50 Tons de Greys: Os 40 anos do Caso Mirassol

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

Há 40 anos ocorria o caso ufológico de contato sexual mais célebre depois do de Antonio Villas Boas, o de Antonio Carlos Ferreira, sequestrado pela primeira vez na madrugada de 28 de junho de 1979, véspera de São Pedro, em Mirassol, cidade industrial do noroeste paulista a 17 quilômetros de São José do Rio Preto e a 560 quilômetros de São Paulo.[1]

Antonio Carlos Ferreira na tarde da sessão de hipnose. Foto publicada por Walter Bühler em seu Livro Branco dos Discos Voadores.

Então com 21 anos de idade, Antonio era um rapaz negro, bastante humilde, recatado, tímido e semi-analfabeto que sabia apenas assinar o nome [por ter frequentado o Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização)], que não via televisão, não lia jornais ou revistas, e que só uma vez, uns três anos antes, havia assistido a um filme de ficção científica sobre discos voadores.

Naquela manhã de quinta-feira, por volta das 5h30, ao chegar do trabalho como vigia noturno na construção das futuras instalações da indústria Transmóveis Fafá [de propriedade de Nasser Dalul e de seu filho Flamínio Dalul (o Fafá)], sito à Avenida Três, nº 2.735, quase ao lado de sua casa,[2] Antonio Carlos, normalmente alegre e descontraído, passou taciturno pela mãe, sem dizer palavra, recusou o café, tomou um banho e foi direto para a cama. Dona Guaraçay, estranhando o comportamento do filho, dirigiu-se ao seu quarto e lhe perguntou se queria um copo de leite, ao que ouviu uma resposta dissonante: “Estou tão contente hoje!… mas tão contente!” Meio abobalhado e com o olhar perdido no teto, Antonio Carlos ia narrando à sua mãe como tinha sido levado para bordo de um disco voador por três homenzinhos de roupa brilhante, caixinha no peito e tubos ligados nos capacetes. Atônita, dona Guaraçay chamou pelo vizinho, o senhor Alonso, para que ouvisse também aquele disparate. E ambos chegaram a uma só conclusão: Antonio Carlos tinha sido atacado por três assaltantes!

Como o galpão da Transmóveis Fafá naquela altura se encontrava em construção e havia muito material de construção no terreno, a hipótese mais lógica era a de que ladrões tinham investido contra seu filho para subtrair o material. Dona Guaraçay resolveu tirar a limpo aquela história e telefonou para o encarregado de vigilância da empresa, o senhor Modesto, que negou ter havido qualquer roubo. Sem se dar por satisfeita, por volta das 8 horas dona Guaraçay foi à casa do investigador policial José Zanovello Neto (Zezo), e visivelmente nervosa lhe pediu que fosse até o galpão averiguar o que tinha acontecido. Zezo foi a primeira pessoa que esteve oficialmente no local e a constatar que no pátio, sempre cheio de pó devido aos serviços de terraplanagem feitos ali nos dias anteriores, havia uma área circular completamente limpa, como que varrida. Notou ainda que o capim do barranco estava todo chamuscado, como se um fogo tivesse passado por ali. Zezo abriu o relógio de ponto da Transmóveis Fafá e constatou que o cartão havia sido marcado pela última vez por Antonio Carlos às 3 horas da manhã, quando o seu turno de 12 horas só terminava às 5 horas. Cada vez mais encafifada, dona Guaraçay foi até a firma, onde junto com os demais que o acompanhavam testificou a área circular e o chamuscado no capim do barranco.

Ao despertar à tarde, Antonio Carlos sentiu-se muito zonzo, atordoado, com todo o seu corpo formigando e os olhos ardendo, sintomas que se prolongaram até cerca de vinte dias depois. Ao tomar o café, passou mal. No braço esquerdo, havia um sinal de queimadura, e no direito, um sinal de picada na veia. No corpo, principalmente nas costas, manchas escuras. Ao lavar a roupa do filho, dona Guaraçay notou que a costura do forro do paletó havia sido desmanchada. No bolso superior da camisa, viu manchas escuras. A cueca encontrava-se em tiras – inexplicavelmente, essa cueca mais tarde desapareceu da casa de Antonio Carlos. Os médicos do Hospital Sicard, de Mirassol, examinaram o vigia, mas não constataram nenhuma anormalidade.

O delegado de Polícia de Mirassol à época, Wilson Lopes, foi a São José do Rio Preto e notificou seu amigo, o farmacêutico Paulo Teixeira de Castro, co-fundador da Associação Ufológica Rio-Pretense (AURA). Castro, por sua vez, foi a Mirassol e notificou seu amigo, o professor e ufólogo Ney Matiel Pires, que também era amigo de Lopes; o delegado, porém, desconhecia o interesse de Ney Matiel por discos voadores. Castro apenas preencheu um formulário com os dados sobre o caso e deu por encerrada a sua parte na pesquisa. Não contente com isso, no dia seguinte Ney Matiel retornou ao local munido de gravador e máquina fotográfica a fim de colher mais detalhes.

O guarda Antônio Nascimento, que viu o Disco Voador sobre o terreno da fábrica Fafá. Antônio estava então num terreno contíguo (a Leste daquela fábrica). Foto de Walter Bühler, in Livro Branco dos Discos Voadores.

A primeira coisa que Ney Matiel notou ao chegar à fábrica, foi a área circular que parecia ter sido “varrida por alguém que tivesse pegado uma vassoura e afastado a terra vermelha”. Para Ney Matiel, aquilo teria se devido ao “campo magnético” ou ao próprio “deslocamento de ar” do disco voador. Ney Matiel entrevistou um outro guarda, de meia idade, simplório e também analfabeto, que naquela madrugada de 28 de junho se encontrava vigiando uma construção ao lado de um posto de gasolina a cerca de 350 metros da Transmóveis Fafá. Antonio Nascimento confirmou ter acompanhado, por volta das 3 horas, a descida, desde uns 500 metros de altitude, de “uma bola luminosa de cor vermelha” para os lados da Transmóveis Fafá, clareando tudo ao redor, mas não o seu pouso, já que um barranco atrapalhou a sua visão, ainda mais pelo fato do terreno dessa construção estar situado num declive de um metro de profundidade. Nascimento acrescentou ter visto o objeto soltando uma “lasca” ou “labareda de fogo”.

Da esq. para a dir.: Antônio Carlos Ferreira, sua vizinha Neiva Ferreira (que testemunhou a falha do televisor), Ney Matiel Pires e Maria de Lourdes. Foto de Walter Bühler, in Livro Branco dos Discos Voadores.

Outra testemunha a confirmar que “algo” estranho acontecera naquela madrugada foi uma jovem, ex-funcionária do Bradesco, que residia ao lado da casa de Antonio e que tinha por hábito ficar assistindo filmes na televisão até altas horas da noite. Na noite do episódio, ela se encontrava com o televisor ligado quando ouviu, por volta de meia-noite, um estranho zumbido, o mesmo que dona Guaraçay ouviu, como veremos a seguir. Sem dar atenção ao fato, Neiva continuou acompanhando a programação, até que por volta das 2h30, a emissora sofreu interferências e subitamente saiu do ar. Frustrada por essa interrupção, “como não consegui pegar imagem de nenhum canal, desliguei o televisor e fui dormir”, declarou. Por volta de meia-noite, dona Guaraçay foi despertada por um “barulho forte e penetrante”, um “barulho forte demais, parecia que ia estourar o miolo da gente, um barulho surdino, aquilo estava incomodando demais, zunia que parecia que ia explodir tudo”. Assustada, acordou o marido, que ainda meio adormecido, lhe disse que o barulho era da caixa d’água, coisa que, segundo ela, nunca havia acontecido antes. Esse ruído persistiu por mais uns quinze minutos. No mesmo horário, durante o seu plantão, Antonio Carlos encontrava-se no posto de gasolina de onde era também vigia juntamente com as construções da Transmóveis Fafá, em conversa com o chofer de caminhão. Subitamente o motor do veículo foi perdendo o ritmo de funcionamento até parar de todo. O motorista ficou apenas surpreso com o fato. E tão logo o motor voltou a funcionar, prosseguiu viagem normalmente.

Praticamente toda a pesquisa do caso de Mirassol deveu-se a Ney Matiel Pires, sempre auxiliado por sua esposa, a também professora Maria de Lourdes de Faria, e seus filhos Lourney, Edson e Ana Izabel, que compunham, por dizer assim, uma verdadeira equipe ufológica em família. Por residirem na mesma cidade, os Pires permaneceram acompanhando Antonio Carlos por toda a vida.

Eventos ligados à tarde de sessão de hipnose de Antônio Carlos Ferreira. A assistência da sessão, da esq. para a dir.: D. Geny Lisboa, Paulo de Castro, Ney Matiel Pires e Maria de Lourdes, Álvaro Fernandes, Walter Bühler e Lourney de Faria Pires. Foto de Walter Bühler, in Livro Branco dos Discos Voadores.

Entrevistei Ney Matiel e sua esposa Maria de Lourdes nos dias 10 e 11 de novembro de 2002 na casa onde residiam no bairro São José, em Mirassol. Esta foi a última entrevista concedida por Ney Matiel, pois poucas semanas depois, lamentavelmente, viria a notícia de seu falecimento, em decorrência de câncer, que teria ocorrido em 27 de novembro. A entrevista foi publicada na íntegra no apêndice de meu livro 50 Tons de Greys e aqui no site.

Ney Matiel Pires e Cláudio Suenaga em foto de Pablo Villarrubia Mauso.

A partir de uma pequena nota dando conta do sequestro de Antonio Carlos Ferreira publicada pelo jornal Correio de Mirassol, o Diário da Região procurou Ney Matiel que concordou em lhes entregar uma cópia do relatório que havia redigido, contanto que o jornal o reproduzisse fielmente, na íntegra, sem modificar, acrescentar ou cortar nenhuma palavra, o que foi feito.

A nota dando conta do sequestro de Antonio Carlos Ferreira publicada pelo jornal Correio de Mirassol. Fonte: Arquivos de Lourney Faria Pires.

Na sequência, Walter Bühler, presidente da SBEDV, do Rio de Janeiro, teve a sua atenção atraída para o caso por uma reportagem publicada na edição de 4 de agosto de 1979 do jornal carioca O Dia.[3] Face à repercussão do episódio, Bühler dirigiu-se imediatamente a Mirassol em companhia de sua amiga, a doceira Geni Lisboa, que na madrugada de 27 de maio de 1975, enquanto preparava um bolo em sua cozinha na cidade vizinha de São José do Rio Preto, foi paralisada por três “anões”, cada qual segurando uma lanterninha ou farolete que emitia um facho luminoso.[4] Lá chegando, Bühler foi direto à redação do Diário da Região em São José do Rio Preto, onde os jornalistas o encaminharam a Ney Matiel.

O parapsicólogo Álvaro Fernandes, presidente do grupo AURA e do Instituto Braid, de São José do Rio Preto, foi convocado às pressas e submeteu Antonio à hipnose no dia seguinte, 5 de agosto, repetida quatorze dias depois, 19 de agosto, sempre no Instituo Braid, centro de atendimento integrado de psicologia, parapsicologia e aplicação de recursos da mente, sito à Avenida Alberto AndaIó, 3454, em São José do Rio Preto. Walter Bühler, que assim como Ney Matiel auxiliou Fernandes a conduzir as duas sessões, transcreveu as atas das regressões em seu Livro Branco dos Discos Voadores. A primeira sessão de hipnose, em 5 de agosto, contudo, diferente da segunda, não foi propriamente uma regressão direta, mas sim indireta feita através de uma sensitiva em estado hipnótico.[5]

Antonio Carlos Ferreira sendo hipnotizado por Walter Karl Bühler, Ney Matiel Pires e Álvaro Fernandes na segunda sessão de regressão em 19 de agosto de 1979. Foto publicada em Livro Branco dos Discos Voadores. Foto original dos arquivos de Ney Matiel Pires.

Até submeter-se à regressão hipnótica, Antonio Carlos se recordava de sua experiência em sequência lógica, mas restavam muitas lacunas a serem preenchidas. Lembrava-se de pormenores tais como a vestimenta dos extraterrestres, seu aspecto físico, os equipamentos que usavam, o feitio e o interior da nave, a imobilização de que foi vítima para ser transportado flutuando, um vago tipo de comunicação verbal entre os seres, o instante da ida e o do retorno ao local de partida, enfim, sua memória exteriorizava conscientemente uma parte do que lhe ocorrera. Mas não se recordava com exatidão dos fatos em todos os seus detalhes. O que se segue é a transcrição integral, com alguns acréscimos, correções e adaptações de minha parte a partir dos relatórios de Ney Matiel e da sequência ordenada dos acontecimentos conforme consta no Livro Branco dos Discos Voadores:

Retrato falado do ufonauta parecido com um robô androide por Antônio Carlos Ferreira. Desenho publicado no Livro Branco dos Discos Voadores.

Às 3 horas da manhã de 28 de junho de 1979, Antonio Carlos Ferreira, que há quatro meses assumira a função de vigilante noturno das obras da futura indústria Transmóveis Fafá, marcou seu ponto como costumava fazê-lo de quinze em quinze minutos. Dirigiu-se em seguida para o banheiro da empresa. Deste local, observou lá fora um estranho objeto que pousava no pátio, a uns 60 metros de distância. Pensou em averiguar o que seria aquilo, tão logo deixasse o sanitário. Mas, ao sair, Antonio, que tem 1,75 metros de altura, deparou-se com três homens de pequena estatura e de compleição forte que trajavam uma espécie de macacão de cor branca cintilante ou prateada cobrindo-lhes todo o corpo. Na cabeça, traziam um tipo de capacete respiratório, o que impedia a observação de suas fisionomias, enquanto que no peito, uma caixinha, e uma outra maior nas costas, além de tubos ligados nos capacetes.

Hongue, um cão pastor que acompanhava rotineiramente Antonio Carlos em sua ronda, encontrava-se amarrado à guia próximo ao banheiro, exatamente como o rapaz o deixara. Ao tentar enfrentar os estranhos, o animal foi por eles imediatamente subjugado, caindo deitado como se estivesse morto. Ato contínuo, os três homenzinhos apontaram uma luz vermelha para o rosto de Antonio, emitida por uma pequena caixa quadrada, de cerca de 15 centímetros de lado e com dois orifícios de aproximadamente 3 centímetros na parte frontal, de onde a luminosidade se projetava. No mesmo instante, o rapaz viu-se totalmente imobilizado, sendo transportado, levitando e inconsciente, dentro de um facho de luz para a nave estacionada no pátio. Aliás, observações posteriores evidenciaram que, a partir de alguns metros do banheiro, seus rastros desapareciam tanto no sentido de ida quanto no de volta.

A nave descrita por Antonio tinha a forma de um forno a lenha. Desenho publicado em Livro Branco dos Discos Voadores.

Ao aproximar-se, Antonio notou que o disco voador era de forma cônica achatada, parecido com um “forno a lenha” ou “iglu de esquimó”, com aproximadamente 2,50 metros de altura. Sua cor na parte externa era de um cinza claro metálico, sem luminosidade. Enquanto estacionado, o OVNI apoiava-se num tripé de uns 2 metros de altura, do qual não foi possível observar detalhes. O objeto tinha dois orifícios ou janelinhas. A porta era de forma retangular e de pequena altura – Antonio precisou abaixar-se para poder entrar. Na parte interna, toda iluminada por uma luz vermelha difusa, via-se um painel com inúmeros botões e aparelhos, controlados por um dos tripulantes. Como assentos, pequenos banquinhos de forma circular apoiados em tripés, todos de cor cinza e sem encosto.

Em seguida, o OVNI decolou. Antonio Carlos percebeu um ligeiro zumbido, como de um transformador em funcionamento, e um frio percorreu-lhe todo o corpo. Os três seres, que ostentavam pequena insígnia em sua roupa (um círculo com uma cruz inscrita, lembrando uma suástica), não lhe dirigiram a palavra em nenhum momento durante a ascensão. Apenas fizeram com que ele permanecesse sentado num dos banquinhos. O rapaz não se recorda de quanto tempo durou o percurso, nem mesmo de como penetrou no bojo de outra nave, a que seria a nave-mãe. Notou apenas que se encontrava em uma grande sala de aspecto sóbrio, com luzes diferentes, azul, marrom e cor-de-fogo. Observou também que a nave transporte não se apoiava no piso da nave-mãe, mas flutuava a alguns centímetros desta. Nesta sala contendo diversos aparelhos, Antonio Carlos viu vários outros seres de baixa estatura, todos vestidos com uma espécie de macacão branco que lhes cobria o corpo até o pescoço, tendo as mãos recobertas por luvas brancas.

Nesta nave havia dois tipos distintos de tripulantes, porém todos com altura aproximada de 1,20 metros e cabeça anormalmente grande, quase o dobro da de um ser humano terrestre. Os de tez cor-de-chocolate possuíam olhos grandes e pretos, puxados como os dos orientais, sem cílios ou sobrancelhas, nariz grande e meio achatado, a boca grande, com lábios mais ou menos grossos, queixo fino, meio pontudo, e orelhas grandes e pontudas, quase o dobro da nossa. Destes, o cabelo era do tipo carapinha, de cor avermelhada. O outro grupo apresentava a pele de cor verde-folha, cabelos pretos e lisos, nariz grande e fino, olhos verdes, puxados, boca grande e lábios finos, orelhas grandes e pontudas, queixo fino e também pontudo.

Retratos falados dos ufonautas, feitos por Ney Matiel Pires, sobre o caso de Antonio Carlos Ferreira. Acima, ufonauta pele de cor verde-folha, cabelos pretos e lisos, nariz grande e fino, olhos verdes, puxados, boca grande e lábios finos, orelhas grandes e pontudas, queixo fino e também pontudo. Em 4, emblema no uniforme do ufonauta. Em 5, ufonauta de pele verde. Em 6, ufonauta de pele marrom. Desenhos publicados em Livro Branco dos Discos Voadores.

 

Ao que parece, a sala onde Antonio Carlos se encontrava possuía várias divisões. As paredes eram metálicas e brilhantes e, em uma delas, existia um painel bem grande com luzes verdes e vermelhas. Em outra parede, via-se uma pequena janela circular, protegida por uma espécie de vidro vermelho. Por duas vezes Antonio Carlos aproximou-se dessa janela, sentindo-se verdadeiramente apavorado por ver a Terra “tão pequena e distante” – conseguiu divisar pequenas luzes, muito tênues, que sugeriam uma cidade, mas não soube dizer o que seria. O rapaz observou também pela janela que uma parte da nave girava em grande velocidade, emitindo uma luz vermelha. Notou ainda um movimento pendular e, no topo externo da nave, pôde avistar uma imensa luz vermelha girando sobre si mesma. Na parede oposta à janela havia um enorme quadro com desenhos esquisitos, de cor verde brilhante, semelhante a um mapa. Ofuscava a vista quando se olhava para ele. A sala era profusamente iluminada com luzes de aspecto fluorescente. Na parte central do teto, via-se uma grande luz amarela. Recordou-se Antonio Carlos que o piso da sala tinha cor escura, em contraste com as paredes, brancas e brilhantes.

Havia na sala uma boa quantidade de aparelhos. Antonio Carlos lembra-se particularmente de um, de forma retangular, com cinco botões verdes, encimados por uma luz redonda e verde, do qual saíam diversos fios. Tal aparelho assemelhava-se muito a um televisor, embora não apresentasse a tela de projeção característica. Antonio Carlos foi colocado em frente a esse aparelho, segundo suas próprias palavras, “para tirar fotografias” (ao que tudo indica, essa máquina detectava seus pensamentos e reações), pois sempre que se dirigiam a ele, um dos seres manipulava os botões de controle.

Reprodução do painel de controle visto por Antonio Carlos Ferreira na nave.

Em outro setor da mesma sala existia uma avantajada mesa retangular, com diversos bancos de formatos retangulares e redondos e de cor marrom escura, quase preta. Próximo aos aparelhos havia uma espécie de divã. Nesse divã, Antonio Carlos foi colocado pelos extraterrestres. E deu-se então o mais inusitado dos fatos dessa série de ocorrências já tão estranhas. O rapaz viu-se diante de uma extraterrestre completamente nua, que demonstrava claramente suas intenções ao tentar tocar suas mãos! E foi com jocosos desafios e a ajuda dos ufólogos que Antonio reconstituiu a horrenda feição da criatura.

Desenho de Antonio Carlos Ferreira mostrando a ufonauta feia de cabelo vermelho, publicado em Livro Branco dos Discos Voadores.

A jovem tripulante era mais alta que os demais. Sua altura situar-se-ia entre 1,50 e 1,55 metros. Tinha a pele cor-de-chocolate, cabeça imensa, olhos em forma de amêndoa, grandes e pretos, afastados e afilados, terminando como uma vírgula virada para cima, nariz comprido, fino e reto, boca grande com lábios finos que se estendia de um lado a outro do rosto, dentes brancos semelhantes aos nossos, hálito desagradável, queixo fino e pontudo, seios pequenos, pêlos vermelhos nas axilas e na região pubiana e pele bastante fria. A cabeleira ruiva, grossa, abundante e mais ou menos encarapinhada, lembrava a moda “black power”. As orelhas, grandes e pontudas, sobressaíam da parte da frente dos cabelos, conferindo ares demoníacos à mulher. Sua cintura era fina e suas ancas avantajadas, com pintinhas pretas nas coxas, à maneira de nossas sardas. Seus movimentos eram mais toscos em comparação com os das mulheres terrestres. Em momento algum a extraterrestre dirigiu a palavra a Antonio Carlos. Apenas demonstrava gestos de afeição, tendo até tentado beijá-lo várias vezes enquanto estavam juntos. Pelo conceito de Antonio Carlos, a ufonauta era muito feia. O contato com o seu corpo dava uma espécie de choque elétrico bastante desagradável (Bühler acreditava que esse choque tanto poderia ser real quanto psicológico, causado pela repulsa que o rapaz experimentava em relação à moça).

Depois de colocá-lo no tal divã, três seres extraterrestres tentaram tirar as vestes de Antonio Carlos. Este reagiu. Deram-lhe então, para cheirar, algo forte e desagradável e, com isto, ele enfraqueceu. Suas roupas foram arrancadas à força. A cueca foi simplesmente rasgada. Novamente a jovem tripulante tentou aproximar-se dele, procurando pegar suas mãos. Antonio repeliu-a violentamente, exclamando que ela era muito feia, que não queria sua presença. A essa altura, aplicaram-lhe uma injeção na veia do braço direito, o que fez com que ele ficasse totalmente inerte. Em seu braço esquerdo colocaram um aparelho, impossível de ser descrito pela posição em que o rapaz se encontrava. A seguir, passaram-lhe um óleo de cor escura com cheiro de peixe por quase todo o corpo, nas pernas, nos órgãos sexuais, no peito, nas costas e na nuca. E após essa operação, conseguiram fazer com que ele consumasse o ato sexual com a jovem extraterrestre: ela deitada sobre ele, como um autêntico súcubo. Deixaram-no algum tempo com a moça. Depois, resolveram tirar-lhe o aparelho do braço esquerdo, vestiram-no novamente e passaram-lhe o óleo outra vez nas pernas, erguendo suas calças.

Durante todo esse tempo, os tripulantes falavam entre si usando uma língua desconhecida. Contudo, quando lhe dirigiam a palavra, Antonio Carlos entendia perfeitamente o que diziam, segundo ele, “pelo pensamento”. Procuravam tranquilizá-lo para que não tivesse medo, que nada de mal lhe aconteceria, que seria devolvido novamente a Terra. Declararam que eram de outro planeta e encontravam-se aqui fazendo experiências reprodutivas, pois queriam um filho seu para futuros estudos. Prometeram ainda que caso a “fecundação” desse certo, voltariam para buscá-lo a fim de que conhecesse seu filho híbrido – este seria do sexo masculino. Quando viessem buscá-lo, lhe dariam três sinais, mas não disseram que sinais seriam esses. Em dado momento, ao sentir fome, deram-lhe de beber um líquido grosso e meio amarronzado, com gosto desagradável, parecido com o da laranja. Esse líquido era tão nutritivo que ele nem precisava comer.

Terminadas as experiências, Antonio Carlos foi levado para uma sala escura, onde nada pôde observar, pela falta de iluminação ali reinante. Nesta sala às escuras, o rapaz foi recolocado na nave transporte e devolvido a Terra. Quando deu por de si, o disco voador havia desaparecido, e ali estava ele outra vez ao lado do banheiro, no mesmo lugar de onde fora raptado.

Desde então, Antonio Carlos relata em estado de “abreação” e com profunda precisão, os mesmos acontecimentos narrados conscientemente em entrevistas anteriores às duas regressões.[6]

Por sugestão de Bühler, partidário da teoria de que os ufonautas empregariam potentes forças magnéticas como meio de propulsão, Ney Matiel mediu as supostas influências destas forças sobre estruturas de aço e de ferro das imediações do local de aterrissagem do disco voador. Ao lado do banheiro onde se deu o sequestro, havia um amplo barracão sustentado por dezesseis colunas de ferro, sendo oito de cada lado. Munindo-se de um medidor magnético (magnetômetro de Pierre Jaquet, Suíça, graduação de 1 a 5 Gauss, presenteado pelo próprio Bühler), constatou, no dia 18 de agosto de 1979, ou seja, 51 dias após o episódio, que as colunas metálicas estavam magnetizadas. Dentro do barracão, havia uma pilha de vigas metálicas que apresentaram um teor estimado em pelo menos 5 Gauss, já que este é o limite máximo da escala do medidor. Verificou também que o fio estirante de um poste da rede elétrica próximo ao local da descida do OVNI registrava 3 Gauss. O arame farpado da cerca localizada perto do barranco no mesmo lugar e de maior proximidade do local de aterrissagem do disco voador apresentava 2 Gauss. Em 7 de outubro, portanto 101 dias depois do primeiro sequestro, Bühler realizou uma medição nos mesmos lugares, encontrando outro teor de magnetismo em relação às vigas metálicas (entre 1 e 1,5 Gauss além do normal), com uma queda, em média, de 50% do magnetismo, compatível com o tempo decorrido entre as duas medições das vigas do barracão. Entretanto, as vigas empilhadas ainda apresentavam um teor de 5 Gauss ou mais. A cerca de arame, a poucos metros do pouso, acusou mais de 2 Gauss. Latas encontradas no capim existente na área apresentaram magnetismo de 1,5 Gauss.

Antonio Carlos Ferreira em frente aos banheiros. Em v, seta apontando uma coluna metálica. Foto publicada em Livro Branco dos Discos Voadores.

No dia 11 de outubro, Ney Matiel voltou ao local, desta vez acompanhado pelo jornalista norte-americano Gary Dale Richman, correspondente free-lancer do jornal sensacionalista National Enquirer, de Miami, Flórida. Richman encontrava-se em Mirassol fazendo a cobertura da pesquisa para aquele jornal. Ambos verificaram então que havia chegado uma nova remessa de vigas metálicas, da mesma procedência das anteriores (Indústria Irmãos Domarco, de Mirassol). Aproveitando o magnetômetro à mão, mediram o magnetismo destas vigas novas e constataram que este era absolutamente nulo. Por este fato e pela queda apreciável do magnetismo das vigas já instaladas antes no local, concluiu Ney Matiel que o magnetismo havia sido induzido artificialmente pelo disco voador.[7]

O magnetômetro, sendo usado por Ney Matiel Pires para medir o magnetismo (5 Gauss) de uma das colunas metálicas, em foto publicada por Walter Bühler em seu Livro Branco dos Discos Voadores, e o magnetômetro original sendo segurado por Pires, que ainda o guardava consigo, em foto de Cláudio Tsuyoshi Suenaga.

Hongue, o pastor alemão que acompanhava Antonio Carlos, apresentou visíveis mudanças de comportamento nas semanas posteriores ao fato. Não comia direito, não ligava para mais nada e nem atendia às ordens dadas, embora fosse um cão adestrado na Escola da Polícia Militar de Araraquara, e bastante disciplinado. Apático, não dava atenção a ninguém que se aproximasse dele, nem mesmo para um garoto de quem não gostava. Demonstrava medo ao se aproximar dos locais onde se deram os fatos. Cerca de seis meses depois, faleceu. Teria sido por efeito da luz que os ETs projetaram sobre ele, luz essa que poderia ser microondas ou algum tipo de luz paralisante que vibrasse na mesma frequência do corpo do animal, imobilizando-o? Ney Matiel lembrou que já haveria reminiscências disso na Bíblia, vide a passagem em que o anjo toca na perna de Jacó e o imobiliza (Gênesis 33:24-32).

Hongue (cão de guarda), seguro pela mãe do guarda abduzido Antonio Carlos Ferreira, D. Guaraçay. Foto de Walter Karl Bühler, publicada em seu Livro Branco dos Discos Voadores. Foto original dos arquivos de Ney Matiel Pires.

Na manhã de segunda-feira, 10 de setembro de 1979, Ney Matiel Pires foi procurado por dona Guaraçay. Com visível nervosismo, ela contou que, no dia anterior, seu filho havia sido novamente contatado pelos ufonautas. No domingo, como de hábito, Antonio Carlos dirigiu-se para a casa de sua noiva, Jandira Francisca Ferreira, com quem namorava há apenas três meses. Lá, conversou com os pais desta a respeito do seu casamento, que se realizaria no sábado seguinte, dia 15 de setembro. Contudo, por volta das 20 horas, os pais dela anunciaram que iam dormir, porque, embora fosse tão cedo, sentiam um sono incomum e incontrolável. A sós na sala com a noiva, acomodados num sofá, Antonio notou uma pequena bola verde percorrendo a sala e dirigindo-se para o lado dele, e instantaneamente a moça adormeceu no ombro do rapaz.

Com o corpo formigando, Antonio Carlos passou a entender a mensagem telepática que os ufonautas lhe enviavam através daquela bola verde. Diziam eles que “não tivesse medo”, que iriam ajudá-lo a melhorar de vida, que, sempre que necessário, comunicar-se-iam com ele. Mostraram descontentamento com relação à regressão hipnótica realizada – ela não deveria ter sido feita. Recomendaram também que Antonio parasse de fumar (cigarros). Reclamaram ainda que sua mãe Guaraçay estava fazendo muito estardalhaço em torno do assunto, que ela fosse mais discreta. Não se importavam que em breve se casasse, mas o aconselharam que não o fizesse numa igreja. Após essa comunicação, a luz desapareceu. Jandira despertou subitamente e tudo voltou ao normal. Alguns dias depois, novamente dona Guaraçay procurou Ney Matiel. Confidenciou-lhe desta feita que, mais uma vez, Antonio se comunicara com os extraterrestres. Numa espécie de transe, o rapaz chegou a declarar para a mãe que “…se os ufonautas fossem buscá-lo novamente, ele iria com eles…”[8]

Como planejado, em 15 de setembro de 1979, Antonio se casou com Jandira, uma mulher dez anos mais velha do que ele, vindo a se tornar pai de um filho – terrestre –, batizado de Fernando Carlos Ferreira.

Residência de Antônio Carlos Ferreira (casa dos sogros). Na foto, Ney Matiel Pires, Antônio e o filho deste, Fernando. Foto publicada em Livro Branco dos Discos Voadores.

Por volta das 17 horas do sábado, 8 de dezembro de 1979, Antonio Carlos encontrava-se na casa de sua mãe, sentado no sofá, distraidamente. De repente, surgiu mais uma vez a bola de luz verde, ao que iniciou um diálogo mental com os ufonautas, que garantiram ser pacíficos e estar “estudando a Terra, para ajudá-la futuramente”. Cobrando a ajuda que os ufonautas haviam lhe prometido para melhorar a sua condição de vida, estes se esquivaram, saindo com essa: “Não será da forma como você está pensando. Será uma ajuda diferente e para o futuro.” Antonio Carlos perguntou se seria possível que os ufonautas contatassem diretamente Ney Matiel, ao que responderam: “Não. Ele já tem conhecimento suficiente a nosso respeito e não há necessidade de um contato direto por enquanto. Mas, se necessário, haverá um contato indireto.” Na ocasião, Antonio Carlos havia se desentendido com sua esposa Jandira, que tinha ido para a casa dos pais. Os ufonautas pediram então ao rapaz que fosse buscar a mulher na residência dos sogros, para que se evitasse um mal-entendido em família. Logo após essa comunicação, Antonio ainda pôde ver a luz verde por algum tempo. Procurou mostrá-la à mãe, mas esta não conseguiu enxergá-la.

Os ufonautas, como já tinham anunciado, voltaram a procurar Antonio Carlos Ferreira, persistindo em seus contatos com o rapaz e comunicando-se com ele por diversas vezes.

Na manhã de sábado, 7 de agosto de 1982 – poucas horas depois de uma frota de OVNIs ter sido avistada em Mirassol[9] e em vários estados do país[10] –, Antonio viveria o segundo encontro com os ufonautas. Na véspera, como de costume, havia se deitado cedo, antes das 22 horas, pois tinha de se levantar às 4 horas da manhã a fim de percorrer grande distância a pé até atingir seu local de trabalho como pedreiro na Fábrica de Móveis Monte Carlo, localizada na periferia noroeste de Mirassol, sendo que agora residia na periferia sudeste da cidade. Para encurtar o caminho, caminhava ao longo dos trilhos da Fepasa (Ferrovia Paulista S.A.), que cortava diagonalmente Mirassol.

Antonio Carlos Ferreira e Ney Matiel Pires nos trilhos da Fepasa, local do segundo sequestro em 7 de agosto de 1982. Foto dos arquivos de Ney Matiel Pires.

Sendo ainda noite escura, a cerca de um quilômetro de casa, Antonio Carlos enxergou à frente um foco de luz vermelha que, à primeira vista, interpretou como sendo do trem em aproximação. A indicar que se tratava na verdade da nave dos seres que vinham para sequestrá-lo novamente, sentiu tonteira de modo a se ver obrigado a sentar-se no chão por alguns minutos. Quando a luz afastou-se, Antonio Carlos chegou a recuperar-se, prosseguindo em sua caminhada. Cerca de 600 metros mais adiante, quando havia alcançado um ponto situado entre dois pontilhões de viadutos que davam acesso à Rodovia Washington Luís, na altura da passagem de nível da Rua Rui Barbosa, no bairro de São Benedito, a luz vermelha surgiu novamente, achegando-se até a uns 10 metros de Antonio Carlos, de forma que este pôde discernir um corpo opaco de cerca de 8 metros de diâmetro do qual irradiava-se uma luz do tipo néon vermelho que o banhava e o chão ao seu redor. Novamente viu-se Antonio Carlos acometido de tonteira mais forte que o obrigou a sentar-se no chão, perdendo os sentidos. Quando voltou a si, não via mais a tal luz, mas continuava a sentir tonteira e adicionalmente formigamento pelo corpo todo. Avaliando que já não tinha condições de seguir para o trabalho, resolveu voltar para casa, aonde, surpreendentemente, só chegou às 6h20, ou seja, duas horas e vinte minutos após tê-la deixado, quando no máximo deveriam ter sido gastos trinta minutos com a ida e a volta de um quilômetro. Em 18 de agosto, Ney Matiel examinou Antonio Carlos e constatou que ainda conservava uma marca de picada de agulha em seu braço esquerdo, que, aliás, costumava sangrar espontaneamente.

Uma nova regressão de memória teria de ser feita, e o quanto antes. Mas quase cinco meses já haviam transcorrido e Ney Matiel, por conta de assuntos pessoais mais urgentes, ainda não tinha conseguido acertar a data da regressão. Mas se Maomé não vai à montanha… Na tarde de 31 de dezembro, fim de ano de 1982, Ney Matiel estava junto à família festejando com a esposa suas bodas de prata, quando Antonio Carlos chegou todo espavorido para comunicar que alta madrugada, no início daquele dia, dentro da casa de seus pais, havia sido visitado pelos ufonautas. Antonio Carlos lá se encontrava para não deixar desguarnecida a casa durante a ausência deles, que tinham viajado à Bahia. Relatou Antonio Carlos que os ufonautas haviam queimado sua camisa, além de um calendário afixado na parede. Não podendo afastar-se da família naquele momento, Ney Matiel pediu a Antonio Carlos para em nada tocar na casa de seus pais até que ele fosse investigar pessoalmente no dia seguinte.

Em pleno feriado de confraternização universal e ressaca da véspera de réveillon, Antonio Carlos explicou então que havia se deitado às 22 horas, após ter assistido um pouco de televisão. Acordou por volta das 2 horas com a casa por baixo do telhado toda inundada de luz verde, o que era possível, uma vez que os quartos não possuíam forro. Antonio Carlos levantou-se de chofre e foi para a sala. E de lá observou que, na cozinha, a porta para o quintal estava aberta, embora tivesse certeza de tê-la fechado com chave na véspera. Em seguida escutou ruídos provenientes do outro quarto. Deste cômodo, logo em seguida, saíram três ufonautas do tipo que já conhecia, sendo que destes, só dois estavam de macacão branco, encimado por capacete que ocultava a cabeça e o rosto. O terceiro, que usava vestimenta branca, sem capacete, deixando ver a pele escura e os cabelos vermelhos, portava na mão um objeto cilíndrico de uns 25 centímetros de comprimento por 2,5 centímetros de diâmetro. Telepaticamente, Antonio Carlos foi indagado por este ufonauta se tinha medo deles, ao que respondeu oralmente que não. Dito isto, virou-lhe as costas para fechar a porta do quintal, quando, pelo reflexo luminoso à sua frente e sensação de calor nas costas, percebeu que havia sido projetada uma descarga de luz verde em sua direção. Virando-se de frente, recebeu nova descarga desta luz, vendo-a disparada pelo cilindro nas mãos do ufonauta, que desta vez veio queimar-lhe a camisa na parte frontal.

Foto da frente da camisa atingida mostrando dois dos furos. Foto de Walter Karl Bühler, publicada em seu Livro Branco dos Discos Voadores.
Ney Matiel Pires exibe a camisa de Antonio Carlos Ferreira, queimada pelos ETs. À esquerda, ao fundo, a esposa de Ney, Maria de Lourdes. Foto de Cláudio Tsuyoshi Suenaga.

O cilindro foi acionado ainda uma terceira vez quando a mesma carga atingiu em seguida a camisa de Antonio Carlos no ombro esquerdo e depois o calendário de papel firmemente pregado à parede por cinco pregos, encravados no tijolo. No último, o raio chegou a chamuscar três de suas folhas. Atordoado, desfez-se Antonio Carlos da camisa ainda fumegante jogando-a ao chão. Antes de perder completamente os sentidos, chegou a perceber como um dos ufonautas tirara alguma coisa de um pequeno estojo.

Nas fotos de Walter Bühler, publicadas em seu Livro Branco dos Discos Voadores, o calendário chamuscado e os detalhes das três folhas atingidas. Em foto de Cláudio Tsuyoshi Suenaga, Ney Matiel Pires exibe a folhinha de Antonio Carlos Ferreira, queimada pelos ETs.

Quando recuperou os sentidos, Antonio Carlos notou que sua pele na região peitoral esquerda, perto do ombro, havia sido riscada. Posteriormente verificou-se que os riscos haviam sido feitos em forma de cruz, semelhante à insígnia – uma cruz negra dentro de um círculo, lembrando uma suástica – que os ufonautas ostentavam em seu macacão durante a sua incursão ao pátio da fábrica Fafá no primeiro sequestro. Esta marca vinha a se somar às duas cruzes que já trazia na pele de seu tronco e abdômen, feitos em outra ocasião, em data e condições desconhecidas. Bühler constatou que a cruz na região peitoral, feita em 31 de dezembro de 1982, ainda não havia desaparecido mais de quatro meses depois, quando pôde fotografá-la. A professora Maria de Lourdes, esposa de Ney Matiel, lembrou-se de que ele tinha sido orientado pelos seres a bordar aquele símbolo em todas as suas roupas, tarefa para a qual, por ser mulher, foi incumbida, mas que não pôde aceitar porque não lhe sobrava tempo. Segundo Ney Matiel, “aquela marca não era bem uma ‘tatuagem’, porque também sumiu algum tempo depois. Tinha sido gravada com uma técnica desconhecida, que não usava tinta. A marca foi feita diretamente na pele. O local estava como que queimado, um pouco mais escuro do que a pele.” Ney Matiel notou ainda uma marca de picada de agulha na veia do braço esquerdo de Antonio Carlos.

Uma falha grave cometida pelos pesquisadores, ainda mais pelo fato de Bühler ser médico, foi o de não terem providenciado a realização de biópsia cutânea para eventual exame microscópico e microquímico que pudesse talvez trazer mais esclarecimentos sobre a inusitada visibilidade daquelas marcas que remetiam àquelas que são feitas por criadores de gado para marcar as suas reses.

A regressão hipnótica (a terceira) só foi feita em 3 de abril de 1983, quando se descobriu que o período de “tempo perdido” correspondia a novo sequestro dos ufonautas. Estes, como da primeira vez, o levaram flutuando para dentro do disco voador, onde, como haviam prometido, apresentaram-lhe o filho que fora obrigado a gerar três anos antes com a mefistofélica ruiva extraterrestre. Os seres fizeram com que vestisse uma roupa de ufonauta de tecido branco e textura fina que se adaptou perfeitamente ao seu corpo e lhe possibilitou aparentemente deslizar acima do chão em visita a vários compartimentos do disco voador, onde lhe mostraram veículos espaciais de diversos tamanhos e formatos e lhe fizeram demonstração do funcionamento dos comandos de locomoção. Em pleno espaço, Antonio viu o Sol – que ele descreveu como uma “estrela gigante” – e a Terra – que ele descreveu como “uma bolona azul do tamanho de um Fusca”, ou seja, mais ou menos a proporção de quem a vê quando está em órbita. Como alimento, os seres lhe teriam dado para beber aquele líquido grosso e meio amarronzado com gosto parecido com o da laranja.

E assim como Onilson Patero e tantos outros, Antonio Carlos teria visto um clone seu na nave, numa época em que clonagens não estavam em voga. Logicamente ele não usou o termo clone, mas isso fica denotado por ter dito que via a si mesmo lá, ou seja, alguém idêntico a ele. Num compartimento, Antonio Carlos presenciou uma cena deprimente: um alienígena, atado a uma “cama”, tinha seu corpo perfurado, pois, segundo os próprios executores, deveria ser castigado por ter desobedecido ordens. Conduzido a outra sala, lhe mostraram seu filho, uma criança do sexo masculino que ele descreveu como sendo “semelhante à mãe – mas não tão feia –, com pele achocolatada, cabelos vermelhos enrolados e orelhas pontudas”. A regressão feita por Walter Bühler e Ney Matiel Pires, sem a participação de Álvaro Fernandes, confirmou ainda a suspeita de que Antonio Carlos já tivesse mantido encontros com os ufonautas – de que ele não se recordava – posteriormente ao primeiro em ocasiões anteriores a 7 de agosto de 1982.

O filho de Antonio Carlos Ferreira com a mulher feia de orelhas pontudas, na concepção do tabloide norte-americano National Enquirer. Fonte: Dos arquivos de Lourney Faria Pires.

Nos dias 9 e 10 de junho de 1984, na residência de Ney Matiel e sob a direção deste, a desenhista e artista plástica Vilma Bühler, esposa de Walter, tentou complementar a feitura dos retratos falados dos tripulantes que assediavam Antonio Carlos. Pela descrição minuciosa que ele ia fazendo, ficou claro para os pesquisadores serem robôs as figuras de capacetes, em número de três no primeiro episódio e de dois quando da visita à casa dos pais de Antonio Carlos. Conforme escreveu Walter Bühler,

“Se, de um lado, os tripulantes marrons e verdes relativamente se locomoviam de maneira lenta quando flutuavam, tendendo a deixar os braços ao longo do corpo, com balanço natural deste e das pernas, de outro lado, os robôs ficavam com os braços estritamente colados ao corpo, não balançavam o corpo na locomoção e o movimento das pernas era mais lento mesmo quando flutuavam, automatizados em estacado, com pernas rígidas. Quando paravam, faziam-no de maneira súbita. Não mostraram movimentos respiratórios, embora usassem capacetes. Estes eram opacos, de cor azul clara e aspecto metálico. Sobressaía-se em sua vestimenta, de tecido branco e textura grosseira, um emblema circular contendo uma cruz resplandecente, com brilho incomum, da mesma forma que isto era também observado na roupa branca e textura fina dos tripulantes. Da mesma cor do capacete, azul claro nos robôs, eram os seus sapatos, a caixinha nas suas costas e também aquela do seu peito, na frente. A última, segundo já dito, possuía duas luzes vermelhas que piscavam. Todavia, com relação às mãos dos robôs, estas, por não se destacarem do braço durante o primeiro episódio, foram dadas pela pesquisa como ‘mãos enluvadas por inteiro’. Entretanto, quando depois Antonio Carlos encontrou-se com dois robôs na casa de seus pais, cada extremidade dos braços ostentava tenaz com aparência metálica, parecida com torquês de caranguejo. Quando, no primeiro episódio, os personagens de capacete haviam alcançado o interior da nave grande, trazendo Antonio Carlos no meio, lá chegando não retiraram seus capacetes, mas, enfileirando-se na parede, ali permaneciam imóveis feito máquinas em desuso.”[11]

Ney Matiel confidenciou-me um sequestro sofrido por Antonio, do qual não se recordava a data, em que os ufonautas o devolveram desacordado e com o corpo enregelado na calçada bem em frente a casa de um amigo. Às 3h30 da madrugada, o cachorro desse amigo começou a latir furiosamente, não deixando ninguém dormir. Ao sair para verificar o que se passava, ele encontrou Antonio Carlos caído, ao que telefonou para Ney Matiel, que por sua vez, meio sonado, acordou seu filho Lourney. Juntos foram de carro até o local, onde encontraram Antonio Carlos paralisado, totalmente rígido, duro como uma pedra e gelado, “tão gelado quanto uma garrafa de cerveja que acabou de sair do freezer”. Qualquer parte de seu corpo em que tocavam parecia gelado, menos o rosto. Ney Matiel tentou dobrar a perna de Antonio, mas esta não flexionava, de tão rígida. Só depois de uma hora é que o seu corpo, enrolado em um cobertor, começou a aquecer e a retomar a temperatura normal, no que foi recuperando os movimentos.

No dia 16 de julho de 1986, quarta-feira, foi feita nova regressão de memória em Antonio Carlos na clínica do parapsicólogo Álvaro Fernandes, em São José do Rio Preto, a fim de fazê-lo rememorar todos os detalhes das duas últimas viagens com ETs que dizia ter realizado nos meses de maio de junho daquele ano, época em que o Brasil estava sendo novamente varrido por uma gigantesca onda de OVNIs, instando até mesmo o reconhecimento oficial por parte do ministro da Aeronáutica, brigadeiro Octávio Moreira Lima.[12] Os jornalistas da sucursal do Diário de Mirassol acompanharam e gravaram a sessão. Usando efeitos magnéticos, Fernandes preparou Antonio Carlos para que pudesse, em estado de relaxamento profundo, responder às perguntas de Ney Matiel.

Alguns minutos transcorreram até que Antonio Carlos começasse a reagir às perguntas de Ney Matiel, que começou tentando saber o que havia acontecido durante a penúltima viagem na madrugada do dia 25 de maio, domingo. O vigia iniciou então o seu relato:

“Estava fazendo guarda. Era meia-noite, mais ou menos, quando eles me pegaram. Pareciam robôs. Era meia-noite em ponto, eu estava saindo para ir ao relógio de ponto e escutei um barulho no barracão. Fui lá, piquei o cartão e não vi nada. Depois passei por outro barracão e ouvi barulho também. Voltei para o outro, que tinha um portãozinho, que tinha que abrir com a chave. Quando fui chegando perto, percebi que o trinco estava mexendo, então pensei que tinha gente lá dentro. Dei a volta e vi um todo de branco, parecia de metal, com caixinhas nas costas e no peito, com um tubo que saía do nariz e ia para as costas. Aí, saí para o meio da rua e eles vieram também. Sem querer, bati a mão na arma e eles dispararam um foco azul. A minha arma caiu no chão e ao abaixar para pegá-la, caí também.”

Ney Matiel, que vinha conduzindo a narrativa de Antonio Carlos, perguntou se ele tinha visto a nave:

“Eu vi. Era tipo de um forno, com três pezinhos e uns 3 metros de altura. Os pés tinham mais de 1 metro de altura. Aí, me levaram para o fundo do barracão, me tiraram o relógio, o quepe, o cassetete e guardaram. Um deles me falou: agora está na hora de você ir. Depois disso eu não lembro mais nada. Somente que estava dentro da nave, que tinha bancos de três pés para sentar e mais um robô. Então, a nave pequena entrou dentro de uma grande, onde tinha bastante deles: morenos, verdes e loiros. A seguir, me levaram para trocar de roupa. Tiraram a minha, colocaram um macacão e disseram que a gente ia dar umas voltas para conhecer mais lugares. Fomos para uma região bem fria, que tinha uns homens peludos, montanhas e um céu avermelhado. Eu perguntei para eles o que tinha lá pra cima, e eles me responderam que tinha mais gente ainda. As montanhas eram redondas, altas e bem pontudas. Parecia que estava pisando em gelo, e em certas partes parecia que tinha neve. Depois nós voltamos para o mesmo lugar: plano, cheio de casas redondas que pareciam fornos com portas de correr.”

O vigia parou de falar neste instante e reclamou que seu braço esquerdo estava doendo. Foi necessária a intervenção de Fernandes para reforçar o estado de relaxamento e Antonio Carlos continuar a sua narrativa sempre respondendo às perguntas de Ney Matiel. Ele contou, então, que um dos ETs havia agarrado o seu braço quando estava dentro do que ele chamou de “casinha”. Explicou que tinha duas turmas e que uma queria conversar com ele e outra não:

“O que estava puxando o meu braço era um alto – mais ou menos 2,20 metros de altura – que tinha ‘orelha de gato’. Ele usava um macacão branco, botinhas, um cinturão preto com fivela bem grande e quadrada, duas armas e tinha olhos azuis, bem grandes e redondos. Na mão, carregava uma bolinha azul (azul apagado) do tamanho de uma laranja, com o qual disse que poderia fazer desaparecer qualquer objeto. Depois de conversar com os outros ele saiu e me levaram para outra sala para aplicar um líquido verde e outro amarelo, dizendo que era para criar forças. Um louro falou para um verdinho que eu não precisava voltar mais, que eu já podia ficar lá. Mas o verdinho disse que eu não podia ficar, pois eles precisavam de mim aqui embaixo. Eu perguntei por quê e eles disseram que não era o momento de eu ficar sabendo ainda. A seguir, me levaram para conhecer um lugar subterrâneo. Descemos uma escada de metal e lá tinha bastante naves de tudo quanto era tipo: compridas, redonda, tipo forno, todas de uma cor bem escura. Eu perguntei para que eles usavam aquelas naves e eles responderam que era para o caso de precisão. Depois voltamos para a mesma sala e me aplicaram um líquido vermelho na cabeça, que não quiseram dizer para o que era. Voltamos para a primeira sala onde eu coloquei minha roupa e aí não lembro de mais nada.”

“Eles conversavam em nossa língua?”, perguntou Ney Matiel, ao que Antonio Carlos respondeu: “Sim, mas com uma voz bem fina e ardida, que pouco dava para entender. Quando conversavam, chegava a doer a minha cabeça. Parecia que eles estavam bravos entre eles.”

Dando-se satisfeito com as respostas de Antonio Carlos, Ney Matiel começou a preparar o vigia para contar o que havia sucedido naquele que tinha sido o 12º sequestro sofrido nas mãos dos ETs, acontecido no dia 7 de junho de 1986, sábado, quando estava de plantão, das 6 às 18 horas, na firma Ibraco Indústria Brasileira de Artefatos de Madeira e Aço Ltda, sito à Avenida Coronel Vítor Cândido Souza, próxima a Transmóveis Fafá, no centro de Mirassol. Antonio Carlos começou relatando que estava na guarita da empresa, e que quando foi tomar água viu um robô no canto do banheiro:

“Voltei para telefonar para o escritório da guarda, avisando que eu tinha visto um deles. O rapaz falou para eu aguentar uns dez minutos que eles já vinham. Eu tinha fechado a porta com o trinco, mas aí chegaram mais dois e atiraram na porta. Entraram e atiraram na sala também. Tomaram-me o telefone da mão e bateram com força, quase quebrando o aparelho. Tiraram-me o revólver, o cassetete e o quepe e jogaram tudo de lado. Aí não me lembro de mais nada, só me recordo de quando já estava dentro da nave que era grande e redonda e nela estavam a mesma turma.”

A novidade que transpareceu nesta regressão, além de pela primeira vez ter sido levado durante o dia – devido ao constante assédio dos ufonautas, sempre em horários noturnos, o vigia tinha passado a evitar esses turnos –, foi a possibilidade de ter sido levado, pela primeira vez, ao que tudo indica, para um outro planeta, não se sabe onde:

“Os louros e os robôs me afirmaram: agora você vai conhecer outros lugares. Dava a impressão que estava viajando muito. Parecia que não ia chegar mais. Cheguei a perguntar porque estava demorando tanto, e eles me responderam que já estava chegando. Quando paramos e desci da nave, vi casas redondas e altas, tipo apartamento, cheias de repartições. Eles perguntaram se eu estava achando bonito e eu disse que sim, mas que estava difícil respirar. Eles me deram, então, um tubo parecido com uma máscara e falaram que eu não estava preparado ainda para aquele lugar. Para cima eu só via escuridão. Perguntei que lugar era aquele e eles me disseram que os lugares que eles haviam me levado anteriormente eram apenas bases e que o local que a gente estava agora era a moradia. Eu perguntei o nome e eles não quiseram me falar. Os prédios eram bem altos e redondos. Pareciam de metal. Brilhavam, e o brilho às vezes parecia azul, às vezes vermelho. Tinha bastante gente deles, homens, mulheres e crianças, louros, verdes, morenos e brancos que tinham somente um olho na testa, além dos que tinham orelha parecida com as de gato. Eles andam como nós nas ruas.”

Quando estava chegando ao planeta, depois de umas três horas de viagem, Antonio Carlos disse ter visto, da nave, “por um aparelho, as casas e depois nós aterrissamos num lugar limpo e afastado. Para chegar na cidade, nós fomos caminhando. Mas antes eles me fizeram pôr um capacete e um tubo, pois lá eu não ia conseguir respirar.” O planeta era “bem quente. Não tinha sol e só se via aquela escuridão.” Antonio Carlos sofreu o que pareceu uma transfusão de sangue: “Tiraram meu sangue e passaram para outro e tornaram a colocar o de um ‘orelha de gato’ em mim. Um sangue bem escuro, quase preto.”

Nesse instante ocorre outra interrupção e o vigia reclama de uma dor no peito. Ney Matiel então questiona o que haviam feito com ele. “Colocaram-me dentro de um aparelho quadrado, cheio de luz que começou a me apertar. Demorou uns vinte minutos e me tiraram de lá e me levaram para outra sala onde eu conheci crianças e mulheres. Só tinha louras. Tornaram a falar que não era para eu voltar.” Mais uma vez o vigia reclama de dor no braço e é necessário o reforço de Fernandes, mas, pouco depois, prossegue sua narrativa: “Eu comecei a conversar com eles, perguntando o que queriam de mim. Me disseram que eu era importante para a vida deles. Perguntei porque eles desciam sempre às escondidas e eles me responderam que ainda não era o momento apropriado para eles aparecerem. Depois disso, nós entramos na nave e voltamos para o outro lugar que eu já havia estado outras vezes. Me colocaram em outra nave e aí nós voltamos.”

Durante a entrevista que me concedeu, Ney Matiel lembrou-se de outros detalhes do que sucedera naquele 7 de junho. O vigia se encontrava alojado em uma minúscula sala que tinha apenas uma escrivaninha e um armarinho com antiácido e comprimidos para dor de cabeça, quando então “pressentiu” (toda vez que estava preste a receber a visita dos ETs, Antonio Carlos sentia fortes dores de cabeça) a aproximação do disco voador, ao que telefonou para seu chefe, o senhor Osmar, avisando-o de que “aquele negócio do qual todos riam e debochavam estava vindo para pegá-lo”. Mal falou isso, a ligação caiu. Osmar dirigiu-se então à casa de Ney Matiel e o levou na garupa da moto até o local, onde encontraram o coturno, o boné e a arma de Antonio Carlos jogados no chão e sentiram um forte cheiro de ozônio. Era tão forte o cheiro que não aguentaram permanecer lá. Encontraram também uma marca de queimado na porta. Antonio Carlos contaria depois que os seres haviam aberto a porta com uma espécie de luz, ou seja, a luz puxou a porta e ela se abriu sozinha, ficando com uma marca de queimado, tal como ocorreria com a camisa dele em um outro sequestro. A porta era de ferro, e o chão estava todo marcado também. Osmar perguntou o que deveria fazer. Ney Matiel aconselhou-o que colocasse um substituto porque tão cedo Antonio Carlos não retornaria. E não deu outra, pois aquele foi o sequestro mais longo até aquela data. Ney Matiel se cansou de ficar esperando e antes de ir embora pediu ao guarda substituto que lhe telefonasse assim que o Antonio Carlos fosse devolvido. Já eram quase 18 horas quando o guarda lhe telefonou: “Professor Ney Matiel, tem uns meninos aqui dizendo que ele está caído atrás de um terreno baldio aqui perto.” Ney Matiel pediu à sua esposa que o acompanhasse e lá foram juntos de carro para encontrarem Antonio Carlos caído do mesmo jeito que da vez anterior: rígido, com o corpo gelado e o rosto quente. Em vez de levá-lo ao médico, Ney Matiel preferiu examiná-lo ele mesmo com os métodos que estavam em voga na época. Um deles era fotografar usando lâmpadas infravermelha e ultravioleta de modo a captar detalhes que passavam despercebidos. Ney Matiel bateu a foto iluminando Antonio Carlos com essas lâmpadas mas não captou nada de especial.

Este que foi o sequestro mais longo de todos, e que ainda por cima se deu durante o dia, chegou a ser registrado pela Polícia como “não codificado”. Consta no boletim de ocorrência que “por volta das 10h30 do dia 7 de junho, sábado, a vítima foi abordada por quatro elementos de aparência extraterrestre armados com armas não identificadas que disparavam fogo deixando marcas no local; em seguida o vigia foi dominado, sendo conduzido para local ignorado e encontrado em local próximo, pelas testemunhas, somente às 18 horas, desfalecido. Em seguida, o mesmo foi se recuperando dos sentidos da mente.”[13]

Desde o dia 22 de julho daquele ano, dois pesquisadores e um jornalista norte-americano estavam filmando e documentando todos os detalhes do caso de Antonio Carlos. Paul Shepard e Bill Ornellas, da UFO Contact, empresa que comercializava informações ufológicas via computador e telefone, tinham vindo ao Brasil financiados pelo ator Dennis Weaver (1924-2006). Eles chegaram acompanhados do jornalista Gary Richman, da National Enquirer, e de Walter Bühler.[14]

As experiências de Antonio Carlos não pararam por aí. Até o final de 1994, ele já tinha contabilizado 25 contatos com os ETs.[15] Ao longo dos anos desenvolveu percepções extra-sensoriais. Ele falava de fenômenos paranormais que aconteciam espontaneamente em sua presença. Alegou também que chegava a tomar choque quando punha a mão em placas de metal na rua. O cigarro – lembrando que os ufonautas recomendaram que parasse de fumar – começou a lhe fazer mal, até que um dia, tendo ido comprar cigarros, acendeu um ainda na rua, sentindo-se mal, caindo desmaiado. Quando acordou não viu nem o isqueiro e nem o cigarro, e nunca mais fumou. Adquiriu hábitos alimentares diferentes, que considerava mais salutares. Parou de comer carne e tornou-se vegetariano. Seu único filho terrestre, Fernando, quando atingiu a idade de uns 6 ou 7 anos, começou a contar que também via uns “homenzinhos”. Desde que nascera, ele apresentava dois furos na orelha de onde exsudava um líquido estranho todas as vezes que Antonio Carlos estava preste a manter contato com os ETs. Antonio Carlos separou-se de sua primeira esposa, Jandira, e casou-se com Fernanda, que lhe deu oito enteados. Certo dia, quando estava só em casa, Fernanda foi atacada por pessoas não identificadas que lhe aplicaram uma injeção nas costas. O caso aconteceu quando Antonio Carlos estava em uma festa e viu uma luz passar por cima da residência. Depois disso, sua esposa se tornou mais calma, já que antes era muito nervosa.

O caso de Antonio Carlos foi destaque de jornais locais e nacionais, correu o mundo, foi publicado em dezenas de boletins e revistas de ufologia, e atraiu até a atenção de uma equipe de TV do Japão, que foi a Mirassol para produzir uma série de reportagens especiais.

A matéria do Diário da Região, publicada em 19 de outubro de 1979, a respeito da reportagem da equipe da TV japonesa sobre o Caso Mirassol. Dos arquivos de Lourney Faria Pires.

Por volta de 1988, Antonio Carlos participou de um programa de televisão apresentado pelo jornalista Ney Gonçalves Dias (1940-), na Rede Bandeirantes, onde foi ridicularizado, estando ao seu lado o engenheiro e ufólogo Claudeir Covo. Ney Matiel Pires comentou esse lamentável episódio:

“Pelo que fiquei sabendo, ele foi só a esse programa e mais tarde a um outro. Das duas outras vezes que tentaram levá-lo eu não deixei. Na terceira vez eu estava lá no Rio de Janeiro quando quiseram levá-lo. Aí meu filho me telefonou, me contou o que estava acontecendo, e eu telefonei para o delegado Wilson Lopes, que tinha muita influência sobre o Antonio, e pedi que o impedisse de ir. Tentei evitar ao máximo que o expusessem na televisão, mas numa dessas vezes o Álvaro Fernandes conseguiu levá-lo, que foi essa que você mencionou, na Rede Bandeirantes. E lá na Bandeirantes o ridicularizaram. Chegaram a cortar o microfone quando tentou falar. Ele nem percebeu o ridículo a que foi exposto, tão inocente que era, coitado.”

Os ETs, enfim, mudaram a vida de Antonio Carlos, mas não diminuíram sua pobreza. Ele não ganhou dinheiro com sua história e nem sequer teve parte dos direitos autorais de o Livro Branco dos Discos Voadores revertido a seu favor. Os Pires é que o ajudavam de vez em quando doando-lhe mantimentos e roupas usadas, tanto que a camisa que os ETs queimaram havia pertencido a Ney Matiel. A intensa convivência dos Pires com Antonio fez com que se criasse uma relação de amizade, tanto que Ney Matiel e o delegado Wilson Lopes foram os padrinhos de seu casamento, enquanto Maria de Lourdes foi a madrinha. “O Antonio não saía de casa”, disse Ney Matiel. “Ele vinha até nós, não precisávamos ir atrás dele. E sempre que ele vinha em casa eu morria de rir, porque ele era muito introvertido. Eu o deixava um pouquinho de castigo. Dizia: ‘Senta Antonio’. Ele sentava. Passava um tempo, eu ia lá e perguntava: ‘Aconteceu alguma coisa, Antonio?’ E ele dizia: ‘É, o disco voador desceu’. Aí que ele começava a contar. Era com saca-rolhas que você tinha que tirar as coisas dele.”

Revoltado com a situação de vida miserável em que se encontrava Antonio Carlos – ele ainda morava em condições precárias em uma casa pequena de dois cômodos (quarto e cozinha) – depois de tantos anos sendo assediado e “explorado” por ufonautas (supostamente de outro planeta), pesquisadores, ufólogos e jornalistas do mundo todo, e como que fazendo uma espécie de mea culpa ou autocrítica, Álvaro Fernandes fez um lancinante desabafo:

“Sua vida terrestre mudou pouco apesar da grande popularidade do caso e assédio de curiosos e pesquisadores. Continuou levando vida humilde, de conduta exemplar. E por incrível que pareça, apesar de pesquisadores e ‘comerciantes’ de fenômenos ufológicos do mundo todo virem buscar depoimentos de Antonio Carlos, de seu caso ter-se tornado mundialmente conhecido, quando é procurado poucos se lembram de lhe dar algo, uns dólares que sejam, que para uma família humilde faria grande diferença. Isso revolta profundamente aqueles que pesquisam seriamente e sabem das dificuldades atuais de vida da classe mais pobre. Será justo que alguém seja submetido a pesquisas e dúvidas sobre a veracidade de seus depoimentos, ridicularizado por alguns que não admitem o fenômeno ufológico e acham que está ficando ‘maluco’, etc., e sua vida continue tão precária quanto antes, sem que algo lhe seja oferecido pelo menos pelo tempo que perde com essas pessoas? Essa crítica é nossa, pois nunca Antonio Carlos se queixou de nada, talvez por não ter se dado conta do que estavam fazendo com ele. Mas ficamos deprimidos ao ver que o rapaz é chamado para participar de congressos, colóquios, entrevistas, etc. sobre seu incrível contato com os ufonautas e raramente algo lhe é oferecido em troca pelo seu trabalho de deslocar-se de sua cidade e deixar sua família por dias para tais eventos; participa de boa vontade pois diz ter a ‘missão’ de divulgar a presença de OVNIs. Mas será que as pessoas que o usam como ‘atrativo’ não percebem que sua situação de vida é precária, que sua família aqui da Terra precisa de alimentos, roupas, etc.? Se por um lado um caso é considerado verídico pelo fato da testemunha não tirar proveito dele financeiramente, por outro lado até quando aguentarão essa situação e dirão um basta a esses pesquisadores e curiosos que os assediam a troco de nada? Creio que falta não somente critério científico dentro da ufologia, mas principalmente sentimento humano, consideração por um indivíduo que passou por uma experiência como esta, que sofreu abalos psicológicos e morais. Querem os ufólogos que os ufonautas sejam de elevado padrão moral, ficando surpresos quando alguns relatam condutas não tão espiritualizadas quanto desejariam. Mas nem todos os do nosso próprio planeta que pregam a espiritualidade como conduta a fazem na prática, pois muitos usam os contatados expondo-os em situações ridículas, exibindo-os publicamente como se fossem ‘animais raros’. Não seria este o principal motivo que leva as pessoas após terem contatado OVNIs a se manterem caladas ou preferirem o anonimato (quando chegam a relatar)? E se a ufologia continuar dessa forma, será que com o tempo todas as pessoas não irão silenciar de uma vez?”[16]

Eustáquio Rangel, em iniciativa louvável, vem restaurando e digitalizando os arquivos sobre o Caso Mirassol e outros da região deixados por Ney Matiel Pires com seu filho Lourney Faria Pires. Todo o material está sendo publicado no site exodata.

Esta matéria foi extraída do tópico “Antonio Carlos Ferreira gera filho com ruiva-súcubo”, do capitulo II (“Homens usados para fins reprodutivos”) de meu livro 50 Tons de Greys: Casos de Abduções com Relações Sexuais, lançado em 2018 pela Biblioteca UFO. Saiba mais detalhes o Caso ACF, Antonio Villas Boas e muitos outros, adquirindo o seu clicando nos links ou na imagem abaixo:

Notas:

[1] A uma altitude de 570 metros e com uma população de 30 mil habitantes, Mirassol contava com mais de 150 indústrias e já era então a maior produtora de móveis do Brasil, ocupando o 49º lugar em ordem de desenvolvimento dos 3.971 municípios brasileiros.

[2] Tanto a construção como a residência situavam-se nos limites da cidade, à margem da Rodovia Washington Luís, próxima ao viaduto que dá acesso a Mirassol, a noroeste.

[3] “Sequestrado por 3 anões – OVNI desceu no pátio de fábrica”, in O Dia, Rio de Janeiro, 4-8-1979, 2ª clichê, p.6.

[4] Para mais detalhes sobre o caso da doceira Geni Lisboa, ver o segundo volume (História dos OVNIs no Brasil: Do Disco Voador na Barra da Tijuca ao ET de Varginha) de meu livro Discos Voadores & Sociedades Secretas: História da Ilusão Illuminati para o Controle Total da Humanidade.

[5] Bühler, Walter & Pereira, Guilherme. Livro Branco dos Discos Voadores, Petrópolis, Vozes, 1985, p.102-117.

[6] Ibid., p.35-40.

[7] Ibid., p.31-33.

[8] Ibid., p.41-42.

[9] Cinco horas antes de ter saído naquela manhã, um objeto de cor vermelha viva, ofuscando a vista, havia sobrevoado durante trinta minutos o bairro mirassolense do Jardim Renascença como se estivesse à procura de algo, reportou a Folha de Mirassol nº 333. Na estação da Fepasa, populares viram este ou outro objeto que lentamente se dirigiam para oeste e, ainda, um outro objeto alongado, de cor amarela dourada foi observado ao cruzar a cidade de leste para oeste. A revoada de discos voadores havia se estendido também a regiões vizinhas de Mirassol.

[10] Em 1982, o Brasil esteve às voltas com uma gigantesca onda de discos voadores. Para mais detalhes, ver o segundo volume (História dos OVNIs no Brasil: Do Disco Voador na Barra da Tijuca ao ET de Varginha) do meu livro Discos Voadores & Sociedades Secretas: História da Ilusão Illuminati para o Controle Total da Humanidade.

[11] Bühler, Walter & Pereira, Guilherme, op.cit., p.98-100.

[12] Para mais detalhes sobre a onda de 1986, ver o segundo volume (História dos OVNIs no Brasil: Do Disco Voador na Barra da Tijuca ao ET de Varginha) do meu livro Discos Voadores & Sociedades Secretas: História da Ilusão Illuminati para o Controle Total da Humanidade.

[13] “Ufólogos americanos vêm a Mirassol estudar o vigia”, in Diário da Região, Mirassol (SP), nº 11, 24-7-1986, p.14.

[14] “Ufólogos dos EUA em Mirassol para investigar o vigia”, in Diário da Região, Mirassol (SP), nº 11, 24 a 30-7-1986, primeira página, Especial, p.6-7.

[15] Yamamoto, Fátima. “Pedreiro de Mirassol tem filho com extraterrestres”, in Diário da Região, Mirassol (SP), domingo, 13-11-1994.

[16] Fernandes, Álvaro & Alves, Sonia Maria Trigo. Casos de Contatos Sexuais com Ufonautas, São José do Rio Preto (SP), edição dos autores, 1988, p.82-84.