Seriam os deuses outras coisas?

Em comemoração aos 50 anos do lançamento de Eram os Deuses Astronautas? de Erich von Däniken, Suenaga resgata neste artigo um livro que trouxe uma visão bem humorada e salutar à teoria de que fomos visitados e influenciados por extraterrestres em nosso passado remoto.

Por Cláudio Suenaga

Uma contestação tardia e bem humorada à teoria dos deuses astronautas seria feita em meados de 1986 por uma dupla de autores, até hoje não identificados, que se ocultava sob os pseudônimos anglicizados de Syll Blair e Clark Still, descritos na curta biografia como “gente comum e simples do planeta Terra”, com “hábitos, costumes, virtudes e defeitos como qualquer terráqueo”, e que “profissionalmente são técnicos experimentados em operações de voo e jamais necessitaram de lições de extraterrestres para ser o que são”. Como que saídos do grupo britânico Monty Python, Blair & Still se valeram do sarcasmo, da ironia, da zombaria, da paródia, do escracho e do puro deboche para mostrar que “os deuses não eram astronautas” e que poderiam ter sido muitas outras coisas em vez de astronautas.

O livreto (de apenas 63 páginas) Seriam os Deuses Outras Coisas? [1] foi publicado pela pequena editora paulistana Edicon (Editora e Consultoria) em tiragem limitada e passou totalmente despercebido, exceto por este autor que o encontrou na livraria Brasiliense da Rua Barão de Itapetininga e após esbaldar-se de tanto rir como não fazia desde os tempos dos Irmãos Marx, fez várias tentativas junto a editora para encontrar os autores mas esbarrou nos antipáticos donos e funcionários da mesma que se negaram a revelar os verdadeiros nomes de Blair & Still e a fornecer qualquer pista que pudesse levar a eles, a despeito do convite feito na cinta promocional em letras berrantes vermelhas e caixa alta que instava os leitores a enviarem contribuições para uma possível segunda edição ampliada, que nunca saiu: “Teste sua inteligência: leia o livro, imagine o que mais os deuses poderiam ter sido (que não esteja no livro) e, escreva aos autores na editora. Sua colaboração poderá ser publicada em nossa próxima edição ampliada.” Por que tanto sigilo? Seriam os autores – e os editores – outras coisas?

A premissa céptica do livreto, tão fantasiosa, imaginativa e especulativa quanto a própria teoria dos deuses astronautas, é que se daqui a seis mil anos uma civilização futura descobrisse e desenterrasse o século XX e “não houvesse nenhuma informação entre o tempo decorrido entre nós e eles”,[2] inevitavelmente interpretaria muitos de nossos artefatos, construções, costumes, gostos e crenças como sendo produtos de “visitas sucessivas ao nosso planeta em tempos remotos” de “professores do espaço, formadores de nosso intelecto”,[3] quando, na realidade, “se não quisermos apelar para a ficção”, bastando que façamos uso de

“um raciocínio mais coerente, concluiremos que não foi preciso influência de ‘mestres’ cosmonautas alienígenas para impulsionar o saber humano. Tal saber já nasceu conosco, é inerente geneticamente. Não foi necessário uma fêmea nossa ancestral se acasalar com um sábio estelar para se produzir homens mais ‘inteligentes’, saltando assim degraus do saber. Todo ‘progresso’ tecnológico é fruto da criatividade humana em si mesma devido à dedicação mental a certas causas, possível aos homens.”[4]

Os inúmeros autores que, como Erich von Däniken, “alimentam as mentes humanas com as ideias de que no passado seres extraterrestres, mestres do cosmo infinito ensinaram nossos ancestrais e com isso chegamos ao que somos hoje”,[5] são chamados pejorativamente por Blair & Still de “howbecausea­nos”. No distante e hipotético futuro, as roupas de mergulhadores, bombeiros e médicos (lembrando roupas de astronautas), as máscaras de soldadores e apicultores e os capacetes de escafandristas, motoqueiros e pilotos de corrida (lembrando capacetes de astronautas), o formato sugestivo das garrafas de bebidas, dos lápis, das seringas de injeções (compridos e alongados, lembrando foguetes), dos prédios altos e finos (lembrando foguetes divinos) e também das chaminés (só que soltavam fumaça para cima), das borrachas e dos comprimidos (redondos, em formato de discos), das caixas d’água (idênticas aos formatos dos discos voadores e dos módulos de alunissagem), etc., “enchiam as cabeças dos howbecauseanos de ideias; ideias sobre deuses espaciais”.[6]

 

O formato de disco voador das caixas d’água em particular não deixava dúvidas aos howbecauseanos de que “os deuses haviam ensinado os pobres habitantes do século XX armazenar água e depois canalizá-la para distribuição… insofismáveis provas!”[7] Sim, para os howbecauseanos indubitavelmente “os venerados ‘deuses’ do cosmo influenciaram os homens do século XX e os ensinaram a desenhar caixas d’água”.[8]

 

O formato do instrumental hospitalar, os uniformes ímpares dos cirurgiões, a perícia medicinal, não deixavam de constituir outra forte “prova”: “Por que tais luvas? Por que cobrir a cabeça com aquelas máscaras que protegiam também o rosto? Só a saudade de quem tivesse utilizado máscaras para proteger os rostos podia ter influenciado tal costume, e os deuses do espaço forçosamente deviam usar algum tipo de máscara protetora. Os deuses são mascarados. E os aparelhos da sala cirúrgica? Evidenciavam algo? Grandes tubos com relógios! Parece que continham algum gás para o enfermo utilizar. Os tubos tinham a forma de foguetes. O restante dos instrumentos na sala cirúrgica mostravam também – segundo os howbecauseanos – o ensino do espaço, lembranças dos deuses. Máquinas rabiscavam gráficos. Tubulações havia em todos os lados, parecia uma sala de controle de voo. O enfermo deitado, com fios e tubos ligados em seu organismo, era muito parecido a um viajante cósmico em sua cabine da nave. De acordo com as explicações dos howbecausea­nos, até isso simbolizava viagem; os deuses viajavam pelo espaço e os habitantes do século ‘XX’, naquele estado ou situação, muitas vezes ‘viajavam’ para a morte. Por que tantas semelhanças? Seria tudo isso de ‘propósito’? Seria um modo de imitar os ‘deuses’ que ensinaram a arte medicinal ao século ‘XX’. Sim, dizia How-because.”[9]

“Os ‘deuses’ que me perdoem”, concluíram Blair & Still, “mas máscara e capacete não foram feitos apenas para astronautas – servem para tantas coisas, e nem tudo o que se imagina é o que em realidade aconteceu.”[10]

Já os alegados dados matemático-astronômicos embutidos nas construções antigas foram tidos pela dupla como meras coincidências que certamente virão a ser tomadas não enquanto tal, mas como conhecimentos “superiores” vindos dos deuses pelos howbecauseanos quando examinarem as obras de nossa época:

“Ora, ao multiplicar-se a altura da pirâmide por certo número isto fornece medidas corretas de distâncias entre astros!!! Curioso é que, se multiplicarmos o perímetro do tapete de minha sala por X, dá também uma certa distância. Se for por Y, dará outra. É interessante essa coincidência astronômica! Será que meu tapete é um legado dos mestres espaciais? Pode-se brincar com os números como quiser. Uma pirâmide aponta seu corredor para uma estrela famosa. Lição dos deuses? Os estudiosos mostram que era para fins puramente agrícolas indicando bons momentos para o plantio egípcio apenas. Também seria difícil construir qualquer coisa na Terra que não apontasse para alguma estrela. Se apontar o dedo para a praia, sem dúvida indicará um grão de areia. E no espaço há mais estrelas que grãos de areia nas praias. Um meridiano passa pela pirâmide. Deuses, deuses, deuses. Pelo centro de São Paulo passa um paralelo e ali ao invés de espaço-porto de deuses há apenas estação de metrô. Linhas imaginárias, são linhas imaginárias.”[11]

Diagrama do livro Em Busca dos Extraterrestres, de Andreas Faiber Kaiser; apres. de Ignácio de Loyola Brandão; prólogo de Antonio Ribeira. São Paulo, Ed. Três, s.d.; (Planeta, Grandes Mistérios).

Chega a parecer até que Däniken teria feito uma contestação direta a Blair & Still neste tocante quando lemos o seguinte trecho contido no Capitulo 3 (“Maravilha do mundo anônima”) de sua obra Os Olhos da Esfinge, de 1991: “Quem procurar harmonia matemática em pirâmides (e outras edificações antigas) encontrará uma quantidade de números interminável. O comprimento de minha escrivaninha, na qual estou trabalhando neste exato momento, também está em alguma espécie de relação com medidas cósmicas. E por isso não devemos levar a sério nenhum dos numerólogos e matemáticos que derivam dados curiosos da pirâmide de Quéops?”[12]

A ufologia e os ufólogos – então em foco devido a onda de OVNIs que assolava o país desde maio – também não foram poupados por Blair & Still de críticas ferinas e mordazes:

“Na realidade nunca havia prova concreta de uma única visão. Permaneciam os fatos baseados em simples depoimentos tais como: fulano disse, sicrano falou, beltrano escutou! Valiam as afirmações dos avistadores. A ufologia tinha uma legião de ufólogos, pessoas que […] dominavam toda a técnica do saber referente aos OVNIs. Os ufólogos, pelo menos alguns […], rastreavam os OVNIs, detectavam-nos, ofereciam-se como intermediários entre os objetos e os terráqueos. Até marcavam encontros entre eles e os pobres e involuídos seres terrestres – todos –, tidos como ininteligentes, subnutridos, subdesenvolvidos, ínfimas criaturas inferiores, pequenos insetos se comparados com os superdeuses do espaço, os mestres inigualáveis dos outros planetas. […] porém, nenhum ‘pic-nic’ marcado entre os intermediários dos ‘deuses do espaço’ e os pequenos terráqueos, os deuses cumpriram as promessas. Não vieram a nenhum, deixando todos os espectadores apenas vendo estrelas.”[13]

Por fim, além da recomendação para que o leitor “não congele o seu gatinho” (em contraponto à de Däniken para que os astronautas sejam enviados ao espaço em estado de hibernação ou animação suspensa), Blair & Still deixaram a seguinte pérola: Será que os howbecauseanos “descobririam ao invés de um Triângulo das Bermudas um Retângulo das Ceroulas?”[14]

 

Notas

[1] Blair, Syll & Still, Clark. Seriam os Deuses Outras Coisas?, São Paulo, Edicon, 1986.

[2] Ibid., p.15-16.

[3] Ibid., p.7.

[4] Ibid., p.60.

[5] Ibid., p.7.

[6] Ibid., p.44-55.

[7] Ibid., p.53.

[8] Ibid., p.55.

[9] Ibid., p.47.

[10] Ibid., p.62.

[11] Ibid., p.13-14.

[12] Däniken, Erich von. Os Olhos da Esfinge: Novas Perguntas sobre o Antigo País do Nilo, São Paulo, Melhoramentos, 1991, p.104.

[13] Blair, Syll & Still, Clark. Seriam os Deuses Outras Coisas?, São Paulo, Edicon, 1986, p.37.

[14] Ibid., p.10, 37-39.

 

Apelo de Cláudio Suenaga: Ainda estou à procura dos autores por trás do pseudônimo desta obra hoje rara, esgotada e jamais reeditada – hoje em dia só encontrada em alguns poucos sebos -, extremamente criativa, original, engraçada e cheia de tiradas geniais, capaz de desconcertar os mais convictos e partidários da teoria dos deuses astronautas – teoria que aliás nos últimos anos voltou à moda com as especulações em torno do planeta Nibiru e dos Annunakis e a sensacionalística série Ancient Aliens, do History Channel. Enviei vários e-mails à editora Edicon perguntando sobre os autores mas não recebi resposta, de modo que ainda estou à procura dos autores Syll Blair & Clark Still (pseudônimos) para entrevistá-los; assim, se alguém sabe do paradeiro deles ou se os próprios autores estão lendo esta, peço que entrem em contato comigo por este e-mail: [email protected]