Os 50 anos de Eram os Deuses Astronautas?, de Erich von Däniken

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

De todos os partidários da teoria dos antigos astronautas, nenhum popularizou tanto o assunto quanto o suíço Erich von Däniken. Por conseguinte, nenhum esteve tão sujeito a críticas. A maneira direta e desembaraçada com que desenvolveu suas teorias, sem preocupações de ordem conceitual ou metodológica, tornou-o alvo de ataques por vezes furiosos, nos quais frequentemente o acusavam de ignorar ou distorcer dados teológicos, históricos, antropológicos e arqueológicos cruciais. Nada disso, contudo, lhe tira o mérito de ter fincado os alicerces de uma escola alternativa de interpretação, refratária aos postulados acadêmicos oficiais.

O melhor perfil de Däniken foi traçado pelo pesquisador brasileiro Eduardo B. Chaves, autor do livro Mensagem dos Deuses: Para uma Revisão da História do Brasil, inspirado na mesma linha.[1] A amizade cultivada permitiu-lhe captar detalhes pessoais que nos ajudam a compreender os motivos que levaram Däniken a dedicar sua vida aos deuses astronautas:

“Erich se chama na verdade Erich Anton von Däniken. Escreveu alguns contos de ficção usando pseudônimo. Nasceu em Zofingen, a vinte minutos de Zurique, no dia 14 de abril de 1935. Tem três irmãs e um irmão. Só esse último não é ligado ao ramo literário ou artístico. As irmãs são professoras ou ligadas às artes de um modo geral. Seu cunhado, casado com a irmã mais velha, é o chefe de Polícia de toda a Suíça. Mesmo assim, Erich não escapou de três processos e uma prisão. Na prisão, escreveu De Volta às Estrelas: Argumentos para o Impossível (Zurück zu den Sternen) em nove semanas. Isso consta do texto original em alemão, mas foi cortado da tradução brasileira. Entre outras acusações, dizem  que ele roubou dinheiro quando escoteiro. Ele conta que era tesoureiro e emprestou dinheiro da caixa para a mãe de um garoto ir ao médico. Depois disso, Erich foi de tudo no ramo de hotelaria. Desde garçom até gerente e dono, função que ocupava quando o acusaram de ter desviado dinheiro do caixa para escrever Eram os Deuses Astronautas?, mas consta que pagou a todos. Precisava de dinheiro para escrever seu primeiro livro.[2] Foi condenado no condado de Chur onde passou uma temporada na cadeia. Ele diz que o caso lhe trouxe fama e fortuna. Tem um arquivo cheio de recortes com as manchetes e o seu nome, um preso famoso. Ele pensa que se tivesse vivido durante a Inquisição, teria sido queimado pelo Santo Ofício. Erich estudou num colégio jesuíta. Foi lá que, lendo a Bíblia constantemente, começou a achar que havia algo errado em tudo. Era obrigado a traduzir a Bíblia do grego para o latim e depois para o alemão, como exercício. Ia concluir o seminário e provavelmente hoje teríamos mais um padre em vez de um escritor, caso não raciocinasse em tempo. Talvez tenha sido no colégio que aprendeu a tocar tão bem trompete e piano, além de  fazer poesias de improviso. Para quem pensa que a vida de Erich é um mar de rosas, não sabe que ele já teve seus transtornos. Erich tinha um filho: Peterli. Morreu com pouco mais de 1 ano. Nessa época, ele tinha seu próprio hotel, que pegou fogo um mês depois da morte da criança. Erich teria dito na ocasião: ‘Perdi tudo o que tinha’. O que é normal ouvir de alguém que vê seu carro, sua casa e seu negócio queimar. Acusaram-no de ter deixado seu filho morrer dentro do hotel em chamas. Na verdade, o filho já estava enterrado há um mês. […] Mas Erich já teve outras recompensas além do sucesso. Em  seu escritório pode-se observar, atrás da porta que dá acesso ao jardim, um quadro com um diploma de doutor honoris causa conferido pela Universidade da Bolívia pela profissão que inventou e por ter divulgado a arqueologia da América do Sul em seus livros.”[3]

As ideias de Däniken advêm, portanto, dos tempos em que recebia rígida formação católica. Em 1954, aos 19 anos, sua curiosidade o levou pela primeira vez ao Egito, onde pretendia apurar a veracidade de determinados escritos cuneiformes. A herança profissional de Däniken, filho de uma família dedicada ao ramo da hotelaria, facilitou-lhe a tarefa a que se julgava incumbido. Em 1964, dirigia um hotel numa estação de esqui suíça, que só funcionava no inverno. O resto do ano era empregado por ele em viagens de pesquisas e coleta de material para a documentação de suas obras.

Eram os Deuses Astronautas? Enigmas Indecifrados do Passado (Erinnerungen an Die Zukunft, título do original em alemão que se traduz por Chariots of the Gods ou Carruagem dos Deuses), lançado em 1968, logo se tornaria o maior achado editorial de um gênero ainda pouco explorado. Os mais de onze títulos que escreveu venderam mais de 50 milhões de exemplares e foram traduzidos para 38 idiomas. O autor ostentava o título de o mais lido na Alemanha Ocidental depois da Primeira Guerra Mundial.

A capa e a contracapa da edição brasileira de “Eram os deuses astronautas?”, publicada pela Melhoramentos, faz um sugestivo e irresistível paralelo entre o relevo maia da laje de Palenque, no Templo das Inscrições (desencavada em 15 de junho de 1952 pelo arqueólogo francês naturalizado mexicano Alberto Ruz Lhuillier nas montanhas da Península de Yucatán, ao norte do estado mexicano de Chiapas, na fronteira da Guatemala, a 903 quilômetros da Cidade do México) e o Módulo de Comando e Serviço do Projeto Apollo: é difícil não crer que a melhor “prova” usada por Däniken para sustentar as suas teorias não seja de fato um antigo astronauta.

Suas sugestões continham um apelo irresistível. Por que, ao invés de enviarmos sinais de rádio para o espaço, não procuramos indícios de civilizações extraterrestres aqui mesmo na Terra? O público, exaurido dos debates intermináveis da ufologia e da relutância dos cientistas em levar os OVNIs a sério, estava predisposto a acolher alguém que se apodera de cada megálito, cada vestígio, cada mito. Os ufólogos pegaram carona no sucesso de Däniken, mantendo um certo distanciamento. O astrofísico Josef Allen Hynek reconheceu que ele havia “tocado num nervo sensível do inconsciente coletivo”. O também astrofísico Jacques Vallée ponderou sobre as razões da simpatia granjeada junto ao grande público: “Há uma grande lacuna de credibilidade entre o cientista e o público […] Däniken apenas dramatizou a existência dessa lacuna.”[4]

O cerne das proposituras de Däniken estava no questionamento a várias passagens da Bíblia, como aquela em que Deus, precedido por raios e trovões, entrega as Tábuas da Lei a Moisés. Para Däniken, um ser onipotente não precisaria fazer tanto barulho para ser visto. Os raios e trovões só poderiam ter sido provocados, portanto, por uma nave espacial. Outra afirmação que gerou acirradas polêmicas, inclusive entre setores da Igreja Católica, que o acusaram de ateu, foi a de que Jesus não é filho de Deus. Däniken argumentou que Deus não mandaria seu filho para ser sacrificado pelos homens. Jesus existiu, foi um grande líder político, mas daí a ser considerado filho de Deus haveria uma grande distância. Däniken não negava a Bíblia, querendo sim vê-la atualizada, o que pressuporia a menção de seres extraterrestres.

Apologia ao nazismo

Däniken atribuiu aos deuses astronautas da Antiguidade a mesma “superioridade” dos conquistadores europeus do século XVI. À humanidade “primitiva e selvagem”, restava apenas ser colonizada. O eurocentrismo de Däniken fica patente ao justificar a intervenção de uma cultura pretensamente superior sobre uma em suposto estado de anomia e abulia, destituída de elaboração estrutural básica e de “princípios” morais e civilizatórios. Subestimando propositadamente a capacidade inventiva dos povos do passado, Däniken incorreu em uma nova forma de racismo, o “racismo espacial”, conforme acusou o arqueólogo norte-americano William Laurens Rathje (1945-2012), professor emérito de Antropologia da Universidade do Arizona. O jornalista e arqueólogo brasileiro Fernando G. Sampaio foi mais incisivo, acusando-o abertamente de ser apologista do nazismo:

“Däniken comprova que também não entende nada de antropologia, além de ter pouca consciência humana. Senão, vejamos: ‘nossos astronautas tentariam ensinar aos nativos os mais simples rudimentos de civilização, a fim de tornar possível o estabelecimento e aceitação de certa ordem social. Algumas mulheres, especialmente selecionadas, seriam fertilizadas pelos astronautas. Assim surgiria uma nova raça (Heil Hitler!), capaz de saltar alguns degraus da evolução natural (?) e desenvolver-se num estágio superior, sem passar pelas fases intermediárias.’ Däniken, como se vê, estaria à vontade entre Alfred Rosemberg, Herman Gausch, Julius Streicher e Hans F. K. Günther, antropólogo da Universidade de Jena, principais teóricos do racismo do Terceiro Reich, com suas afirmações de que ‘o homem não nórdico toma uma posição intermediária entre o homem nórdico e o macaco’. (Gausch, Novos Elementos de Investigação da Raça, Berlim, 1934). Em suma, o pensamento de Däniken é, puramente, fascista. E isto é extremamente perigoso, quando suas ideias vendem duzentos mil exemplares e são assimiladas por um número incalculável de pessoas.”[5]

De minha parte sinto-me compelido a concordar e apoiar integralmente Sampaio diante de assunções como esta:

“Há tempos remotíssimos, ainda incomensuráveis, uma nave espacial alienígena descobriu nosso planeta. A tripulação da espaçonave viu logo que a Terra possuía todas as condições para a formação de uma vida inteligente. Evidentemente, o ‘homem’ então existente ainda não era Homo sapiens, mas qualquer outra coisa… Os astronautas estranhos fertilizaram artificialmente alguns exemplares femininos desses seres, deixaram-nos em sono profundo, e tornaram a partir. Milhares de anos mais tarde, os astronautas voltaram e encontraram alguns poucos exemplares do gênero Homo sapiens. Repetiram o processo enobrecedor e selecionador algumas vezes, até finalmente formar um ser com um grau de inteligência suficiente para lhe serem ensinadas regras sociais. Ainda continuavam bárbaros os homens daquele tempo. Existindo o perigo de que retrocedessem e tornassem a acasalar-se com animais, os astronautas aniquilavam os exemplares malogrados, ou levavam-nos, a fim de deixá-los em outros continentes. Surgiram as primeiras comunidades e as primeiras aptidões; paredes de rocha e cavernas foram pintadas, a cerâmica foi inventada e tiveram êxito as primeiras tentativas arquitetônicas. Esses primeiros homens têm um respeito incomensurável pelos astronautas estrangeiros. Como chegam de qualquer parte e depois desaparecem para qualquer parte, tornam-se ‘deuses’ para eles. Por um motivo inimaginável, os ‘deuses’ estão interessados em transmitir inteligência. Cuidam de suas criações, desejam  protegê-las de deterioração e manter o mal distante delas. Querem forçar uma evolução positiva de seus seres sociais. Crianças anormais eram eliminadas, cuidando-se de que o restante dispusesse das condições necessárias a uma sociedade capaz de desenvolver-se.”[6]

De Volta às Estrelas

De Volta às Estrelas – livro escrito na prisão que estouraria apenas duas semanas depois de seu lançamento, em 1969 – repisava os argumentos para o impossível originalmente propostos por Peter Kolosimo, ao declarar:

“De volta? Então nós viemos das estrelas? A ânsia pela paz, a procura da imortalidade,  a saudade  das estrelas – tudo isso fervilha na consciência humana e procura, desde tempos imemoriais, irresistivelmente, tornar-se realidade. É natural essa aspiração profundamente implantada no ser humano? São realmente só ‘desejos’ humanos? Ou esconde-se, atrás daqueles anseios de realização, daquela saudade das estrelas, algo bem diferente? Estou convicto de que a  saudade que sentimos das estrelas é mantida acordada em nosso ser como uma espécie de herança deixada pelos ‘deuses’. Atuam em nós, da mesma foram, lembranças de nossos antepassados terrestres e lembranças de nossos mestres cósmicos. Não me parece que a formação da inteligência humana tenha sido o resultado de um interminável desenvolvimento, pois esse processo se realizou muito repentinamente. Acredito que nossos antepassados receberam sua inteligência dos ‘deuses’, os quais deviam dispor de conhecimentos que possibilitaram esse processo em curto prazo.”[7]

Na esteira  do sucesso de Eram os Deuses Astronautas?, Däniken apressou-se em concluir as narrativas de viagens à América do Sul, à Índia e à União Soviética, onde entrevistou pesquisadores que abriram caminho para o tema que ora o consagrava. No verão de 1968, Däniken leu na revista soviética Sputnik os artigos Espaçonave no Himalaia e Anjos em Espaçonaves,[8] de Viatcheslaw Zaitsev. Sem demora, reservou uma passagem aérea para Moscou, encontrando-se com Alexander Kazantzev e com o astrônomo e astrofísico Iosif (ou Josif) Samuilovich Shklovsky (1916-1985), diretor do Departamento de Rádio-Astronomia do Instituto Sternberg, da Academia de Ciências Soviéticas.

Vieram os Deuses de Outras Estrelas?

O redator-chefe da Rádio Sudoeste da Alemanha e publicitário Ernst von Khuon (1915-1997), reuniu no livro Vieram os Deuses de Outras Estrelas? (Waren die Götter Astronauten?),[9] publicado em 1970, artigos de dezesseis cientistas e acadêmicos – entre eles Herbert Kuhn (1895-1980), Joachim Illies (1925-1982) e Maria Reiche – opondo críticas aos livros de Däniken. Naquela altura, as pesquisas indicavam que dois entre cada três habitantes do mundo dito civilizado ao menos já tinham ouvido falar na teoria dos deuses astronautas, sendo que um em cada quatro a tomava como factível. Winfried Petri (1914-2000), de Munique, observou por exemplo que a “nave espacial” descrita pelo profeta Ezequiel era semelhante às rodas de madeira em uso à época, nas quais se afixavam pregos de bronze com cabeça redonda para protegê-las do desgaste:

“Cabe aqui lembrar que veículos de rodas são conhecidos desde o período Uruk dos sumérios (aproximadamente 3.500 a.C.) e que, a partir do terceiro milênio, era uso proteger contra o desgaste as rodas, então feitas de madeira, batendo nelas pregos de cabeça redonda. Por exemplo, há discos de rodas, encontrados em Susa, munidos de fileiras espessas de pregos de bronze, de uns 5 centímetros de comprimento. Não teria sido uma construção dessas que estava na mente do profeta Ezequiel ao escrever: ‘Tinham também estas rodas uma altura horrível; todo o corpo das quatro rodas estava cheio de olhos ao redor?’ (I, pág. 55; Ezequiel, capítulo 1, versículo 18). Os pregos de cabeça redonda bem poderiam sugerir olhos.”[10]

Semeadura e Cosmo

Entrementes, Däniken preparava um terceiro volume a ser lançado em 1972, aquele que viria a tornar-se sua obra mais polêmica. Semeadura e Cosmo: Vestígios de Planos de Inteligências Alienígenas (Aussaat und Kosmos: Spuren und Pläne Ausserirdischer Intelligenzen), tinha como cerne a sua alegada visita a um sistema de túneis subterrâneos artificiais no Equador, onde dizia ter visto e fotografado esqueletos cobertos de ouro, móveis de ouro e uma biblioteca de ouro contando a história de uma antiga civilização.

Däniken abre o livro com o capítulo “O Ouro dos Deuses” [título que o editor norte-americano deu ao livro (The Gold of the Gods) e que a editora Melhoramentos daria ao livro seguinte], dedicado à sensacional revelação da descoberta de um “gigantesco sistema subterrâneo de túneis, de vários milhares de quilômetros de extensão, projetado e instalado por alguém, em uma época qualquer” sob o continente sul-americano e cuja entrada estaria na província de Morona Santiago, na região oriental do Equador: “Para mim é esta a história mais incrível e menos verossímil do século. Poderia dar enredo para uma novela de ficção científica, se não me tivesse sido dado ver e fotografar o incrível. Aquilo que vi não é sonho, nem fantasia, é a pura realidade.” Quem o conduziu até lá, no início de março de 1972, foi o próprio “descobridor” – como se reivindicava – desse fabuloso mundo subterrâneo, o húngaro naturalizado argentino Juan Moricz, acompanhado do advogado deste, Gerardo Peña Matheus, de Guayaquil (maior cidade do Equador), e de Franz Seiner (o companheiro de viagem de Däniken).[11] Assim começa a narrativa de Däniken:

“Na província de Morona Santiago, no triângulo formado por Gualaquiza-S. Antônio-Yaupí, habitado por indígenas inimigos de forasteiros, encontra-se a entrada, cortada na rocha, da largura de uma porteira, levando àquele labirinto subterrâneo. Passamos por essa porteira e, de repente, entre um passo e outro, à luz do dia, penetrando de fora, cedeu diante da mais negra escuridão. Pássaros voavam em volta de nossa cabeça; sentimos o sopro do vento e um profundo estremecer na alma. Faróis e faroletes começaram a iluminar o ambiente e, em nossa frente, o buraco de descida abriu sua boca sinistra. Um sistema de cabos fez-nos descer até a primeira plataforma, a 80 metros de profundidade. De lá descemos por mais duas vezes 80 metros, para então começar nossa jornada através do mundo subterrâneo, artificial, criado por homens de raça estranha, ignorada, em milênios passados. Todos os corredores subterrâneos estão dispostos em ângulo reto; sua largura varia entre estreita e ampla, as paredes são lisas, por vezes dão a aparência de terem sido polidas; os tetos são planos, com aspecto de vitrificados. Decerto, esses corredores não se fizeram por seus próprios meios naturais, pois apresentam-se como abrigos antiaéreos de nossos tempos. […] Estávamos na entrada de um salão enorme, das dimensões de um hangar apto a receber um jato ‘Jumbo’ – Pensei que aquilo poderia ter servido de local de distribuição, depósito de material. Ali terminavam ou começavam galerias levando a direções diversas. Consultei a bússola e, nada feito, entrou em greve; sacudi-a, porém, sem resultado; a agulha permaneceu imóvel. Moricz observou minhas tentativas inúteis e comentou: ‘Não adianta. Aqui embaixo há radiações que impossibilitam qualquer orientação por bússola. Nada entendo de radiações, apenas tive ensejo de observá-las. Tal fenômeno requer o trabalho de um físico’.”[12]

Däniken descreve a presença no “umbral de um corredor lateral”, de um “esqueleto limpíssimo, como se tivesse sido preparado para uma aula de anatomia, na faculdade”, coberto por “uma fina camada de pó de ouro, como que espargida por um ‘spray’ ”; no meio de um vasto salão no qual desemboca o sétimo corredor, de dimensões assustadoras, com uma área de 110 x 130 metros, uma “mesa” que não era nem de pedra, madeira ou metal, mas de “um material sintético de preparo especial”, rodeada de “cadeiras” e de “figuras de animais, sáurios (pré-históricos), elefantes, leões, jacarés, jaguares, camelos, ursos, macacos, bisões, lobos, lagartos, caracóis, caranguejos”, enfim, “um jardim zoológico totalmente louco, com os bichos talhados em ouro puro”; e no mesmo salão, defronte e à esquerda do jardim zoológico, atrás da grande mesa de conferência, uma fantástica “biblioteca de chapas de metal”:

“Parte delas são chapas, parte folhas de um milímetro de espessura; a maioria com o tamanho de 96 x 48 centímetros. Mesmo após detida e minuciosa observação não logrei imaginar qual seria o material, cuja consistência permite ficarem em pé folhas de espessura tão fina e de tão grande tamanho. Estão colocadas umas ao lado das outras, como as folhas de um infólio gigantesco, cosidas ordenadamente. Cada chapa é inscrita, carimbada e impressa de maneira uniforme, como por uma máquina.”[13]

Dos tesouros depositados nos subterrâneos de Morona Santiago, Däniken passa a falar dos tesouros que teriam sido dali retirados e que agora se encontravam depositados no quintal da Igreja dos Pobres, de Maria Auxiliadora, em Cuencas, no Equador, a 2.500 metros de altitude, sob a guarda do padre Carlos Crespi. As peças de ouro, prata e bronze, incluindo placas, cetros, capacetes e escudos em forma de discos, vinham-lhe sendo trazidas pelos índios há 45 anos em sinal de amizade e confiança. Como não poderia deixar de ser, Däniken viu em muitas das placas com imagens e incisões hieroglíficas arcaicas – confeccionadas, na acepção de Crespi, por povos antediluvianos (sumérios, egípcios, fenícios e cartagineses) e outros posteriores ao dilúvio de regiões distintas do Oriente Médio que tinham visitado a bacia do Rio Amazonas –, “símbolos quase inequívocos das viagens espaciais”. Alto-relevos em ouro retratam pirâmides maçônicas-illuminati (semelhantes àquelas estampadas no verso na nota de um dólar) encimadas quase sempre por um Sol (equivalente ao “Olho de Hórus”) e, por vezes, por vários sóis com serpentes voando ao lado ou por cima acompanhadas de animais de diversas espécies: “Ao redor das pirâmides, sempre se acham gravados círculos duplos, de tamanho idêntico, em números diversos; contei de 9 a 78 de tais círculos.”[14]

Logo após a publicação do livro, porém, ao ser entrevistado por jornalistas alemães das revistas Der Spiegel e Stern, Moricz negou ter estado no mundo subterrâneo com Däniken e o acusou de ter inventado a maior parte da história. Moricz explicou que no decurso do encontro que mantiveram, não houve tempo suficiente para mostrar a Däniken a verdadeira localização da entrada do sistema de túneis, pelo que se limitaram a levá-lo até a entrada de uma pequena caverna a cerca de 30 minutos de Cuenca. A foto em que Däniken aparece sentado ao lado de Moricz defronte ao que parece ser a boca de uma estreita passagem subterrânea, não passava dessa pequena caverna sem qualquer conexão com a rede.

 

Para piorar, a fantasiosa narrativa de Däniken adquiriu o caráter de dupla fantasia por ter partido da versão igualmente fantasiosa de Moricz, que reivindicou ter descoberto o sistema de túneis e a biblioteca de metal durante uma expedição que levou a cabo em 8 de julho de 1969, quando na verdade o sistema de túneis já era conhecido desde pelo menos há um século e a biblioteca de metal jamais havia sido encontrada. Em entrevista a Der Spiegel publicada na edição de 19 de março de 1973, Moricz admitiu não ter sido ele o descobridor do sistema de túneis ou da biblioteca metálica, mas ter sido levado por “alguém” até lá, cuja identidade não quis revelar.

A credibilidade e a reputação de Däniken nunca foram tão abalados quanto por esta fantasiosa história, tanto que no documentário da PBS/BBC, The Case of the Ancient Astronauts, produzido em 1978, o próprio Däniken, pressionado, admite que jamais esteve no sistema de túneis e se justifica dizendo não ser um escritor de livros científicos, mas populares, que mistura fatos e ficção para “estimular o leitor”, ou em outras palavras, aumentar as vendas.

Em contrapartida, em seu livro Erich von Däniken em Julgamento, publicado no mesmo ano, Däniken voltou a insistir que esteve sim no sistema subterrâneo de túneis e acusou Moricz de ter mentido para apaziguar os ânimos dos participantes da expedição de 1969 que haviam assinado um documento comprometendo-se a não divulgar nenhum dos detalhes que chegaram a conhecer naquela ocasião, e que agora se sentiam prejudicados com a publicação de seu livro já que se davam conta da oportunidade perdida de terem feito eles mesmos uma fortuna com a história. “A essa altura, Moricz teve de defender-se contra eles, aí então deve ter tido a ideia luminosa de declarar que tudo aquilo fosse apenas invenção minha e que eu jamais estive lá embaixo…”, argumentou Däniken,[15] que reafirmou ter sim encontrado “corredores quilométricos e saguões imensos” e se deparado com diversas preciosidades arqueológicas, tais como estatuetas e pedras com desenhos riscados, à exceção da biblioteca de metal, já que somente Moricz conhecia a sua exata localização.[16]

Charge publicada na página 112 do livro Erich von Däniken em Julgamento.

O capítulo 5 de Semeadura e Cosmo, “Nas pegadas dos índios”[17] foi inteiramente dedicado a narrar a sua primeira viagem ao Brasil, “país dos extremos” e em “fase de tremenda evolução”, então às voltas com o “milagre econômico” do Regime Militar, que aliás lhe custeou o voo até Teresina, uma que vez o Governo do Piauí pretendia promover o Parque Nacional de Sete Cidades, convertido em 5 de junho de 1961 em uma unidade de conservação por decreto do então presidente Jânio Quadros.[18] O convite das autoridades governamentais do Piauí para visitar Sete Cidades foi conseguido por intermédio do advogado e publicitário piauiense Renato Pires Castello Branco, que assinava seus livros apenas como Renato Castelo Branco (1914-1995), considerado um dos “Founding Fathers” da publicidade brasileira, membro da Academia Piauiense de Letras e autor de vários livros referenciais, entre eles Piauí: A Terra, o Homem, o Meio[19] e Pré-História Brasileira: Fatos e Lendas (dedicado à memória do escritor de ficção científica Jeronymo Monteiro).[20]

Sete Cidades se tornou conhecida no mundo inteiro e passou a atrair muitos arqueólogos e turistas em grande parte graças a Däniken,[21] que também conferiu popularidade à lenda kaiapó contada por Bep-Noy, o velho conselheiro Kuben-Kran-Kein, da aldeia Gorotire, às margens do Rio Fresco, afluente do Xingu, Pará, e recolhida pelo indigenista João Américo Peret (1926-2011),[22] lenda essa que “aconteceu”, como observou Peret, “muito antes de Erich von Däniken pensar em escrever seu famoso Eram os Deuses Astronautas?”. O herói mítico e disciplinador social que povoa o universo mental da nação kaiapó é Bep-Kororoti. Com sua kop (borduna trovejante), ele reduzia pedras, árvores e objetos em escombros calcinados. Por fim, desapareceu nos céus entre fumaça e trovões. O velho conselheiro Bep-Noyon merecia o título de gway-babã (o sábio). Peret ouviu-o numa tarde de 1962, à sombra acolhedora da ngóbi (casa dos homens). Narrou Peret:

“Um dia, vindo da serra proibida de Pukatoti, surgiu, pela primeira vez na aldeia, Bep-Kororoti, trajando (roupa de palha que lembra o traje dos astronautas), que o cobria dos pés à cabeça. Trazia também kop, a borduna trovejante (espada de dois gumes, grande e pesada). Os que ali o viram, correram para o mato, apavorados, protegendo as mulheres e crianças, enquanto alguns guerreiros mais afoitos deram combate ao ‘invasor’. Mas suas armas eram impotentes e viravam pó quando tocavam as vestes de Bep-Kororoti. O guerreiro do espaço achava graça e dava gargalhadas antes a fragilidade dos que o combatiam. Para demonstrar seus poderes, de vez em quando apontava sua borduna trovejante em direção de uma árvore ou pedra, destruindo-as por completo. Parecia querer, com isso, mostrar que não vinha com intenções guerreiras. A princípio, havia correrias e os bravos da aldeia ainda esboçavam resistência, mas com o tempo foram se acostumando com a presença de Bep-Kororoti, que não os molestava. Certo dia ele apareceu sem aquela roupa espalhafatosa: trajava um macacão mais justo e expunha parte do corpo. Sua beleza, brancura e simpatia fascinava e atraía a todos, transmitindo uma sensação de tranquilidade. E tornaram-se amigos. Bep-Kororoti divertia-se aprendendo a usar nossas armas e tornou-se um bom caçador, chegando a suplantar em coragem e destreza os melhores da aldeia. Nosso amigo não tardou a ser adotado como guerreiro e em breve foi escolhido por uma jovem, com quem se casou. O casal teve alguns filhos homens; seus descendentes trazem ainda hoje o prenome de Beb. Mais tarde ele passou a ensinar várias coisas, como, por exemplo, a construção da ngóbi, casa onde os homens se reúnem diariamente para relatar suas façanhas. Assim os mais jovens aprendem como agir nos momentos mais difíceis. A casa era e é nossa escola, da qual Bep-Kororoti foi um autêntico mestre. Também era ali que se fazia artesanato e se aperfeiçoava as armas. Ele criou o Grande Conselho, onde debatemos os problemas da comunidade, e melhorou nossa organização, facilitando a vida de todos. Vez por outra, os jovens mais rebeldes deixavam de frequentar a ngóbi. Bep-Kororoti vestia então sua , roupa de segurança, e saía atrás dos garotos, fazendo-os retornar à escola. Nas vezes em que a caçada se tornava difícil, o herói usava sua borduna trovejante para abater um animal. O caçador tem direito à melhor parte da caça, mas Bep-Kororoti, que raramente comia, limitava-se a levar o indispensável para sua família. Com o passar dos anos, Bep-Kororoti foi ficando cada vez mais triste: já não saía com os velhos companheiros e preferia permanecer em sua choça. Quando saía, tomava a direção da Serra de Pukatoti, de onde viera. A saudade consumia seu coração. Um dia, após caçar uma anta, a divergência em torno da partilha descontentou-o e ele deixou a aldeia. Reuniu a família, com exceção de Niô-Pouti, que se encontrava ausente, e rumou a Pukatoti. Os dias se passavam até que Bep-Kororoti surgiu no terreiro soltando brados de guerra. Seus amigos, julgando-o enlouquecido, tentaram dominá-lo, e uma luta feroz se travou. Bep-Kororoti não precisou usar sua borduna, já que seu corpo vibrava desacordando os guerreiros. A lutou durou vários dias, pois o grupo era numeroso. Sobreveio então um fantástico acontecimento que deixou todos mudos de espanto: Bep-Kororoti foi recuando até o sopé da Serra de Pukatoti, e, com a kop, destruiu tudo o que havia por perto. Árvores e pedras foram reduzidas a pó. Subindo ao topo da serra, ouviu-se um estrondo violento que abalou toda a região, e Bep-Kororoti subiu para o espaço, envolto em nuvens flamejantes, fumaça e trovões. Niô-Pouti, a filha de Bep-Kororoti, casou-se com um guerreiro. Até o nascimento de seu primeiro filho, nada de anormal aconteceu. Mas a aldeia começou a passar por dificuldades. A tempestade provocada pela subida de Bep-Kororoti arrasara a mata e espantara a caça. Niô-Pouti disse então ao marido que sabia onde conseguir alimentos para a aldeia. Porém, deviam ir até Pukatoti, a serra proibida. Ante a insistência de Niô-Pouti,o marido aceitou acompanhá-la. Ela procurou, diante de Mem-Babã-Kent-Kre, uma árvore especial, instalando-se num de seus galhos. Levava consigo seu filho no colo. Recomendou ao marido que não abandonasse o local, pois não demoraria, e pediu-lhe que envergasse um dos galhos até que este tocasse o chão. Assim que executou o movimento, produziu-se uma violenta explosão, e Niô-Pouti sumiu no espaço, em meio a pó, fumaça, relâmpagos e trovões. O marido, quase morto de fome e cansaço, já ia perdendo as esperanças quando ouviu um ruído e viu-se diante de uma ‘árvore’ enorme, de dentro da qual saíram sua Niô-Pouti, os cunhados e a sogra carregando cestos de alimentos desconhecidos. Ofereceram-lhe uma bebida igualmente desconhecida e ele logo recuperou as forças. Os parentes tomaram assento nos ‘galhos’ da ‘árvore’ que desapareceu no espaço com uma forte explosão. Niô-Pouti regressou junto do marido e transmitiu uma ordem de Bep-Kororoti: todos deveriam deixar suas casas e erguer uma nova aldeia em Pukatoti, defronte a Mem-Babã-Kent-Kre. Mandou ainda que guardassem as sementes de frutas, verduras e legumes para que fossem plantadas na época das chuvas. E assim passamos a cultivar os alimentos em grandes lavouras. Vivemos muitos anos felizes em Pukatoti. As choças se multiplicaram. Foi lá que nasceram os pais de nossos pais. E até hoje estão presentes os sinais da passagem de Bep-Kororoti…”[23]

Mitologia em palha. Os índios brasileiros, caiapós, confeccionam suas máscaras de palha segundo antigas tradições; simbolizariam visitantes do cosmo. Essas máscaras são usadas por ocasião das festas da tribo. Foto do filme Mensagem dos Deuses. Fotos do livro O Ouro dos Deuses.

O Ouro dos Deuses e A “nave espacial” do profeta Ezequiel

O Ouro dos Deuses (Meine Welt in Bildern), de 1973, constitui um rico painel visual e documental sobre as especulações e pesquisas focalizadas nas obras anteriores. O “mundo” de Däniken aparece com notável riqueza de elementos em mais de 370 fotos, das quais 57 em cores. Descobertas arqueológicas são acompanhadas de suas respectivas interpretações tecnológicas as quais demonstrariam que os homens da Antiguidade se encontravam diante de “realidades mal-entendidas”.

O Velho Testamento, mormente o livro de Ezequiel, e o “astronauta” de Palenque, são objetos de novas especulações, com os quais concordavam técnicos como o engenheiro da NASA Josef F. Blumrich (1913-2002) e o engenheiro aeronáutico John Sanderson. Inúmeros artistas tentaram ilustrar a visão de Ezequiel, conferindo aos desenhos traços que permitem depreender o sistema de crenças vigentes em suas épocas. Uma das mais expressivas é a que compõem uma das 123 xilogravuras (de autor desconhecido) da Bíblia de Martinho Lutero, editada em 1534. Como não poderia deixar de ser, no século XX a visão teológica foi substituída pela tecnológica, a nova religião moderna.

Ezequiel, israelita da casta sacerdotal, deportado para a Babilônia e aí aclamado profeta entre 595 e 570 a.C., como tal anunciou o colapso do Estado de Judá e a destruição de Jerusalém. Em Ezequiel 1:1-9, consta o relato da aparição do que ele chamou de “Magnificência do Senhor”:

“No ano trigésimo, no quarto mês, a cinco do mês, aconteceu que, estando no meio dos cativos, junto ao Rio Cobar, se abriram os céus e tive visões divinas. A cinco do mês, no quinto ano da deportação do rei Joaquim, foi dirigida a palavra do Senhor a Ezequiel, filho de Buzi, sacerdote, na terra dos caldeus, junto ao Rio Cobar, e lá a mão do Senhor fez-se sentir sobre ele. Vi e eis que vinha do lado do Aquilão um torvelinho de vento, uma  grande nuvem, um globo de fogo e à roda dela um resplendor. No meio dele, isto é, no meio do fogo, uma espécie de metal brilhante. No meio deste mesmo fogo, aparecia uma semelhança de quatro animais, cujo aspecto tinha a semelhança de um homem. Cada um tinha quatro rostos e cada um quatro asas. Os seus pés eram pés direitos, a planta dos pés era como a planta do pé dum novilho, e cintilavam como cobre incandescente. Tinham  mãos de homem debaixo das suas asas aos quatro lados, e também  tinham rostos e asas  pelos quatro lados. As asas de um estavam juntas às do outro; não se voltavam quando iam caminhando, mas cada um caminhava segundo a direção do seu rosto.”[24]

A visão sacrossanta de Ezequiel foi reinterpretada por Däniken e seus discípulos, que levaram o tecnicismo ao extremo. O engenheiro da NASA Joseph F. Blumrich, detentor de numerosas patentes, lançou em 1973 E Então o Céu Abriu-se,[25] em que reconstitui, seguindo literalmente as descrições do profeta, uma nave espacial metálica, com hélices giratórias, exaustor e vigias. Blumrich foi diretor da Seção de Construção de Projetos da NASA em Huntsville, Alabama. Já em 1934 começou a trabalhar na fabricação de aviões e sempre esteve envolvido em projetos de foguetes e satélites. Em 1962 e 63, dirigiu uma equipe encarregada de encontrar soluções para problemas insurgentes. Uma das tarefas consistia em pesquisar pernas de aterrissagem para pousar na Lua. Pensaram em pernas descartáveis dotadas de molas e capazes de deslizar no solo. Mais tarde, lendo o primeiro livro de Däniken, Blumrich convenceu-se de que Ezequiel descrevera a nave usando símbolos e metáforas “por não possuir conhecimentos técnicos”.[26] Como asseverou Victor Ferkiss, uma nova civilização tecnológica e um novo tipo humano, o homem tecnológico, estavam em formação, resultantes da sociedade industrial contemporânea, que alterava todos os valores sociais e culturais pertinentes.[27]

O Livro de Enoque (“O Iniciado” em hebraico), filho de Jared e pai de Matusalém, é uma das vários escrituras vedadas por autoridades judias ou cristãs. Possuía Enoque sabedoria estranha ao seu tempo, como os relativos às órbitas solar e lunar, aos dias bissextos, às estrelas, à mecânica celeste e às determinações geográficas do Universo. Terminada sua missão, Enoque subiu ao céu em uma carruagem de fogo. Numerosos trechos de uma tradução desse livro são transcritos e interpretados por Däniken. Da mesma forma são expostos os capítulos dos livros apócrifos de Esdras, que não constam do Velho Testamento.[28]

Aparições

Enquanto seguia as pegadas de seus deuses astronautas, Däniken aproveitava para visitar locais que, em virtude de aparições divinas, tornaram-se centros de peregrinação religiosa. Dez anos de andanças por Portugal, Espanha, Itália, França, Bélgica, Alemanha, Estados Unidos, Chile e Equador resultaram em 1974 no livro Aparições (Erscheinungen), o único que destoava quase que completamente dos predecessores. Uma pesquisa de opinião pública na República Federal Alemanha e em Berlim Ocidental indicava que mais de 50% das pessoas acreditavam em milagres e visões, porcentagem que crescia em países de maioria católica. Detendo-se em aparições verificadas tanto no mundo cristão como fora dele, Däniken concluiu que elas eram em grande parte verídicas. Porém, como não poderia deixar de ser, não concordava com as atitudes e posições da Igreja Católica, que reivindicava exclusivamente para si as aparições autênticas. Os milagres, subsequentes às visões de Jesus, de Maria, de santos ou arcanjos teriam uma explicação “lógica”. Se a medicina valia-se eficazmente do feedback biológico, por que não haveria também um feedback psicológico? Para Däniken, Deus se comunicaria com a humanidade através da telepatia, o melhor meio de transmitir ideias, sensações e imagens.[29]

Provas de Däniken

Em seu mais audacioso e bem fundamentado livro, Provas de Däniken: Deuses, Espaçonaves e Terra (Beweise-lokaltermin in Fünf Kontinenten), de 1977, Däniken atribuiu a si mesmo o papel de réu de um tribunal virtual, cabendo-lhe provar sua inocência perante os que o acusavam de distorcer e manipular dados. No final, convicto da absolvição, propôs a inversão da carga comprobatória, ao apelar:

“Egrégio tribunal, minhas senhoras e meus senhores! Neste processo trancei uma espessa corda de provas e indícios. Apresentei fontes autênticas, mostrei fotos, consubstanciando o tema da prova. Dei a palavra a peritos de renome internacional. Voluntariamente, assumi o papel de réu! Agora peço ao egrégio tribunal a inversão da carga comprobatória: A outra parte que argumente com indícios, igualmente convincentes, a favor de sua teoria, segundo a qual os extraterrestres não estiveram na Terra!”[30]

Erich von Däniken em Julgamento

O tom inquisitorial da obra instou a compilação, no ano seguinte, de Erich von Däniken em Julgamento (Erich von Däniken im Kreuzverhör). Däniken havia observado, por ocasião das palestras e debates por ele conduzidos ao redor do mundo, que os interlocutores invariavelmente formulavam perguntas idênticas e abordavam os mesmos aspectos de sua personalidade e teoria. Reunindo-as num só volume, esperava encerrar de vez certas polêmicas, a maioria das quais em torno de sua posição política ambígua, das declarações em que se proclamava favorável à instalação de usinas nucleares e das acusações de fraude e racismo.[31]

O Profeta do Passado

O Profeta do Passado: Ideias Arriscadas da Onipresença de Extraterrestres (Prophet der Vergangenheit), de 1979, como o próprio título diz, apelava para os mais disparatados indícios.[32] Até então, Däniken havia percorrido 215 mil quilômetros, proferido cerca de 1.147 conferências, vendido 43 milhões de exemplares em 28 países e sido traduzido em 35 idiomas. Dentre sua legião de seguidores, estavam vários arqueólogos que batizaram o novo ramo de “astroarqueologia”. Somente no mundo ocidental, publicara-se 321 livros inspirados em Däniken. Desde o lançamento do primeiro livro, o correio lhe entregara 50 mil cartas de leitores. Em seu arquivo pessoal, guardava 43 mil recortes de jornais abordando sua vida e obra. Como a agência de recortes que assinava se limitava a diários em línguas alemã e inglesa, o número total seguramente ultrapassava a casa dos 100 mil.

Viagem a Kiribati

Com esses números impressionantes a seu favor, Däniken ingressou nos anos 80 com Viagem a Kiribati: Aventuras entre o Céu e a Terra (Reise Nach Kiribati), inaugurando uma nova fase, marcada pelas narrativas de viagem. Na intenção de reavivar as polêmicas que tanto ajudaram a popularizar seus primeiros livros, descreveu as atribulações enfrentadas no minúsculo arquipélago de Kiribati, em pleno Oceano Pacífico, na altura do Equador, para onde se dirigiu, qual andarilho incansável, depois de receber uma carta em que o missionário C. Scarborough mencionava túmulos enormes, círculos de pedra bem delimitados no solo das ilhas – onde toda a vegetação perecia –, pegadas cravadas na rocha e monólitos de origem desconhecida.[33]

Em O Grande Enigma, Däniken referenda os mórmons

Em O Grande Enigma (Die Strategie der Götter), de 1982, por mais bizarro que pareça, Däniken revelou possuir uma grande identificação pessoal com o fundador da Igreja Mórmon (“Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias”) Joseph Smith Junior (1805-1844), que tal como ele havia se notabilizado por adaptar a história da humanidade à sua visão particular manipulando e inventando dados e tomando fraudes como verdades incontestáveis. Além disso, Smith era bastante atraído e obcecado pela cultura do Antigo Egito. Ora, a primeira viagem que Däniken realizou, aos 19 anos, em 1954, foi justamente ao Egito, onde pretendia apurar a veracidade de determinados escritos cuneiformes.

O Grande Enigma seguia as pistas deixadas pelos deuses em sua “estratégia” de espalhar testemunhos de sua presença pelo planeta. Segundo Däniken, há cerca de 2.500 anos uma nave espacial sobrevoou os nossos atônitos antepassados. O comandante ensinou os nephitas, do Livro de Mórmon, a construir navios, entregou-lhe uma bússola e o guiou de Jerusalém à América do Sul. Ali, os nephitas, conforme as instruções de “Deus”, construíram uma miniatura do templo de Salomão, após o que o comandante voou à Babilônia, apanhou o profeta Ezequiel e o levou para ver o novo templo da América do Sul, em Chavín de Huantar, na Cordilheira dos Andes.

O grande destaque do livro fica para a cidade-terraço Buritaca 2.000, um sítio arqueológico recém descoberto nas selvas quase inacessíveis de Sierra Nevada, na Colômbia. Dotado de uma refinada e requintada infra-estrutura, estima-se que viveram lá cerca de 300 mil índios. Däniken disse ter sido o primeiro europeu a fotografar o local.[34]

A adesão – ao menos temporária – de Däniken ao mormonismo, levou-o a receber vários líderes da Igreja em sua casa para conversas reservadas e a proclamar que “Para mim não se trata de demonstrar quais as partes do Livro Mórmon que são verdadeiras, contudo, os fiéis da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias podem regozijar-se de que, como subproduto de minhas pesquisas, veio à luz uma prova.” A “prova” seria a de que Nephi erigiu um templo à maneira do Templo de Salomão – com pátios interno e externo, um santuário com a estrutura de um templo e dispondo de quatro portões dirigidos aos quatro pontos cardeais –  em escala reduzida entre o V e o VI século a.C. em Chavín de Huantar, ao fundo do vale na aldeola Machac, cobrindo uma área de 15 hectares a 3.180 metros de altitude nos Andes peruanos.

De acordo com os arqueólogos e os historiadores, Chavín de Huantar foi um lugar de peregrinação, o centro religioso de um povo misterioso que apareceu de repente no planalto do Rio Mosna (tributário do Maranhão, em Callejón de Conchucos, província de Huari, no departamento de Ancash, serra norte do Peru) e que imprimiu sua cultura em toda área, durante alguns séculos.[35] A decadência de Chavín de Huantar parece estar relacionada com o estancamento ou “esgotamento” cultural pelo qual passou, tendo assim sido sobrepujada por outras culturas mais recentes, tal como ocorrera do outro lado do Atlântico com os etruscos, sobrepujados pelo Império Romano.

Pela versão de Däniken, “Nephi chegou à América do Sul por volta de 590 a.C. Trinta anos mais tarde, mandou construir o templo. As instalações de Chavín foram datadas como sendo da época entre 800 e 500, ou mais remotamente entre 1000 e 600 a.C. […] Quando Nephi saiu de Jerusalém, provavelmente a cidade estava ocupada pelos babilônios. Em 586 a.C., o Templo de Salomão foi completamente destruído pelos soldados de Nabucodonosor. Trata-se de uma especulação, contudo não inimaginável, que se tenha contrabandeado as plantas do templo sagrado para fora do país, a fim de fazer com que ele ressurgisse em um novo local com a mesma beleza de outrora, como monumento e símbolo da velha crença. As instalações do templo de Chavín de Huantar podem muito bem ter sido uma reprodução do Templo de Salomão.”[36]

Sem refrear a fantasia, Däniken prossegue dizendo que

“em alguma época entre 1000 a 500 antes de Cristo, reapareceram os extraterrestres. Eles atraíram um grupo de israelitas – os nephitas do Livro de Mórmon – para a América do Sul. Instruíram os emigrantes, deram-lhes a bússola, protegeram-nos. Solicitou-se a esse grupo que construísse na América do Sul um templo segundo o modelo do Templo de Salomão. Sob direção ‘divina’, os nephitas puseram mãos à obra junto com seus assistentes. Depois de pronta a obra, um dos ‘deuses’, o homem de cobre, voou para a Babilônia com uma nave de transporte, aterrissou no Rio Chebar, no mesmo lugar em que Ezequiel encontrava-se no cativeiro junto com outros israelitas. Com exceção de Ezequiel, todos os outros ‘deram no pé’. O homem de cobre reconheceu na atitude de Ezequiel o dirigente intelectual do grupo. Voou com ele para Chavín de Huantar e mostrou-lhe o templo recém-concluído pelos nephitas. Por que tudo isso? Para deixar rastros para o futuro! Nós somos os destinatários. Os extraterrestres pretendiam que os sucessores de Ezequiel – em alguma época do futuro – descobrissem e reconhecessem relações. Eles colocaram no passado uma bomba de tempo para o futuro.”[37]

Embora a tradução das placas seja apresentada como perfeita e acabada – “a plenitude do evangelho” –, e isso Däniken não levou em conta, é que foram feitas incontáveis mudanças nas edições posteriores à primeira, de 1830: milhares de correções gramaticais, substituição de expressões inadequadas e palavras grosseiras, etc. Uma mudança inicial na redação, por exemplo, permitiu a aceitação da doutrina da Trindade para que Smith introduzisse a sua concepção politeísta. Em 1981, substituiu-se a palavra “branca” pela palavra “pura” de modo a refletir a mudança na posição da Igreja em relação à “maldição” da raça negra. Para arrematar, Däniken afiança que “aquilo que Joseph Smith traduziu no ano de 1827 nas placas de metal está escrito do mesmo modo no Popol Vuh, contudo não podia mesmo conhecer o conteúdo da bíblia dos maias-quichés, posto que este foi traduzida por Wolfgang Cordan apenas nos anos 1950!”[38]

O Dia em que os Deuses Chegaram: 11 de agosto de 3.113 a.C.

Quase que integralmente dedicado à apreciação da civilização maia, mormente de seu intrincado e preciso calendário, em O Dia em que os Deuses Chegaram (Der Tag, an Dem Die Götter Kamen), de 1984, Däniken voltou a defender que seu espantoso saber astronômico, o que incluía noções exatas da periodicidade do Sol, da Lua e das estrelas, devia-se ao emprego de sofisticados instrumentos de observação fornecidos por extraterrestres. Especialistas citados por Däniken calcularam o que se convencionou chamar de a “primitiva data zero”, correspondente ao dia 11 de agosto de 3.113 a.C., “o dia em que os deuses chegaram”.[39]

Será que Eu Estava Errado?

Em Será que Eu Estava Errado? (Habe Ich Mich Geirrt?), de 1985, Däniken faria uma mea culpa tardia dos equívocos cometidos em Eram os Deuses Astronautas?, insistindo porém que a coluna de edificação de seu pensamento mantinha-se firme. Däniken descreve a visita que fizera ao Comando Espacial Norte-Americano, em Monte Cheyenne, perto de Colorado Springs, comenta com entusiasmo os projetos futurísticos da NASA, analisa o surgimento dos cultos-cargo e por fim narra suas viagens à Índia, onde buscara reminiscências de antigas “máquinas voadoras” (vimanas). Depois de Provas de Däniken, este certamente é o livro mais bem estruturado, justamente porque procura lastrear-se em fontes seguras.[40]

Nova concepção do “foguete” do rei Pacal, o Grande (603-683, rei a partir de 615). publicada na página 262 de “Será que eu estava errado?”. Pakal morreu em 31 de agosto de 638, com 80 anos de idade, uma idade de Matusalém entre os maias, cuja média de vida era de 35 anos. Ele havia assumido o trono em 615, com apenas 12 anos, e governou por 68 anos. Durante o seu longo reinado, Pakal transformou Palenque em uma grande cidade.

Somos Todos Filhos dos Deuses

Somos Todos Filhos dos Deuses: Se os Túmulos Pudessem Falar (Wir Alle Sind Kinder der Götter: Wenn Gräber Reden Könnten), adentra os anos 90 voltando-se ao Oriente Médio, em particular às localidades árabes de Sanaa, no Iêmen, e de Marib e Bainun, palco das lendas da rainha de Sabá e do rei Salomão. Insistindo no Velho Testamento da Bíblia, Däniken retraça a genealogia de velhos patriarcas até chegar ao dia em que a humanidade foi “criada” no Jardim do Éden, um laboratório genético protegido dos perigos externos com vistas a proporcionar ao primeiro casal um ambiente adequado para um aprimoramento biológico pleno. No capítulo “Eternos contatos de terceiro grau”, Däniken posiciona-se com relação aos OVNIs, fenômeno que sempre relegou a segundo plano e encarou com indisfarçável cepticismo.[41]

Os Olhos da Esfinge

Os Olhos da Esfinge: Novas Perguntas sobre o Antigo País do Nilo (Die Augen der Sphinx: Neue Gragen an das Alte Land am Nil), de 1991, retomaria as teses abordadas no último livro, ou seja, o uso da engenharia genética em épocas remotas e suas aplicações presentes e futuras.

No Deserto de Saqqara brotavam novos tesouros, até então inacessíveis: esfinges, pirâmides e milhares de animais de todos os tipos mumificados. Däniken não refreia a imaginação e transporta “o futuro visível para o passado mítico quase invisível”,[42] o único meio viável, segundo ele, de compreender os motivos que teriam levado os antigos egípcios a construírem enormes sarcófagos de granito para lá encerrarem touros mumificados.

O Serapeum (síntese grega das palavras Osir-Apis = Serápis ou “Touro Sagrado”) de Saqqara, a noroeste da Pirâmide de Djoser, perto de Mênfis, foi o local de sepultamento dos touros sagrados Ápis, manifestações vivas do deus Ptah (demiurgo de Mênfis, deus dos artesãos e arquitetos, considerado pai de Imhotep e conhecido pelos gregos como o deus Hefesto).

Acreditava-se que os touros haviam se tornado imortais, como Osíris. No final do século XIII a.C., o príncipe da 19ª Dinastia (1292 a.C.-1187 a.C.) Khaemweset ou Khaemuaset, filho de Ramsés II (1290 a.C.-1224 a.C.), ordenou que um túnel fosse escavado através de uma das montanhas. Câmaras laterais foram projetadas para alojar grandes sarcófagos de granito contendo touros mumificados.

François Auguste Ferdinand Mariette

O templo foi descoberto em 1850 pelo egiptólogo francês François Auguste Ferdinand Mariette (1821-1881), fundador do Serviço de Antiguidades do Egito e do Museu de Bulak, antecessor do Museu Egípcio do Cairo. Mariette constatou, no entanto, que os sarcófagos que deveriam conter os touros estavam todos vazios, sem qualquer vestígio de múmias de touros. Todas as tampas ou tinham sido empurradas para um lado ou tinham sido derrubadas.

Durante o verão de 1852, Mariette descobriu mais sarcófagos de Ápis em um novo túmulo. No teto, Mariette reconheceu gravuras de Ramsés II e de seu filho, que ofereciam uma bebida sacrificial ao deus Ápis-Osíris (representado aqui como um ser híbrido). Esses sarcófagos também estavam vazios.

Os sarcófagos de touros são feitos a partir de um único bloco de granito de Assuã, a cerca de 1.000 quilômetros de Serapeum. Medem 3,79 metros de comprimento, 2,30 metros de largura e 2,40 metros de altura, têm uma espessura de 42 centímetros e pesam até 70 toneladas, sendo que só tampa pesa de 20 a 25 toneladas. Só a escavação, polimento e transporte de um único sarcófago com tampa representava um esforço quase sobre-humano, mas ainda tinham que ser arrastados até o túmulo, empurrados, rolados e fixados em seus nichos.

Os touros Ápis e outros animais, sugere Däniken, eram sepultados reverencialmente porque se temia que viessem a “ressuscitar” na forma das tão temidas criaturas híbridas engendradas geneticamente pelos “deuses”:

“Os sacerdotes conservavam vivo o conhecimento sobre criaturas muito específicas reservadas apenas aos deuses. E como os sacerdotes de todas as épocas temem a reaparição não anunciada e repentina dos deuses, eles observavam desconfiados qualquer movimento no firmamento noturno. Constantemente noviços eram encarregados de percorrer o país em busca de animais divinos e de levá-los aos templos, para que assim recebessem as honras que lhes eram devidas. Claro que os exemplares mortos eram mumificados com toda a pompa; afinal, eles pertenciam aos deuses, e era preciso contar com seu retorno a qualquer momento. Séculos, milênios se passaram, os tempos mudaram, e com os tempos o homem. Na crendice popular a lembrança de monstros horríveis permanecia viva. Na verdade, há muito que eles não mais existiam, esses monstros, mas seus descendentes, reconhecíveis por determinados sinais na pelagem ou na dentadura, viviam como espiões divinos entre os outros animais. Ninguém tinha medo das pequenas criaturas, dos pássaros, peixes e animais domésticos. As pessoas podiam falar com eles, talvez as orações até mesmo chegassem aos deuses por intermédio dos animais. Mas o que acontecera com as grandes bestas que inspiravam cautela? Iriam elas após a morte transformar-se novamente, assumindo suas horríveis formas originais? Iriam elas espalhar espanto e terror entre os homens ao ressuscitar? O que o homem poderia fazer para contentar os deuses sem ter que sofrer entre as bestas? Esses graves pensamentos preocuparam por muito tempo os sacerdotes. Finalmente eles encontraram uma solução simples para o dilema. Enquanto os animais vivessem, eles deveriam ser venerados, divinizados, dever-se-ia orar para que seu Ka e Ba chegassem até os deuses após a morte e lá testemunhassem a boa vontade e a veneração de que os animais divinos eram objeto. Após a morte, ao contrário, os ossos das terríveis criaturas deveriam ser esmagados, despedaçados e misturados com betume. Deveriam ser feitos sarcófagos com o mais duro granito, de tal forma gigantescos e imponentes que nenhum monstro ressuscitado pudesse escapar da prisão. Os sarcófagos precisavam ser encerrados em túmulos de rocha subterrâneos; nunca mais criaturas monstruosas deveriam abater-se sobre os homens, nunca mais poderiam tiranizar as pessoas.”[43]

Carl Sagan: O Mundo Assombrado por Däniken

Carl Sagan critica Däniken no documentário da PBS/BBC, The Case of the Ancient Astronauts, produzido em 1978.

Durante sua visita a São Paulo em setembro de 1997, Däniken proferiu no dia 24 uma palestra no Clube Transatlântico, ocasião em que reforçou suas proposituras. “Será que temos tantos véus diante dos olhos?”, disparou. “Devemos reaprender a perguntar: Por que não?”, concluiu ao final, aplaudido pela plateia. Mas, se por um lado fez o elogio da dúvida, por outro recorreu à “teoria da conspiração”. Os “segredos das pirâmides”, por exemplo, não eram conhecidos porque um grupo de arqueólogos não permitia.[44] Sobre Carl Sagan, que tanto o criticou em vida, comentou: “Astrônomo brilhante, que eu admiro por escrever sobre aquilo que acredita. Mas ele tem uma mente um pouco estreita. Ele acredita que os extraterrestres não são parecidos com os seres humanos.”[45]

Poucos meses antes, Sagan dirigira-lhe uma crítica no livro O Mundo Assombrado pelos Demônios:

“Os defensores de antigos astronautas, o mais notável dos quais é Erich von Däniken, afirmam que existem casos numerosos de evidências arqueológicas que só podem ser entendidas pelo contato com civilizações extraterrestres com nossos ancestrais […] em cada caso, os artefatos em questão têm explicações plausíveis e muito mais simples. Nossos ancestrais não eram idiotas. Eles podem não ter tido alta tecnologia, mas eram tão espertos quanto nós e às vezes combinavam dedicação, inteligência e trabalho duro para produzir resultados que impressionam até a nós.”[46]

Isso remete a um outro ataque desferido por Sagan quando Däniken despontava: “O veículo espacial pousa no solo, a grande portinhola ogival se abre e de dentro sai o quê? Liberators B-29? Spitfires? O mais notável é que eles precisem de campos de pouso.”

Deuses e daniquite

Os editores norte-americanos, curiosamente, sempre fizeram questão de incluir a palavra “deuses” nos títulos de seus livros. Eram os Deuses Astronautas? chamou-se Chariots of the Gods; De Volta às Estrelas, Gods from the Outer Space; Semeadura e Cosmo, Gold of the Gods; O Ouro dos Deuses, Searching Gods of the Antiquity; Aparições, Miracle of Gods.

Nenhum outro povo devotou-lhe tanta admiração, se bem que só após um intenso marketing iniciado com a exibição pela tevê, no sistema coast to coast, de um documentário baseado nos dois primeiros livros que a produtora alemã Terra Filmkunst rodara em 1969 sob a direção de Harald Reinl. Irrompeu assim a “daniquite”, como destacou a revista Time. Däniken atuou até como garoto propaganda em comerciais da Palmolive e da IBM.

Cartaz do documentário Eram os Deuses Astronautas, dirigido em 1969 por Harald Reinl, até hoje muito assistido.

Em 1973, juntamente com o advogado Gene Phillips e Josef Blumrich, fundou a Ancient Astronaut Society (AAS), uma entidade de utilidade pública, com sede em Illinois, Chicago, engajada em provar que a Terra já tinha sido visitada por seres extraterrestres e que a nossa civilização tecnológica não era a primeira.

Contestações

O artista plástico e professor de história da cultura Carlos Jacchieri[47] dedicou-se a uma análise “culturológica” em Os Deuses Não Eram Astronautas!, de 1971, visando oferecer ao público uma visão diametralmente oposta, implícita no próprio título. Para Jacchieri, o “realismo fantástico” era por si mesmo incongruente, porque “aquilo que é real não pode ser fantástico, e aquilo que é fantástico não pode ser real”.[48]

O ufólogo Flávio Pereira, que havia feito a apresentação de Eram os Deuses Astronautas?, foi quem sugeriu a seu colega Jacchieri a elaboração da obra, em que condena Däniken por desprezar a ciência para justificar suas ficções, tomando, apressadamente, “todo o possível como sendo todo o provável”, oferecendo, à guisa de conclusões científicas, “devaneios imaginativos”.[49] Outro aspecto tendencioso consiste em admitir que,

“no passado, tornava-se necessária a ‘presença de extraterráqueos para a dinamização da nossa evolução cultural’. Disso decorre que o homem não teria vencido as suas primitividades sem a ajuda alheia. Só se chega a tais deduções, ofensivas à autonomia humana, trilhando uma visão distorcida e facciosa não só da história como da própria condição existencial humana. Antes de atingir sua atual cosmovisão, o homem havia elaborado outras, menos perfeitas não por força de falhas intrínsecas à natureza humana mas, ao contrário, mediante o paulatino aprimoramento das faculdades qualitativas dessa mesma natureza humana. Progressivamente, o homem foi adquirindo e fixando em seu psiquismo novos esquemas e noções fundamentais pelas quais aperfeiçoou a visão de si mesmo e do mundo exterior.”[50]

O já referido escritor Fernando G. Sampaio publicou em 1972 A Verdade sobre os Deuses Astronautas, o melhor contraponto já feito ao livro de estreia de Däniken. Nele, todos os pontos significativos e, sobretudo, todas as suas 464 perguntas “irrespondíveis” foram contestadas à luz da arqueologia, astronomia, astronáutica, ufologia, história, ciência atômica e antropologia. Cabe frisar que o autor, uma autoridade em OVNIs, não descartava a tese de que astronautas extraterrenos poderiam ter visitado e ainda continuassem a visitar o nosso planeta. Todavia, na condição de arqueólogo com diversos trabalhos de campos efetuados no Rio Grande do Sul, astrônomo com dezenas de observações registradas, experimentador de foguetes e, sobretudo, jornalista especializado em divulgação científica, não aceitava os métodos e as conclusões de Däniken. Sampaio estruturou o livro de um modo tal que pudesse “ser lido a partir de qualquer ponto e pode ser interrompido, para posterior recomeço, também em qualquer ponto”:

“Tratando-se de um livro analítico, ele se apresenta na forma de notas independentes e não possui capítulos. As notas são precedidas de um número de página, o que significa a página no livro Eram os Deuses Astronautas? Logo após o número da nota e o número da página da obra de Däniken, o leitor encontrará a citação fiel, entre parênteses, do conteúdo do livro, seguida da análise explicativa e documentada da questão.”[51]

Em Nem Deuses, Nem Astronautas, de 1973, R. Fiebcaist, teceu ponderações que pretendiam conduzir os leitores da natural perplexidade a uma reflexão de ordem crítica e isenta, e mostrar que outras hipóteses, muito mais verossímeis que a dos deuses astronautas extraterrenos tinham melhor probabilidade de aproximar-se da verdade:

“Se houve, ou não, deuses astronautas no passado, não o sabemos. Tudo parece indicar que, na Pré-História, não houve nem deuses, nem astronautas influindo na origem e na aculturação dos homens. Mas não teremos tempo de procurar a verdade se não cuidarmos do homem como ele é agora, deixando em segundo lugar o problema do seu surgimento e dos primórdios de sua civilização.”[52]

Presentismo e reatualização do pensamento mítico

É exatamente quando a pseudociência ou a pseudocultura ocupam o lugar da ciência e da cultura que teorias como a dos “deuses astronautas” passam do mero campo especulativo à aceitação plena. Logicamente, inúmeros outros fatores concorrem para esse massivo aumento do consumo das ficções paradoxais.

A despeito da avançada tecnologia repassada pelos deuses astronautas aos nossos “primitivos” antepassados para que estes nos legassem esplêndidas e monumentais obras arquitetônicas como as pirâmides, o fato de até hoje não ter sido encontrado nenhum resquício que atestasse cabalmente a visita desses seres, parece não constituir um incômodo aos danikenianos, escorados em sofismas, distorções e lugares-comuns tais como: “pressionados pelos conhecimentos novos que surgem a cada dia, teremos que atualizar a imagem mental que formamos do mundo”; “mas, em realidade, é absolutamente insustentável a suposição de que a vida só possa existir e desenvolver-se em planeta similar ao nosso”; “as premissas de que partimos para estabelecer condições mínimas de vida têm de ser revistas e novamente testadas”; “se nossa maneira de pensar fosse aplicada em direção inversa, isto é, considerando as coisas da Terra como vistas de muito longe no espaço, seres inteligentes, nascidos em outro planeta, julgariam indispensáveis à vida as condições do planeta deles”.

Sob o ponto de vista hermenêutico, a teoria dos deuses astronautas pode ser descrita como um processo de reatualização do pensamento mítico, integrando os antigos mitos à weltanschaaung (“concepção do mundo” ou “cosmovisão do mundo”, termo usado por Freud em O Mal-Estar na Civilização) coletiva, ao zeitgeist em que se apoia atualmente a nossa cultura. Seu objetivo, embora não declarado, é integrar os extraterrestres às raízes do espírito humano, renovando o contato com eles.

A evocação de um passado remoto da Terra, de sua Pré-História, é uma alegoria dos instintos do homem, das funções naturais do corpo, de seus impulsos. Esta volta à origem, total e plena, confronta o homem com seus mitos. Ao abrirmos um compêndio de mitologia, dificilmente encontraremos um tema que já não tenha sido rescrito em linguagem espacial. A busca dos deuses astronautas configura uma busca pelos deuses perdidos. Com insistência, os seus partidários têm a ilusão de que a sua presença no passado é uma constante; por isso desencavam uma variedade de textos e escrituras sagradas e todo tipo de indícios arqueológicos pertencentes a épocas diversas e contextos diversos que interligam com base em presumida identidade e continuidade para retraçar o histórico de visitações de astronautas imaginários. Como herdeiros desse legado (paideuma), de forma inevitável, estaríamos aos poucos redescobrindo, no decorrer dos ciclos culturais (kulturkreis), aquilo que nossos mais remotos antepassados já sabiam.

Os apologistas da teoria dos deuses astronautas primam pelo “presentismo”. Esse termo, cunhado pelo filósofo marxista polonês Adam Schaff (1913-2006), aplica-se às ideias, conceitos e definições fixados de acordo com os valores da própria época daquele que o concebeu, como se nela estivesse implícito o sentido que conduziria à verdade. Os presentistas limitam o campo de visão a determinados postulados sem levar em conta o devir histórico, concentrando-se somente em fatores subjetivos socialmente condicionados. Os interesses e as necessidades do presente é que moldam sua visão histórica, de tal maneira que esta não é mais do que a sua projeção sobre o écran do passado.[53] O que caracteriza o presentismo, e isto em todas as suas variantes, é que não admite esta distinção ou não a tem em conta: a história equivale ao pensamento sobre a história. Portanto, o processo histórico desaparece da realidade e só o pensamento permanece; não o pensamento sobre este processo, mas o pensamento criando a história. “É preciso rendermo-nos à evidência de que quase todas as gerações são obrigadas a reescrever a história?”, pontuou Schaff.[54]

A teoria dos deuses astronautas está indissoluvelmente ligada ao subjetivismo e à negação de uma verdade independente das circunstâncias de tempo, de lugar e das características individuais do sujeito. No entanto, não existem fatos simples; a sua simplicidade é ilusória. Esta ilusão tem como causa a simplicidade do enunciado que, ao generalizar, abstrai da complexidade da realidade concreta, porque para compreender esta realidade, em cada um dos seus casos, mesmo no caso do fato isolado aparentemente o mais simples de observar, é preciso estabelecer inumeráveis relações entre o fato dado e os outros acontecimentos, processos, produtos, no contexto dos quais este fato se manifesta e é inteligível.

Ao reescreverem o passado arriscando-se bem mais que os historiadores de serem traídos pelos valores de seu tempo e cultura, os “danikenianos” não negaram o divino, mas apenas reduziram o seu status e o vestiram com roupagens modernas. De acordo com Schaff, “As diferentes visões que possuem os proponentes da teoria a respeito de um mesmo fato ou mito, conforme suas diversas épocas e gerações, ou – se são contemporâneos, como é o caso – segundo os vários sistemas de valores em que se baseiam e que expressam interesses diversos, concepções de mundo diferenciados, etc.”, criam sistemas de referências que “correspondem às necessidades, aos interesses, às exigências… De quem? A resposta a esta pergunta só se justifica se reconhecendo o indivíduo como ‘medida de todas as coisas’.”[55]

Paul-Marie Veyne

Na acepção do historiador francês Paul-Marie Veyne, “a consciência espontânea não possui noção de história, que exige uma elaboração intelectual. O conhecimento do passado não é um dado imediato, a história é um domínio em que não pode haver intuição, mas somente reconstrução, e onde a certeza racional dá lugar a um saber real cuja fonte é estranha à consciência. […] Também, quando a consciência espontânea chega a pensar no passado, é para encará-lo como a história da edificação do mundo humano atual, que é considerado totalmente terminado, como seria uma casa construída, a partir de agora, ou um homem moderno que só está à espera da velhice; assim é – e em geral a desconhecemos – a concepção espontânea da história.”[56]

Notas

[1] Chaves, Eduardo B. Mensagem dos Deuses: Para uma Revisão da História do Brasil, Lisboa, Bertrand, 1977.

[2] Os empréstimos que tomou para que pudesse viajar pelo mundo coletando material que usaria em Eram os Deuses Astronautas somavam uma dívida de US$ 130 mil. Foi por isso condenado a uma pena de três anos e meio de prisão, tendo cumprindo um ano antes de ser libertado.

[3] Chaves, Eduardo B. “Däniken exclusivo”, in Planeta, São Paulo, junho de 1976, nº 45, p.6-18.

[4] Thompson, Keith. Anjos e Extraterrestres, Rio de Janeiro, Rocco, 1993, p.140-142.

[5] Sampaio, Fernando G. A Verdade sobre os Deuses Astronautas, 2a ed., Porto Alegre, Movimento, 1973, p.25.

[6] Däniken, Erich von, Däniken. Eram os Deuses Astronautas? Enigmas Indecifrados do Passado, São Paulo, Melhoramentos, 1986, p.70.

[7] IDEM, De Volta às Estrelas: Argumentos para o Impossível, 17ª ed., São Paulo, Melhoramentos, 1978, p.13.

[8] Publicados na revista soviética Naouka i Religiia (Ciência e Religião) e reeditados pela Sputnik, junho de 1967, nº 1, p.106-123.

[9] Khuon, Ernst von (compilação). Vieram os Deuses de Outras Estrelas?, 2a ed., São Paulo, Melhoramentos, 1972.

[10] Petri, Winfried, “Capítulo XI – Argumentos para o Possível, Tirados de Fatos da Astronomia e de Textos Antigos”, in Khuon, Ernst von (compilação), op.cit., p.179-180.

[11] Däniken, Erich von. Semeadura e Cosmo: Vestígios de Planos de Inteligências alienígenas, São Paulo, Melhoramentos, 1972, p.9-11.

[12] Ibid., p.12-13.

[13] Ibid., p.13-14.

[14] Ibid., p.19-22.

[15] Däniken, Erich von. Erich von Däniken em Julgamento, São Paulo, Melhoramentos, 1979, p.116-117.

[16] Ibid., p.119.

[17] Däniken, Erich von. Semeadura e Cosmo: Vestígios de Planos de Inteligências alienígenas, São Paulo, Melhoramentos, 1972, p.99-114.

[18] A 176 quilômetros ao norte de Teresina e a 16 quilômetros de Piripiri (cidade que é a sua porta de entrada), Sete Cidades possui uma área de 6.221,48 hectares e um perímetro de 36 quilômetros (a área aberta à visitação turística possui cerca de 12 quilômetros de trilhas). Seu clima é quente e tropical semiárido, com temperatura média anual de 26º C. Situado numa faixa de transição entre os ecossistemas do cerrado e da caatinga, protege espécies da fauna e da flora encontradas nos dois ecossistemas.

[19] Castelo Branco, Renato. Piauí: A Terra, o Homem, o Meio, 2a ed., São Paulo, Quatro Artes, 1970.

[20] IDEM, Pré-História Brasileira: Fatos & Lendas, São Paulo, Quatro Artes, 1971.

[21] Däniken associou Sete Cidades ao caos de Sodoma e Gomorra, aniquiladas pelo fogo do céu: “Ali as pedras foram destruídas, torradas, fundidas por forças apocalípticas.” (Däniken, Erich von. Semeadura e Cosmo: Vestígios de Planos de Inteligências alienígenas, São Paulo, Melhoramentos, 1972, p.101.

[22] Colaborador de vários antropólogos, o carioca João Américo Peret conviveu com o Marechal Rondon e os Irmãos Villas Bôas, integrou a equipe de sertanistas do Serviço de Proteção ao Índio (SPI) da Fundação Nacional do Índio (Funai) entre os anos 1950 e 70, realizou contatos com índios isolados e ajudou a criar postos de assistência e a indicar áreas que deveriam ser convertidas em reservas indígenas. Peret esteve no Monte Roraima e nas malocas de Raposa e Serra do Sol em Roraima. Após deixar a Funai, continuou auxiliando os índios com projetos voltados às suas aldeias.

[23] Peret, João Américo. “O índio guerreiro que veio do espaço”, in Planeta: Os Grandes Enigmas, São Paulo, agosto de 1985, nº 4, p.44-46.

[24] Bíblia Sagrada; trad. do Padre Matos Soares, 5ª ed., São Paulo, Edições Paulinas, 1978.

[25] Blumrich, Joseph. Da Sich der Himmel auf tat Die Begegnung mit des Prophete Ezequiel Außerirdischer Intelligenz; trad. de Otto Pöyhönen, Helsinki, Book Group, 1974.

[26] Däniken, Erich von. Será que Eu Estava Errado?, São Paulo, Melhoramentos/Círculo do Livro, 1987, p.9-12.

[27] Ferkiss, Victor C. O Homem Tecnológico: Mito e Realidade, 2ª ed., Rio de Janeiro, Zahar, 1976, p.46.

[28] Däniken, Erich von. O Ouro dos Deuses, São Paulo, Melhoramentos, 1977.

[29] IDEM, Aparições: Fenômenos que Excitam o Mundo, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1976.

[30] IDEM, Provas de Däniken: Deuses, Espaçonaves e Terra, São Paulo, Círculo do Livro, s.d., p.239-240.

[31] IDEM, Erich von Däniken em Julgamento, São Paulo, Melhoramentos, 1979.

[32] IDEM, Profeta do Passado: Idéias Arriscadas da Onipresença dos Extraterrestres, São Paulo, Melhoramentos, 1980.

[33] IDEM, Viagem a Kiribati: Aventuras Entre o Céu e a Terra, São Paulo, Melhoramentos, 1982.

[34] IDEM, O Grande Enigma, 2ª ed., Rio de Janeiro, Record, 1984.

[35] Ibid., p.42 e 45.

[36] Ibid., p.96.

[37] Ibid., p.132.

[38] Ibid., p.41.

[39] IDEM, O Dia em que os Deuses Chegaram: 11 de Agosto de 3.114 a.C., São Paulo, Melhoramentos/Círculo do Livro, 1985.

[40] IDEM, Será que Eu Estava errado?, São Paulo, Melhoramentos/Círculo do Livro, 1987.

[41] IDEM, Somos Todos Filhos dos Deuses: Se os Túmulos Pudessem Falar, 2a ed., São Paulo, Melhoramentos, 1990.

[42] IDEM, Os Olhos da Esfinge: Novas Perguntas sobre o Antigo País do Nilo, São Paulo, Melhoramentos, 1991.

[43] Ibid., p.55-58..

[44] Bonalume Neto, Ricardo. “Däniken insiste em tese sobre ETs”, in Folha de S. Paulo, 25-9-1997, ilustrada, p.5, c.5.

[45] Cruz, Leonardo. “Däniken admite falhas em Eram os Deuses Astronautas?”, in Folha de S. Paulo, 27-9-1997, ilustrada, p.6, c.4.

[46] Em O Mundo Assombrado pelos Demônios (São Paulo, Companhia das Letras, 1996), Sagan dirige um olhar “iluminista” sobre a pseudociência e a anticiência, tendendo ao apocalíptico: “Lamento que, especialmente com o fim próximo do milênio, a pseudociência e a superstição pareçam cada vez mais sedutoras. […] A vela derrete. A pequena poça de luz treme. A escuridão toma conta. Os demônios começam a agitar-se.” O alvo principal de Sagan é a crença disseminada de que ETs sequestram pessoas. Ele observa como é estranho que os ETs tenham basicamente a mesma forma dos seres humanos e descreve fantasias similares de outras eras, as visitas noturnas por súcubos (demônios femininos que copulam com os homens durante o sono e causam pesadelos) e íncubos (a versão masculina dos súcubos). “O que é mais plausível: que nós estejamos enfrentando uma maciça mas subestimada invasão de ETs violadores ou que as pessoas estejam sofrendo alguma experiência mental estranha, que não entendem?” Por outro lado, Sagan raramente admite seus erros, o que fica claro em uma parte do livro em que descreve o mecanismo pelo qual a ciência erra e se corrige: “Vou falar agora um pouco sobre os meus erros”, e ele lista cinco. O espaço dedicado aos erros toma pouco menos de meia página em um livro que tem mais de quatrocentas. Muitos ufólogos prefeririam que o manuscrito de Sagan tivesse sido abduzido pelos editores.

[47] No campo das artes plásticas, Jacchieri documentou o panorama nacional com seus magníficos murais – Banco Itaú-América em Curitiba e São Paulo, Banco Bandeirantes do Comércio, Banco do Estado do Paraná, Santa Casa de Misericórdia, etc. –, seus altares entalhados em madeira de lei – Colégio da Sagrada Família, no Ipiranga, Capela da Creche Catarina Labouré –, seus vitrais – Cine Bristol, Capela da Cachoeirinha – e seu Cristo Astronauta, realizado em alumínio para a Igreja do Caxingui. No campo das letras filosóficas e científicas escreveu também Duiruna e o Sol, O Evangelho Segundo… Jesus Cristo [título mais tarde apropriado pelo escritor português José Saramago (1922-2010)], O Mito Cristão e o Ser Social, Tratado de Simbólica e Os Mitos Brasilíndios do Pecado Original.

[48] Jacchieri, Carlos. Os Deuses não Eram Astronautas!, São Paulo, Ciência e Progresso, 1971, p.14.

[49] Ibid., p.21.

[50] Ibid., p.22.

[51] Sampaio, Fernando G. A Verdade sobre os Deuses Astronautas, 2a ed., Porto Alegre, Movimento, 1973, p.11.

[52] Fiebcaist, R. Nem Deuses, Nem Astronautas, São Paulo, Melhoramentos, 1973, p.189.

[53] Schaff, Adam. História e Verdade, São Paulo, Martins Fontes, 1978, p.133-135.

[54] Ibid., p.66.

[55] Ibid., p.65, 113-114.

[56] Veyne, Paul. Como se Escreve a História, 2a ed., Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1992,  p.43-44.