Conto

O BOI ESCOLHIDO

SOMOS GADO PARA SERES EXTRATERRESTRES?

(Uma Alegoria Sobre Os Rebanhos Em Geral)

Cláudio Tsuyoshi Suenaga

“Esse direito – o de matar um veado ou uma vaca – nos parece natural porque nós estamos no alto da hierarquia. Mas bastaria que um terceiro entrasse no jogo, por exemplo, um visitante de outro planeta a quem Deus tivesse dito: ‘Tu reinarás sobre as criaturas de todas as outras estrelas’, para que toda a evidência do Gênesis fosse posta em dúvida. O homem, atrelado à carroça de um marciano – eventualmente grelhado no espeto por um visitante da Via Láctea – talvez se lembrasse da costeleta de vitela que tinha o hábito de cortar em seu prato. Pediria – tarde demais – desculpas à vaca.” 

(Milan Kundera, escritor tcheco, 1929-)

“Creio que alguém nos pesca”.

(Charles Fort, pesquisador norte-americano, 1874-1932)

Era uma vez um boi, animal quadrúpede da família dos bovídeos, o macho da espécie vacum, do gênero Bos Linnaeus. Vivia ele em um latifúndio a perder de vista, um imenso pasto verde delimitado por cercas de mourões e arames farpados, além dos quais se avistava a mesma monótona paisagem. Bem tratado, nada lhe faltava, porém não se sentia feliz. Sem saber como preencher o vazio interior que consternava a alma, andava desorientado de um lado para o outro à espera de uma revelação divina. Isolando-se cada vez mais do rebanho, refugiava-se em si mesmo. E meditava. Meditava longas horas a fio. Meditava e rezava.

Certa noite, ajoelhou-se num canto do curral e rezou como nunca fizera antes. É que naquele dia havia lido, num saco de ração jogado a esmo, o que julgou serem profecias atinentes aos destinos que estavam reservados ao seu rebanho. As palavras sagradas ali contidas, conforme interpretou, mencionavam seu nome, os de seus parentes e amigos, e tratavam de particularidades que só ele conhecia. Referiam-se especialmente a um boi que, nutrido daquela ração, se fortaleceria e se destacaria dos demais. Servindo de parâmetro, os guiaria rumo aos seus criadores que os receberiam exultantes e de braços abertos e finalmente lhes mostrariam toda verdade por trás de suas existências.

Impressionado com tudo aquilo, ele, orando, perguntou ao seu deus chifrudo: “Senhor, quem é esse boi? Porventura serei eu? Deseja o Senhor que isso se realize em mim para servir de exemplo a outros bois? Se for o desejo do Senhor, assim seja feito. Se o meu espírito for útil de alguma forma à glorificação do nome do Senhor e para a salvação dos outros, aqui está o servo do Senhor.

”Cansado da ruminação diária, adormeceu. Não sabemos dizer se adormeceu profundamente ou se adormeceu com a mente em plena atividade normal ou ainda mais lúcida. O certo é que dali a pouco teve uma visão. Um veículo retangular, flutuando sobre quatro rodas, profusamente iluminado e com dois faróis brancos direcionados para frente, parou a alguns metros de onde se encontrava. De seu interior saltou uma criatura bípede, de elevada estatura, usando vidros na frente dos olhos e vestindo uma capa branca. Sem dúvida um tipo bem diferente daqueles bípedes que costumavam pastoreá-los. Este trazia numa das mãos uma maleta de cor escura e na outra um tubo que irradiava uma luz ofuscante igualmente branca. Caminhando silenciosamente em direção ao boi, dele se aproximou e passou a examiná-lo detidamente, expressando certa preocupação.

Embora achasse insólita aquela situação, o boi, paralisado menos pelo medo do que pelo respeito ao sobrenatural, não esboçou qualquer reação, nem mesmo quando a criatura retirou um instrumento pontiagudo da mala e com ele o espetou provocando uma dor aguda e lancinante num primeiro momento, mas que aos poucos ia lhe proporcionando uma sensação agradável de alívio e bem-estar como nunca houvera experimentado. Colocando uma das mãos em sua cabeça, a criatura, com uma voz mansa e suave, lhe falava: “Ouve-me. Eu fui enviado pelo teu Criador. Por ordem dele, trouxe-te toda a força de que necessitas para prevalecer sobre os demais. Ninguém poderá suportar a tua força, porque sou eu que te dou a força, e eu sou o enviado do teu Criador. Onde puseres a tua pata, prevalecerás.”

Aquela voz parecia que não falava ao ouvido, mas à alma. Era como se cada palavra fosse recebida pelos recônditos do cérebro e em algum lugar ficasse gravada. Que poderes seriam capazes de transportar um fenômeno metafísico para o terreno físico? Como que hipnotizado, o boi continuou a ouvi-lo: “Eu te dei a força. Digo-te também: Se seguires os mandamentos e não desviares as tuas patas dos verdadeiros caminhos, e se obedeceres as recomendações, e se fores atrás do rebanho e o reunires em torno dos desígnios do Criador, ele te dará um lugar de destaque entre os demais, e tu serás um novo messias; porque eu sou o enviado do Criador, e foi ele quem te escolheu.

”Por causa da visão que teve dessa criatura, convenceu-se o boi de que a hora havia chegado e de que era mesmo o salvador do universo – ou pelo menos do rebanho. Autoproclamando-se guru e mensageiro de Deus, passou a pregar efusivamente, conclamando ao arrependimento e à conversão. Em pouco tempo arrebanhou um séquito que o acompanhava para onde quer que fosse e executava tudo o que ordenava, atendendo a qualquer capricho. As melhores áreas de pastagens, as melhores porções de ração e as vacas mais rechonchudas eram reservadas exclusivamente a ele.

Compilou uma doutrina repleta de rituais, regras, preceitos e normas misturando ensinamentos mal digeridos com proposições esdrúxulas retiradas das mais diversas e obscuras fontes e algumas que simplesmente inventara. Aos que duvidavam, por exigirem um fundamento na razão, dizia comumente: “Não examineis, crede apenas, a vossa fé os salvará.” Entre as suas frases mais emblemáticas, esta era de um sofisma incomparável: “Da mesma forma que um garrote é matéria-prima para fazer o boi gordo, o bezerro é matéria-prima para fazer o garrote.

”Precavendo-se contra os que ousassem proclamar dogmas contrários aos seus e a suplantá-lo, evitava tanto quanto podia os bois mais cultos, porque estes não se deixavam tão facilmente enganar. Não cansava de repetir a mesma história: a de que certa noite um anjo vestido de branco lhe aparecera montado numa carruagem de luz e o tocara, conferindo-lhe poderes e dons excepcionais e o incumbira de conduzir o rebanho às glórias do Criador.

Ocorreu então que meses depois daquela, numa noite em que meditava e se preparava para dormir, teve a segunda e derradeira visão, a que faria radicalizar o tom escatológico dos discursos e a alertar para a iminência do apocalipse e do fim do mundo: um veículo de dimensões muito maiores do que o anterior, dotado de carroceria retangular, apoiado sobre grandes rodas e cheio de luzes ao redor, estacionou a cerca de 50 metros dali, liberando duas criaturas bípedes ou anjos que sem demora abriram uma porta da carroceria e conduziram várias reses para o seu interior. A seguir voltaram para a cabine e acionaram o veículo, partindo em alta velocidade.

Pela manhã, a aflição era geral. Houve quem os alertasse de que os desaparecidos estavam sendo levados para um lugar horrível e infernal, onde eram abatidos, mortos, sangrados, cortados em pedaços, colocados em pacotes e vendidos aos humanos, que os comiam. Mas o boi escolhido tratou logo de desagravar a situação desautorizando a palavra aos “negativistas” e consolando os parentes e amigos dos desaparecidos garantindo-lhes que se encontravam bem, ao lado do Criador, pois este os elegera antecipadamente em reconhecimento às excepcionais qualidades demonstradas. Esse rapto ou abdução seria um prenúncio ou ensaio para o arrebatamento final, reservado apenas aos adeptos incondicionais da seita…

A ansiedade e o medo do rebanho crescem à medida que a data fatídica se aproxima e se multiplicam os presságios e os sinais celestes. Parece certo que eclipses, cometas e meteoros nunca se manifestam sem anunciar seguramente qualquer acontecimento misterioso e terrível. Muitos descrevem estranhos objetos não identificados metálicos ou luminosos riscando os céus. Para conjurar tais presságios, organizam procissões. Que quadro de um rebanho angustiado não devia compor aqueles bois e vacas desfilando a rezar um atrás do outro! O que os impressiona profundamente é a assustadora evidência do que têm diante dos olhos. O rebanho tem medo. Reza.

Não acrescentamos a isso o quadro das calamidades que os afligem: as pragas e epidemias grassavam com furor nesse momento. A natureza parecia irada. A cada tremor de terra, temia-se uma tempestade maior que os engoliria. A cada tempestade, temia-se uma tempestade maior que os cobriria de água em repetição ao dilúvio. Tudo coincide, tudo converge, na multiplicidade dos sinais e presságios funestos, para a confirmação de que os tempos preditos haviam chegado. Julgava-se que a ordem das estações e as leis dos elementos que até então tinham governado o mundo haviam recaído no caos eterno e temia-se o fim da espécie.

O boi, aproveitando-se do desespero geral, investia na cooptação dos últimos renitentes. A essa altura, até os que vinham se mantendo afastados das questões religiosas, por ojeriza ou indiferença, procuravam assegurar um lugar na grande nave do Criador. Um rebanho perturbado e com frequência infeliz fica naturalmente suscetível a acreditar em soluções mágicas e irracionais.

Conforme se esgota o prazo fatal, os bois que antes temiam o fim do mundo e que posteriormente deveriam voltar a manifestar o mesmo pavor, sentem-se tranquilos e cheios de esperança. É que o boi dissipara as dúvidas e os convencera de que seriam arrebatados para o Paraíso da eterna bem-aventurança, onde venceriam a morte e se livrariam das dores e dos sofrimentos, desfrutando de uma existência abençoada em meio a pastos verdes e um clima ameno. Restabelecidas as antigas condições de vida na fazenda, mas sem suas imperfeições, quem haveria querer voltar de lá?

Decorreriam alguns meses ainda para o tão aguardado dia. A cada data não cumprida, o boi refazia os cálculos e marcava uma nova. A frustração era imediatamente compensada pelo aumento da carga de promessas, esperanças, da fé vigilante e expectativa.

Sucedeu então que numa certa manhã, quando o Sol mal tinha se levantado, vários daqueles enormes veículos de carroceria retangular começaram a chegar, emitindo roncos e fumaça. Reconhecendo-os, o boi começou a mugir efusiva e euforicamente, anunciando que a hora era finalmente chegada. À luz do dia e à vista de todos, a profecia vaticinada e as promessas seriam de fato cumpridas. Uma das criaturas bípedes ou anjos, enviados para escoltá-los na perigosa viagem até o Criador, não deixou de estranhar o comportamento daquelas reses e comentou: “É a primeira vez que lido com animais tão dóceis e obedientes. Nem sequer precisamos nos dar ao trabalho de conduzi-los à força, pois entram sozinhos nos caminhões!”

Amontoados na carroceria, os bovídeos exultavam e não se importavam com os sacolejos, o aperto e o desconforto. Nenhum deles jamais havia saído dos limites da fazenda, por isso o cenário que divisavam no trajeto infundia-lhes um misto de fascínio e estupefação. Agora sabiam que não estavam sós no universo e que existia uma infinidade de mundos habitados por seres semelhantes a eles. Seriam mais evoluídos?

Reverenciado pelos acólitos que com ele viajavam num dos caminhões, o boi alimentava delírios de grandeza e um imponente egocentrismo megalomaníaco. Dizendo-se mais do que um mero intermediário ou escolhido, igualava-se em majestade e poder aos criadores, ao lado dos quais – assegurava – reinaria.

Assim que chegaram a “Terra Prometida”, notaram que algo estava errado: “Todos para fora!”, gritava estupidamente um bípede enquanto abria a porta da carroceria. Nem bem desembarcou, o rebanho, de súbito, imobilizou-se. Ninguém conseguia abrir a boca. O pavor os emudeceu. O cenário ali em nada lembrava o Céu, mas o Inferno. Bípedes truculentos com caras de carrasco os obrigavam a formar uma única fila diante de uma construção lúgubre. Os que se desviavam recebiam imediatamente varadas e chicotadas aos gritos de palavrões e xingamentos. Andando para frente, ao menos deixavam para trás a fúria assassina daquelas feras humanas. Enfileirados, mantinham-se quietos. Um cheiro nauseante de carne e sangue frescos invadia as narinas. Pressentindo o pior, alguns se entreolhavam esboçando um gesto de despedida. Outros ainda preferiam acreditar num procedimento de higiene para matar carrapatos.

O boi escolhido, por ser um dos últimos da fila, pôde observar cada um de seus companheiros entrando no abatedouro para não mais saírem. A não ser que fossem eles aquelas enormes carcaças ensanguentadas que bípedes de aventais e uniformes brancos carregavam nas costas até o veículo prateado no qual estava escrito “caminhão frigorífico”. De vez em quando, ouvia mugidos terríveis de um de seus ex-seguidores, que ao mesmo tempo lamentava ter sido enganado e o amaldiçoava, embora tarde demais. Dir-se-ia que o céu deixara de existir.

Pouco antes dele mesmo ser sacrificado, o boi escolhido teve o privilégio de ser admirado, elogiado e fotografado por uma figura sinistra que se identificou como sendo seu Criador. Aos demais criadores, chamados de pecuaristas, rodeados em volta, fez a seguinte explanação, que valeu ao boi uma revelação final: “Um manejo mais eficiente poderá fazer com que a idade do abate dos animais caia ainda mais: de quatro para dois anos e meio ou, no máximo, três anos, tratando-se da engorda extensiva, e para até dois anos – com peso de pelo menos 450 quilos – no caso de engorda em confinamento. Quando se reclama a racionalização do manejo do gado, a melhor técnica, por certo, não é o simples abandono das reses na invernada. Um pouco mais de trabalho será exigido do pecuarista, a fim de que sejam vencidas as barreiras naturais, incluindo-se aí a melhoria das pastagens, o estabelecimento de um esquema regular de estação de monta, o desmame precoce dos bezerros e outros cuidados, que costumam ser negligenciados no sistema tradicional…”

 

Conto extraído do do livro Contatados: Emissários das Estrelas, Arautos de uma Nova Era ou a Quinta Coluna da Invasão Extraterrestre? Campo Grande, Centro Brasileiro de Pesquisas de Discos Voadores (CBPDV), 2007, pp. 257-262 (Biblioteca UFO).