O Coronel da Reserva Edson Chicaroni Vieira esmiúça sua trajetória de lutas, de Aladino Félix a Jair Bolsonaro

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

Conheci o hoje Coronel da Reserva Edson Chicaroni Vieira, partícipe das ações do contatado e líder messiânico Aladino Félix (o Dino Kraspedon ou Sábado Dinotos) em 1968, revoluteado por uma série de eventos sincronísticos que em 1994 convergiram em um atípico 19 de dezembro. Havia marcado com antecedência para esse dia uma consulta aos recém liberados documentos do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), no Arquivo do Estado de São Paulo, então sediado na Rua Dona Antônia de Queirós, nº 183, num prédio da antiga Fábrica de Tapetes Santa Helena, erigido na década de 30 (a nova sede do Arquivo, sito à Rua Voluntários da Pátria, nº 596, zona norte, foi inaugurada em 22 de abril de 1997).

O antigo prédio do Arquivo do Estado de São Paulo na Rua Dona Antônia de Queirós, na Consolação. Fotos de Cláudio Suenaga.

Cheguei pouco depois das 9 horas, no mesmo instante em que entrava um senhor idoso, que nunca vira antes pessoalmente, mas que reconheci de pronto pelos traços inconfundíveis das fotos de revistas e jornais da década de 70. Não havia dúvidas que se tratava do médico Max Berezovsky, um dos pioneiros da ufologia no Brasil e fundador da Associação de Pesquisas Exológicas (Apex). Apresentei-me relevando o quão honrado me sentia em conhecê-lo e imediatamente travamos conversa. Berezovsky contou-me que se dirigira para o Arquivo com o intuito de conferir o que constava contra ele e seu grupo, na época perseguidos pelo DOPS.

Max Berezovsky consultando os documentos do DOPS no Arquivo do Estado de São Paulo. Foto de Cláudio Suenaga.
Cláudio Suenaga e Max Berezovsky no Arquivo do Estado de São Paulo em 19 de dezembro de 1994.

Lembrei-me de ter lido e ouvido qualquer comentário a respeito do envolvimento de Kraspedon ou Dinotos com os militares e resolvi conferir, solicitando a Alfredo Moreno Leitão, documentarista do Arquivo, que procurasse referências dos pseudônimos no fichário. Qual não foi minha surpresa quando, cerca de meia hora depois, ele retornou trazendo várias pastas, cada uma das quais contendo dezenas de páginas de processos e relatórios do DOPS relacionados a Aladino Félix!

Edson Vieira e Alfredo Leitão consultando documentos do DOPS no Arquivo do Estado de São Paulo. Foto de Cláudio Suenaga.

Não obstante, a surpresa maior estaria reservada para as 11h45, horário em que Berezovsky já havia partido para o seu consultório, no bairro da Lapa. Debruçado sobre os documentos, lia avidamente e fazia anotações nas fichas de registro. Na mesma mesa, bem à minha frente, sentou-se um senhor de meia idade, que me pareceu um daqueles ex-militantes políticos, igualmente interessado em rever seu nebuloso passado. Não demorou para que Leitão trouxesse a ele algumas pastas, ansiosamente aguardadas. Quase não acreditei quando constatei o nome escrito na capa de uma das pastas que inclinara à altura de meus olhos. Naqueles poucos momentos ali absorto, já havia retido na mente os nomes da maioria dos seguidores de Aladino. Para confirmar, pedi-lhe permissão para ver uma de suas fichas. Não me enganei, seu nome era mesmo Edson Chicaroni Vieira. Restava confirmar com o próprio se era quem estava pensando, ou apenas um homônimo. Perguntei se o nome Aladino Félix soava-lhe familiar. Estupefato, ouvi-o dizer: “Você está brincando, éramos praticamente irmãos!” Edson também não deixou de ficar assombrado ao ver que estava ali pesquisando justamente a história da qual tomara parte. Dali por diante, ao mesmo tempo em que consultava os documentos, não paramos mais de conversar.

Edson Vieira e Cláudio Suenaga no Arquivo do Estado de São Paulo. Foto de Alfredo Moreno Leitão.

À medida que ia escutando-o, sentia que os acontecimentos passados ainda estavam vivos e presentes para Edson. Embora tenha conhecido outros militantes políticos que guardam fortes recordações, certamente em nenhum deles elas pesavam tanto. Edson não conseguira suplantá-las, e permanecia vivendo numa espécie de tempo contínuo, que anulava as chances de um rompimento. O mais impressionante foi notar que as ideias e os ideais de Aladino continuavam a influenciá-lo, não tão fortemente quanto na época das ações, mas de qualquer forma orientando sua maneira de viver e de pensar. Para cada questionamento, Edson possuía um arsenal de respostas, quase sempre preservando a legitimidade dos atos praticados. Defendeu enfaticamente que “se” tudo tivesse saído como o planejado, “o mundo estaria bem melhor, no seu verdadeiro rumo”. A vida de Edson fundiu-se espiritual e organicamente com a do movimento preconizado por Aladino, de tal modo que se tornou impossível uma desvinculação. Contudo, Edson rechaça que tenha havido um grupo de “seguidores” em torno de Aladino, bem como que este tenha constituído um movimento messiânico, afiançando que eram apenas “amigos” irmanados por ideários e interesses comuns.

Edson Vieira consultando documentos do DOPS no Arquivo do Estado de São Paulo. Fotos de Cláudio Suenaga.
Alfredo Leitão e Edson Vieira no Arquivo do Estado de São Paulo. Foto de Cláudio Suenaga.

Cabe assinalar que Edson não teve qualquer participação nos vários atentados a bomba cometidos pelos demais sectários de Aladino – que correspondiam a cerca da metade de todos os principais atentados políticos em São Paulo em 1968, entre eles a detonação de bombas no terminal do Oleoduto em Utinga, no edifício da Bolsa de Valores, no edifício do Fórum Distrital da Lapa, no QG do 2º Exército e defronte ao prédio do DOPS –, nem tampouco no assalto a agência do Banco Mercantil e Industrial de São Paulo, no distrito de Perus. Edson envolveu-se sim, como ele próprio admite, no roubo de armas armazenado no Quartel General da Força Pública, pelo qual, aliás, acabou expulso da corporação (que em 1970 se fundiria com a Guarda Civil, originando a denominação atual de Polícia Militar) e condenado sumariamente à prisão sem um julgamento justo pelo Regime Militar, paradoxalmente não por ser de esquerda, muito pelo contrário, mas de direita. Como consequência, sua carreira na Polícia foi interrompida e, para sobreviver, teve de aceitar subempregos. Ostracizado, amargou o descrédito de amigos e familiares.

Apesar dos pesares, Edson, nascido em Santos, no litoral sul paulista, em 22 de janeiro de 1944, jamais deixou de defender e difundir os mesmos valores e ideais pelos quais se sacrificou e continua, aos 75 anos, incansavelmente, em plena ativa, participando e tomando parte de manifestações e protestos no centro de São Paulo. Intransigente defensor do presidente Jair Messias Bolsonaro, a ponto de prontificar-se nas redes sociais a defender seu governo, de armas na mão, se preciso for, caso tentem derrubá-lo à força, reputa como “maravilhosa, mesmo com todos os percalços”, vicissitudes, acirramentos dos conflitos ideológicos e esgarçamentos do tecido social, a “real batalha” que viveu e tem vivido.

Edson Vieira (de boné com a bandeira dos EUA) em dois momentos recentes de seu ativismo de direita na Avenida Paulista: em 26 de maio, domingo, nos protestos Pró-Jair Bolsonaro, e no dia 30 de junho, na Manifestação Pró-Sérgio Moro.

Sobre a emocionante, sincera e reveladora entrevista que realizei com ele e que se segue, espera que “o SENHOR DE TODAS AS COISAS faça com que nossa conversa sirva de LUME para o futuro, pois a História se repete”. Vamos então, sem delongas, a ela.

Suenaga: Fale-nos inicialmente de sua infância e adolescência, como foram seus estudos, convívio com os pais e amigos, o clima da época, etc.

Vieira: Pede-me que fale de mim, de minha infância, juventude, família e amigos. Pergunta simples porque venho de família classe-média do interior, onde, nos meados dos anos 50 e 60, todos amavam os Beatles e os  Rolling Stones (rs,rs). Meus pais, pessoas simples e pelo meu nome percebe-se a origem judaica europeia. Papai, assim como meu avô e tios, gostavam muito de política e eram assíduos ouvintes das Ondas Curtas das Rádios Nacional e a extinta Mayrink Veiga do Rio de Janeiro, para se inteirarem do que “corria” pelo Brasil e o Mundo e eu por tabela, também. Os amigos, aqueles dos jogos de bolinhas de gude, pião, na infância e um pouco mais tarde, os dos bailinhos de garagens e que acredito, não diferenciava muito dos grandes centros. Os estudos, aqueles públicos com PRIMÁRIO, GINASIAL e CIENTÍFICO e de primeira qualidade, com professores que ensinavam por amor e faziam com que tivéssemos prazer em aprender. Nem sempre fui dos primeiros, mas nunca fui o último. O clima político, não creio haver muita diferença, pois política é uma arte e muitos dos “ATORES” daquela época ainda estão por aí. Muda-se o cenário e a forma de atuar, mas a “peça” é a mesma.

Suenaga: Você avalia que vivíamos nos anos 50 e 60 tempos melhores do que os de hoje? Sente saudades daqueles tempos?

Vieira: Sim, vivíamos bons tempos nos anos 50 e 60, mas temos de convir também que as necessidades, os objetivos, as facilidades e os meios eram outros. A visão de mundo era outra. Só quem está parada no tempo e por razões óbvias, é a esquerda política. Aliás, sempre esteve.

Suenaga: Você gostava da vida militar, por isso resolveu ingressar na Força Pública?

Vieira: O sonho de seguir carreira militar foi precoce. Meu avô paterno foi Alferes no Império e morreu Capitão na República. Minha primeira “investida” foi o Exército, mas tive de abdicar por “chantagem” emocional de minha mãe. Servia no Rio de Janeiro e então voltei para São Paulo e ingressei na antiga Força Pública.

Suenaga: Qual era o contexto político nos anos 60 em sua visão?

Vieira: Do contexto político daqueles tempos, não vislumbro muita diferença do de agora, confirmando a máxima da “história se repetindo”. Embates entre “esquerda” e “direita” num cenário onde as notícias corriam com mais lentidão por não haver como hoje os modernos recursos tecnológicos, e os VERMELHOS impregnados com o “sucesso” dos “guerrilheiros cubanos” e a Guerra do Vietnã querendo, também pela força, imitá-los fazendo com que as FF.AA tomassem a atitude mais rígida, através do Movimento de 64. Muitos estão ainda por aí. Mudaram de tática seguindo a “filosofia” de Gramsci e chegando ao poder através de eleições e tentando substituir a força pela cooptação.

Suenaga: Quais eram os seus gostos e preferências culturais em termos de música, filmes, livros, programas de rádio e TV, etc.?

Vieira: Como brinquei anteriormente, fui um típico “jovem do anos 60”, também amei os Beatles e os Rolling Stones, o pessoal da Jovem Guarda, mesmo preferindo a MPB. Cinema pouco, pois servindo no Rio de Janeiro bem no “OLHO DO FURACÃO” naquela efervescência política, mais ficava de prontidão no quartel do que ia para casa. Livros, alguns romances, quando me sobrava algum tempo. Tentei ler o primeiro livro de O Capital de Marx, mas desisti na oitava página. Se não estiver enganado, já dizia Ronald Reagan: “Comunista é quem leu Marx e Lênin. Anti-comunista, quem entendeu”.

Suenaga: No geral, qual era o seu livro predileto?

Vieira: Não tenho uma predileção. Li Alexander Soljenítsin, até por ser um anti-ateísta que escreveu a respeito dos “gulags”, O Grande Gatsby, romance de Francis Scott Fitzgerald, entre outros. Agora estou lendo Psicose ambientalista do Príncipe Dom Bertrand de Orleans e Bragança.

Suenaga: Você era adepto de alguma ideologia ou corrente política?

Vieira: Nunca pertenci a nenhuma corrente política. Sempre gostei de política, mas fui estritamente militar, com simpatia, como cidadão, pela direita.

Suenaga: Era adepto de alguma igreja ou crença religiosa?

Vieira: Venho de família judaica convertida ao cristianismo por razões óbvias. Sou judeu não ortodoxo e não praticante.

Suenaga: Como você conheceu Aladino Félix?

Juracy Gonçalves Tinoco em foto publicada no suplemento especial do jornal Última Hora, edição de 21 de setembro de 1968, p.7.

Vieira: Conheci Aladino Félix através de Juracy Gonçalves Tinoco, um amigo de adolescência.

Suenaga: Qual a impressão inicial que teve da figura de AF?

Vieira: Aladino Félix impressionava a todos que o conheceram pela brilhante inteligência, humildade e simplicidade. Comigo, não foi diferente.

Suenaga: Por que resolveu segui-lo e ajudá-lo a cumprir com seus planos?

Vieira: Aqui, permita-me uma correção. Nunca o “segui” ou ajudei a cumprir “seus planos”. Mesmo porque, no meu entender, não existia um “plano”, uma coisa elaborada que permitisse acompanhamento e desenvolvimento de atividades. O que havia, e para mim foi passado, era o conhecimento de um movimento esquerdista em plena atividade dentro da então Força Pública do Estado com objetivo de derrubar com violência o Regime Militar então vigente e, permita-me não entrar no mérito, pois o espaço é pequeno. Fazia-se mister estancar no nascedouro essa ignomínia. A seguir, na segunda reunião já com a presença de um General do Exército (Paulo Trajano da Silva), entendi a seriedade das informações, e quando foi aventada a necessidade da ação de retirada de armamento armazenado no Quartel General da Corporação com o objetivo não de usá-lo, mas causar um impacto psicológico na tropa adversária e abortar o intento, não titubeei em participar. Diga-se, armas estas clandestinas, pois não se encontravam em uma “reserva de armas” normal, tanto que não se encontrará nas investigações e ou processos, qualquer alusão ao interrogatório e possível punição ao ARMEIRO, que deveria estar no local. Nunca existiu o ARMEIRO. Na terceira e última reunião de que participei e também com a presença do General, o que era intenção da ação já se tornara objetivo e foi dada a ordem de execução pelo oficial-general.

Aladino Félix em foto publicada no suplemento especial do jornal Última Hora, edição de 21 de setembro de 1968, p.4.

Suenaga: O que mais o impressionava na figura de Aladino Félix?

Vieira: Como disse, tive apenas três contatos com ele antes da prisão e foram conversas relativas às situações estritamente político-militares e foram muito rápidas. O que me impressionou, como a todos que tiveram contato com ele, foi a sua simplicidade e total conhecimento dos assuntos que abordava.

Suenaga: Aladino era de fato um poliglota e um erudito/intelectual muito acima da média?

Vieira: Quanto à sua erudição, autoridades, adversários e até inimigos nunca tiveram dúvidas. Se era poliglota? Não sei, mas para a elaboração de suas obras, acredito que era uma necessidade. Nunca o questionei sobre isso.

Suenaga: Constatou o cumprimento de alguma das profecias de Aladino?

Vieira: Conversei muito com ele, aí já na prisão. Como sempre fui muito curioso, procurei “sugar” conhecimentos o mais que pude. Nunca consegui vê-lo como um profeta. Sempre vi-o como o que ele realmente era, UM ESCRITOR e um TRADUTOR. Dentre muitas coisas que ele disse diretamente a mim, uma me intriga até hoje. Quando presos, e pela nossa pouca idade, eufóricos que estávamos pela liberdade, ele me disse: “Não adianta ficarem ansiosos. Vocês só começarão a sair daqui quando eu for e voltar.” Pouco tempo depois ele foi colocado em liberdade e os jornais disseram que saíra fugido. NÃO FOI. Pouco tempo depois voltou e saímos em liberdade. Nunca nos disse como saiu e porque voltou.

Suenaga: Já tinha interesse no Fenômeno OVNI?

Vieira: Não, nunca havia me interessado por OVNIs antes.

Suenaga: Chegou a ver algum disco voador?

Vieira: Também nunca vi um OVNI.

Suenaga: Chegou a presenciar ou vivenciar algum fenômeno paranormal ou sobrenatural?

Vieira: Não vivenciei ou presenciei nenhum fenômeno paranormal ou sobrenatural.

Suenaga: Dos livros de Aladino, qual era o que lia com mais frequência e por que?

Vieira: Todos os livros do Aladino são muito interessantes. Chamou-me bastante atenção o Contato com os discos voadores por conter muitos conceitos científicos.

Suenaga: Quais eram os seus amigos mais chegados dentro do grupo de Aladino?

Vieira: Não creio ter havido “um grupo Aladino Félix” ou “grupo Sábado Dinotos”, especificamente. Colocado assim dá-se a impressão de que havia uma “facção” ou “bando”. A realidade é que haviam pessoas que por diversos motivos, tinham suas vidas entrelaçadas por convivências da juventude e ou profissionais. No meu caso, os dois. O Juracy G. Tinoco, além de amigo de juventude, também serviu na mesma Força. Os outros conheci na prisão. O então Sg. Juarez e o Soldado Jessé, vim a conhecê-los NA HORA da execução da ação de retirada das armas.

Suenaga: Havia um bom entendimento entre os membros do grupo ou havia discórdias?

Vieira: Pois é. Como disse anteriormente, não creio na  existência de “um grupo”, e após a ação das armas ter-me afastado completamente, não saberia responder.

Suenaga: A disciplina era rígida e as ordens eram seguidas à risca?

Vieira: Se na minha visão nem “grupo” existia, como ter hierarquia ou algum tipo de disciplina?

Suenaga: Considera e reafirma que com suas ações impediram um golpe da Frente Ampla?

Vieira: Quanto a ação da qual tive participação ativa, não tenho a menor dúvida. Outras, vim tomar conhecimento na prisão e de maneira tumultuada. Quando digo que  a história se repete, vide o projeto do Foro de São Paulo. O conteúdo é o mesmo, só tentaram mudar a forma.

Suenaga: Qual era a sua orientação política/ideológica antes de conhecer Aladino? E depois que o conheceu, essa sua orientação mudou ou não?

Vieira: Sou brasileiro e sempre fui e sou conservador por questão de princípios. Um conservador mais moderno, mas conservador.

Suenaga: Chegaram a ser perseguidos pelo Regime Militar antes mesmo de Aladino ser preso?

Vieira: Falo por mim. Antes de ser preso em 22 de agosto de 1968 (ver detalhes a respeito no adendo abaixo) nunca fui perseguido. Quando já preso e levado a responder a um Conselho Disciplinar na Corporação, não fui inquirido, o que é irregular, e tomaram por base para a acusação, as declarações feitas no Inquérito Policial do DEOPS de São Paulo. Se lermos as declarações feitas pelas testemunhas, tanto as de defesa quanto as de acusação, dá-nos a clareza de terem seguido a um único modelo. Não foram as perguntas feitas na minha presença. Tenho as cópias. Quando libertado, tive problemas para encontrar emprego. Empregadores confundiam-nos com comunistas ou bandidos. Há pouco tempo precisei de um documento que é expedido pela Força, e tive notícia através de um sargento de que o oficial encarregado da feitura do mesmo teria tentado negar, afirmando que “não forneceria documentos a um ladrão de armas”. Mudou de ideia quando o sargento argumentou: “mas o homem é um Coronel”. Não tomei providências cabíveis, para preservar o graduado, mas fiz questão de entregar ao Comandante da Unidade uma cópia do Inquérito onde narra o “RECEBIMENTO DA ORDEM DO GENERAL” para a subtração dessas armas e  também uma cópia da acareação entre mim e o Oficial-General.

Atendado a bomba cometido pelo grupo de Aladino Félix defronte ao prédio do DOPS na madrugada de 20 de agosto de 1968. Foto publicada no suplemento especial do jornal Última Hora, edição de 21 de setembro de 1968, p.9.

Suenaga: Você teve alguma participação em algum dos atentados a bomba que foram executados?

Vieira: Só fiquei sabendo da imputação das bombas aos amigos de Aladino após a minha prisão.

Suenaga: Você tinha conhecimento prévio dos atentados?

Vieira: Absolutamente não. Depois da ação das armas e não tendo mais ordens do General Trajano, desliguei-me por completo e só vim a encontrá-lo no DOPS quando da acareação.

Suenaga: Concordava com todos os atos que estavam sendo executados ou tinha suas divergências?

Vieira: Não tinha participação.

Suenaga: Então qual era o seu papel dentro do grupo?

Vieira: Nenhum. Só participei da subtração do armamento como um graduado cumprindo ORDEM de um oficial-general.

Suenaga: Alguma vez sugeriu uma ideia que foi acatada? Se sim, qual?

Vieira: Jamais sugeri qualquer ideia.

Suenaga: Havia alguma relutância quanto ao cumprimento dos planos e das ordens?

Vieira: Qualquer coisa que eu diga sobre isso, será tão somente conjecturas, pois não tinha participação.

Suenaga: Qual foi a falha, a seu ver, que levou à prisão de vários membros do grupo e do próprio Aladino?

Vieira: Estou respondendo como se estivéssemos vivendo à época dos fatos. Após a prisão, pude constatar que alguns envolvidos extrapolaram por inexperiência ou empolgação pelas manchetes dos jornais que passaram a glamourizar as ações que pipocavam naqueles tempos. O que reforça a minha afirmação de que não havia um grupo, não havia um “chefe”, não havia um regulamento disciplinar, não havia um planejamento.

Suenaga: Como foi a sua prisão? Quanto tempo ficou preso? Como foi o tratamento recebido? Foram maltratados? Chegou a ser torturado? Presenciou alguma tortura?

Vieira: Como estava afastado em licença para tratamento de saúde, fazia “bico” numa empresa de um parente onde recebi a “visita” de uma equipe de minha Unidade “convidando-me” para uma audiência com meu Comandante. A partir daí, fiquei preso por quase três anos sem julgamento. Quando julgado e condenado e já tendo cumprido 2/3 da pena, fui libertado condicionalmente. Em seguida fui ABSOLVIDO pelo SUPERIOR TRIBUNAL MILITAR em Brasília. O tratamento inicial foi AQUELE, dispensado a todos naquele período. No meu caso, até podemos considerar um pouco mais leve, em comparação a Aladino, Jessé, Gregório (Ika) e outros. Estávamos em guerra.

Suenaga: Na prisão, Aladino e seus sequazes, incluindo você, Rubens Jairo dos Santos, Luiz Ataliba Silva, Juarez Nogueira Firmiano, Juraci Gonçalves Tinoco, Cláudio Fernando Pereira Lopes, Sebastião Fernandes Muniz e Jessé Cândido de Moraes, escreveram um relatório de próprio punho endereçado aos seus advogados e ao público em geral, e que foi publicado com exclusividade pelo Última Hora. Como conseguiram escrever esse relatório? Tiveram alguma ajuda? Você em particular, o que escreveu?

Vieira: Como tínhamos consciência de que atuávamos pela legalidade, neguem quem quiser negar, mas foi isso sim que nos foi apresentado, e no meu caso específico cumprindo ordem, uma ORDEM com aspecto excepcional, mas vivíamos também um momento excepcional, os outros com seus métodos no mesmo norte e com a AVALANCHE  que caiu sobre nossas cabeças sem vislumbrar NADA para nos socorrer, não tivemos outra alternativa se não a de tornar público aqueles acontecimentos, principalmente as torturas. Foi escrito pelo Sgt. Jairo com supervisão do Aladino, pois debilitado pelas sevícias, não conseguia escrever. Todos concordamos com a redação, pois estávamos na mesma cela. Para passar para fora da cadeia, contamos com a ajuda do jornalista Celso Kinjô, da Última Hora, que se encontrava detido no DOPS. Fico intrigado por não encontrar o registro da detenção desse jornalista em nenhum lugar. Coisas que, estando ligado a Aladino, dispensa explicações.

Suenaga: Por que não considerava justo que os taxassem de terroristas?

Vieira: A definição de terrorismo é o ato de provocar terror nas pessoas através do uso da violência física ou psicológica, com o intuito de intimidar uma sociedade e impingir ideologias fundamentalistas, sejam elas políticas, religiosas ou de outra natureza. Muito bem, quantas e quais  vítimas foram afetadas pelas ações do, como você chama, “grupo do Aladino”? A não ser, na visão de um IMBECIL que ouviu o galo cantar mas nunca soube onde, alcunhado de alexandre jubran (com minúsculas) dentre outros “ufólogos” invejosos que, não sei de onde tiraram, centenas de mortos. Qual ideologia fundamentalista política ou religiosa foi impingida, através das ações perpetradas pelo tal “grupo”? Ouvi de comunistas históricos e coléricos, não vou citar nomes para não dar publicidade, que as bombinhas da direita só serviram para atrapalhar as “VERDADEIRAS DA REVOLUÇÃO”. Portanto, quais são os reais terroristas?

Suenaga: Como foi sua soltura e dos demais membros do grupo?

Vieira: Não fiquei sabendo as dos outros, mas a minha foi em liberdade condicional por ter cumprido 2/3 da pena e, como já narrei, logo após fui absolvido no Superior Tribunal Militar.

Suenaga: Qual foi o impacto que todos esses fatos causaram em sua vida?

Vieira: O impacto dos fatos me atingiram de maneira total. Na família, no trabalho, nos estudos, além do que passei 31 anos como mentiroso. Quando tentava contar a verdadeira história, percebia amigos e parentes passando a mão no pescoço indicando ser “garganta”, mentira. No trabalho, só sub-emprego.

Suenaga: Como ficou sua vida depois que o movimento de Aladino chegou ao fim?

Vieira: Primeiro que, como já disse, na minha óptica não houve um “movimento Aladino Felix”, então nada tinha para chegar ao fim. Na realidade foi o encontro de pessoas ligadas por circunstâncias diversas atraídas por uma quimera, que tomaram conhecimento de fatos políticos perigosos e se acharam aptas a tentar frear uma possível catástrofe, o que aliás se conseguiu pelo menos por um bom espaço de tempo. Então ao obter a liberdade, embrenhei-me na luta pela sobrevivência e retomada do meu sonho de menino, ou seja, a minha carreira militar. Como passou-se muito tempo, consegui chegar a Coronel, mas já na reserva.

Suenaga: Chegou a ser perseguido pelo Regime Militar mesmo depois de ter saído do grupo?

Vieira: Não. Na minha vida civil não fui perseguido, e se fui, não percebi. A não ser a dificuldade de arranjar emprego causado pelos antecedentes.

Suenaga: Como avalia que ficou a situação do país depois do AI-5?

Vieira: Veja, não é porque sofri na carne as agruras do período do Regime Militar que vou desabonar o trabalho dos generais presidentes. O AI-5 foi um mal necessário porque o país estava a ponto de se tornar uma Cuba. Mesmo hoje, como já disse aqui e reitero, a história está se repetindo, e se por qualquer motivo os comunistas conseguirem desarticular a Operação Lava Jato, o presidente Bolsonaro terá que fechar o regime para não desaguarmos numa calamidade tal qual a Venezuela.

Suenaga: Falar no AI-5, você avalia que ele foi decretado em parte devido as ações (atentados a bomba) do grupo?

Vieira: O AI-5 foi decretado pela tentativa comunista de tentar levar o país ao caos através da luta armada. Aladino Félix e amigos tentaram fazer frente a essa investida criminosa, ombreado com o governo. Como não era uma “organização”, não tinha a capacidade para tal. Superestimam a eficiência desses cidadãos para poder, como o fizeram, desmoralizar e desacreditar Aladino, tachando-o de “lunático”, “visionário” e “bruxo” com intenções de tomada de governo e etc. O ensaio de culpar Aladino é tática dos comunistas para se fazerem de vítimas. A manobra é conhecida.

Suenaga: Você avalia que o Regime Militar combateu com eficácia, como deveria, os comunistas?

Exército e seus tanques nas ruas do centro de São Paulo durante o Golpe Militar de 31 de Março de 1964.

Vieira: Quando os militares assumiram o poder em 64, sem maiores traumas, abortando a tentativa de comunização do país e dando novo direcionamento político à nação, com intenções claras de devolução ao poder civil em curto espaço de tempo, desagradou a muita gente. Principalmente a esquerda que não desistiu da “aventura” que reputo de romântica, da tomada de poder pela força. Iniciaram-se então movimentos de solapamento das novas iniciativas do governo, forçando o regime a se estender. Foi o surgimento de organizações VERMELHAS violentas DECLARANDO GUERRA ABERTA que causou o recrudescimento da segurança. Portanto, foram os comunistas que provocaram a situação e receberam, sim, as respostas com dosagens necessárias. Foi uma GUERRA e guerra não se faz com flores.

Suenaga: De que forma você considera o processo de abertura do Regime Militar? Teria ele, com a Lei da Anistia e tudo o mais, beneficiado os esquerdistas?

Vieira: Tudo na vida está sujeito a desgastes. Na política não é diferente por “N” motivos. Creio na possibilidade de que os militares chegaram à conclusão de que o povo tivesse atingido um certo patamar seguro de amadurecimento para poder andar com as próprias pernas, embora ainda houvessem controvérsias. Fizeram tudo direito, até mesmo dando a anistia. Anistia é direito constitucional, não importando a ideologia do beneficiado. Infelizmente devemos ater que comunista é um “ser” que desconhece HONRA, COMPOSTURA. Haja vista a Constituição de 1988 no seu  Art. 8.° do Adct., e  que foi regulamentado por fernando henrique cardoso (com minúsculas) via Executivo ampliando direitos, claramente para beneficiar tão somente COMUNISTAS, coisa que o Governo Bolsonaro está tentando corrigir.

Suenaga: Depois do fim do movimento, ainda tinha contato com Aladino e com o restante do grupo?

Vieira: Você quis dizer, depois da saída da prisão se tive contato com Aladino e os outros? Sim, com o Aladino só tive um contato. Com o Esdras, que também atingiu o posto de Ten-Cel da PM, o Juarez e Luiz Daniel que são capitães, o Ataliba 2º Ten, o Muniz 1º Sgt, o Gregório Cucheravia (Ika) civil e Fernando Roberto Dimarzio (advogado) mantenho contato até hoje.

Suenaga: Cogitou-se, em algum momento, pelo retorno das ações do grupo sob a liderança de Aladino?

Vieira: Como disse anteriormente, se não havia “um grupo organizado” da forma que a imprensa e as “autoridades” da época sugeriram, também não havia um “chefe”, não havia um “plano” pré-estabelecido etc, como cogitar-se algo semelhante? Pode parecer absurdo o que estou dizendo, mas vou transcrever, para que se entenda melhor, parte do Acórdão da Justiça Militar com parecer da Procuradora da Justiça Militar: “A Procuradoria Geral, em perfeito, magnífico parecer, põe as coisas nos seus devidos têrmos (sic), conclui opinando pelo não provimento do apêlo (sic) do M.P,. e pelo provimento do apêlo (sic) da defesa, em relação de todos os apelados, salvo quanto à Aladino Felix. Em relação à este deixa a solução a critério deste E. Tribunal. Isto pôsto (sic) ‘Tudo aqui, é loucura. Não nos parece crível, que se tenha gasto tanto tempo, papel e discussões jurídicas em torno de um caso que se nos afigura como fantástico.'” Tais palavras quem as escreve não é a defesa: é a Ilustre Procuradora, dra. Marly do Vale Monteiro, em seu irretocável parecer, como representante da Procuradoria Geral, – parecer que adotamos como razões de decidir (apel. 38.081 – 2 – Pg 1540).

O Acórdão do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo datado de 3 de junho de 1992, assinado pelo relator Godofredo Mauro.

Suenaga: Havia a crença de que as profecias bíblicas e de Nostradamus seriam cumpridas conforme as previsões de Aladino. Em sua visão, elas teriam se cumprido ou não? Se não, por que teriam falhado?

Vieira: Interpretar Nostradamus e a Bíblia é coisa muito séria, e no meu entender, talvez não estejamos preparados ainda para absorvermos seus ensinamento plenos. De acordo com Aladino, perdeu-se o “som da língua”. Muitos interpretam ao sabor de seu próprio interesse coisas que tentaram imputar ao Aladino. Tem coisas sim que Aladino preconizou e que acolhemos com reservas à época e que hoje não podemos negar. A queda da União Soviética, por exemplo, o “PAPA VERMELHO”, que sugeria naquele tempo e hoje temos aí o “Borgoglio”, enfim.

Suenaga: Em sua visão, como ficou a situação do Brasil pós-ditadura, com a Nova República e depois com Collor, Itamar, Fernando Henrique e finalmente Lula e Dilma?

Vieira: Com a saída dos militares, não temos como negar que caímos num abismo de mentiras e falcatruas sem precedentes nas mãos de todos esses BANDIDOS citados. A Lava Jato está aí para confirmar. Como já disse, o PROJETO CRIMINOSO DE PODER dos VERMELHOS nunca saiu de pauta. Houve algumas correções de rumo, mas, cito novamente o FORO DE SÃO PAULO e tem também o PACTO DE PRINCETON etc.

Suenaga: Você apoiou e tem apoiado o atual presidente da República Jair Bolsonaro. Quais qualidades que você mais destacaria nele?

Vieira: Já fui um crítico de Jair Bolsonaro. Não concordava com sua maneira exacerbada de expor algumas posições e situações. Reconsiderei por reconhecer, e peço ao Criador para que não venha a me decepcionar, que ele está no caminho certo. Tem incontáveis obstáculos, mas com seu carisma e sua honestidade, deverá transpô-los. Caso contrário, não haverá outra forma, não sendo o fechamento, com a ajuda novamente das FF.AA. Torçamos para que não aconteça.

Suenaga: Você conhece e acompanha o filósofo e escritor Olavo de Carvalho, guru de Bolsonaro?

Vieira: Gosto muito do Professor Olavo de Carvalho. Não concordo com a deformidade de “guru”. Ele é amigo do Presidente.

Suenaga: Você vê alguma semelhança entre Olavo de Carvalho e Aladino Félix?

Vieira: Não, não vejo semelhança. Minha impressão é de que o Professor Olavo é um brilhante pensador nacionalista, com alguma influência da igreja católica e do cristianismo. Aladino, pelo contrário, era universalista, como diria um advogado, COM TODAS AS VÊNIAS.

Suenaga: Para finalizar, você teria algo a acrescentar que não foi perguntado?

Vieira: Uma curiosidade apenas. O único encontro após a libertação com Aladino foi juntamente com o Esdras de Mattos. Éramos sócios num escritório de representações na Rua 7 de Abril no centro de São Paulo e descobrimos o endereço dele na Vila Buarque, também no centro. Tivemos que burlar o porteiro do edifício porque havia uma ordem da então esposa, proibindo visitas. O reencontro foi de tal forma que me emociono até hoje em lembrá-lo. Foi na véspera da posse do Presidente Tancredo Neves. Conversamos muito. Ao despedirmos, Aladino AFIRMOU CATEGORICAMENTE: “Tancredo não assume”. Ambos ficamos embasbacados, mas não demos a perceber. Já na rua, interpelei o Esdras, querendo saber a sua impressão e a resposta que ouvi, foi: “Ele está cansado. Não há a possibilidade disso acontecer”. No dia seguinte de manhã, saltando do trem na estação Júlio Prestes, pois morava em Osasco, paro diante da primeira banca de jornais, e lá estava a manchete: “TANCREDO, INTERNADO”. O resto a gente já sabe.

Adendo: Como foi a prisão de Edson Chicaroni Vieira e demais correligionários de Aladino Félix por parte do Regime Militar

Na sexta-feira, 23 de agosto de 1968, o movimento messiânico de Aladino Félix chegava a um fim melancólico e escandaloso quando este era preso juntamente com alguns dos seguidores que, em 1º de agosto, por volta das 10 horas, cometeram o desatino de, armado de metralhadora e revólveres, roubar NCr$ 26.290,98 de uma agência do Banco Mercantil e Industrial de São Paulo, no distrito de Perus, zona oeste, a fim de “arrecadar fundos”, já que passavam por dificuldades econômicas.

Na segunda-feira, 19 de agosto, policiais da 40ª Circunscrição, sito à Avenida Deputado Emilio Carlos, prenderam um rapaz, Osvaldo de Azevedo, que dirigia um Galaxie e estava acompanhado de outro jovem e de três moças. Alguns tubos de psicotrópicos e um pouco de maconha foram encontrados no veículo. O delegado Rui Prado de Franchequi (falecido em 23 de junho de 1995) deteve Osvaldo para interrogações, liberando as moças e o outro jovem. No dia seguinte, novamente inquirido, Osvaldo disse conhecer um menor de nome Félix Dias Castelúcio, que saberia muito acerca dos assaltos a bancos em São Paulo. Castelúcio foi um dos pontos de partida para o desbaratamento do grupo, graças às informações que prestara a respeito do que ouvira de seu conhecido, Norival de Paula, vulgo Corisco.

Detido na quinta-feira, Castelúcio contou que ouvira comentários sobre o roubo do Banco de Perus num bar e bilhar da Vila Bonilha. “Quem falava sobre isso era um homem cujo apelido era Ika”. Investigações realizadas a partir dessa informação conduziram os agentes a uma loja de venda de pássaros na Rua A, no mesmo bairro. Ao anoitecer, Ika, apelido de Gregório Cutcheravia (então com 28 anos, natural de Piratininga, 28 anos, solteiro, de instrução primária, pintor de móveis), foi preso, apontando como seus comparsas Antonio Pereira, alcunhado de “Baixinho” (então com 39 anos, natural de Matão, solteiro, de instrução primária, torneiro mecânico), e o soldado da Força Pública Jessé Cândido de Moraes. Pereira, tido como batedor de carteiras, principalmente de senhoras, foi quem roubou, junto com Cutcheravia, os veículos utilizados no assalto ao banco.

Jessé foi quem planejou o assalto. Como ele próprio admitiria, incumbiu quatro homens – Antonio Pereira, Gregório Cutcheravia, Norival de Paula e Pierino Gargano – da execução da tarefa. Com o produto do assalto, comprou três carros – um Volkswagen, um DKW e um jipe Willys – para as futuras e eventuais ações terroristas, assim como distribuiu pequenas quantias entre os demais membros para que não desconfiassem da origem delas, dizendo que recebera licença-prêmio em dinheiro.

Jessé Cândido de Moraes em foto publicada no suplemento especial do jornal Última Hora, edição de 21 de setembro de 1968, p.8.
Edson Chicaroni Vieira quando era cabo da Força Pública de SP. Foto publicada no suplemento especial do jornal Última Hora, edição de 21 de setembro de 1968, p.6.

O cabo Edson, há três anos na Força Pública, foi preso no dia 22 e permaneceu incomunicável até 23 de agosto, quando foi transferido para o Departamento Estadual de Investigações Criminais (DEIC). Então com 24 anos, casado, 1º grau, motorista profissional e enfermeiro veterinário na vida civil, noções de primeiros socorros, sobrevivência em condições extremas e de enfrentamento à calamidade pública, passou pelo curso preparatório para a Escola de Especialistas da Aeronáutica – aonde não chegou a ingressar. Não imaginava que um dia se voltaria contra a própria FP, atitude de que não se arrependia apesar dos pesares, “pois acima de meu compromisso de fidelidade a ela eu tinha prestado no Exército um outro – o primeiro – de fidelidade à pátria. Por isso, sinto ter cumprido o meu dever. Espero que meus amigos da corporação, superiores e subordinados, compreendam o que foi o meu, o nosso dilema.”

A sua prisão fora o maior e único choque que causara até então a seus familiares e amigos. “Não tinham conhecimento algum do problema e, creio, não me julgavam capaz de jogar um jogo tão alto. Contento-me em saber que não estão decepcionados comigo. Dizem-se até orgulhosos.” Considerava Aladino o homem mais inteligente que já conhecera. Repetiu a mesma versão sobre o plano golpista da Frente Ampla: “Nossa ação foi conscientemente desenvolvida no sentido de evitar uma revolução separatista, de vez que os países que a apoiavam – Rússia, China, RAU, França, além do general Perón – obrigariam os Estados Unidos a intervirem, dividindo o Brasil em duas facções marionetes. Daí o terrorismo. Conseguimos, com isso, impedir essa desgraça, pelo menos até agora. Já que estamos presos, esperamos que os nossos amigos afastem ainda mais esse perigo.” A responsabilidade maior cabia ao Governo Federal, “que deverá, urgentemente, fazer alguma coisa, se não quiser que aqueles vendilhões façam alguma coisa com o presidente”. Sentia-se honrado em pertencer a um grupo composto por “homens de extraordinário senso de patriotismo, e não de bandidos, como em princípio quiseram taxar-nos”. Referindo-se ao processo a que estavam submetidos, o cabo Edson argumentou que “seria o maior absurdo se fôssemos condenados pelo que fizemos, pois, como consequência, ninguém mais teria condições psicológicas para colaborar com o Governo Federal, sujeitando-se a ser traído por ele. Se o próprio governo, através de seus assessores, mandou, determinou que impedíssemos, a todo custo, o levante revolucionário, não se justifica que agora fiquemos sozinhos com o foguete nas mãos.”

Essas suas palavras foram estampadas na mais ousada peça jornalística sobre o movimento de Aladino, de autoria de Armando Montero, Sérgio Ferreira, Cabral Jr. e outros do jornal Última Hora de São Paulo. No sábado, 21 de setembro, os leitores receberam junto com o jornal um suplemento especial, em formato tablóide, que trazia o seguinte título, impresso em letras garrafais: “Você vai ver todo o terror”. Reproduzia-se uma carta de Aladino, dirigida ao redator de Última Hora, protestando contra a veleidade de certos setores da imprensa que insistiam em deturpar sua imagem, taxando-o de místico, astrólogo e terrorista.

Primeira página do suplemento especial do jornal Última Hora, edição de 21 de setembro de 1968.

Na prisão, Aladino e seus sequazes – Edson Vieira, Rubens Jairo dos Santos, Luiz Ataliba Silva, Juarez Nogueira Firmiano, Juraci Gonçalves Tinoco, Cláudio Fernando Pereira Lopes, Sebastião Fernandes Muniz e Jessé Cândido de Moraes – escreveram um relatório de próprio punho endereçado aos seus advogados e ao público em geral. Publicado com exclusividade no referido suplemento de Última Hora, nele contavam como se conheceram, como ficaram amigos e como realizaram ações terroristas:

“Cada um de nós vivia no meio da multidão de brasileiros, de todas as raças, de todos os credos, de todas as correntes sociais, políticas e filosóficas, de maneira indistinta. Claro que admitimos como quase certa e definitiva a impossibilidade de uma igualdade absoluta entre dois seres humanos. Todavia, as desigualdades entre nós e a multidão eram tão poucas e tão insignificantes que não sentíamos qualquer diferença flagrante. Então, individualmente, espontaneamente, racionalmente, fomos nos tornando amigos da pessoa de Sábado Dinotos-Aladino Félix, através da leitura do Pentateuco – a primeira parte já editada da Bíblia Sagrada, traduzida e comentada por ele desde o texto hebraico massorético –, das Centúrias de Nostradamus – também traduzidas, comentadas e editadas por ele desde o texto provençal –, da Antiguidade dos Discos Voadores – escrito recentemente por ele –, do romance O Hebreu: Libertador de Israel – escrito por ele há alguns anos –, do livro do profeta Daniel – traduzido do texto original hebraico massorético e editado em monografia mimeografada –, das profecias de Dom Bosco, São Francisco de Paula, Padre Antonio Vieira, Padre Cícero – o célebre protetor do rei do cangaço nordestino, Lampião –, White Davis – autora do livro profético Sinais dos Tempos –, de outros livros do próprio Sábado Dinotos, de livros religiosos, históricos, mitológicos, filosóficos, científicos, etc., cujos autores marcaram épocas na esteira do tempo, cujas relações com a pessoa de Aladino Félix são da mesma natureza de seus conteúdos e cuja necessidade de se conhecê-las são da mais elementar e imperiosa obrigação intelectual do homem que pode raciocinar.”

Fizeram questão de ressaltar que

“essa amizade não é consequente apenas desse conhecimento através de profetas e de livros, mas também de contatos pessoais inúmeros, durante os quais fomos constatando que não éramos nós – sargentos, cabos e soldados da FP – os únicos a privar de sua atenção e amabilidade, eis que vimos desfilar os seus outros amigos, de que nos fizemos amigos igualmente: médicos, advogados, engenheiros, economistas, sociólogos, músicos, químicos, físicos, astrônomos, religiosos e militares, desde a mais humilde até as mais altas posições hierárquicas. Das mais diversas correntes e armas, homens e mulheres que cada um de seu modo e capacidade analisaram este personagem – Sábado Dinotos – e lhe concederam admiração e respeito na forma de uma amizade nunca antes experimentada, senão, talvez, por aqueles lendários personagens de Dumas – os três mosqueteiros do rei – cujo lema teria sido ‘um por todos e todos por um’.”

A motivação dessa amizade tão rara estava em que

“tomamos consciência das leis de Deus, explícitas no Pentateuco, tanto pela versão de Sábado Dinotos, como pelas outras versões da Bíblia e não admitimos nenhuma reformulação, quer no seu todo, quer em quaisquer de suas partes, pois toda sistemática messiânica implica em ratificação das leis do Criador e jamais em sua retificação. Disso resulta um altíssimo respeito ao senhor nosso Deus, de tal modo que nem os judeus ortodoxos ou radicais conseguem compreender, pelo menos à primeira vista, a problemática que nos circunstancia e nos une. Não cremos ser preciso dizer que não estamos ligados a qualquer filosofia política ou religiosa e que nosso único objetivo é o restabelecimento das leis de Deus, nas quais está implícita a lealdade, a fidelidade e o respeito para com nosso Criador, bem como para com os nossos semelhantes. De acordo com o que ficou exposto agora é fácil explicar que Sábado Dinotos vinha sofrendo uma terrível pressão por parte dos interessados em manter a indústria da mentira religiosa, política, científica e filosófica, com as quais vêm acabrestando os homens como nem os animais têm feito. Nessa luta, vínhamos todos nós combatendo, conforme nossas possibilidades individuais, cada vez mais incentivadas pelo cumprimento exato das promessas de Deus. Ora, até aqui, nada de mais, se considerarmos que esperanças e desilusões sempre aconteceram durante a história da humanidade e, em particular, de cada homem em que vibre um cérebro e pulse um coração. A diferença, a mais, no caso nosso é que não nos baseamos pura e simplesmente no sentido literal das profecias, mas sim empregamos métodos científicos e, por conseguinte, racionais nas suas análises e interpretações, que no momento não é nossa intenção demonstrar.”

Se você desconhece a história de Aladino Félix, recomendo que leia minhas reportagens anteriores publicadas neste site:

Os 50 anos do fim do terrorismo-messiânico de Aladino Félix, o contatado que abalou o Regime Militar

Há 20 anos provava como o líder de um culto ufológico fomentou o AI-5 com seus atentados terroristas

One thought on “O Coronel da Reserva Edson Chicaroni Vieira esmiúça sua trajetória de lutas, de Aladino Félix a Jair Bolsonaro

  • 31/08/2019 em 11:21
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    Parabens Edson pela entrevista. Me orgulho de ser sua amiga de mocidade ate hoje.

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