Os 50 anos do caso do soldado sequestrado e roubado por seres rudes e toscos

As características inusitadas, insólitas e instigantes que revestem este caso, entre elas o aspecto, o aparato e o comportamento por demais primitivos dos seres envolvidos – barbudos, como se fossem trogloditas –, bem como do disco voador, que parecia feito de pedra, tornaram-no um dos maiores clássicos da ufologia mundial, ora revisitado.

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

Húlvio Brant Aleixo nos anos 1960. Arquivos de HBA.

O Caso Bebedouro, assim chamado em alusão ao local em que ocorreu, foi rigorosa e meticulosamente investigado pelo ufólogo decano, oficial-aviador de reserva da FAB (Força Aérea Brasileira) e psicólogo Húlvio Brant Aleixo (1926-2006), fundador e presidente do CICOANI (Centro de Investigação Civil de Objetos Aéreos Não Identificados), sediado em Belo Horizonte (MG), pelos membros deste, Alberto Francisco do Carmo, Heros C. Jardim, Roberto C. Aleixo e Maria Irene M. Neves, e colaboradores da SBEDV (Sociedade Brasileira de Estudos de Discos Voadores), sediado no Rio de Janeiro, entre eles seu fundador e presidente, o médico alemão Walter Karl Bühler (1933-1996), e seus membros Wanda M. Santos, Edson A. Moura e Luiz Romaniello. A equipe, liderada por Aleixo, realizou mais de vinte entrevistas e exames em diversos locais, inclusive em Bebedouro. As ilustrações ficaram a cargo de Alberto Francisco do Carmo, e as fotos, de Carmo e Bühler. Os resultados foram publicados no nº 94-98, de setembro de 1973 a junho de 1974, do Boletim da SBEDV, editado por Bühler.

Na tarde de sábado, 3 de maio de 1969, José Antônio da Silva, de 24 anos, soldado nº 33.930 do Batalhão de Guardas da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG), saiu de sua casa na Rua Emídio Germano, na Vila Pompeia, periferia de Belo Horizonte, para ir pescar. Apanhou um ônibus na estação rodoviária com destino a Pedro Leopoldo e desceu antes de chegar a essa cidade, seguindo a pé pela Estrada Jaguara até a localidade de Bebedouro, antiga Fazenda dos Ingleses, no município de Matozinhos, a 50 quilômetros de Belo Horizonte. Por volta de meia-noite, chegou à margem do Rio das Velhas, retirou seus apetrechos da lona que levava à guisa de mochila e com esta montou sua barraca, ficando a pescar até de madrugada.

Localização do município de Matozinhos, MG. Fonte: Wikipédia.

Ao amanhecer de domingo, dia 4, Silva acordou, enrolou a lona e continuou a pescaria, sem êxito. Fez uma pausa ao meio-dia para alimentar-se com sardinha enlatada e retomou a pesca. Em torno das 15 horas, olhando para o lado, percebeu vagamente vultos e ruídos às suas costas. Ouviu então um grito “parecendo um gemido, vindo do fundo do peito” e, em seguida, percebeu-se atingido nas pernas por uma “rajada de fogo”, vinda da direção de um vulto parcialmente coberto pelo mato. Sentindo câimbra e adormecimento nas pernas, ajoelhou-se automaticamente na beira da lagoa, soltando no solo a vara de pescar. “A rajada parecia de fogo mas não era, porque não queimou minha perna”, disse Silva. Era um feixe de luz esverdeada no centro e avermelhada nas bordas, abrindo-se um pouco a partir do ponto de origem.

O soldado José Antônio da Silva. Foto de Walter Karl Bühler, dos arquivos de Húlvio Brant Aleixo.

Em questão de segundos, Silva viu-se ladeado por dois indivíduos pequenos e mascarados que o levantaram pelas axilas, arrastando-o pelo matagal pantanoso, por onde caminhavam com muita facilidade. Com seus joelhos arrastando-se pelo chão, Silva desistiu de reagir ao pensar no que lhe aconteceria se um novo jato de luz fosse disparado contra sua cabeça. A 10 metros da lagoa, percebeu por entre o capim alto um terceiro indivíduo idêntico aos seus dois acompanhantes, que não se moveu à sua passagem, ficando para trás. Todos os três carregavam uma espécie de arma, mas Silva supôs que o terceiro é quem fora o responsável pelo disparo e também pela emissão do som grave, espécie de gemido.

Tripulante com roupa usada no voo e no solo. Fonte: Boletim da SBEDV, nº 94-98, 1973-09 a 1974-06.

Os homenzinhos tinham cerca de 1,20 metros de altura, proporções humanas e pernas grossas. Robustos em relação a sua pequena estatura, estavam totalmente cobertos. O corpo, por uma roupa clara, brilhante, dispondo de gomos nas articulações dos cotovelos e dos joelhos; a cabeça, por uma máscara de cor cinza fosca, como “alumínio apagado”. Esta era redonda na parte de trás e na frente era esquinada, aplainando-se a partir da testa, exceto na altura do nariz, onde havia a saliência correspondente. Na altura dos olhos havia dois orifícios circulares de uns 2 centímetros de diâmetro. Aparentemente rígida, a máscara descia larga sobre os ombros e não tinha conexão com o vestuário. De sua parte inferior saía um tubo plástico que, passando sobre o peito e sob as axilas, terminava num pequeno bujão fixado às costas de cada homenzinho. “Eu acho que daria conta de um deles, se quisesse”, comentou Silva.

Nessa altura, ele sentia mais curiosidade do que medo. Tão logo passou pelo terceiro indivíduo, avistou um pequeno aparelho de cor cinza, de uns 2 metros de altura, para o qual era levado através do arvoredo. Ele se apoiava um tanto inclinado numa pequena estrada de terra. Era composto por um cilindro vertical ligado pelas bases a duas plataformas lenticulares ou achatadas, ambas de diâmetro maior do que o cilindro, sendo que a de cima media uns 3 metros de diâmetro, e a de baixo, uns 2,5 metros. Para descrever sua forma, Silva recorreu a um copo com a base sobre um pires e com a boca encimada por outro pires maior e emborcado. Das bordas da plataforma superior saíam, a intervalos regulares, hastes que iam se encaixar obliquamente na base do cilindro, e não nas bordas da plataforma inferior. Ambas as plataformas eram de cor preta. No cilindro havia uma abertura de aproximadamente 1,30 metros por 60 centímetros. Em entrevista a mim concedida em sua residência em Belo Horizonte, Aleixo concordou que se tratava de um aparelho “muito tosco, de aparência muito primitiva”.

O disco voador apresentava design e características dos mais toscos jamais observados. Fonte: Boletim da SBEDV, nº 94-98, 1973-09 a 1974-06.

Introduzido através dessa portinhola, Silva deparou-se com um cômodo de forma quadrangular, com cerca de 2 metros de lado e de altura. As paredes, o teto e o assoalho lembravam superfícies de pedra, assim como os banquinhos, que não tinham pernas. Junto à parede da porta, estava o banco cúbico mais comprido, onde ele e seus dois captores iriam se sentar. No meio do cômodo, o banco menor, que logo seria ocupado pelo tripulante ainda ausente. Apesar da iluminação ambiente ser intensa, do tipo “vapor de mercúrio”, o soldado não conseguiu discernir focos de luz nem aberturas ou saliências nas superfícies lisas.

Uma vez sentado no meio do banco duro, seus acompanhantes adaptaram em sua cabeça um capacete igual ao que portavam, introduzindo-o através de uma abertura traseira. Também deste capacete saía um tubo que se dirigia às costas. Sentando-se cada um de um lado, os dois acompanhantes amarraram-lhes os pés e em seguida sua cintura com um material “ressecado”, áspero. Passaram então a amarrar-se a si próprios, momento em que entrou no cômodo o terceiro tripulante para sentar-se à sua frente, no banco isolado, e amarrar-se também. Silva, que vestia apenas um calção curto de camurça amarela, trazendo um grande rosário enrolado na cintura e, na cabeça, um gorro de meia de mulher, coberto por outro, de malha preta, só podia enxergá-los através dos orifícios da pesada máscara, cujas pontas começavam a incomodar-lhe os ombros e a base posterior do pescoço.

Sentado de frente para os três, o tripulante isolado acionou, para o lado, uma pequena alavanca situada no piso, à sua esquerda. Imediatamente Silva ouviu um zumbido oriundo da parte superior do aparelho e sentiu os efeitos da aceleração. Em seguida, ao ser acionada para cima uma alavanca maior, à direita do piloto, ouviu um zumbido na parte inferior, tendo a impressão de que o aparelho ascendia verticalmente.

Logo após a partida, os estranhos começaram a falar animadamente entre si, olhando frequentemente para Silva, que nada entendia. Predominava naquela língua ininteligível o fonema “r” no final de muitas palavras, que eram pronunciadas de forma “rompante”, com voz grave e gutural.

À medida que o aparelho se deslocava, Silva sentia-se cada vez mais fraco, com dificuldades para respirar e se mover. A certa altura, além de totalmente abatido moralmente, viu-se com o corpo paralisado. Sua posição era deveras desconfortável devido à dureza e falta de ergonomia do banco. Suas pernas adormeceram e as quinas do pesado capacete lhe machucavam os ombros e a nuca.

Transcorrido um longo tempo de viagem, que lhe pareceu interminável, Silva percebeu que a claridade no interior do cômodo se tornava cada vez mais forte e pulsava, obrigando-o a fechar os olhos, dentro do capacete. Após mais ou menos uma hora, percebeu que a claridade diminuía, podendo reabrir os olhos.

A viagem prosseguiu sem novidades até o momento em que o aparelho pareceu girar 90º sobre seu eixo lateral. Para ilustrar essa manobra, Silva pegou um copo, representando o cilindro central, e o deitou. As cadeiras se adaptaram à nova situação do aparelho, “parecendo terem se virado também”. Muito tempo depois o aparelho normalizou sua posição, assim como as cadeiras. Decorrido outro prazo, o aparelho apoiou-se em algum lugar. “Senti o arranco”, disse Silva.

Os homenzinhos se desamarraram e, em seguida, também a ele. Vedaram-lhe os orifícios da máscara, de modo que agora ele podia apenas escutar. Os indivíduos até então muito falantes e parecendo alegres, calaram-se e o pegaram pelas axilas carregando-o de pernas encolhidas, os joelhos arrastando-se pelo chão. As pernas continuavam dormentes, mas Silva avaliava que já conseguiria ficar de pé, se o deixassem tentar. Os homens tinham muita força para seu reduzido tamanho. Sempre carregado, Silva ouvia ruídos de passos e de muita conversa. Em todas as vozes que ouvia, distinguia o mesmo idioma estranho de seus acompanhantes, que agora estavam calados; algumas vozes eram mais graves, outras menos. Nenhuma, entretanto, lhe pareceu de origem feminina.

Percebeu então que o sentaram num banco sem encosto. Em seguida tiraram a venda dos orifícios de sua máscara, mas esta lhe continuou posta. Silva viu-se em um vasto salão quadrangular, com cada lado medindo entre 10 e 15 metros. A primeira coisa que lhe chamou a atenção foi uma figura que estava de pé, à sua frente, a uns 5 metros de distância, focalizando-o com um olhar de aparente satisfação. Era um indivíduo de cerca de 1,25 metros, pouco maior que os demais e também mais robusto, sem máscara e sem uniforme de voo. “Rezei na hora em que o vi. Imaginei que não voltaria mais”, disse Silva.

Os seres, barbudos e cabeludos, apresentavam uma aparência por demais rude e tosca. Fonte: Boletim da SBEDV, nº 94-98, 1973-09 a 1974-06.

Nesse momento, os seus três captores estavam retirando as respectivas máscaras e conversando muito animadamente com aquele que, a Silva, pareceu ser o chefe. Este era, como os demais, muito cabeludo. Cabelos longos, ondulados e avermelhados, ultrapassando os ombros por trás até a cintura; barba espessa e comprida, chegando à altura do abdômen; sobrancelhas separadas, da espessura de dois dedos, cobrindo quase toda a testa. Pele clara, bem pálida. Olhos arredondados, de tamanho superior ao comum, de cor verde semelhante à da folha que começa a murchar. Cavidades orbitais fundas, esclerótica mais escura do que a pele, pupilas escuras. Os olhos quase não piscavam. Não pôde notar se tinham cílios. O nariz, afilado e comprido, era maior do que os nossos. As orelhas, também maiores, eram iguais às nossas na parte de baixo, mas despontadas na parte superior. A boca era larga, de delineamentos humanos, embora mais parecida com as de peixe. Silva não pôde ver se tinham dentes.

O homenzinho, rodeado pelos captores de Silva, parecia muito alegre e gesticulava com as mãos, ao falar. O medo do soldado foi se atenuando porque “o homem parecia bom”. Surgindo de sua retaguarda, Silva percebeu que outros indivíduos de aspecto físico semelhante vieram rodear aquele que parecia ser o chefe, chegando a dez ou doze o número de homenzinhos presentes, em certo momento. Ao surgirem ou desaparecerem de seu limitado campo de visão, faziam-no na direção de suas costas, onde Silva supunha haver uma parede com porta. Não viu essa parede, porque sua posição e a máscara não permitiam. Percebeu apenas três paredes do salão e o piso, mas não reparou o teto, em virtude de sua posição inclinada, com as pernas estendidas, posto que o banco era multo baixo.

Muito mais amedrontado ficou Silva ao notar a seu lado e junto à parede lateral esquerda, uma espécie de estrado baixo de pedra, onde jaziam quatro homens desnudos, de olhos fechados e enfileirados, lado a lado, em decúbito dorsal. Pareciam mortos, em rigidez cadavérica. Um deles era negro, outro moreno claro, ambos bem robustos. Os outros dois eram mais claros e franzinos, sendo um deles bem louro. Eram semelhantes a nós e não apresentavam qualquer ferimento visível. “Só se havia nas costas, que eu não pude ver”, especulou Silva. Os homenzinhos não davam qualquer atenção aos cadáveres, que em Silva despertavam pensamentos tétricos e pessimistas quanto às chances de retorno. Ainda assim, ele não julgava que os homenzinhos tivessem matado aqueles homens. “Talvez eles não tenham resistido ou tirado a máscara”, tergiversou.

As paredes e o piso do grande salão pareciam-lhe de pedra, devido ao tom cinza uniforme. A iluminação era também uniforme e intensa, do tipo vapor de mercúrio, mas não se discernia focos aparentes, janelas ou aberturas visíveis. Na parede da esquerda, junto à qual estava o estrado com os cadáveres, viam-se desenhos coloridos de muitas coisas familiares ou conhecidas por Silva: bichos como a onça, o macaco, o elefante e a girafa; casas e uma cidade pequena; árvores, florestas, mar; caminhões como o FNM (Fenemê, da Alfa Romeo), um avião bimotor a hélice e um automóvel. Tais figuras, isoladas umas das outras, cobriam apenas uma parede. As da frente e da direita nada continham.

Um pouco à direita, repousando sobre o piso, encontrava-se um aparelho estranho que fez lembrar a Silva um carro de corrida. Era uma estrutura mais ou menos cilíndrica, com 2 metros de comprimento e 80 centímetros de altura, toda fechada. De um lado e de outro, nas posições correspondentes às das rodas, havia quatro saliências arredondadas que não tocavam o chão e fizeram-lhe lembrar turbinas. Apesar de ter-se esforçado, não conseguiu fazer nenhuma ideia sobre a utilidade e o funcionamento daquele aparelho. Cerca de 5 metros à frente de Silva, havia um pequeno banco de forma cúbica e sem pernas, onde o “chefe” se sentava de vez em quando. Do lado direito desse banco e quase no nível do piso, havia um outro estrado, com uns 3 metros de comprimento e superfície branca, sendo utilizado depois como lousa, para desenhos.

José Antônio da Silva (sentado e de costas) sendo interrogado no vasto salão quadrangular. Fonte: Boletim da SBEDV, nº 94-98, 1973-09 a 1974-06.

No meio da confusão gerada pelo entrar e sair dos homenzinhos, da gesticulação acompanhada de linguagem estranha e da animação estampada nas fisionomias dos estranhos, Silva chegou a supor que eles estavam muito satisfeitos com sua presença ali. Surpreendeu-se ao perceber que um dos indivíduos estava a desamarrar cuidadosamente o embrulho de lona onde trazia seus apetrechos de pesca. Ao ser capturado, essa lona estava aberta numa pequena clareira e os objetos espalhados em torno. Ele não soube quem a teria enrolado com os objetos dentro e levado àquele salão. Supôs que isso teria sido obra do terceiro tripulante, que ficara para trás no matagal, enquanto ele era carregado para o aparelho. De qualquer forma, ali estavam os homenzinhos retirando e examinando, com denodada animação, um a um, os pertences contidos pela lona. De mão em mão passavam as suas coleções de anzol, machadinha, escavadeira, facões, caixas de fósforo, lata de sardinha e outros alimentos, assim como as peças de roupa.

Ato contínuo ao detido exame das peças, era separado um exemplar de cada objeto do qual houvesse duplicata. Assim, se apossaram de um exemplar de cada tipo de anzol, de um exemplar dos três facões, de uma caixa de fósforos, de uma das duas mudas de roupa e de uma nota de 100 cruzeiros antigos, dentre os 35.100,00 cruzeiros que encontraram num dos bolsos. As peças de que não havia duplicata – como a lata de sardinha, por exemplo – foram todas devolvidas ao envoltório de lona e este foi novamente enrolado e amarrado cuidadosamente. A exceção ocorreu com sua carteira de identidade, encontrada também num dos bolsos e exibida para todos. Não a devolveram, e isto lhe causou grandes preocupações e transtornos. Silva inferiu que por ela é que os homenzinhos identificaram sua condição de militar porque, logo em seguida, um deles sacou de uma arma e a apontou para a parede, disparando um jato de luz que resultou na descoloração da área atingida. E, além disso, a parte inicial de sua conversa com o chefe viria a girar em torno de armas.

Arma que disparou jato de luz paralisante. Fonte: Boletim da SBEDV, nº 94-98, 1973-09 a 1974-06.

As armas portadas pelos homenzinhos eram padronizadas, apesar de suas variadas dimensões. Bem menores do que um fuzil, apresentavam canos bem mais largos e curtos. Formando uma peça única, continuavam se alargando para formar as coronhas. Na parte intermediária superior de cada arma havia uma espécie de gatilho que, acionado para trás, provocava a ejeção de um feixe luminoso do tipo que o atingiu antes de ser capturado.

Um dos indivíduos passou, aos dedos curtos e grossos do chefe, um pequeno objeto cilíndrico e negro que, a seguir, seria por ele utilizado como lápis na lousa clara e lisa a seu lado. Voltando-se diretamente para Silva, o líder fazia gestos, acompanhando-os sempre com sua linguagem incompreensível. Apontava para o soldado, depois para cima, para baixo, para seus companheiros, e para cada conjunto de gestos e palavras, parecia aguardar uma resposta de Silva. À medida que as tentativas se sucediam, este passou a entender alguma coisa, como: sinal “para baixo”, igual a “sua terra”; sinal “para cima”, igual a “este salão” ou “nossa terra”, e assim por diante. O entendimento foi aumentando a partir das ilustrações em forma de desenhos toscos feitas pelo líder na lousa branca em reforço às palavras e gestos.

No primeiro desenho, um círculo com figuras armadas em torno, como sentinelas, Silva denotou um “quartel”. O líder apontou para as armas do desenho, depois para o soldado, em seguida para baixo e finalmente para cima, tendo Silva entendido que eles desejavam possuir armas das nossas, por seu intermédio. O soldado gesticulou negativamente e, pelo modo com que o líder insistia em temas desse tipo, começou a perder toda a esperança de retornar são e salvo. Silva estranhamente se negou terminantemente a revelar outros trechos da conversa que envolveu esse tema.

Cubo com escavação piramidal. Fonte: Boletim da SBEDV, nº 94-98, 1973-09 a 1974-06.

Carregando com as duas mãos um cubo, aparentemente pesado e de pedra, aproximou-se do soldado um dos homenzinhos. Um líquido de cor verde escura estava contido numa cavidade piramidal na parte superior do cubo. O líder fez sinal para que ele o tomasse, enquanto um dos subordinados afrouxava-lhe a máscara por detrás, chegando a suspendê-la com certa violência. Silva resistiu e fez sinal negativo. Vendo, em seguida, que um dos próprios homenzinhos tomava o líquido, resolveu tomar também, porque se sentia fraco e com fome. O líquido tinha sabor amargo. A partir desse instante, começou a sentir-se melhor, mais animado. Além disso, julgara que passou a entender melhor o que o líder queria dizer. Dentre todos os aspectos abordados, não lhe restaram dúvidas de que aqueles indivíduos estavam insistindo para que ele os auxiliasse em seus propósitos relacionados à nossa sociedade.

Manipulando o lápis grosso sobre a lousa horizontal, o líder traçou, pacientemente, dois grandes círculos, lado a lado. Em seguida enegreceu um deles, deixando branco o outro. Apontando sucessivamente para os dois círculos, depois para Silva e para baixo, o soldado acabou compreendendo que o círculo branco era correspondente ao dia terrestre, e o preto, à noite. O líder passou então a esboçar uma série enorme de pequenos círculos de interior branco, relacionando-os, por meio de gestos, com o círculo branco maior. Pelo abandono da referência ao círculo enegrecido, o soldado compreendeu que os pequenos círculos correspondiam a “dias”.

Ao traçar cada círculo pequeno, o homenzinho fazia uma pausa e chamava, por gestos, a atenção de Silva, que começou a contá-los. Com muita paciência, o líder completou um grande aglomerado de pequenos círculos brancos, circunscrevendo-os, em seguida, noutro círculo maior. Silva perdeu a conta quando passou de 300 o número de círculos pequenos, mas concluiu que o grande conjunto significava “um ano”, ou seja, 365 dias. Depois de fazer ao líder um sinal afirmativo, este prosseguiu desenhando mais 9 aglomerados de pequenos círculos, relacionando-os por gestos com o primeiro e chamando a atenção de Silva, que compreendeu tratar-se de um conjunto de 10, pois cada aglomerado estava circunscrito por outro círculo maior.

Em seguida, o homenzinho traçou um risco grosso que separava três aglomerados dos sete restantes e passou a apontar, sucessivamente, para o conjunto de três, para Silva e para baixo. Depois apontou de novo para o soldado, para cima e para o conjunto de sete grandes aglomerados, fazendo ainda outros gestos e levando Silva a entender a sequência da seguinte maneira: “Ele está propondo me devolver à Terra, onde ficarei por três anos colhendo informações para ele; depois mandará me buscar para junto deles, onde ficarei estudando por sete anos; finalmente, descerão à Terra, tendo em mim um guia para eles.” Como resposta a isso, Silva fez sinal negativo, para indicar sua recusa.

Nessa altura já estava manipulando o rosário que trouxera enrolado à cintura, e fazia orações em voz alta. Quando atingiu o quarto mistério do primeiro terço, o líder avançou em sua direção e, pela primeira vez demonstrando irritação, agarrou o crucifixo, arrancando-o. Uma das contas rolou pelo piso e foi apanhada por um dos homenzinhos, que a exibiu aos demais. Da mesma forma foi exibido o crucifixo, que despertou a curiosidade de todos.

Subitamente, e enquanto os homenzinhos se ocupavam com um longo debate, Silva vê surgir quase à sua frente, como se tivesse vindo do nada, uma figura humana que ali se manteve imóvel, com atitude firme e amigável, e que agora olhava e falava para ele em português muito claro. Silva concluiu que aquela visão era exclusiva dele pois, apesar de sua posição favorável, não era aparentemente percebida pelos homenzinhos, que continuavam discutindo entre si cada vez mais irritados. A figura era nitidamente a de um homem de aproximadamente 1,70 metros de altura, magro, pele clara e corada, olhos claros, barba e cabelos compridos, alourados. Sua roupa escura descia até os pés descalços; tinha mangas largas, gola revirada e uma espécie de corda branca e grossa na cintura, com um nó e duas extremidades pendentes, como batina de frade. Silva, que até aquele momento se sentia angustiado e sem esperança, sentiu alívio com a presença daquele que identificou como “pessoa boa, um dos nossos” e, principalmente, viu-se animado com certas revelações oriundas daquela visão. Tais revelações não poderiam ser transmitidas a ninguém, segundo Silva, antes que recebesse novas instruções, o que demoraria, talvez, dois ou três anos.

Sobre essa visão, houve uma enorme resistência do soldado em abordá-la, principalmente no que se refere à mensagem recebida, que considerava secreta. Mesmo os dados sobre a descrição física do indivíduo foram fornecidos com muita relutância, uma vez que avaliava que esses dados poderiam ser suficientes para a identificação da pessoa. Inquirido sobre se a figura era a de Jesus, respondeu prontamente que não. Se era de algum santo, não quis responder; apenas sorriu e desviou a conversa.

Da mesma forma como surgiu no salão, o indivíduo alto desapareceu. Coincidentemente, pela primeira vez os homenzinhos pareciam irritados uns com os outros. O líder dirigiu-se aos seus guardas, que jamais saíram do lado de Silva, o qual teve, a seguir, vedados os orifícios de seu escafandro. Da mesma forma como viera, o soldado foi suspenso pelas axilas e carregado para o interior do aparelho que o trouxera. Desvendaram-lhe os olhos, amarraram-lhe e iniciou-se então a longa viagem de volta, com a presença dos três tripulantes e os mesmos incidentes da ida: aparelho variando de posição e luz aumentando e pulsando por certo período.

Após ter sentido o baque correspondente ao pouso do aparelho, seus acompanhantes retiraram-lhe o escafandro. Nesse instante, perdeu quase que totalmente a consciência, percebendo vagamente que o arrastavam no meio da escuridão. Calcula que ficou nesse estado semiconsciente durante cerca de uma hora, notando depois os primeiros albores do dia que ia nascer e o ruído de uma fonte de água próxima. Movido por uma sede intensa, arrastou-se até encontrar um ribeirão com uma corredeira. A seu lado estava a mochila, de onde retirou o cantil. Encheu-o por duas vezes, calculando ter tomado um litro e meio de água sem ter a sede inteiramente saciada. Em seguida preparou seu material de pesca e conseguiu apanhar pequenos peixes, dos quais se alimentou.

Quando o Sol despontou, pôde reparar melhor a paisagem, que lhe era completamente estranha. Tinha sido deixado sobre uma pequena pedreira, ao lado de um córrego. Abatido e barbado, começou a caminhar trôpego e confuso. Logo encontrou uma rodovia asfaltada e aí abordou um transeunte. Perguntando-lhe que local era aquele, foi informado estar a 32 quilômetros de Vitória, capital do Espírito Santo, justamente na rodovia que a liga ao estado de Minas Gerais. Demonstrando espanto ante essa informação, perguntou que dia era aquele. Desta vez quem se espantou foi o transeunte, que lhe respondeu ser 9 de maio, sexta-feira.

Fazendo mentalmente os cálculos, Silva concluiu que ficara ausente 109 horas, ou quatro dias e meio. A defasagem entre o tempo gasto durante a sua estada junto aos extraterrestres, de 24 a 28 horas, em relação ao tempo transcorrido na Terra, só poderia ser explicada pela lei da “dilatação do tempo”, segundo a Teoria da Relatividade de Einstein. Informando-se a respeito da direção de Minas Gerais, passou a caminhar pela estrada, absorto em seus pensamentos e preocupado como iria justificar sua ausência, já que certamente ninguém iria acreditar em seu relato. Chegou a aventar a alternativa de embrenhar-se no mato e tentar sobreviver longe da civilização consumindo frutas e peixes.

A despeito dessas ideias, continuou caminhando. Em várias oportunidades, rejeitou caronas de motoristas que paravam ao perceberem a dificuldade de seu andar. A perna direita estava mais afetada e parecia inchada na altura do joelho. Além disso, havia três feridas abertas nos ombros e abaixo da nuca, provocadas pela fricção do capacete. Finalmente foi vencido pelo cansaço e aceitou uma carona que o deixou perto da cidade de Colatina (ES), a 32 quilômetros de Vitória, capital do Espírito Santo, e a 360 quilômetros de Belo Horizonte. Evitou cuidadosamente revelar sua história, e pretextava estar “cumprindo uma promessa”, quando lhe perguntavam algo.

Voltando a caminhar, encontrou-se com um grupo de meninos e com eles se informou sobre o atalho que o levaria à mais próxima estação da ferrovia Vitória-Minas. Queixou-se de que os meninos, após indicar-lhe o caminho, atiraram-lhe chacotas e pedras, talvez devido à sua esquisita aparência. Seguindo pelos trilhos da ferrovia, chegou à pequena Estação de Pedro Nolasco. Ali parou, informando-se com o agente sobre o próximo trem para Belo Horizonte.

Como o trem demoraria muito, ficou na estação conversando com o agente com quem fez camaradagem, chegando depois a visitar a casa deste, onde conheceu sua esposa e filhos e se alimentou. Encontrou-se também com um sitiante vizinho que lhe ofereceu serviço, que não aceitou. Grato pelo tratamento que recebera, deu ao agente um dos dois facões que lhe sobraram. Além disso, financiou a passagem de um jovem que não tinha dinheiro para pagar. Os homenzinhos tinham devolvido ao bolso de sua calça Cr$ 35.000 (cruzeiros antigos), do total de Cr$ 35.100.

Às 7h25 da manhã de sábado, 10 de maio de 1969, Silva desembarcou do trem NF-32 na gare da Estrada de Ferro Central do Brasil, em Belo Horizonte. O agente de segurança da ferrovia, Geraldo Lopes da Silva, notou entre os passageiros a presença daquele rapaz mal vestido, com touca de meia na cabeça, trazendo algo embrulhado numa lona. Foi justamente o embrulho que chamou sua atenção sobre Silva, porque havia frequentes roubos de fios de cobre da estrada de ferro. Interpelando-o, o agente pediu sua identidade. “Chefe, não tenho identidade, porque me tomaram. Mas sou soldado”, respondeu Silva.

O agente continuou insistindo e o recolheu a uma das salas da estação, onde passou a examinar o conteúdo de sua mochila. Nesta encontrou material de pesca, de alimentação e peças de vestuário. Pressionado pelo agente, Silva disse que tinha uma história para contar e identificou-se como ordenança do major Célio Ferreira, subcomandante do Batalhão de Guardas da PMMG. Após ouvir a história várias vezes, em busca de contradições, o agente acabou por aceitá-la, apesar de sua estranheza. Chamou a reportagem da Rádio Guarani, que o entrevistou rapidamente. Em seguida, Silva foi encaminhado ao seu quartel. Impressionado com o profundo abatimento físico do rapaz, o major Célio Ferreira isolou-o em sua própria residência por 24 horas, proporcionando-lhe alimentos, remédios e repouso.

Na manhã do dia 11, domingo, o soldado subiu o morro de sua casa com muita dificuldade para finalmente juntar-se aos seus familiares. Estes o perceberam emagrecido, queimado de Sol, barbado e manco de uma perna. Sua ausência de quase uma semana os deixara aflitos, pois Silva nunca passara tanto tempo fora de casa, sem aviso. O próprio major Ferreira chagara a mobilizar subordinados para irem à sua procura no dia anterior à sua chegada.

Na noite do dia 11, o CICOANI realizou a primeira entrevista com Silva, durante a qual este insistiu muito para que fossem com ele ao local do rapto, porque ali, provavelmente, achariam ainda um peixinho nadando entre rochas, nas quais ficara preso quando ele, já saciada a fome, o devolveu à água. Disse também que o agente ferroviário o reconheceria e lhes mostraria o facão recebido de presente. A partir daquela data, inúmeras outras entrevistas se sucederam sem que houvesse variações significativas em seus relatos ou em seu comportamento. Uma semana após o seu retorno, foi feita uma reconstituição de cena no próprio local da ocorrência em Bebedouro.

Do conjunto das entrevistas, Aleixo traçou um perfil de Silva. Ele era solteiro, o segundo mais velho entre onze irmãos, um dos quais falecido. Seu pai era vivo, e sua mãe falecida havia dois anos. Possuía apenas o grau de instrução primário. Há cinco anos era praça da PMMG, e há dois, ordenança do subcomandante do Batalhão de Guardas. Seu nível sócio-econômico era modesto. Residia com a família numa casa suburbana que ajudara a construir e cujo terreno doara aos irmãos. Gastando muito pouco consigo mesmo, conseguiu adquirir outros três terrenos suburbanos, doando mais dois aos irmãos. Em casa, era ele quem tomava as iniciativas e resolvia a maior parte dos problemas. Seus familiares e superiores o tratavam como pessoa digna de confiança e elogiavam sua conduta, afirmando que ele mantinha boas relações com todos e não apresentava vícios. Era católico devoto e fervoroso, mas nunca procurava converter os outros.

Além das três marcas nos ombros e na nuca e da leve inchação no joelho direito, Silva apresentou outras sequelas. No dia em que retornou, seus familiares e superiores notaram-no emagrecido, queimado de Sol, com a barba por fazer e abatido. Notaram também dificuldade no seu caminhar, inapetência e ouviram suas queixas quanto à prisão de ventre, que perdurou uma semana. Durante o mês subsequente ao primeiro relato, os pesquisadores igualmente ouviram suas queixas relativas à ardência na vista, diminuição da acuidade visual e dores abdominais intermitentes, abrangendo uma definida faixa transversal inferior do ventre. A manifestação desse sintoma era acompanhada de dor de cabeça na região frontal e de acentuada ardência nos olhos, que chegavam a lacrimejar. Disse ele que tal sensação nos olhos era semelhante à que sentiu dentro do aparelho, quando a sua luz interna tornou-se mais intensa, pulsando. Silva estava convencido de que sua acuidade visual piorara após a experiência. Quando os pesquisadores sugeriram que ele se deixasse examinar no hospital militar, respondeu que não tomaria tal providência para evitar que fosse interpretado como desejoso de faltar ao trabalho. No decorrer do tempo, todos os sintomas foram se atenuando e desaparecendo.

Na manhã de 26 de maio, Aleixo e Luiz Romaniello se dirigiram a Bebedouro, acompanhados por Silva. Da PMMG compareceram o coronel Jacy Praxedes, o major Célio Ferreira, o capitão Edem e o tenente Vitorino. Os dois primeiros, respectivamente, comandante e subcomandante do Batalhão de Guardas. Feito o levantamento do local, com cobertura fotográfica, o incidente foi minuciosamente reconstituído pelo soldado, desde o episódio inicial do rapto, à margem do rio, até sua introdução no aparelho cilíndrico. Em todas as circunstâncias, as reações do soldado foram consideradas firmes e condizentes com o relato feito anteriormente. Ao ensejo, os pesquisadores aproveitaram para sondar superficialmente os raros habitantes da área sobre a presença de objetos aéreos estranhos. Um menino referiu-se a um aparelho que, a grande altura, parecia um guarda-chuva deslocando-se em silêncio.

No trajeto de retorno, ao notarem em Silva uma expressão taciturna, procuraram saber dele os motivos para tanto. Após muita resistência, ele respondeu que se preocupava com a possibilidade de o líquido verde, ingerido no salão, tê-lo colocado sob o domínio dos homenzinhos, já que estes o haviam procurado de novo, desta vez no quintal de sua residência. Acrescentou que por volta da meia-noite de 21 de maio, estava deitado quando teve o súbito impulso de dirigir-se ao quintal, para cuidar de suas cabras. Os três homenzinhos, envergando seus uniformes de voo, encontravam-se ali imóveis, a olhar para ele. Numa reação automática, Silva entrou em casa e trancou a porta, sem nada falar ou ouvir.

Indagado por que reagiu dessa maneira, Silva respondeu: “Então o senhor acha que eu vou trabalhar contra a minha gente?” Dando a entender que os homenzinhos poderiam representar uma ameaça a todos, mostrava-se disposto agora a encontrar-se de novo com eles para tentar esclarecer o assunto. De qualquer forma, estava certo de que o mundo corria grande perigo, sem saber de onde este partiria. Esse perigo lhe fora revelado pelo indivíduo louro, de aparência amável, que lhe surgiu misteriosamente no salão, à revelia dos homenzinhos. O perigo envolvia toda a humanidade e, possivelmente, incluía a intervenção de seres desconhecidos, além de outras calamidades. Entretanto, esse risco seria afastado se a humanidade mudasse o seu comportamento.

Numa entrevista posterior, tão logo Aleixo chegou à casa de Silva, este tomou a iniciativa de  interpelá-lo nos seguintes termos: “Professor, até hoje o senhor me tem feito perguntas e eu tenho respondido. Hoje sou eu quem precisa fazer perguntas para o senhor responder.” Reagindo ao sinal afirmativo de Aleixo e demonstrando dificuldade em encontrar as palavras adequadas, Silva perguntou: “Existe aparelho que não é aparelho?”

Aleixo pediu-lhe que reformulasse a pergunta. Ele tentou e não conseguiu. Pediu-lhe, então, para dizer o que tinha em mente ao fazer tal pergunta. Redarguiu que, numa das noites anteriores, em torno das 22 horas, sentiu desejo de caminhar pelo morro onde se situava a sua casa, a fim de meditar, e que após caminhar alguns minutos pela crista do morro, a uns 300 metros das casas mais próximas, um foco de luz amarelada chamou sua atenção. Essa luz vinha descendo obliquamente do lado da Serra do Curral (sul de Belo Horizonte), em sua direção. Sem fazer ruído, diminuiu sua marcha e parou a uns 10 metros de distância,  passando a fazer pequenos movimentos verticais e laterais a alguns metros do solo. Tinha forma esférica, diâmetro aproximado de 30 centímetros e parecia estar dirigida por alguém, apesar de não ser um aparelho como o que vira antes e no qual viajara. A bola luminosa se afastou após alguns minutos, subindo para a mesma direção de onde viera. Silva insistia em obter a explicação de Aleixo porque estava perplexo ante a existência de uma bola de luz que, revelando controle de seus movimentos, não apresentava qualquer estrutura que a identificasse como aparelho. Aleixo limitou-se a responder que existiam inúmeros relatos sobre esse tipo de fenômeno, mas que ainda não havia explicação para eles.

Durante todo aquele mês de maio de 1969, continuaram a chegar insistentes rumores sobre a atividade de OVNIs na área compreendida pelos municípios de Matozinhos, Pedro Leopoldo, Jaboticatubas, Jequitibá e Baldim, todos ao norte de Belo Horizonte. Alguns se referiam, inclusive, à presença de tripulantes. Como o caso do soldado Silva havia sido muito divulgado, e ele se referia à região de Bebedouro, norte de Matozinhos, os rumores foram encarados com muitas reservas, uma vez que poderiam se tratar de efeitos psicossociais da própria divulgação. Ainda que imprecisas, as notícias se avolumaram. Como o então comandante do Batalhão de Guardas, coronel Praxedes, havia demonstrado interesse no acompanhamento do caso de seu comandado Silva, Aleixo julgou conveniente colocá-lo a par dos novos comunicados recebidos dos arredores de Bebedouro. Teve, então, imensa surpresa de encontrá-lo já informado sobre tais ocorrências, pois um conhecido seu, o professor Ângelo Heleodoro dos Santos, que lhe foi apresentado na ocasião, realizara recentemente uma expedição àquele sítio, acompanhado de oficial do Batalhão de Guardas e de outras pessoas.

Caso Constantino: surdo-mudo atacado por ETs barbudos

Em estreita correlação com o Caso Bebedouro, o da Fazenda Constantino, situada à margem direita do Rio das Velhas, aproximadamente a 20 quilômetros de Bebedouro, teve como protagonista o surdo-mudo Antônio Rodrigues, de 60 anos, que por meio de mímica e desenhos descreveu espontaneamente ao dono da fazenda e, posteriormente aos ufólogos do CICOANI e a Bühler, da SBEDV, os homenzinhos barbudos e atarracados que viu desembarcar de um aparelho descido do céu.

De acordo com seus gestos, muito expressivos, os homenzinhos, já no solo, fizeram-lhe um aceno para que se aproximasse. Amedrontado, o surdo-mudo afastou-se correndo da margem do Rio Vermelho, onde pescava. Entrementes, os desconhecidos passaram a persegui-lo, e um deles, acionando algo retirado da cintura, atingiu-o na perna direita, provocando sua queda. Em torno do surdo-mudo reuniram-se os indivíduos, falando uns com os outros. Um deles chegou a apalpar o seu braço, abanando a cabeça e afastando-se em seguida para o aparelho, com seus companheiros. O surdo-mudo reproduziu em gestos, com suficiente nitidez, a entrada dos desconhecidos no aparelho e a subida vertical deste.

O surdo-mudo Antônio Rodrigues (esq.). Foto: Boletim da SBEDV, nº 94-98, 1973-09 a 1974-06.

Ao lhe ser mostrado um cartaz onde se reproduzia o retrato falado dos homenzinhos barbudos descritos pelo soldado Silva, o surdo-mudo ficou muitíssimo excitado, fazendo gestos incisivos que o senhor Edsel Marcus Duarte, presente à entrevista e familiarizado com sua mímica, interpretou como significando: “Cuidado com este!”

Os detalhes coincidentes entre os casos Bebedouro e Constantino, ocorridos quase à mesma época, ganham realce quando se leva em consideração o isolamento cultural do surdo-mudo que, além de suas deficiências sensoriais, residia em pleno mato, tendo pouquíssimo contato com a civilização e com os meios de comunicação. Ainda que lhe fossem acessíveis os meios de comunicação e ele tivesse conhecimento prévio do caso do soldado, isso não explicaria as coincidências, uma vez que a imprensa divulgou o caso do soldado de modo falho e completamente errôneo.

O jornal Diário da Noite, de São Paulo, em sua edição matutina de 17 de junho de 1969, reproduziu, em página inteira, o caso do senhor Adelino Roque, lavrador de Itauçu (“Pedra Grande” em tupi-guarani, cidade do centro goiano a 59 quilômetros de Goiânia), ocorrido em 20 de abril. Adelino, em viagem noturna pela zona rural, percebeu a aproximação de uma luz e, sentindo-se imobilizado, perdeu a consciência logo a seguir. Quando voltou a si, viu-se à beira de um rio, sentado sobre uma pedra, sem conseguir reconhecer o local onde se encontrava. Achado por um carroceiro, este lhe revelou que estava à margem do Rio Paranaíba, município de Itumbiara, a um dia de viagem de Itauçu, de onde partira. Além da coincidência básica com os casos Itauçu e Bebedouro, há uma outra, mais específica: Silva revelara que, ao recobrar plena consciência após seu retorno de local não identificado, percebeu-se colocado sobre uma pedreira, ao lado de um córrego.

Húlvio Brant Aleixo fala sobre o Caso Bebedouro mais de 35 anos depois

Quase exatamente um ano antes de falecer em 23 de junho de 2006, Húlvio Brant Aleixo concedeu a este autor e ao jornalista e ufólogo espanhol Pablo Villarrubia Mauso, uma entrevista exclusiva nos dias 25 e 26 de junho em sua residência no Bairro Cruzeiro, em Belo Horizonte (MG), ele que havia sido o primeiro ufólogo no Brasil a aplicar o teste psicológico e o retrato falado e pesquisado dezenas de casos que se tornariam clássicos – Sagrada Família, Bebedouro, Jaboticatubas, Itabirito, Baleia, Vila Operária, etc. – a maioria deles divulgados no Boletim da SBEDV.

Cláudio Tsuyoshi Suenaga e Pablo Villarrubia Mauso com Húlvio Brant Aleixo em junho de 2005 em sua “caverna”. Fotos de CTS e PVM, dos arquivos de Suenaga.

Ao ser perguntado sobre o Caso Bebedouro, Aleixo contou que logo depois do sequestro, ele e Alberto Francisco do Carmo foram até a residência do soldado e o entrevistaram várias vezes. Sua conclusão foi a de que aqueles seres não levaram o soldado a um outro planeta, e sim aos subterrâneos da Terra, onde estavam fazendo experiências genéticas, produzindo clones há muito tempo. Só isso explicaria a igualdade de aparências dos dez ou doze indivíduos que estavam lá no “salão” para onde o levaram.

Aleixo desconfiava que esses seres do Rio das Velhas pertenciam a uma classe inferior. Seriam meros executivos que não conheciam necessariamente os propósitos dos maiorais, dos que estariam no comando, que Aleixo chamava de “incorpóreos”. Seriam assim apenas treinados, programados, robotizados para cumprir uma determinada tarefa ou missão.

Reafirmou Aleixo que esses seres “não são humanos, mas ao mesmo tempo não são seres biológicos que vêm de outro planeta. São seres incorpóreos que estão no comando de um grande ‘exército’, e esse exército é composto dos que estão aí indicados, seres humanos de todos os segmentos, alguns, a maioria, talvez, não conscientes do papel que exercem nessa conspiração. Traduzindo, eu quero dizer que eles são anjos malignos. Os anjos malignos que optaram pela luta contra Deus”.

Relevou também que “são diferentes em tudo, menos em um item: eles são todos evasivos. Isso eu acho muito significativo. Muito mesmo. Estão enganando todo mundo. Inclusive a Força Aérea”. Agindo de forma mais discreta possível, “a finalidade última é sempre essa, a de capturar o espírito humano”. A única forma de combatê-los seria por meios espirituais, “orando a Deus ou a Nossa Senhora”, já que “armas físicas são inúteis contra eles”. As seitas ufológicas seriam de certa forma “manipuladas por essas entidades com vistas a obter adeptos”.

Em maio de 1999, Aleixo já havia surpreendido a comunidade ufológica, mormente aqueles que encaravam a presença dos ufonautas com benevolência e esperança, ao divulgar, durante o 18º Congresso Brasileiro de Ufologia em Belo Horizonte, uma mensagem alertando quanto ao fato de que a humanidade corria um perigo de incomensurável e inédita magnitude, contra o qual não havia defesa capaz de contê-lo.

Até o início da década de 80, Aleixo acreditava que os “alienígenas” eram seres biológicos oriundos de outros planetas e que aqui vinham pacificamente apenas para estudar o planeta e seus habitantes, mas com o decorrer dos anos acabou concluindo que na verdade são sim de outro mundo, mas não vêm de outros planetas – vivem na própria atmosfera, nos recônditos da Terra e através do Cosmo”. Esses seres “enganadores, mentirosos, furtivos e subversivos têm grande poder sobre os elementos da natureza, em macro e micro escala, incluindo a mente humana. Conhecem o comportamento humano desde os primórdios da humanidade e estão, mais do que nunca, atualizando esses conhecimentos para agregar mais agentes ao seu ‘exército’ e atuar de forma mais eficaz no momento apropriado”. Seu “exército”, composto de “forças extra-humanas e incorpóreas no comando de forças humanas, humanóides e animalescas, cada uma com missões compatíveis com suas potencialidades, mas todas orientadas para a consecução dos objetivos estratégicos do comando”, estaria se organizando para “atacar em massa e ostensivamente”.

Se seus ataques no plano físico ainda eram “esporádicos e realizados de maneira furtiva”, o eram “para que sua verdadeira identidade e propósito não fossem descobertos e divulgados, evitando assim que a humanidade se mobilize para combatê-los pelo único meio eficaz que lhe resta: o espiritual”. Não seria de admirar, pois, “que os agressores em potencial tenham o máximo de cuidado em mascarar suas intenções e ações” uma vez que “nos conflitos interindividuais, intergrupais e internacionais, o fator surpresa sempre teve relevância, por motivos óbvios”. Seus “agentes” estariam “infiltrados em todos os níveis e segmentos da sociedade humana, a maior parte atuando inconscientemente, cegamente”. A maior ambição desses seres é “a posse do espírito humano que, por ser imortal, é a jóia mais preciosa de todo o universo. A maneira mais eficaz de se conseguir isto é fazer com que os homens, cegos pelo ódio generalizado, destruam prematuramente seus corpos, mediante matança maciça, entregando-lhes seus espíritos”.

Assim, o ataque ostensivo e maciço dos ufonautas viria tão somente “para complementar a destruição do homem pelo próprio homem, na próxima guerra mundial, que eles próprios incentivam e alimentam ao difundir seus conhecimentos sobre armas de destruição em massa, inclusive os relativos à engenharia genética”. Nessa vasta “conspiração” encabeçada pelos extraterrestres, “estamos coroados por cima, pelos lados e por baixo por uma organização de combate sob comando de seres imateriais e invisíveis, imortais e malignos. Pior ainda, muitos seres humanos já estão sob comando deles”.

Aleixo arrematou a entrevista vaticinando que “Quem viver, verá”.