Nas ruínas do Castelo de Takeda, a Machu Picchu do Japão

O Castelo de Takeda, também chamado de “Castelo nas Nuvens” ou “Machu Picchu” do Japão.

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga (texto e fotos) e Alexandre Akio Watanabe (fotos com a presença de CTS)

Cheguei a este mirífico lugar intrigado pela foto do folheto de propaganda abaixo que mostra ruínas do que parece ser uma construção de pedra muito antiga no cume de uma montanha. Mostrei a foto a várias pessoas que não souberam dizer onde havia sido tirada. Tive então de decifrar os kanjis para descobrir que se tratavam das ruínas do Castelo de Takeda (Takeda-jō, 竹田城迹), conhecido como o “Castelo nas Nuvens” ou a “Machu Picchu” japonesa, ou ainda Torafusujou ou Kogajou, por causa da aparência com um tigre deitado (“Tora” significa tigre em japonês), quando visto do alto.
O folheto de propaganda turística que me levou à “Machu Picchu” do Japão.
Escondido nas profundezas da minúscula cidade interiorana de Asago, na parte norte da província de Hyogo, região de Kansai, na ilha de Honshu, a cerca de 353 metros acima do nível do mar, Takeda, um dos cem maiores castelos do Japão, só recentemente começou a ficar conhecido para o resto do mundo.
Fronteiriça de Osaka e Kyoto a leste, grande parte da população de Hyogo vive na costa sul, severamente devastada pelo terremoto de magnitude 7,2 graus na escala Richter em 17 de janeiro de 1995, que destruiu grande parte de sua capital Kobe.
Quem me guiou até lá foi meu velho colega de trabalho e de aventuras Alexandre Akio Watanabe, que parece ter herdado do conquistador macedônio Alexandre, O Grande (356 a.C.-323 a.C.), o dom e o impulso de explorar regiões remotas e desconhecidas. E juntos embarcamos na viagem de duas horas de trem desde a Estação de Osaka por trilhos que cortam fazendas e mais fazendas de arroz com suas casas antigas e típicas fincadas entre montanhas e florestas densas de verde intenso. Vendo aquele mesmo e monótono cenário interminável, damo-nos conta do quão extenso o Japão na verdade é, ao contrário do que sugerem os mapas.
A Estação de Osaka.
Os bilhetes de trem Osaka-Wadayama, ida e volta.

Ainda tivemos de fazer uma baldeação, uma breve parada na Estação de Wadayama, onde pegamos um trem antigo de um só vagão até a Estação de Takeda, em Asago. Ainda circulam no interior aqui do Japão esses trens que trazem no teto, em vez de ar-condicionado, ventiladores de hélice!

Há que se tomar cuidado para não enroscar os cabelos nesses ventiladores…

E finalmente desembarcamos na Estação de Takeda, nosso ponto de partida em Asago, rumo ao Castelo. A sensação era a de que tínhamos feito muito mais uma viagem no tempo, a um Japão arcaico, rodeados que estávamos por um belo e bucólico cenário, mas um tanto rústico e desolador.

No pequeno museu dentro da própria Estação de Takeda, encontramos fotos e informações úteis sobre o Castelo, incluindo mapas, maquete (de como era originalmente o Castelo) e até uma armadura de samurai.

Saindo da Estação de Takeda: Um pequeno passo para um brasileiro, mas um gigantesco salto dentro da pequena cidade interiorana de Asago, na parte norte da província de Hyogo, aqui no Japão.

Logo à entrada da cidade de Asago, ao lado da Estação de Takeda, nos deparamos com este menir ou cromeleque, reminiscência de antigos monumentos megalíticos, aliás presentes em todas as partes do Japão, como no resto do mundo. Era uma promissora prévia do que iríamos encontrar no topo do Monte Kojo (“Tigre da Montanha”, em japonês), onde estão as ruínas do Castelo.

No distrito de Takeda, há vários templos budistas antigos. Nas fotos abaixo, estou defronte ao templo Jokoh-ji, fundado em 1594 ao pé do monte Kanashiyama, no lado oposto do rio, no que é atualmente Higashi-machi. Foi destruído em 1610 por um grande incêndio e reconstruído no mesmo ano. O templo principal foi reconstruído em 1698, e a ponte de pedra em frente ao portão, em 1707, ou seja, dentro do Período Edo (1603-1868), a idade dourada da cultura japonesa, governada pelos xoguns da família Tokugawa e marcada como um longo período de paz após séculos de guerras civis recorrentes e de muitos conflitos internos. No interior do recinto, há uma torre em memória do primeiro senhor do castelo, Otagaki Mitsukage. Repare nos detalhes do dragão sob o teto.

Na mesma Teramachi-dori Street, onde estão os templos budistas do Período Edo ao pé da montanha de Takeda, há um canal de água fervilhando de carpas, peixe símbolo da cultura japonesa, tão estimado e tão caro – em 2018, segundo o Daily Mail, uma carpa de Hiroshima foi vendida por 203 milhões de ienes, ou 7 milhões e 500 mil reais. A carpa (koi) é um símbolo de longevidade, prosperidade, sucesso, sorte, perseverança e boa fortuna. Nos templos budistas, representa coragem. A carpa colorida é uma modificação conhecida como Nishikigoi, feita por criadores de Niigata em 1914 para uma exposição. Quando foi importado da China, a carpa era cinza e não tinha cores vívidas. Depois da alteração, sua beleza impressionou e o príncipe Hirohito (na época) tinha oito peixes de Niigata em seu lago.

Fizemos esse breve tour pelo distrito de Takeda enquanto aguardávamos, a partir da estação JR Takeda, um ônibus de traslado que iria nos levar até perto do topo da montanha e das ruínas do Castelo. Ou seja, não é necessário que você suba a pé toda a extensão montanha.

No ônibus que nos leva até próximo ao topo da montanha de Takeda por curvas estreitas e perigosas.

Caso você tenha mais tempo e disposição, sugiro que opte pela caminhada, que leva cerca de uma hora. A subida, para quem não está em forma, não é muito fácil e tranquila, mas a visão panorâmica de tirar o fôlego que se tem lá de cima, compensa o esforço, já que as ruínas da fortaleza, isso nas manhãs de outono, quando uma névoa espessa paira sobre o céu devido a uma queda brusca na temperatura durante a madrugada, parecem flutuar sobre um mar de nuvens, daí ser chamada de “Castelo nas Nuvens”.

A “Cidade das Nuvens” do filme Guerra nas Estrelas V: O Império Contra-Ataca, de 1980.

Claro que isso remete à “Cidade das Nuvens” do filme Star Wars V: The Empires Strikes Back (Guerra nas Estrelas V: O Império Contra-Ataca), uma colônia de mineração de gás Tibanna que flutuava nas nuvens de Bespin, localizado no Setor Anoat nos Territórios da Orla Exterior, comandada pelo barão administrador Lando Calrissian, e que tencionava evitar a atenção indesejada imperial, mas acaba sob sua ocupação devido ao desembarque, pouco depois da Batalha de Hoth, dos membros da Aliança Rebelde para Restauração da República, Leia Organa, Han Solo, Chewbacca e os droides C-3PO e R2-D2. Precisando de reparos na Millennium Falcon, Solo recorre ao amigo Calrissian, o antigo dono da nave. Convidados para um jantar por Lando, os cinco caem em uma armadilha, preparada por Darth Vader, Boba Fett e vários Stromtroopers, os quais tinham chegado antes dos rebeldes. Os imperiais torturam Han Solo e em seguida o levam para a Câmara de congelamento a Carbonita, onde o colocaram sob animação suspensa. Luke Skywalker, percebendo o perigo que seus amigos corriam, apesar das advertências de Yoda, vai até a cidade e é envolvido em um antológico duelo com Vader, que lhe decepa o braço direito e lhe revela que é o seu pai a fim de que se junte ao lado sombrio da Força. Enquanto isso, Lando Calrissian, chateado com as ofertas do Império, advertiu os cidadãos que as forças imperiais invadiram a cidade, o que permitiu que Leia, Chewbacca, C-3PO e R2-D2 escapassem da cidade, apanhando Luke ferido e pendurado em uma antena de meteorologia.

A popularidade das ruínas também lhe rendeu o epíteto um tanto exagerado e apelativo, em referência às ruínas deixadas pelos incas no alto da Cordilheira dos Andes no Peru, acima do vale do rio Urubamba, de “Machu Picchu do Japão”, cujo cenário deslumbrante pode ser melhor visualizado a partir das montanhas vizinhas ao redor. Da montanha Ritsuunkyo é que se obtém as melhores fotos.

O Castelo Takeda foi construído por Mitsukage Otagaki, um daimiô (poderoso senhor feudal) do clã Yamana em 1441. Otagaki se tornou o senhor do castelo, conquistado em 1577 por Toyotomi Hideyoshi durante a campanha da Província de Tajima para unificar o Japão e colocado sob o controle de seu irmão mais novo, Hidenaga, que em menos de dois anos acabou mudando-se para o Izushi-jo.

Akamatsu Hirohide, o último senhor do castelo, lutou ao lado de Tokugawa Ieyasu (1543-1616), o fundador e primeiro xogum do Xogunato Tokugawa do Japão, que perdurou por mais de 250 anos e só chegou ao fim com a Restauração Meiji em 1868. Embora tenha lutado bravamente na decisiva batalha de Sekigahara, popularmente conhecida como a “Divisão do Reino”, em 15 de setembro de 1600, que abriu caminho para a ascensão de Tokugawa ao poder no mesmo ano, foi acusado de incêndio criminoso e menos de um ano depois acabou cometendo seppuku. Ele foi o último proprietário conhecido do castelo e as instalações foram abandonadas logo após seu suicídio. Em 1943, em plena Segunda Guerra Mundial, o Castelo de Takeda ganhou o status de monumento histórico para que fosse protegido dos bombardeios. Desde então, diversos projetos de restauração e manutenção foram realizados.

Cena de Anata e, com o protagonista nas ruínas do Castelo de Takeda.

Só nos últimos anos, no entanto, é que os turistas, atraídos por sua atmosfera mágica e mística, que nos lembra o cenário de filmes como O Senhor dos Anéis e Harry Potter, redescobriram esse lugar antes amaldiçoado e o transformaram em um grande ponto de peregrinação em torno da cidade de Asago. O afluxo de visitantes começou a crescer depois que o local foi destaque do filme japonês Anata e (あなたへ, To You), dirigido em 2012 por Yasuo Furuhata e cuja história segue a jornada de um homem que viaja por 300 quilômetros da cidade de Toyama até a cidade natal de sua esposa na província de Nagasaki, a fim de espalhar suas cinzas no mar. Ao longo do caminho, ele passa por muitos locais famosos, entre eles as ruínas do Castelo de Takeda, sempre relembrando experiências que teve com sua esposa.

O ônibus não nos deixa propriamente no topo, mas no início da trilha que nos leva até lá. Ainda devíamos fazer uma caminhada de cerca de uns dez minutos. E eis que nos pusemos a caminho. O trecho é todo asfaltado e profusamente sinalizado.

Um casal levando suas duas filhas pequenas nas costas e no colo.

Nesta pedra no caminho para o Castelo de Takeda, os peregrinos depositam moedas na esperança de terem seus desejos atendidos.

Achamos este enorme cogumelo em nosso caminho.

Um enorme ventilador para dissipar o calor de verão na bilheteria de entrada da trilha que leva em direção às ruínas do Castelo.

O início da trilha.
O bilhete de entrada para a aventura. O afluxo de pouco mais de duzentos mil visitantes por ano, tanto de japoneses quanto de estrangeiros, obrigou a que passasse a cobrar uma pequena taxa de entrada no valor de ¥500 para proteger e manter as instalações.
Cláudio Suenaga dá o primeiro passo na escadaria que conduz às ruínas do Castelo de Takeda.
E finalmente chegamos a área dos primeiros muros do Castelo.

Do Castelo, apenas a base e as paredes permanecem. Os muros de pedra atingem uma altura máxima de 10 metros. São geralmente de alvenaria e não apresentam cortes finos e precisos. A técnica utilizada foi a do empilhamento. Os blocos não são gigantescos, mas alguns são de dimensões consideráveis.

No topo das ruínas do Castelo de Takeda, temos uma bela e ampla vista das montanhas opostas adjacentes, da cidade e do vale abaixo. Naquela altura vertiginosa, sentimos o perigo de cair e rolar pela borda. Não há barreiras ou cercas altas que o impeçam de aproximar-se das extremidades. O governo municipal, no entanto, restringiu a visitação em alguns trechos como forma de preservar a estrutura erguida há mais de 570 anos por causa de riscos de desabamentos.

No ponto mais mais alto do Monte Kojo, com todas as plataformas do Castelo de Takeda logo abaixo.
O meu colega de trabalho e de aventuras e guia desta expedição, Alexandre Akio Watanabe.

Drones são estritamente proibidos nesta zona!

Confira abaixo mais fotos exclusivas que tiramos das estruturas. Note que algumas pedras são de dimensões consideráveis, mas o encaixe está longe de ser preciso, tal como em outro castelo em que estivemos, o de Osaka.

Esperando pelo último ônibus do dia, o das 17h20, que nos levaria de volta à Estação de Takeda.

Mais algumas fotos das ruas antigas e tradicionais do distrito de Takeda, perto da Estação.

Mapas e informações úteis da Prefeitura de Asago:

Fotos extras do site ViewKick: