O centenário da Bauhaus, a revolução máxima da arquitetura e do design

Um marco na história das artes, nenhuma escola teve mais influência no aspecto das cidades modernas do século XX do que ela. Parte importantíssima do movimento que gerou o design moderno e modificou a própria noção de estética e de arquitetura, é hoje ensinada em praticamente todas as escolas do mundo e seu estilo continua sendo largamente aplicado.

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

“O cérebro humano é como um guarda-chuva: funciona melhor quando aberto.” (Walter Gropius)

Ante o desafio e a necessidade de produzir em série objetos de consumo baratos para o povo, em 21 de março de 1919, ano da Proclamação da República Alemã, o arquiteto alemão Walter Gropius (1883-1969) integrou duas escolas existentes na cidade de Weimar, a Escola de Artes e Ofícios, do belga Henry Clemens Van de Velde (1863-1957), e a de Belas Artes, do alemão Adam Gottlieb Hermann Muthesius (1861-1927), e fundou uma nova escola de arquitetura e desenho a que deu o nome de Staatliches Bauhaus (Bau = construção, haus = casa, ou seja, Casa Estatal de Construção), com sede em um edifício construído em 1905 por Van de Velde.

As origens da Bauhaus remontam ao movimento Arts and Crafts, do inglês William Morris (1834-1896), que procurou restabelecer a dignidade medieval do artesanato e do artesão. Todavia, o ensino da Bauhaus se opunha às concepções de Morris, contrárias à revolução tecnológica e à produção em série. Também não agradava a Gropius o estilo art nouveau, devido ao seu caráter decorativo e esteticista. A ascendência mais próxima da Bauhaus está na associação Deutscher Werkbund, fundada em 1907 por Hermann Muthesius para incentivar as relações entre os artistas modernos, os artesãos qualificados e a indústria. Muthesius desejava criar o que chamava de “Estilo da Máquina” (“Maschinenstil”). Gropius, que foi membro da Werkbund, materializou esse objetivo, em grande parte, na Bauhaus.

A Bauhaus propôs o restabelecimento do contato entre a arte e a produção industrial, o que fez repensando a arquitetura e criando um novo conceito de design – calcado na geometria, na razão e na ciência – acessível a todas as camadas sociais alemãs, em contraposição aos ditames burgueses. De um lado combatia a arte pela arte e do outro incentivava a liberdade de criação, mas dentro de convicções filosóficas comuns. O ensino, suficientemente elástico, com a participação conjunta de artistas, mestres de oficinas e alunos, valorizava o funcionalismo e as pesquisas no campo das diferentes artes, reunindo as disciplinas artísticas e integrando-as com as técnicas – arte e ofícios – e o estudo da formas – arte e técnica.

Gropius ressalta três características principais do ensino na Bauhaus: o paralelismo entre o ensino teórico e prático, o contínuo contato com a realidade do trabalho e a presença de professores criativos. Para ele, a unidade arquitetônica só podia ser obtida pela criação coletiva que congregasse todas as disciplinas artísticas como a pintura, a música, a dança, o teatro, a fotografia e o cinema, e as integrasse em uma nova maneira de construir. Impregnados por essa filosofia, os membros da Bauhaus não demoraram a definir um estilo para seus produtos, funcionais e econômicos e despidos de ornamentos, cujos protótipos saíam de suas oficinas prontos para serem produzidos em série pela indústria.

O currículo da Bauhaus previa três fases: o primeiro semestre era o fundamento da própria Bauhaus, um método de ensino para libertar os estudantes de preconceitos em relação ao “belo” e à “estética” adquiridos nas escolas primárias e nos ginásios. Era a preparação intelectual para a próxima fase, em que eram postos problemas mais complexos e diversificados, como projetos industriais, pintura, escultura, arte publicitária, teatro, arte cênica e dança. Concluída esta fase, o aluno recebia o diploma da Bauhaus e podia começar o curso de arquitetura propriamente dito.

Os professores eram recrutados, sem discriminação de nacionalidade, entre membros dos movimentos abstrato e cubista. Ao iniciar a Bauhaus, Gropius apoiou-se principalmente em três mestres: o pintor americano Lyonel Feininger (1871-1956), o escultor e gravador alemão Gerhard Marcks (1889-1981) e o pintor suíço Johannes Itten (1888-1967). A eles se juntaram depois artistas da categoria de Oskar Schlemmer (1888-1943), Paul Klee (1879-1940), Wassily Kandinsky (1866-1944) e László Moholy-Nagy (1895-1946).

Além de Gropius, alguns dos nomes da Bauhaus são Ludwig Mies van der Rohe (1886-1969) – autor das famosas frases “less is more” (“menos é mais”) e “God is in the details” (“Deus está nos detalhes”) – e Le Corbusier [pseudônimo de Charles-Edouard Jeanneret-Gris de Le Corbusier (1887-1965)].

Ludwig Mies van der Rohe: “Menos é mais”.

Mies van der Rohe projetou um dos edifícios mais conhecidos desse estilo, o Seagram Building, arranha-céu localizado em 375 Park Avenue, em Midtown Manhattan, New York City. A estrutura do prédio parece leve e simples mas o revestimento de bronze esconde o esqueleto de aço. Mies costumava construir torres nuas com cortinas de vidro no lugar das paredes.

O Seagram Building.

O alemão também é autor da poltrona Barcelona e da Lake Shore Drive Apartments Houses, em Chicago.

A poltrona Barcelona.

O franco-suíço Le Corbusier construía casas particulares que chamava de “máquinas de morar”, pois admirava as formas das máquinas.

Le Corbusier.

Um de seus projetos mais conhecidos é a Villa Savoye, Maison Savoye ou simplesmente Residência Savoye, que parece uma caixa quadrada e baixa assentada sobre pilares. Em seus últimos anos, Le Corbusier abandonou o purismo geométrico do Estilo Internacional e passou a estudar os efeitos esculturais. O arquiteto Oscar Niemeyer o tinha como sua maior influência.

A Villa Savoye de Le Corbusier.

Ameaçada de dissolução pela forte oposição dos conservadores às suas inovações e tendo os subsídios cortados pelo governo, a escola Bauhaus transferiu-se em 1925 para Dessau, no estado de Saxônia-Anhalt, também no leste alemão, onde ficou até o advento do nazismo. Para abrigá-la, Gropius projetou e construiu um conjunto de prédios formado por três grandes blocos para salas da aula, oficinas e estúdios que eram, em si mesmos, um manifesto de arquitetura moderna e uma das mais extraordinárias obras da década de 20.

Fachadas do prédio da Escola de Artes da Bauhaus em Dessau, Alemanha, e vista do escritório de Walter Gropius, sobre a rua interna.

As atividades da Bauhaus se intensificaram em Dessau com o lançamento de publicações e a organização de exposições. Em 1928, Gropius passou o cargo de diretor ao suíço Hannes Meyer (1889-1954), abandonando a escola, já então consolidada, junto com Moholy-Nagy e Marcel Breuer (1902-1981). A nova direção conferiu realce ainda maior à arquitetura e assistiu à chegada das influências do construtivismo russo. Em 1930, Meyer, cuja postura esquerdista não era bem vista pelas autoridades, foi substituído por Mies van der Rohe. Este reorganizou a escola e deu-lhe um novo impulso. Em 1932, com a chegada dos nazistas ao poder em Dessau, a Bauhaus se transferiu para Berlim, onde continuou a funcionar até seu fechamento definitivo em 1933. O Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães [Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei (NSDAP)], em particular Hitler, adotava os ideais de beleza da Antiguidade Clássica greco-romana, rechaçando todas as demais, tidas como “não-germânicas”.

O progresso da vanguarda alemã se viu seriamente prejudicada, mas o ensino inovador da Bauhaus já havia se difundido nos principais centros de arte. Tal difusão se intensificou quando os grandes mestres da escola, devido às perseguições nazistas, passaram a emigrar, principalmente para a Inglaterra e os Estados Unidos – entre eles Gropius e Mies van der Rohe. O primeiro foi nomeado presidente de Arquitetura da Universidade de Harvard, e o segundo se fixou em Chicago como arquiteto profissional. Hoje a Bauhaus de Weimar é uma escola superior, enquanto a de Dessau abriga a Fundação Bauhaus.

Não há quem não tenha incorporado, mesmo que inconscientemente, o estilo elegante, simples e limpo da Bauhaus de dar forma às coisas valendo-se apenas de formas geométricas e de cores básicas, geralmente o preto e o branco, para contrastar com a burguesia que costumava utilizar cores fortes. Na maioria das vezes nos passa despercebidos que muitos dos prédios, casas, móveis, objetos – e tudo mais que seja possível inserir formas – que nos rodeiam são baseados nesta escola. Apenas para lembrar, foi na Bauhaus que se inventaram as cadeiras de aço tubular e outros equipamentos semelhantes há muito incorporados ao nosso uso cotidiano.

Sua influência também pode ser constatada na tipografia, que passou a adotar um estilo bem simples, sem serifa, sem letras maiúsculas e sem formas rebuscadas, com um design moderno e de fácil leitura, o que se encaixava perfeitamente nos ideais do movimento, pois facilitaria a leitura e o acesso à informação a todas as camadas sociais, não apenas à burguesia.

Se a Bauhaus ainda soa moderna e futurista, isso não surpreende levando-se em conta que os projetos não guardavam qualquer referência com o passado – ao contrário de todos os estilos anteriores – e eram inteiramente voltados para o presente e para o futuro, obedecendo aos princípios de racionalidade, simplificação e da unidade entre forma e função.

Ludwig Mies van der Rohe projetou a Farnsworth House, localizada perto de Plano, Illinois, como um retiro de fim de semana para a doutora Edith Fransworth, uma proeminente nefrologista. Concluído em 1951, o design apresenta janelas de vidro do chão ao teto e aço exposto. A casa foi nomeada um marco histórico nacional em 2006 e agora é operada como um museu. (© Victor Grigas / Wikimedia Commons)