Cogumelos alucinógenos na origem dos símbolos do Natal e do Papai Noel

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

A origem das religiões tem relação íntima com o consumo de alucinógenos, em especial o cogumelo Amanita muscaria. Não restam dúvidas de que nossos ancestrais usavam substâncias que alteravam a mente para entrar em contato com espíritos, deuses e demônios. Uma estatueta datada de 1200-900 d.C., encontrada em Xochipala, a oeste do Estado de Guerrero, no México, exposta no Museu de Arte da Universidade de Princeton, retrata uma jogadora de bola usando capacete, luva e cinto inspirados no cogumelo. Cogumelos sagrados como o Amanita muscaria eram consumidos antes de batalhas e jogos de bola rituais, visto que incrementavam a visão e a força, bem como a coragem em seus níveis mais selvagens. Numerosas figuras como essa foram encontradas em Xochipala e em outros locais como Tlatilco e Tlapacoya, no Vale do México.

O vice-presidente da J. P. Morgan e etnomicólogo pioneiro norte-americano Robert Gordon Wasson (1898-1986), bem como outros estudiosos da área, inferiram que a maçã mitológica é uma substituição simbólica para o cogumelo Amanita muscaria, uma óbvia codificação do cogumelo em associação com a Santíssima Trindade e a “Árvore do Conhecimento”. Cabe lembrar que a ideia de que o fruto proibido teria sido uma maçã foi introduzida somente em 1667 pelo inglês John Milton (1608-1674) em seu poema épico Paradise Lost (O Paraíso Perdido).

Evidências e analogias históricas surpreendentes comprovam que alucinógenos usados em rituais pagãos provocavam uma experiência curiosamente parecida com as visões espirituais descritas por apóstolos religiosos, e que serviram de base para a criação das religiões monoteístas. A perseguição cristã às religiões arcaicas baseadas na ingestão de enteógenos (substâncias alteradoras da percepção de realidade) sacramentais, essa autêntica “inquisição farmacrática”, teve início nos primeiros séculos cristãos e prossegue até hoje disfarçada de “combate às drogas”.

O arqueólogo e lingüista britânico John Marco Allegro (1923-1988), um ex-católico que estudou línguas semíticas na Universidade de Manchester e dialetos hebraicos na Universidade de Oxford, foi convidado pelo Vaticano para integrar a equipe de tradutores dos Pergaminhos do Mar Morto, escritos em hebraico, aramaico e grego entre 200 a.C. e o primeiro século e descobertos entre 1947 e 1956. Allegro foi o único a terminar seu trabalho, que é ignorado e suprimido por muitos, por contestar a veracidade da história de Jesus, enquanto a tradução oficial foi escondida pela Igreja Católica por cerca de 50 anos. Segundo Allegro, autor de The Sacred Mushroom and the Cross (O Cogumelo Sagrado e a Cruz), “milhares de anos antes do cristianismo, cultos secretos adoravam o cogumelo sagrado Amanita muscaria que, por várias razões (incluindo o seu formato e seu poder alucinógeno) chegou a ser considerado como um símbolo de deus na Terra. Quando os segredos do culto tiveram de ser escritos, foi feito na forma de códigos ocultos em contos populares. Esta é a origem básica das histórias do Novo Testamento”.[1]

John A. Rush, em seu livro The Mushroom in Christian Art: The Identity of Jesus in the Development of Christianity (O Cogumelo na Arte Cristã: A Identidade de Jesus no Desenvolvimento do Cristianismo), afirma que “a arte cristã não é uma fotografia de fatos históricos, e sim um ícone, uma representação de algo que não pode ser representado. Ícones são representações espirituais de um outro mundo, uma geografia espiritual. O que você vê não é o que você recebe. Uma cruz não é uma cruz, um livro não é um livro, um anjo não é um anjo, e um cogumelo não é um cogumelo. Não se trata de história, mas uma representação artística elaborada, de caráter espiritual, para explicar e prestar homenagem à experiência alucinógena com os cogumelos”.[2]

As estátuas de anjinhos que fazem pipi nas fontes do Vaticano e de tantas outras cidades da Europa Medieval, têm sua origem no curioso fato de que os xamãs ancestrais, após comerem os cogumelos, bebiam sua própria urina, uma vez que a concentração dos compostos ativos da Amanita é potencializada na mesma. Isso permitia aos xamãs experimentarem a morte sem de fato morrer, o que remete diretamente ao conceito da ressurreição.

Desta perspectiva, os símbolos de uma das maiores festas do cristianismo, o Natal, vão sendo desvendados um a um: a origem do velhinho, o porquê dos pinheiros decorados com bolas coloridas e a famosa descida pela chaminé com um grande saco de presentes nas costas. Papai Noel seria nada menos que a representação figurativa dos antigos xamãs nórdicos que colhiam exemplares do Amanita nas florestas coníferas, penduravam os cogumelos nos pinheiros para secarem ao Sol e os carregavam em um grande saco nas costas visitando as famílias para praticar rituais de cura e proteção. Devido ao tempo inóspito da região, muitas vezes a porta de entrada das moradias ficava coberta por camadas de neve, restando ao curandeiro entrar pela chaminé. Outra maneira de se fazer isso era dando exemplares do Amanita muscaria às renas, animal tão comum na região da Sibéria – onde se originaram esses cultos – como os cavalos entre nós hoje, para então oferecer sua urina aos participantes do ritual. Exatamente por esse motivo que às renas do Papai Noel eram atribuídas a capacidade de “voar”.

Notas:

[1] Allegro, John Marco. The Sacred Mushroom and the Cross, London, Hodder and Stoughton, 1970.

[2] Rush, John A. The Mushroom in Christian Art: The Identity of Jesus in the Development of Christianity, Berkeley, California, North Atlantic Books, 2010, p.138-139.