O centenário de O Livro dos Danados, de Charles Fort

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

Charles Hoy Fort (1874-1932), o apóstolo do excepcional e o sacerdote do absurdo, misto de repórter, filósofo e poeta, colecionador de elementos excluídos aprioristicamente pela ciência, alguns lívidos, outros flamejantes, a maioria putrefatos, encarou o fantástico e o real em termos de uma continuidade. À sua escola filiam-se os autores do Realismo Fantástico, mormente os franceses Jacques Bergier, Louis Pauwels e Robert Charroux. Coletando a partir das principais fontes de divulgação as notícias bizarras de sua época, esse autoproclamado inimigo do dogma e da ciência oficial denunciou os conformismos aos quais se submetiam os conciliadores, aqueles que não sabem, não podem ou, o que é pior, não querem perceber que uma teoria deixa de ser consistente quando não consegue absorver a maior parte dos fatos que a experiência vem demonstrar.

Charles Hoy Fort: um apaixonado por relatos de casos misteriosos.

No transcorrer de sua vida, Fort nutriu-se de uma inamovível obsessão: resguardar os acontecimentos aviltados pelo saber convencional. O catalogador de absurdos nasceu em Albany, Nova York, no seio de uma família de holandeses. Filho de um atacadista de secos e molhados que não hesitava em usar o chicote como instrumento corretivo, viveu os dissabores da Era Vitoriana. As seguidas frustrações predisporam-no a classificar as “realidades irreais”, conjurando o conhecimento científico a uma dúvida sistemática, esta última, para ele, a única chave da legítima sabedoria. Quase sempre só, distante de seus irmãos, lançou-se precocemente à leitura, atendo-se aos mundos da fantasia e entregando-se ao devaneio.

Lia tudo o que estivesse ao seu alcance – sua ânsia pelo saber era ilimitada –, entre os quais podemos citar a obra Our Inheritance in the Great Pyramid (1863), de Charles Piazzi Smyth (1819-1900), astrônomo Real da Escócia (de 1846 a 1888), repleta de relações abstrusas entre a massa das pirâmides egípcias e o globo terrestre; Die Meteorite (1880), de Otto Hahn; Mark Twain (1835-1910) ou Darwin; os jornais diários e todas as revistas ao seu alcance; a Bíblia; obras sobre a história da arte ou o cálculo infinitesimal; Demócrito de Abdera (460 a.C.-370 a.C.) ou François Rabelais (1483-1553). Por vezes entretinha-se em cogitações sobre o catastrofismo do barão Georges Léopold Chrétien Frédéric Dagobert Cuvier (1769-1832) – que justificava a criação e a extinção das espécies com acontecimentos naturais, mais espontâneos do que graduais –  ou idealizava um jogo de xadrez tridimensional; e ainda sobrava-lhe tempo para suas incontáveis coleções. Colecionava de tudo: aves, pedras, ovos ou selos, conchas ou insetos, sobretudo notícias, recortes de tudo que era inacreditável. Arquivava acontecimentos impossíveis, por ele chamados de “fatos malditos”, e fichava circunstâncias anômalas: casos misteriosos sem solução, notícias sobre objetos não identificados no céu e no mar, seres ígneos, monstros, chuvas de sangue e de animais, quedas de pedras, desaparecimentos de pessoas, poltergeists, objetos estranhos desenterrados ou que despencavam do céu, etc.

Redigiu mais de 25 mil notas. Montou um museu particular de ocorrências expurgadas pela ciência, ligadas a todas as áreas do saber: filosofia, história, religião, física, astronomia, aeronáutica, navegação, estética, biologia, química, psicologia, sexologia, vulcanologia, etc. Reunindo parte desse pasmoso repositório, plasmou em 1918 sua primeira obra, The Book of the Damned (O Livro dos Danados). Fort chamava essas ocorrências de “danadas”, porque a ciência, incapaz de explicá-las, simplesmente as ignorava. Tais fenômenos passaram a ser chamados de forteanos, em honra daquele que atraiu a atenção do mundo para eles.[1]

A ciência sempre o encarou como um adversário. Louvado por uns – como o escritor e ativista político norte-americano Theodore Herman Albert Dreiser (1871-1945) – e renegado por outros, em The Book of the Damned advertiu logo nas primeiras linhas que sua obra era o préstito dos casos ominosos, relegados, expulsos pela ciência: “Batalhões de danados, capitaneados pelos diáfanos dados que exumei, põem-se em marcha. Ei-los alígeros… logo marcharão. Alguns são lívidos, outros flamejantes, outros ainda putrefatos. Alguns destes são cadáveres, esqueletos, múmias que se contorcem, que cambaleiam, animados por companheiros que são danados enquanto vivos. Gigantes que passaram nas vizinhanças, mas dormíamos profundamente. Coisas teoremizadas e outras que constituem apenas fragmentos; desfilam sob o braço de Euclides com o espírito da anarquia. Aqui e ali saltitam prostitutas. Muitos são jocosos, mas muitos outros são da máxima respeitabilidade. Alguns são assassinos. Aqui fracos fedores e descarnadas suposições, simples sombras e malícias vivazes: caprichos e amabilidade. O ingênuo e o pedante, o bizarro e o grotesco, o sincero e o insincero, o profundo e o pueril.”[2]

Contudo, fatos em marcha, verídicos, que se afirmam como situação intermediária entre a ordem e a desordem, entre o caos e o cosmos, entre o conhecido e o desconhecido. Na época de Fort, o termo “disco voador” ou a sigla OVNI ainda não haviam sido cunhados. Para ele, no entanto, isso não passava de uma simples questão terminológica, uma vez que coletara centenas de aparições. Não só de objetos aéreos com aparência de discos ou pratos, mas lenticulares, ovais, esferoides, filamentosos, charutos, cigarros, manchas amorfas e remendos. Coligia tudo, separava e ordenava sem nomeá-los.

Advertia Fort que não passávamos de insetos e ratos, tão somente manifestações diversas de um queijo universal. As marcas dessa pluralidade estão espalhadas pelo Universo. Exploradores nos sitiam e nos rondam, vindos de algures, de terras ignotas, de “ilhas” como ele as chamou. Em seu segundo livro, New Lands (Novas Terras), publicado em 1923, afirmou que as multidões de coisas vivas que se agitam no vazio, vistas por milhões de terrestres dia após dia, noite após noite, são naves de outros mundos em suas missões exploradoras.

Tais ideias, propostas por um obsedado do Bronx (condado de Nova York) – que trabalhou como lavador de pratos, vaqueiro, livreiro, editor de humorismo e repórter –, dificilmente poderiam ser levadas a sério em sua época. Somente na segunda metade do século XX é que Fort seria canonizado pelos cultores do insólito que ele ajudara a formar. Pequenas notícias nos cantos dos jornais, desprezadas. Títulos insinuando balelas, invencionices, prodígios de imaginação. Fatos isolados no tempo, ilhados no espaço, na terra, no céu, nas águas. Todos eles com um elemento em comum: o fantástico, o bizarro, o inaceitável mas existente, o incrível conquanto acontecido, emanando realidades latentes.

A assunção do real não repousa unicamente no confronto entre o sujeito e o objeto, corolários de duas entidades bem definidas. O universal comporta gradações, etapas dispositivas entre a realidade e a irrealidade. Nesse sentido, Fort assumiu uma postura claramente fenomenalista, já que para ele as coisas só podem ser conhecidas como aparecem, nunca como são. A essência nunca poderá ser alcançada e a própria aparência já contém em si a incognoscibilidade. Daí a síntese forteana do entendimento cósmico: todas as coisas não passam de ilhas, contornos de um continente submerso, sem limites verdadeiros. Em seu universo, inexistem diferenças positivas. As aparências são ilusórias, nenhum de nós constitui efetivamente “um ser”, o mundo ao redor nos contêm e nos limita.

Ludwig Wittgenstein

Nesse ponto, as palavras do filósofo vienense Ludwig Wittgenstein (1889-1951) em seu Tractatus Logico-Philosophicus (1921) parecem evocar Fort: “Não  podemos pois dizer na lógica: isto e isto existem no mundo, aquilo não. Porquanto se pressuporia aparentemente que excluímos certas possibilidades, o que não pode ocorrer pois, do contrário, a lógica deveria colocar-se além dos limites do mundo, como se pudesse considerar esses limites também do outro lado. Não podemos pensar o que não podemos pensar, por isso também não podemos dizer o que não podemos pensar. Esta observação dá a chave para decidir a questão: até onde o solipsismo é uma verdade. O que o solipsismo nomeadamente acha é inteiramente correto, mas isto se mostra em vez de deixar-se dizer. Que o mundo é o meu mundo, isto se mostra porque os limites da linguagem – da linguagem que somente eu compreendo – denotam os limites de meu mundo.”[3]

Wittgenstein analisa a natureza da linguagem e suas relações com a realidade, o papel da lógica nessa estruturação e a formulação e resolução dos problemas do sentido. O fato atomizado é o dado inicial do mundo, e sua ocorrência é previsível pelo esquema das combinações possíveis, inscrito nos objetos. Não é por convenções que os fenômenos linguísticos simbolizam a realidade, mas por semelhança estrutural e correspondência perfeita entre o mundo e a linguagem.[4]

Nas aliterações multitudinárias de Fort, todas as coisas não são, de fato, coisas, se todas são intercontínuas; a perna de uma mesa é a projeção de algo mais. Nenhum de nós é uma pessoa real, se, fisicamente, somos contínuos ao ambiente.[5]

John Keats

A física demonstrou que as leis naturais que presidem a organização do Universo baseiam-se em simetrias, isto é, em invariâncias relativas a certas transformações. Os físicos teóricos “adivinham” as leis da natureza precisamente com base em simetrias. O mundo é, portanto, nos seus fundamentos teóricos, “perfeito”, ou, como muitos físicos gostam de dizer, “belo”. Nas belas palavras do poeta inglês John Keats (1795-1821), um dos maiores nomes do romantismo, “o verdadeiro é belo e o belo é verdadeiro”. Tanto as partículas do mundo como as forças fundamentais que relacionam as partículas são descritas matematicamente respeitando princípios gerais de simetria. Mas, o fato é que o Universo, tal como o vemos hoje, não é assim tão perfeito: existem algumas quebras das simetrias fundamentais. É como se o belo tivesse de ter um senão para ser verdadeiro… Na física de partículas, a quebra de simetria é um fenômeno muito comum que ocorre quando certas harmonias de base deixam de ser respeitadas. Há várias partículas diferentes e não uma só. Há várias forças diferentes e não uma só. A evolução do Universo desde seu surgimento há cerca de 15 bilhões de anos – quando muitas simetrias que hoje vemos quebradas ainda não o não estavam – tem sido um rompimento de simetrias.

Notas:

[1] Scavone, Rubens Teixeira. “Há algo no ar. E não são aviões de carreira”, in Jornal da Tarde, São Paulo, 13-2-1982.

[2] Fort, Charles. O Livro dos Danados: Verdadeiro Caos de Fatos Insólitos, São Paulo, Hemus, s.d., p.7.

[3] Wittgenstein, Ludwig. Tractatus Logico-philosophicus, São Paulo, Nacional, 1968, p.111.

[4] Félix, Francisco José Peixoto da Costa. Situação da Linguagem no Tractatus de Wittgenstein, São Paulo, Faculdade de Ciências e Letras, USP, 1969.

[5] Fort, Charles, op.cit., p.10.