunista e do confronto com uma força aparentemente de fora deste planeta. Nesse contexto, os próprios governos inicialmente não souberam que posição tomar ante as massivas ondas de avistamentos, tanto que as autoridades oscilaram entre a admissão de que os UFOs provinham do espaço exterior e a negação total de sua existência.
Porém, não demoraram a perceber a importância estratégica e geopolítica dos UFOs e de que poderiam manejá-lo de modo a que viesse a se constituir em uma poderosa arma, uma vez que as massas se comportavam de maneira por demais ingênua ante o Fenômeno e desconheciam tudo quanto dizia respeito ao modus operandi, modus faciendi e à metodologia empregada pelo establishment e pela intelligentsia, aceitando sem refletir as informações mais disparatadas, desencontradas, inconcretas e ambíguas, a tudo aquiescendo com indiferença bovina e uma reconfortante sensação de normalidade.
Daí que os governos e as forças militares e de inteligência de quase todos os países, mormente os das superpotências, começassem a estudar dissimuladamente o Fenômeno UFO. Sob este prisma, os que acusam as diversas agências e corporações de encobri-lo, estão cobertos de razões. Esses órgãos, conforme seus interesses, ora têm fomentado e estimulado a disseminação da crença nos UFOs, ora têm ridicularizado, desmoralizado e desmentido os testemunhos de pessoas sinceras que narram os eventos que lhes aconteceram, confundindo sobremaneira o público. Grupos políticos e religiosos têm sistematicamente explorado a credulidade da massa, seja de maneira frívola ou contundente. Essa credulidade é o que está por trás da motivação de tantas farsas e simulações no âmbito do Fenômeno UFO.
A tecnologia dos anos 90 já permitia aos cientistas militares construírem veículos em formas de discos dotados de plataformas de operações de reconhecimento para combate ao terrorismo, por exemplo. Esses discos têm tamanhos variados e são equipados com dispositivos capazes de produzirem efeitos tais como tonturas, torpores, paralisias, desmaios ou alucinações. Desde sempre esses efeitos foram atribuídos aos UFOs. Destarte, fazer as pessoas pensarem que estão sendo atacadas por um veículo extraterrestre e não por uma arma secreta de alguma potência inimiga constitui-se num ardiloso estratagema.
Em decorrência disso, na Ufologia formou-se um complexo semântico de que os governos em geral escondem tudo o que sabem sobre os UFOs, se é que não fizeram acordos espúrios com os próprios ETs, permitindo-lhes que ajam à vontade seqüestrando e violando pessoas. Tentemos apenas por um instante imaginar o governo de um país como os Estados Unidos, a Inglaterra, a Rússia ou a China intimidando e/ou comprando milhares de pessoas, desde militares, cientistas, engenheiros, administradores e chefes de seções, até simples office-boys, servidores de cafezinhos e faxineiros, isso sem mencionar repórteres, fotógrafos, ufólogos e outros que porventura venham a tomar conhecimento da “conspiração”. É claro que nenhum deles poderia contar nada aos seus familiares, colegas e vizinhos, como se o ser humano não tivesse o menor pendor para a fofoca. É praticamente inimaginável que um governo, por mais bem estruturado que fosse, pudesse manter incólume um segredo tão grandioso como esse. Não seria possível fazer uma conspiração nessa escala que durasse tanto tempo sem que ninguém a desvendasse, ainda mais em uma nação democrática em que a imprensa e a opinião pública costumam investigar e expor tudo, sem deixar praticamente nada encoberto, como nos Estados Unidos – bem diferentemente do que ocorre aqui, onde a mídia brasileira não só esconde tudo o que é ruim para as esquerdas e a favorece inteiramente, como vem ajudando a tornar toda a cultura brasileira uma extensão da ideologia esquerdista. A questão é que muitas pessoas que se julgam bem informadas, quando tomam conhecimento de algo que até então desconheciam, automaticamente atribuem a sua ignorância à existência de uma conspiração, a uma vasta operação de cover-up. Não lhes ocorrem que se não sabem é porque deixaram de saber por pura negligência ou preguiça mental.
O que muitos fingem não saber ou preferem ignorar é que por trás de todo esse boato de conspiração o que há é o propósito deliberado de atacar e enfraquecer os Estados Unidos, semeando o ódio contra a única nação capaz de conter o avanço do totalitarismo islâmico e comunista no mundo. Aliás, os que poupam a KGB e os serviços secretos de outros países totalitários e vivem acusando a CIA, a NASA e próprio governo dos Estados Unidos de terem feito acordos com ETs, poderiam assumir de vez sua real identidade como “amigos” de Osama Bin Laden, Mahmoud Ahmadinejad, Kim Jong-il, Hu Jintao, Fidel Castro, Hugo Chávez, Evo Morales e companhia. Portanto, ainda que involuntariamente, estes são apologistas do totalitarismo, cúmplices morais do genocídio praticado pelos regimes comunistas que já mataram mais de 100 milhões de pessoas no mundo e estão colaborando ativamente para acabar de vez com o pouco de liberdade que ainda nos resta.
Em entrevista concedida ao jornalista norte-americano Edward Griffin em 1984 [Disponível no site do YouTube], o ex-agente da KGB Yuri Bezmenov expôs as táticas subversivas do Serviço Secreto Soviético contra a sociedade ocidental, explicando como a ideologia marxista estava destruindo os valores americanos, desestabilizando a economia e provocando crises para que o sistema totalitário comunista fosse implantado no mundo livre. O processo de subversão ideológica, conforme esmiuçou Bezmenov, é legítimo e aberto, e não tem nada a ver com espionagem como se vê em filmes de James Bond. Na realidade, a ênfase principal da KGB não é a área de inteligência. A KGB só trabalha em “espionagem” tradicional [Como a CIA, por exemplo] usando 40% dos seus esforços. O restante é de um outro tipo de ação, de implementação muito mais lenta e de resultados idem, chamado de “medidas ativas” e de “influência”, um processo de desmoralização e lavagem cerebral feito de forma tão sutil, gradual e ininterrupta que, ao fim do processo, as pessoas submetidas a ela agem como se fossem agentes anticapitalistas ou ao menos antiamericanos.
Trata-se basicamente de uma mudança de percepção ou realidade de cada cidadão, pois apesar da quantidade de informações, ninguém consegue chegar a conclusões certas de como se defender, defender suas famílias, suas comunidades e seu país. O processo levaria no mínimo três gerações para dar resultado. O “dar resultado” significa cooptar um número tão grande de militantes e simpatizantes – conscientes ou não – que, quando esta geração galgasse posições de poder e controle dentro da sociedade, o processo se auto-alimentaria a si mesmo, criando mais e mais militantes e simpatizantes. A profundidade da lavagem cerebral obtida seria tal que, conforme as palavras de Bezmenov, “argumentos, nem mesmo a verdade serviria para abrir os olhos desses indivíduos. Mesmo que se mostrasse um campo de concentração em pleno funcionamento a toda esta gente, eles nem assim iriam finalmente acreditar”.
No Brasil, o processo de criação de “inimigos internos”, “alienados” e “idiotas úteis” já foi há muito completado, tanto que assumiram a governança, mudaram as leis e estão aos poucos implementando um regime totalitário disfarçado de democracia, “um sistema repressivo tão perfeito como jamais houve no mundo”, conforme vem denunciando Olavo de Carvalho. Os que foram convertidos e tiveram suas mentes lavadas continuam por sua vez, tal como zumbis ou robôs pré-programados, a pôr em prática as “medidas ativas” de “influência” e “propaganda ideológica”. Pelo que vemos no mundo e no Brasil de hoje, a tal máquina continua a fabricar mais e mais idiotas – alguém aí vai dizer que o comunismo acabou? –, especialmente na América do Sul. A KGB, a maior e mais poderosa organização de espionagem e subversão de qualquer tipo que já existiu na história em todos os tempos, ao contrário do que muitos pensam, continua tão ativa hoje quanto nos tempos da Guerra Fria, levando a contento suas campanhas de guerras culturais, de difamação e de distribuição de dinheiro para corromper consciências. Só na Rússia ainda emprega cerca de 500 mil funcionários, sem contar os mais de 10 milhões de agentes disfarçados e infiltrados em todas as áreas – inclusive na Ufologia – em vários países do mundo.

Jeanne – Você investigou a situação do governo e do exército brasileiro em relação aos UFOs. Eles chegaram a investigar os UFOs? Descobriram algo de importante? Você pode dar algum exemplo?
Suenaga – Seria mais apropriado que esta pergunta estivesse sendo formulada por ocasião do lançamento de meu livro que trata exclusiva e exaustivamente desse assunto e que se intitula História Oficial dos UFOs no Brasil. O que posso adiantar, por ora, é que o Brasil se tornou, em 24 de outubro de 1954, apenas dois meses depois do suicídio do presidente Getúlio Vargas, o primeiro país do mundo a reconhecer oficialmente a existência dos UFOs, isso por ocasião da invasão espaço aéreo da Base Aérea de Gravataí, no Rio Grande do Sul, por uma frota UFOs. Os militares relataram objetos prateados voando sobre a instalação. Um caso seguia outro em uma rápida sucessão e em uma tal extensão que o brigadeiro Eduardo Gomes, então ministro da Aeronáutica, nomeou o coronel João Adil de Oliveira para chefiar a primeira Comissão de Investigação sobre os Discos Voadores criada em nosso país. Em meados de dezembro de 1954, a FAB divulgou um comunicado urgente requisitando a cooperação de outros governos sul-americanos para resolver a estressante corrida aos UFOs, principalmente a um enorme UFO em forma de bacia que voara baixo sobre a Estação Meteorológica da FAB em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, em 22 de novembro.
Os militares brasileiros passaram a considerar ainda mais seriamente os UFOs depois do ataque gratuito que um deles deferiu, na madrugada 04 de novembro de 1957, a duas sentinelas que montavam guarda no Forte Itaipu, na Praia Grande, litoral sul de São Paulo. Um objeto luminoso, do tamanho de um DC-3, surgiu em um céu sem nuvens sobre o Oceano Atlântico, emitindo um forte brilho alaranjado e disparando uma onda de calor que provocou queimaduras de 1º e 2º graus nas sentinelas. O Alto Comando divulgou ordens proibindo qualquer discussão entre os soldados sobre o evento.
A Marinha adotaria uma postura dissuasiva e encobridora que se estende até hoje, sem qualquer alteração. Dois meses após o Caso do Forte Itaipu, ocorreria o famoso Caso da Ilha de Trindade, sobre a qual um UFO em forma de saturno foi flagrado pelo fotógrafo Almiro Baraúna, a bordo do navio Almirante Saldanha, cujos tripulantes, nada menos do que 48 ao todo, confirmaram a presença do objeto. O fato, amplamente noticiado pela imprensa, causou sensação, levando o presidente “bossa nova” Juscelino Kubitschek a ordenar que as fotos fossem oficialmente examinadas. A Marinha, entretanto, jamais divulgou maiores detalhes, tampouco liberou os relatórios dos oficiais a bordo.
Todos os fatos concernentes a um assunto tão estratégico e decisivo como os UFOs tinham necessariamente de ser mantidos em segredo, principalmente quando começaram os turbulentos anos 60. Os ufólogos, por sua vez, nunca deixaram de ser acompanhados e vigiados, não só por sua persistência em reunir provas do que os governos escondem, mas também porque pessoas vagando pela noite e em lugares ermos em busca de discos voadores e extraterrestres podem muito bem ser terroristas ou elementos ligados a movimentos subversivos revolucionários.
No início de 1969, em plena ditadura do presidente Costa e Silva e vigência do Ato Institucional nº 5 (AI-5), o major-brigadeiro José Vaz da Silva, junto com um grupo de altas patentes da FAB, criou dentro das instalações do IV Comando Aéreo Regional (COMAR), no bairro do Cambuci, em São Paulo, o Sistema de Investigação de Objetos Aéreos Não Identificados (SIOANI), o primeiro órgão nacional e da América Latina voltado exclusiva e inteiramente para a pesquisa de casos ufológicos. Logo em março daquele mesmo ano foi lançado o primeiro boletim informativo do SIOANI que esboçava o estatuto e as diretrizes do órgão. O segundo boletim, lançado em agosto, trazia descrições completas de dezenas de casos de vários graus de contato, 58 deles só do Estado de São Paulo.
Nos anos 70, os serviços de informação do Regime Militar, além de investigar discos voadores, passaram a espionar os ufólogos. Documentos por mim localizados no Arquivo do Estado de São Paulo no final de 1994, revelam a ação do extinto Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). As atividades de espionagem incluíam a infiltração de agentes em reuniões de ufólogos e a investigação de abduções por ETs. Os documentos também mostram que o DOPS chegou a convocar para depor dois ufólogos e infiltrou um agente para acompanhar as reuniões periódicas da Associação de Pesquisas Exológicas (APEX). Esses documentos confirmam o que os ufólogos sempre suspeitaram, mas que a comunidade científica via apenas como mais uma paranóia, um sintoma da mania de perseguição que acomete muitos desses estudiosos.
A investigação do DOPS partiu da alegada abdução sofrida em 26 de abril de 1974, na rodovia que liga a cidade de Marília à Guarantã, interior de São Paulo, pelo vendedor de livros Onilson Patero, estabelecido em Catanduva, a 385 km a noroeste de São Paulo. No dia seguinte, conforme relato enviado ao diretor do DOPS pelo delegado Hermínio José Theodoro, “Guarantã foi abalada pela notícia de que Patero fora ‘seqüestrado’ por um ‘disco voador’ há 12 km desta cidade”. O Caso Patero, como ficou conhecido, teve grande repercussão na mídia. Neste que teria sido o segundo seqüestro por UFO que havia sofrido em menos de um ano, o seu carro foi encontrado abandonado numa rodovia na manhã do dia 29 de abril. Patero só reapareceu após seis dias numa fazenda em Colatina, no Espírito Santo.
No relatório que enviou ao DOPS, o delegado Theodoro observa que, ao narrar para jornalistas a sua viagem num disco voador, Patero estava na companhia de quatro ufólogos. O delegado se apressa em identificar os estudiosos e solicitar ao DOPS que os investigue, na tentativa de ajudar a elucidar se, de fato, Patero viajara num disco voador de Guarantã a Colatina. Em São Paulo, a investigação foi comandada por Roberto Quass, à época delegado-adjunto do Serviço de Informações (SI) do DOPS. O SI era então comandado pelo delegado Romeu Tuma – eleito, nos anos 90, senador pelo Partido da Frente Liberal (PFL) de São Paulo – que, segundo mostra um documento, tomou conhecimento da principal investigação sobre o Caso Patero.
Entre os ufólogos que estiveram com Patero em Guarantã e acabaram investigados pelo DOPS, estavam dois dos pioneiros da Ufologia no país, o médico Max Berezovsky, fundador e presidente da APEX, e o professor Willi Wirz. É o delegado Quass quem toma os depoimentos de ambos em 11 de outubro de 1974, quase seis meses após o Caso Pate­ro aparecer nos jornais. No final de outubro, o delegado Quass parece se dar por satisfeito com os depoimentos dos dois. O seu relatório é enviado a Tuma, que o encaminha ao então diretor-geral do DOPS, Lúcio Vieira. O caso parece encerrado – mas será reaberto. Em janeiro de 1975, a investigação sofre uma reviravolta, e os ufólogos é que passam a ser investigados.
Um documento com carimbo do II Exército, enviado ao SI do DOPS, relata que “tem havido reuniões de cunho duvidoso” na casa de Bere­zovsky e num clube israelita em Higienópolis, centro de São Paulo. Nessas reuniões, “com a idéia de se realizar debates sobre Estudos das Civilizações Extraterrestres, buscam contatos com estudantes e outros elementos, possivelmente ligados à subversão, para discussão e combate ao governo constituído”. É este parecer que leva o DOPS a infiltrar agentes nas reuniões dos ufólogos paulistanos. Berezovsky tem certeza de que, no período, teve todos os seus telefones grampeados e era vigiado pela Polícia.
Conforme atestam os documentos, um agente do DOPS assistiu, disfarçado, uma reunião dos ufólogos em 27 de junho de 1975, e relatou detalhes do que viu e ouviu a seus superiores. Mais adiante, o agente informa que “a posição do orador [Flávio Augusto Pereira] ficou manifesta sobre a existência de tais objetos, como civilizações de outros planetas e galáxias, parecendo também evidente que a maioria dos presentes é aficionada e crente no assunto”. Por fim, o agente do DOPS informa que os ufólogos estão em campanha de novos sócios e, o mais importante, que não observou “qualquer comentário, atitude ou alusão política” no encontro.
A Operação Prato, comandada pelo coronel Uyrangê Hollanda, do I Comando Aéreo Regional da Aeronáutica (COMAR), sediado em Belém, cujo propósito foi coletar dados sobre as luzes vampirescas que estavam atacando as comunidades ribeirinhas da Bacia Amazônica, bem como investigar e fotografar qualquer fenômeno anômalo e manter a população histérica sob controle, isso em pleno processo de redemocratização e abertura política do país, só veio a se tornar conhecida graças, inicialmente, aos denodados repórteres dos pequenos jornais locais, e aos esforços renitentes do biólogo e ufólogo Daniel Rebisso Giese. A intervenção das forças militares da Operação Prato ocorreu justamente no período mais crítico do fenômeno envolvendo os notórios “chupas” [Cilindros ou caixas voadoras que disparavam algo como raios lasers que sugavam o sangue e a força vital dos indefesos habitantes], durante o pesadelo do cerco à Ilha de Colares, no Baixo Amazonas, nos últimos três meses de 1977.
O Regime Militar acabou, mas essa política de segredos e encobrimentos permaneceu intocada. Já na Nova República, na chamada “Noite Oficial dos UFOs”, em 19 de maio de 1986, os militares brasileiros foram mais uma vez forçados a enfrentar de frente uma força alienígena, num incidente que remetia à famosa invasão de Washington, D.C., em 1952: nada menos do que 21 objetos não identificados, descritos como luzes brilhantes voando em altíssimas velocidades, foram detectados pelos radares de Santa Cruz, Congonhas, Anápolis e Brasília. A FAB enviou um grupo de caças F-5E e Mirage F-103 para interceptar os intrusos, que subiam e desciam, voando à frente de seus perseguidores e reaparecendo atrás deles. A natureza sensacional deste evento foi tal que o ministro da Aeronáutica da época, o brigadeiro Octávio Moreira Lima, convocou a imprensa no Palácio do Planalto para afirmar, inequivocamente, que os objetos haviam saturado os escopos dos radares e provocado a interrupção do tráfego aéreo no país. Foi formada uma comissão especial para investigar o evento, mas seus resultados, apesar das promessas, até hoje não vieram a público.
Há décadas os diversos governos brasileiros vêm tratando a questão ufológica da mesma forma, isto é, nunca deixando de investigar sistematicamente os casos mais importantes que ocorrem em nosso território e acompanhar as atividades dos ufólogos, ao mesmo tempo em que sonegam informações e obliteram a verdade da população, usando métodos muitas vezes coercitivos, aéticos e imorais. A quase totalidade da grande imprensa e da elite científica e intelectual do país não apenas se omitiram em exigir a divulgação dessas verdades, como que coniventes com essa política de acobertamento, quando não se esforçaram em ocultá-las e minimizá-las, mesmo em tempos ditos “democráticos”.

Jeanne – A partir de 1947, quando o termo flying saucer foi cunhado, o fenômeno virou febre na cultura pop. Apareceu em filmes, livros, discos. O que eles contêm que atraiu a imaginação das pessoas? Na sua opinião, por que as pessoas se tornaram obcecadas com UFOs?
Suenaga – Para milhões de pessoas, crer que inteligências superiores nos consideram uma espécie tão rara e interessante a ponto de atravessarem distâncias incomensuráveis a bordo de fantásticos discos voadores – engenhos capazes de burlar facilmente as barreiras do tempo e do espaço e superar em várias vezes a velocidade da luz – apenas para nos visitarem, pode funcionar não só como um mecanismo compensatório para nossos males e imperfeições, mas também como uma fonte de esperanças diante de um futuro cada vez mais incerto. Ou como uma estratégia da mente humana para aplacar o sentimento de solidão e saudade que se apodera de nós cada vez que recordamos o verdadeiro lugar que a Terra ocupa no universo.

Jeanne – Você conhece o livro Dreamland, de Phil Patton? Se sim, o que você acha dele?
Suenaga – Não me interessei em lê-lo, pois se trata de um tema que para mim está completamente esgotado. Pelo que pude avaliar, o desenvolvimento de aeronaves e artefatos experimentais na Área 51, também conhecida como “Dreamland” – do avião de espionagem U-2 nos anos 50 até os SR-71 Blackbird e os aparelhos de combate stealth, como o bombardeiro B-2 e o caça-bombardeiro F-117 – sob os auspícios de departamentos secretos do governo, além de empresas privadas como a Lockheed, reforçou as teorias da conspiração que haviam nascido no bojo da Guerra Fria. As culturas relativas às forças aéreas e nucleares fundiram-se com o folclore dos UFOs extraterrestres e conspirações terráqueas. Séries como Arquivo X reavivaram tremendamente a crença de que o governo esconderia algo de muito importante ali, conferindo até um certo ar de “credibilidade”. O livro de Marcello Coppetti, OVNI: Arma Secreta [Lisboa, Publicações Europa-América, s.d.], explica muito bem toda essa confusão, parte dela criada pelos próprios governos para desviarem a atenção e melhor ocultarem seus projetos militares e segredos tecnológicos.

Jeanne – Como foi defender a primeira tese sobre UFOs no Brasil?
Suenaga – Esta pergunta já foi respondida em entrevista à UFO [Ver entrevista].

Jeanne – Na sua opinião, os fenômenos não explicáveis são investigados a sério pelos ufólogos? Não faltaria rigor científico nas conclusões dos mais radicais?
Suenaga – Não são investigados a sério porque praticamente inexiste pesquisa ufológica no Brasil. E a pouca pesquisa que é feita, é feita sem o mínimo rigor metodológico e sem qualquer orientação filosófica ou científica. Mas isso acontece de forma geral, e não apenas no campo ufológico, que acaba sendo apenas uma extensão da terrível e calamitosa situação a que chegou a educação em nosso país. Vide o índice de leitura per capita, que é um dos mais baixos do mundo. Canso de receber e-mails de indivíduos que me atacam com ódio vociferante sem terem entendido nada do que escrevi e ainda querem entabular uma discussão comigo. Ora, como vou discutir com um sujeito que não lê livros e desconhece conceitos elementares?
A questão não é apenas de falta de escolas e de professores, de mais recursos para a educação, de melhores salários para os professores etc, mas tem muito mais a ver com o que se ensina e com o modo como se ensina. Ora, a educação no Brasil, desde a básica até a superior, foi destruída com o massacre de doutrinação marxista e propaganda comunista como parte de uma articulação estratégica calcada na “revolução cultural” de Antonio Gramsci, para o qual o movimento revolucionário deveria conquistar primeiro o controle hegemônico da cultura e do imaginário para ir paulatinamente conquistando as estrutura de poder político. Essa revolução não se faz, necessariamente, pela apologia aberta ao comunismo, e sim pela mudança gradual da estrutura de pensamento das pessoas, e não somente de seu conteúdo. Outra maneira de se estupidificar um povo, reduzindo a cultura a um mero repertório de besteiras, futilidades e vulgaridades, é impedindo o acesso às notícias fundamentais sobre tudo o que está acontecendo e só se falando sobre assuntos banais, padronizados, sobre estereótipos, de modo a distanciá-lo cada vez mais da realidade.
Já tive oportunidade acompanhar alguns ufólogos em suas pesquisas de campo, isto é, os poucos que as fazem. Verifiquei que ao entrevistarem as testemunhas, limitam-se a aplicar questionários os mais pusilânimes, que se reduzem ao nome, a idade, o endereço, a profissão e mais alguns poucos dados, insuficientes para que se componha um perfil que permita análises posteriores. O pior é que na hora de indagar a respeito do avistamento, do contato ou da abdução, praticamente induzem a testemunha a lhes contar exatamente aquilo que querem ouvir, ou seja, de que interagiram com um autêntico fenômeno extraterrestre. Basta que ouçam o que querem ouvir e se dão por satisfeitos. Ainda pior do que isso foi constatar, à medida que ia resgatando e revisando casos clássicos, os mais famosos já acontecidos em nosso território, que pouquíssimos casos no Brasil foram realmente pesquisados a fundo e de maneira correta. Veja o Caso Villas Boas, por exemplo, o primeiro caso de abdução da Ufologia moderna, bem como o primeiro em que houve intercurso sexual entre um ser humano e uma suposta Entidade Biológica Extraterrestre (EBE), e que acabou de completar 50 anos. Ao visitar a cidade de São Francisco de Sales (MG) em 2002, palco dos acontecimentos, encontrei vários parentes e conhecidos de Antonio Villas Boas ainda vivos e que jamais tinham sido sequer entrevistados! Como os ufólogos e demais pesquisadores podem ter incorrido em uma omissão dessas? E estou falando do caso mais conhecido e que é tido como um dos mais bem pesquisados de todos os tempos, imagine então o resto.
No Brasil, a Ufologia está reduzida atualmente a duas alas extremas: a dos cépticos positivistas, materialistas e cientificistas, que negam tudo em nome da ciência, confiando-lhe uma autoridade que absolutamente não tem, e a dos ardorosos crentes – quer sejam da linha “científica” ou “esotérica” – que, sem qualquer prova material, alimentam a assustadora certeza de que estamos sendo a todo o momento visitados por seres extraterrestres. Se as duas alas acham que já sabem tudo e encontraram a resposta final, imbuídas que estão de plena certeza, então não sentem necessidade nem vontade de realizar pesquisas. Para sair disso, de nada adianta combatê-las. Todo argumento que tente mostrar a falácia de suas argumentações, só consegue fazê-las se sentirem fortalecidas e plenas de razão. Para escapar desse círculo vicioso, é preciso, decididamente, tomar outra direção, contornar o maniqueísmo e o reducionismo recalcitrantes e abarcar o fenômeno pela via multidisciplinar, recorrendo a linhas filosóficas e metodológicas que são mais eficazes e dotadas de maior força explicativa.

Jeanne – Você acredita nos relatos de abdução e contato? Na sua opinião, qual é a explicação para eles?
Suenaga – Esta pergunta já foi respondida em entrevista à UFO. De qualquer forma, reproduzo a seguir alguns trechos com alguns acréscimos e alterações.
A questão não é crer se esses contatos ou abduções ocorreram concretamente ou se ainda estão ocorrendo. Descartando as fraudes deliberadas, o fato é que ocorreram e continuam a ocorrer, mas não exatamente da forma como querem ou descrevem os contatados e abduzidos, até porque, como já disse, eles não costumam se expressar em linguagem histórica ou conceitual, mas mítica, de modo que seus relatos, que são muito mais simbólicos, não podem ser tomados ao pé da letra. Os seres que estão por trás disso, que podem ser extraterrestres ou daqui mesmo, estão a manipular a consciência humana a partir de elementos retirados de nossa própria cultura. Como alertou o astrofísico e ufólogo francês Jacques Vallée, funciona entre nós uma ciência do engano que espalha desinformação em larga escala. A organização por trás disso tem um nome: Comunidade Secreta. Isso o que Vallée chamou de Comunidade Secreta nos anos 60, já deixou de ser secreta desde o início dos anos 90, basta ver essa elite governante autonomeada que integra a cúpula da Organização das Nações Unidas (ONU) e vários poderes globalistas desmontando as soberanias nacionais – entre as quais a do Brasil e até dos Estados Unidos e Inglaterra – e criando um outro governo no lugar, um governo totalitário de abrangência global. Não se trata de mais uma teoria conspiratória, pois neste caso a conspiração é aberta, escancarada e está aí para todos verem. De tão explícita, as pessoas se recusam a acreditar que isso seja verdade, negando a própria realidade. O projeto de mundo planificado está sendo implantado de maneira sutil e “natural”, exatamente como preconizava o escritor inglês H. G. Wells em seus livros The Open Conspiracy [A Conspiração Aberta] e The New World Order [A Nova Ordem Mundial], que se constituem na “bíblia” dos novos utopistas, em conluio com Organizações Não Governamentais (ONGs), visionários socialistas, revolucionários comunistas, movimentos fundamentalistas, financistas globalistas, sociedades secretas, líderes da Nova Era, ricos capitalistas e suas fundações milionárias isentas de impostos. Esta “nova ordem” está vindo junto com a imposição de novas formas de vida e a destruição de todos os valores e princípios éticos e morais construídos ao longo de milênios de civilização. Aos que ainda se indignam e prezam pela autonomia de sua consciência, só restariam o auto-exílio, o desespero, a resignação ou a tentativa quixotesca de organizar a resistência contra o estrangulamento das liberdades.
Falando particularmente dos contatados, ainda que se autodenominem e se autoproclamem “Emissários das Estrelas” e “Arautos de Uma Nova Era”, penso que eles estão mais para a “Quinta Coluna da Invasão Extraterrestre” – subtítulos de meu livro. Eles não percebem ou não querem se dar conta de que não estão agindo autonomamente e por expensas próprias, e sim servindo como autômatos num plano geral muito maior de dominação do qual são apenas títeres induzidos e treinados a recrutarem outros títeres que por sua vez serão levados a recrutarem outros títeres e por aí vai. Parasitar um corpo para se apropriar de seu espírito é a mais velha e axiomática das táticas de controle. O contatado é como o médium que se deixa possuir e usar sem saber exatamente a que tipo de seres está servindo. Para o ex-padre jesuíta espanhol Salvador Freixedo, inaugurador e mais ardoroso defensor da corrente que propugna que os extraterrestres não passariam de seres nefastos disfarçados de deuses que apenas usam os seres humanos como fontes de recursos para suprir suas próprias necessidades biológicas e espirituais, essas “entidades” assumem diversas formas ao se apresentarem ao homem, adaptando-se aos padrões de determinada época e cultura, bem como se valem de artimanhas e ferramentas místicas para manejá-lo, da mesma forma que o homem quando necessita dos animais. Freixedo adjudica que o exercício da liberdade de escolha é uma das poucas coisas que ainda restam ao homem diante do controle totalitário que lhe é exercido. Se o homem não exercer esse preceito, estará se prestando ao ridículo, efêmero e degradante papel de “mula” ou “aparelho”, aceitando placidamente a domesticação de sua natureza espiritual e transcendente e permitindo o domínio por parte de outras forças que sempre procurarão mantê-lo ignorante de sua própria condição.
Diferentemente dos contatados, os abduzidos não são envolvidos, via de regra, em conversações amigáveis, nem lhes é transmitido conhecimentos, predições, saudações ou avisos. O componente principal por trás das abduções parece ser um desejo de violar fisicamente o indivíduo, desejo esse que já transparecia no comportamento dos súcubos, que costumavam atacar os homens adormecidos, sob o aspecto de mulheres formosas, impelindo-os a quebrarem votos de castidade. Os íncubos, em contrapartida, atacavam as mulheres. A estrutura dos relatos sofreu poucas alterações, mantendo a base original. Transpostos para a linguagem moderna de nossos dias, o demônio e seus asseclas se converteram em alienígenas “caçadores de genes”. O padrão que se criou em torno de casos de mulheres engravidadas por alienígenas é semelhante ao dos sequestros por demônios, pactos com Satã e vôos no Sabbat, incluindo as marcas do Diabo no corpo das feiticeiras. Conforme o sociólogo francês Pierre Lagrange observou em uma conversa com Jacques Vallée, “o único elemento que falta é o familiar – o gato preto ou a coruja usados para acompanhar as bruxas!”. Vallée propugnou também, e com razão, que “Os ‘exames médicos’ a que foram submetidos os sequestrados, conforme descrevem, são com freqüência acompanhados por manipulação sexual sádica, uma reminiscência das histórias medievais de encontros com demônios”.

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