Auguste Piccard, o pioneiro dos voos espaciais, ressurge com a Terra Plana

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

Certamente você nunca ouviu falar, e se já ouviu só foi recentemente por seu nome estar sendo resgatado e citado pelos proponentes e propagadores da teoria conspiratória da Terra Plana, no físico, inventor, aeronauta, balonista, hidronauta e explorador suíço Auguste Antoine Piccard (1884-1962).

Por que os feitos desse que foi o pioneiro dos voos espaciais muito antes da NASA, além de muitas outras façanhas, nem sequer constam dos currículos escolares e permanecem quase que totalmente ocultos e desconhecidos, sem merecerem os devidos créditos, reconhecimentos, celebrações e homenagens? Seria só porque ousou descrever a forma da Terra tal como viu de dentro da cápsula esférica de alumínio pressurizada que, em 27 de maio de 1931, içada por um balão em forma de gôndola, atingiu a altitude recorde para a época de 15.785 metros? Conforme suas palavras, a Terra “parecia um disco plano com a borda virada para cima.” (“It seemed a flat disk with upturned edge.”)[1]  

Durante seu histórico voo estratosférico desde Augsburg, na Alemanha, ao lado do seu assistente Paul Kipfer, Piccard reuniu um considerável material sobre a atmosfera superior da Terra e ainda fez a medição de alguns raios cósmicos.

Só por esse feito, Auguste Piccard já mereceria ser lembrado como um pioneiro na exploração espacial, isso 30 anos antes de Iuri Alieksieievitch Gagarin (1934-1968) se tornar oficialmente o primeiro homem a ir ao espaço, em 12 de abril de 1961, a bordo da Vostok 1, aliás uma cápsula esférica pressurizada assaz muito parecida com a inventada por Auguste.

Mas Auguste ainda miraria as profundezas oceânicas e seria o inventor do batiscafo, espécie de submarino utilizado para pesquisas a grandes profundidades. Por subir à estratosfera e descer em fossas abissais dos oceanos, ficou conhecido como “o homem dos extremos”, um epíteto dos mais apropriados.

Auguste e seu irmão gêmeo Jean Felix Piccard

Como se não bastasse ou não poderia deixar de ser, Auguste geraria uma linhagem de inventores e exploradores que, inspirados nele e no seu irmão gêmeo, o químico, engenheiro e professor Jean Felix Piccard (1884-1963), que também era um grande balonista, resolveram continuar suas façanhas.

Com o seu filho, o engenheiro, hidronauta e explorador Jacques Piccard (1922-2008), Auguste mergulhou em 1953 a 3.150 metros no fundo do mar. Em 23 de janeiro de 1960, Jacques, juntamente com Don Walsh (1931-), capitão da US Navy, tornaram-se os primeiros a terem atingido o ponto mais baixo na superfície terrestre, a Challenger Deep, na Fossa das Marianas, a bordo do batiscafo Trieste, em uma descida a quase 11 quilômetros que demorou cinco horas.

O batiscafo Trieste
Don Walsh e Jacques Piccard a bordo do batiscafo Trieste
Bertrand Piccard

O filho de Jacques, o psiquiatra, hipnoterapeuta e balonista Bertrand Piccard (1958-), pioneiro e campeão em voos de ultraleve e asa delta na década de 70, chefiou em março de 1999 o primeiro voo de balão à volta do mundo sem escalas. Durante 19 dias, 21 horas e 47 minutos, ele e o inglês Brian Jones percorreram da Suíça ao Egito, 45.755 km a bordo do Breitling Orbiter 3. Foi assim, simultaneamente, o mais longo voo em termos de duração e distância, sendo considerada a última grande aventura do século XX, o que lhe valeu várias condecorações, entre eles os galardões da Federação Internacional de Aeronáutica e da National Geographic Society.

O comercial da Hennessy que em 2016 ficou muito famoso ao mostrar as águas acima do Firmamento, é baseado na histórica viagem de Auguste Piccard e Paul Kipfer em 27 de maio de 1931, conforme relatado na página 23 da edição de agosto de 1931 da revista Popular Science:

As águas acima do Firmamento no comercial da Hennessy

“Um balão amarelo enorme subiu para o céu, há algumas semanas a partir Augsberg, Alemanha. Em vez de um cesto, ele carregava uma bola hermética preta e prata de alumínio. Dentro, o Prof. Auguste Piccard, físico, e Charles Kipfer, teve como objetivo explorar o ar 50 mil pés acima. Dezessete horas mais tarde, depois de dados como mortos, voltaram com segurança a partir de uma altura estimada de mais de 52 mil pés, cerca de 10 milhas, quebrando todos os recordes de altitude por aeronaves. Tanques de oxigênio mantiveram vivos enquanto eles faziam observações. Registros de seus instrumentos estão agora a serem verificados e interpretados. Primeiros a subirem com segurança até a camada superior da atmosfera da Terra, eles encontraram a pressão do ar a dez milhas de altitude tão baixa – um décimo do que ao nível do mar – que um homem exposto nela pereceria igual um peixe de profundidade por causa da sua pressão interna quando levado para a superfície da Terra. Piccard e seu assistente encontraram raios cósmicos, radiações misteriosas do espaço exterior, muito mais poderosos do que na superfície da Terra e calibraram a sua intensidade. Os exploradores colheram amostras do ar superior, “ar azul”, como Piccard relatou que ele parecia, em cilindros. Análises puderam provar ser o gás um azul intenso excepcionalmente rico em ozônio, supostamente responsável pela camada ‘heaviside’ ou ‘telhado de rádio’. A história de sua aventura supera a ficção. Durante a subida, a bola de alumínio começou a vazar. Eles estancaram desesperadamente com vaselina e resíduos de algodão, parando o vazamento. Na primeira meia hora o balão se atirou para cima nove milhas. Através das escotilhas, os observadores viram a Terra através de uma névoa cor de cobre e depois azulada. Parecia um disco plano com bordas viradas pra cima. No nível de dez milhas o céu aparecia um azul profundo e escuro. Com observações completas, os observadores tentaram descer, mas não conseguiram. Enquanto seus tanques de oxigênio esvaziavam, eles flutuavam sem rumo sobre a Alemanha, Áustria e Itália. O ar frio da noite contraiu o gás do balão e trouxe-os para baixo em uma geleira perto de Ober-Gurgl, Áustria, com uma hora de oxigênio de sobra.”

A cápsula esférica de alumínio pressurizada no comercial da Hennessy

Auguste inspirou o escritor belga Hergé [pseudônimo de Georges Prosper Remi (1907-1983)] a criar o Professor Girassol, personagem da história em quadrinhos Tintim, bem como o roteirista e produtor norte-americano Gene Roddenberry (1921-1991) a criar o Capitão Jean-Luc Picard, da série Jornada nas Estrelas: A Nova Geração. No Brasil, foi citado pelo zoólogo e compositor Paulo Vanzolini (1924-2013), diretor do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP), na música “Samba Erudito”: “Fui ao fundo do mar / Como o velho Piccard / Só pra me exibir / Só pra te impressionar.”

Nota:

[1] “Ten Miles High in an Air-Tight Ball”, in Popular Science Magazine, Aug. 1931, p.23.

Popular Science Magazine, Aug. 1931

Screenshots do comercial da Hennessy baseado na histórica viagem de Auguste Piccard que em 27de maio de 1931 atingiu uma altitude recorde de 15.785 metros:

Auguste Antoine Piccard