Há 20 anos provava como o líder de um culto ufológico fomentou o AI-5 com seus atentados terroristas

Em minha tese de mestrado em História defendida em 1999 na Unesp, provei que a seita ufológica de Aladino Félix (vulgo Dino Kraspedon ou Sábado Dinotos), sob as ordens de militares de extrema-direita, foi a autora de mais da metade dos atentados terroristas em São Paulo em 1968 com vistas de abrir o leque de justificativas para a decretação do AI-5 em dezembro daquele ano. Desde então, venho tentando publicar, embalde, meu livro que conta a história completa de Aladino e do lado oculto do Regime Militar, pois as editoras e boa parte da imprensa sempre me ignoraram e me desprezaram como um “teórico da conspiração”. A Agência Pública publica agora, às vésperas da eleição presidencial, uma reportagem tardia a respeito que vem sendo saudada e reconhecida como verdade histórica incontestável, de maneira conveniente, para prejudicar o candidato direitista Jair Bolsonaro. Apesar de ter concedido uma entrevista ao seu autor, o jornalista Vasconcelo Quadros, que se valeu de minha tese e de vários de meus trabalhos, não fui sequer citado por ele. Não bastasse a usurpação de Oswaldo Pedrosa, que se fez passar por Aladino, e os tantos boicotes e censuras, a “maldição” de Aladino Félix continua.

Aladino Félix na edição de 5 de março de 1968 do Jornal da Tarde.

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

A Agência Pública publicou no dia 1º de outubro a reportagem “Atentados de direita fomentaram o AI-5”, de autoria do jornalista Vasconcelo Quadros, que aponta o grupo de extrema-direita comandada por Aladino Félix, que agia sob os pseudônimos de Dino Kraspedon e Sábado Dinotos, como o responsável pelos atentados terroristas na cidade de São Paulo em 1968 que fomentaram a decretação por parte do então presidente, o general Artur da Costa e Silva, do famigerado Ato Institucional nº 5 (AI-5) em 13 de dezembro daquele conturbado ano.

O “furo” de Quadros teve como fonte a minha tese de mestrado em História defendida na Universidade Estadual Paulista (Unesp) em 1999, além de meu primeiro livro Contatados (2007), meus artigos e a entrevista por escrito que lhe concedi desde aqui o Japão, onde me encontro “exilado” há dois anos e meio.

Não haveria, como não houve até a publicação da reportagem de Quadros, nenhum alarde, nenhum fuzuê, se não se tratasse de um prestigiado site fact-checking e não faltasse menos de uma semana para o primeiro turno do pleito mais polarizado desde o embate Collor x Lula em 1989. O próprio título, subliminar e sub-repticiamente, intenta “inocentar” a esquerda e jogar toda a culpa na direita pelo endurecimento do  Regime Militar e com isso prejudicar o candidato direitista à Presidência e à frente na preferência do eleitorado, Jair Messias Bolsonaro, do Partido Social Liberal (PSL).

Ocorre que a Agência Pública, fundada em 2011 pelas repórteres Marina Amaral, Natalia Viana e Tatiana Merlino e atualmente dirigida pelas duas primeiras, apesar de autointitular-se uma “agência de jornalismo investigativo e independente”, só no primeiro semestre deste ano recebeu aportes financeiros da ordem de 1,4 milhão de dólares da Fundação Ford e desde 2011 mais de 2,5 milhões de dólares da mesma fundação que notoriamente “financia projetos feministas, de educação sexual baseadas na perspectiva de gênero, direitos sexuais e pautas exclusivamente de esquerda em todo o mundo”, conforme denunciou o jornalista Cristian Derosa em seu site Estudos Nacionais.

Vasconcelo Quadros, sem citar meu nome ou meus trabalhos mas com base neles e nos documentos do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) e do Serviço Nacional de Informações (SNI) que desencavei, elaborou sua própria versão dando ênfase aos atentados terroristas de Aladino e ao fato de que este agia sob as ordens de militares de alta patente, entre eles o chefe do Gabinete Militar da Presidência da República, general Jayme Portela de Mello, e o general do Exército Paulo Trajano. A personalidade polifacética de Aladino, seu lado messiânico, profético e ufológico, bem como seus livros, foram obliterados por Quadros, que, com o perdão do óbvio mas irresistível trocadilho, pintou um quadro um tanto tendencioso, borrado e fragmentado do que se passou.

Documento do DOPS datado de 18 de dezembro de 1968 com menções a Aladino Félix, apontado como “mentor de todo o plano terrorista”, e ao General Paulo Trajano da Silva, apontado como “incentivador dos atos terroristas”. Fonte: Arquivos do DOPS.

O quadro completo já havia fornecido em 19 de setembro, quase duas semanas antes da reportagem de Vasconcelo Quadros, na matéria especial que preparei para marcar “Os 50 anos do fim do terrorismo-messiânico de Aladino Félix, o contatado que abalou o Regime Militar”, fartamente ilustrada com documentos e fotos.

Se meu livro O Brasileiro que Queria Governar o Mundo: A História Oculta de Aladino Félix (Sábado Dinotos), o Terrorista que Abalou o Regime Militar, pronto há quase vinte anos, já tivesse sido publicado e não fosse o mais boicotado da história, certamente nada disso seria tomado como novidade, uma novidade que começou a deixar de sê-la no final de 1994, quando realizava pesquisas no Arquivo do Estado de São Paulo para minha tese na Unesp e fui um dos primeiros a ter acesso aos então recém liberados documentos do DOPS, entre os quais os referentes a Aladino Félix.

A apuração de toda a sua história, que alterava completamente o que se sabia sobre o Regime Militar, exigiu de mim cinco anos de laboriosas buscas e pesquisas, fosse entrevistando antigos seguidores e amigos ou debruçado sobre livros, documentos, jornais, revistas, fichas e apontamentos.

Cláudio Suenaga diante das fichas de Aladino Félix (Sábado Dinotos) nos Arquivos do DOPS, então armazenados no Arquivo do Estado de São Paulo. Fotos de César Augusto Atti e Cláudio Suenaga, 9 de outubro de 1996.
As pastas com os documentos do DOPS armazenados no Arquivo do Estado de São Paulo, na Rua Dona Antônia de Queirós, 183, Consolação, centro de São Paulo, em 26 de agosto de 1995. Foto de Cláudio Suenaga.

Metade de minha tese foi dedicada à reconstituição e análise do movimento terrorista-messiânico de Aladino, bem como o mais longo capítulo do meu primeiro livro Contatados: Emissários das Estrelas, Arautos de uma Nova Era ou A Quinta Coluna da Invasão Extraterrestre?, publicado em 2007 pela Biblioteca UFO. Dediquei também um longo capítulo a Aladino em meu outro livro inédito intitulado Sangue no Céu: A Agenda Apocalíptica das Religiões, Seitas e Sociedades Secretas.

Em sua edição 134, de junho de 2007, a revista UFO publicou o artigo de minha autoria intitulado “Mistérios da Ufologia Brasileira: A verdadeira história de Dino Kraspedon e Aladino Félix” [Campo Grande (MS), Centro Brasileiro de Pesquisas de Discos Voadores (CBPDV)/Mythos Editora, História, p.16-21], com o adendo “Provas de que Aladino Félix era Dino Kraspedon” (p.24-25) e a chamada de capa “Aladino Félix: A trajetória do líder messiânico que queria governar o mundo e dizia estar em contato com extraterrestres. Ele também assinava como Dino Kraspedon e Sábado Dinotos.” E a revista UFO Especial: Testemunhas, Abduzidos e Contatados – Parte 1, em sua edição 74, de outubro de 2013, reeditou o artigo com uma nova diagramação e o novo título de “Aladino Félix, o contatado que queria comandar o mundo” [Campo Grande (MS), Centro Brasileiro de Pesquisas de Discos Voadores (CBPDV)/Mythos Editora, p.42-49].

O sociólogo Lísias Nogueira Negrão, da Universidade de São Paulo (USP), um dos maiores especialistas em messianismo no Brasil e que integrou a banca examinadora de minha tese de mestrado, fez várias referências ao grupo “terrorista e ufologista” de Aladino Félix, como ele qualifica, em seu artigo “Revisitando o messianismo no Brasil e profetizando seu futuro”, publicado na Revista Brasileira de Ciências Sociais nº 46, de junho de 2001 (São Paulo, vol. 16, p.119 a 129; citações a Aladino e Suenaga nas págs. 126 e 129).

22 de março de 1999, dia da defesa de minha tese de mestrado A Dialética do Real e do Imaginário: Uma Proposta de Interpretação do Fenômeno OVNI – a primeira no Brasil nesse patamar acadêmico sobre ufologia –, desenvolvida junto ao Departamento de História da Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Assis, entre os anos de 1994 e 1998 sob a orientação do antropólogo Prof. Dr. Benedito Miguel Angelo Perrini Gil e o apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Da esquerda para a direita, o Prof. Dr. Milton Carlos Costa (Unesp), o mestrando Cláudio Tsuyoshi Suenaga (segurando a tese), Prof. Dr. Lísias Nogueira Negrão (USP) e o orientador Prof. Dr. Benedito Miguel Angelo Perrini Gil (Unesp).
Antonio Celso Barbieri.

O músico, produtor, agitador cultural, militante político, jornalista e escritor Antonio Celso Barbieri, desde Londres, nos forneceu um importante testemunho de sua “quase fatal participação” no grupo de Aladino Félix em seu artigo “Sábato Dinotos: Discos Voadores, Ditadura Militar e o dia em que Barbieri quase entrou numa fria!”, publicado em seu site em 26 de novembro de 2012. Barbieri fez várias citações aos meus trabalhos e fez questão de reproduzir na íntegra o meu já referido artigo “A verdadeira história de Dino Kraspedon e Aladino Félix”, publicado na edição 134, de junho de 2007, da revista UFO.  Em suas palavras, “O trabalho de Cláudio Suenaga, 1968, A História Que Tentaram Apagar, traz revelações surpreendentes sobre a figura de Aladino Félix e levanta a suspeita de que a sua participação na história daquele conturbado período foi subestimada pelo descaso ou preconceito de nossos historiadores. As informações a seu respeito se resumem a rotulá-lo de louco ou lhe atribuir um papel secundário. Há muitas evidências de que Aladino tinha contatos com altos escalões do Regime Militar e é provável que acreditasse servir-se deles no seu projeto de tomada do poder. Pode ter sido um inocente útil que acreditava no apoio de alguns militares aos seus planos, ou também um bode expiatório utilizado por eles para deflagrar a caça às bruxas. Para o pessoal da esquerda, ele não passava de um simples informante ou agente provocador. O Dr. Walter Bühler declarou que Aladino havia sido treinado pela CIA, em Chicago, de onde, ‘por uma razão qualquer, foi desligado’. As evidências de suas ligações com autoridades militares e as suspeitas de que poderia ter agido cumprindo ordem deles nunca foram investigadas a fundo. Isto é compreensível partindo de quem estava ligado ao Regime Militar; só não consigo entender o desinteresse dos historiadores em geral, que poderiam talvez levantar fatos inéditos de nossa História. As autoridades sempre negaram qualquer ligação com Aladino e apenas diziam que recebiam dele informações e denúncias, de caráter grave, sobre a situação do país. Mas, na época, falava-se que o terrorismo de grupos paramilitares de direita não começara nos anos 60, mas décadas atrás, nos anos 40 e 50. Aladino também fez esta denúncia, mas tido na conta de ‘louco’, ‘místico’ e ‘visionário’, ninguém acreditou que por trás dele pudesse ocultar-se uma ‘gigantesca rede conspiratória que ao longo dos anos assumiu o controle de todos os aspectos da vida da nação’.”

Assim é que desde pelo menos a defesa de minha tese em 1999, é de conhecimento acadêmico e público que o grupo de Aladino, intrinsecamente ligado aos altos escalões do Governo Militar, embora muito mais identificados, em suas convicções, pregações e ações, às facções esquerdistas, foi o responsável pela escalada do terror que assolou a capital paulista em 1968, a qual contribuiu sobremaneira para disseminar o clima de agitação e desordem que abriria o leque de justificativas para o fechamento total do regime mediante a decretação do AI-5.

Manchete da edição de 10 de setembro de 1968 do jornal Última Hora de São Paulo. Fonte: Arquivo do Estado de São Paulo.

O terrorismo visava instaurar, até janeiro de 1969, um clima propício à implantação de uma ditadura plenipotenciária que viesse a conter o avanço das esquerdas. O governo, percebendo a reação negativa da população a essas atitudes, atribuía sua autoria à extrema-esquerda. A linha dura aproveitava-se da instabilidade e do medo gerados por suas ações para reivindicar o aumento das medidas repressivas e o fechamento político. As diretivas promanavam de Brasília e chegavam pelo correio, mas Aladino contrariou muitas delas. Deixou de desferir ataques contra o Ministério da Aeronáutica e as instalações da Marinha, pois queria evitar mortes. Nesse caso, a finalidade precípua era a de criar, entre aviadores e marinheiros, um espírito concorde com a ditadura. Desviou-se dos alvos originais e atingiu outros, sem importância militar. Recusou-se a assassinar um trêfego político muito em evidência em São Paulo. “Confundiram-nos com pistoleiros”, lamentou Aladino. Conforme explicou, por não terem cumprido à risca todas as ordens é que foram delatados às autoridades como terroristas: “A Polícia sabia de nossas atividades, mas a prudência nos manda fazer silêncio sobre certas coisas.”

Ou seja, Aladino não só foi o primeiro a prenunciar que uma Contrarrevolução dentro da Contrarrevolução de 31 de março de 1964 (termo que prefiro a Golpe ou Revolução de 64, uma vez que se tratou de uma legítima reação militar e de setores conservadores à tentativa de instauração de um regime comunista no Brasil) estava em vias de ser implementada, como comandou um grupo terrorista sui generis, de cunho ufológico, milenarista e messiânico a fim de, com seus atentados a bomba – cerca da metade deles, entre eles a detonação de bombas no terminal do Oleoduto em Utinga, no edifício da Bolsa de Valores, no edifício do Fórum Distrital da Lapa, no QG do 2º Exército e defronte ao prédio do DOPS –, culpabilizarem a esquerda e insurgir como uma “Terceira Força” que nos sonhos e profecias megalomaníacas de Aladino tomaria o poder.

Atentado na Bolsa de Valores. Foto: Arquivos do DOPS.
Atentado no 4° Fórum Distrital da Lapa. Foto: Arquivos do DOPS.

Atentado diante do prédio do DOPS. Foto: Arquivos do DOPS.

Ante o recrudescimento dos movimentos esquerdistas, a linha dura, no afã de reconquistar as posições que estavam sendo perdidas, lançou-se ao expediente de recorrer às mesmas armas estratégicas daqueles aos quais combatia, ou seja, as do terrorismo, chegando a ponto de aceitar a colaboração tácita de uma figura ambígua, excêntrica e extravagante como Aladino, certamente menos por essas características referidas do que pela forte influência que exercia sobre altos oficiais e demais subordinados que o encaravam como um autêntico “conselheiro”, “profeta”, “guru” e “messias”.

As ações de Aladino, nesse tocante, eram tão secretas que nem suas altas conexões impediram que acabasse preso e torturado “por engano” pelo DOPS e demais órgãos da repressão política em decorrência do único assalto a banco que praticaram para angariarem fundos. Aladino e seus sequazes também foram um dos primeiros a relatar sem meias palavras as torturas a que foram submetidos – e que seriam infligidas nos anos seguintes a centenas de terroristas, militantes e suspeitos de ligação com movimentos subversivos – nas dependências do Departamento Estadual de Investigações Criminais (DEIC), o que instou a formação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar as acusações assacadas contra autoridades policiais.

Após a derrocada do movimento que preconizou e protagonizou e de cumprir pena, sem que suas megalomaníacas pretensões se tornassem realidade, Aladino nunca mais se refez dessa viagem às profundezas do inferno e seu passado tornou-se um exorcismo doloroso. Poderíamos simplesmente classificá-lo como um mitomaníaco ou um louco, porém, se nos restringíssemos a anatematizá-lo ou circunscrevê-lo em uma categoria fechada, estaríamos compactuando com os que pretenderam obliterar a dimensão e extensão de seus atos, muitos dos quais executados não a contento, e sim sob a orientação e conivência de setores extremistas, instalados nas sombras, que o convenceram a cumprir um plano metódico de subversão interna. Não seria exagero sustentar que os atentados deflagrados pelo grupo de Aladino na maior cidade do país anunciava o processo de radicalização da violência política que se generalizaria nos anos vindouros.

Por um capricho tétrico da história, quando se preparava para submeter-se a uma cirurgia de hérnia, um medicamento que tomou levou a complicações e, não resistindo, faleceu em 11 de novembro junto com o regime que ajudou a endurecer e que, ardilosa e sorrateiramente, por meio dos mesmos instrumentos, pretendia derrubá-lo, catalisando as insatisfações tanto da esquerda quanto da direita para assumir o poder como Terceira Força. Se Aladino jamais lutara em favor da ditadura ou de seus opositores esquerdistas, a não ser os de seus próprios interesses – que, em sua essência messiânica e milenarista não deixaram de ter uma forte conotação esquerdista vinculando-se aos projetos de dominação mundial da esquerda política, ainda que numa outra esfera e dimensão –, os militares, pode-se dizer, jamais lutaram propriamente em favor da “ditadura” que implantaram, e sim para preservar a ordem e a democracia contra a marcha avassaladora do totalitarismo esquerdista.

Documento obtido por Cláudio Tsuyoshi Suenaga no Crematório de São Paulo dando conta do falecimento e da cremação de Aladino Félix.

A época do Regime Militar tem sido até hoje encarada não pelo que realmente foi, mas de maneira “engajada”, sob a égide ideológica, de acordo com o interesse reduzido de alas e facções, das mais moderadas às mais radicais, basicamente a dos direitistas e conservadores a evitarem que o país sucumba ao comunismo, e a dos esquerdistas e revolucionários a insistirem que a luta de classes e a instauração da ditadura do proletariado culminará inevitavelmente no devir social. Isso explica em parte porque o grupo de Aladino Félix, um ádvena naqueles tempos, foi quase que irremediavelmente desdenhado ou distorcido. Se por um lado os esquerdistas procuram manter intocável o mito das esquerdas, por outro os direitistas tentam minimizar ou justificar a violência e as perseguições praticadas.

Apesar de aparentemente díspares, os demais grupos revolucionários e o de Aladino possuíam semelhanças intrínsecas, não somente pela recorrência ao terrorismo, mas pela característica fundamental de evocarem para si objetivos superiores que transcendiam interesses limitados, parciais, circunstanciais e partidários. A instalação do paraíso na terra, que no caso de Aladino se anunciava, em perfeita conjunção e consonância com seu tempo, com o fim de uma era e o começo da reconstrução, em pleno trópico abençoado, da Jerusalém Celeste, continua sendo o mote tanto dos movimentos socialistas, comunistas e globalistas, como dos messiânicos e milenaristas em geral.

Historiadores obnubilados e militantes sectários estigmatizaram o grupo de Aladino, apesar deste, a exemplo de seus compatriotas, estar igualmente animado e impregnado por aquele espírito fanático e belicoso típico dos que se devotam fervorosamente a uma doutrina salvadora e estar igualmente convencido de que urgia lutar por um mundo ideal, o que passava necessariamente pelo esmagamento de adversários que encarnavam o mal. Esse aspecto, frequentemente negado porque perturbador, afigura-se fundamental, já que a grande maioria imbuiu-se da certeza de que defendia uma causa absolutamente justa contra um inimigo capitalista.

A semelhança entre os demais grupos revolucionários e o que analiso reside justamente aí: seus objetivos não eram circunstanciais ou partidários, mas evocavam e arrogavam para si interesses superiores que transcendiam horizontes parciais e limitados, constituindo-se em movimento de remotos precedentes históricos e indefinidas projeções futuras. Aladino, o escritor que propalava em seus livros estar em permanente contato com os tripulantes dos discos voadores e se autoproclamava a derradeira encarnação do messias, anunciava, em perfeita conjunção e consonância com seu tempo, o fim de uma época e a inauguração de uma Nova Era com o começo da reconstrução, em pleno trópico abençoado, da Jerusalém Celeste.

Um dos primeiros a apontar integrantes de facções militares de extrema-direita como parte dos responsáveis pela onda de atentados terroristas que ele mesmo ajudou a deflagrar em São Paulo, Aladino Félix antecipou-se em muito aos que só anos mais tarde criaram coragem para tanto, conforme deixei explícito no tópico “Resistir ou servir” do Capítulo II “Começa onde termina: Do desbaratamento da Terceira Força à abertura política” de meu livro O Brasileiro que Queria Governar o Mundo: A História Oculta de Aladino Félix (Sábado Dinotos), o Terrorista que Abalou o Regime Militar:

Luiz Alberto Machado Fortunato convidou José Amaral Argolo e Kátia Maria Ribeiro a escreveram com ele parte da história do Brasil que assistiu como filho do coronel de artilharia Alberto Carlos Costa Fortunato, um dos mais ativos integrantes do grupo secreto. O livro A Direita Explosiva no Brasil: A História do Grupo Secreto que Aterrorizou o País com Suas Ações, Atentados e Conspirações, identificou parcela significativa dos personagens que estavam por trás do terrorismo nos anos 60 e 70, indo ao encontro daquilo que Aladino e outros denunciaram; terrorismo esse que não teria começado ali, mas décadas atrás, nos anos 40 e 50, quando davam seus primeiros e decisivos passos no cenário político nacional.[1]

A conclusão sobre o que os autores ouviram e anotaram é a de que o Brasil possui duas histórias: a oficial e a verdadeira. A que todos conhecem, costurada como um romance épico e transmitida nas salas de aula e nos centros de formação para a vida religiosa ou militar, e a que emerge das profundezas, por vezes aparentemente louca, mas praticamente inquestionável.[2]

As conspirações do grupo secreto, que, sob inúmeras denominações ou siglas, disseminou o pânico entre as esquerdas e procurou inibir, com a utilização de bombas, as manifestações contrárias ao Regime Militar, estavam “esquecidas” e as referências eram limitadas. A peça chave para o resgate da história foi o coronel Fortunato, então com 75 anos e residente em um modesto apartamento em Brasília. Confessadamente um dos mais ativos integrantes do grupo secreto, prestou depoimento revelador enunciando os nomes e codinomes dos integrantes do grupo e igualmente daqueles que trabalhavam na “periferia” da Comunidade de Informações, caracterizados pelos gestos e idiossincrasias. O labirinto onde se ocultavam os operadores da Ala Radical foi igualmente desvendado.[3]

Remanescente do grupo de oficiais do Exército engajados primeiramente na luta contra Getúlio Vargas e, depois, contra o ministro da Guerra, general Henrique Teixeira Lott, companheiro de lutas do legendário tenente-coronel aviador Haroldo Coimbra Velloso e do brigadeiro João Paulo Burnier, a sua história pessoal é de alguém que, conscientemente, participou das ações de toda uma geração de militares a partir de 1945, quando termina o Estado Novo e, entre os países vitoriosos após o cataclisma que durou seis anos, teve início outra forma de conflito dissimulada e letal, a Guerra Fria.[4]

Oficialmente afastado das atividades conspiratórias, Fortunato manteve-se “antenado” sobre o que acontecia de importante nos bastidores do governo e, em particular, no Alto Comando do Exército. Graças a uma eficiente rede de colaboradores e amigos, colheu informações precisas sobre o descontentamento da oficialidade, sobretudo no que dizia respeito a operacionalidade das tropas e ameaças à soberania do país.[5]

Para ocupar o tempo, desenvolvia estudos avançados nos campos do kardecismo e da parapsicologia, temas que, acreditava, não haviam sido pesquisados adequadamente em nosso país.[6]

Em nota de apresentação, Moniz Bandeira salientou que o livro “veio comprovar que o terrorismo no Brasil sempre foi um recurso a que a direita apelou muito mais do que a esquerda. Aliás, muitos atos de terrorismo atribuídos à esquerda, nos anos 60 e 70, foram na verdade praticados pela direita com vistas a justificar a repressão”.[7]

Os militares de extrema-direita estavam dispostos a tudo a fim de oferecer justificativas para a supressão dos resquícios liberais remanescentes no primeiro semestre de 1968. As ações da esquerda radical não eram suficientes para a criação do clima propício ao fechamento completo. Daí a formação, às expensas do alto escalão governamental, de organizações paramilitares e de grupos provocadores como o de Aladino que, tendo em mente acirrar o conflito armado criando um “ambiente de agitação e de terrorismo nos órgãos governamentais, de maneira a trazer a inquietação geral”, compactuou com a direita radical fomentando a oportunidade de desferir um golpe particular como Terceira Força.[8]

A explosão de uma bomba no Gabinete do Comandante do 2º Exército, na Rua Conselheiro Crispiniano, ao lado antigo QG da FP, pouco depois das 22 horas da noite de 15 de abril de 1968, destruiu o elevador, quebrou vidraças e arremessou portas a vários metros de distância. A Polícia Técnica auferiu que a bomba não era de fabricação caseira e de pouca potência como a que atingiu o Consulado Norte-Americano, nem como a que falhou, na sede da PF. A Técnica achava que se tratava de uma bomba-relógio. O barulho da detonação foi ouvido em quase todo o quarteirão em volta do QG. Alguns estudantes do Curso Politécnico de Engenharia, situado bem à frente do QG, saíram da sala para ver o que havia acontecido e assim que chegaram ao meio da rua foram detidos como suspeitos pelos soldados da FP.

Logo após a explosão, os soldados se espalharam pelos arredores impedindo que as pessoas se aproximassem. Agitados, armados de metralhadoras, negavam-se a fornecer qualquer informação e não permitiam a passagem de jornalistas e fotógrafos.

A Polícia Técnica chegou às 22h45. Pelo lado de fora, era possível divisar as enormes vidraças da porta de entrada espatifadas com o deslocamento de ar. Os bombeiros, que entravam e saíam do prédio num vaivém contínuo, também não quiseram falar. Um deles se perguntava como alguém conseguira colocar uma bomba no próprio QG. Comentava baixinho, ao lado do carro gerador: “Só sei que essa bomba teve força suficiente para mandar várias portas a grande distância. Se alguém estivesse por perto, morreria na certa.” Às 23 horas, chegou a RP 304, trazendo um moço alto, magro e de bigode, que andava perto do QG na hora da explosão. Cinco minutos depois, os soldados traziam pelo braço um dos professores do Curso Politécnico, detido por tentar libertar seus alunos. O cabo-do-dia, muito nervoso, insistia com os repórteres para que se afastassem da porta de entrada: “São ordens, muitos pais de família poderiam ter morrido hoje.” Às 23h30, chegava os pais do moço de bigode, recebidos na porta do prédio pelo filho.[9]

A Técnica apurou que a bomba fora lançada do vitrô do banheiro de um conjunto desocupado, no sexto andar daquele prédio. A pessoa não teria jogado com força suficiente, fazendo-a cair na área do edifício: um vão de apenas um metro, cinco andares abaixo e um acima do Gabinete do General Syzeno Sarmento. Darci Lima, vendedor da loja Marisa, viu “um foguinho” na área de serviço da loja. Pediu à telefonista Iara Mendes que fosse buscar um copo d’água para apagá-lo, enquanto abria a porta corrediça de vidro, curioso para ver do que se tratava. Aproximou-se do foguinho saindo de um embrulho cor-de-rosa em cima de um vaso com plantas. A pouco mais de um metro de distância, certificou-se de que era uma bomba e voltou-se para alertar os outros funcionários da loja. Nesse instante, a bomba explodiu atrás dele. “Saiu como um foguete pelas minhas costas, quebrou oito janelas e desapareceu.” O vendedor e a telefonista foram os únicos a ver a bomba e as únicas vítimas: ele quebrou a perna e ela sofreu arranhões.

A bomba, que explodiu às 18h05, era semelhante ao do Consulado dos Estados Unidos: um cano de aço galvanizado de 30 centímetros de comprimento por 5 centímetros de largura, preenchido de pólvora negra, soldado em uma das pontas, fechado com uma rosca em outra e com um pavio em uma delas. A bomba explodiu na área de serviço, no primeiro andar, por onde passavam os tubos de ventilação do Edifício Hélio, um andar acima da sala do general Syzeno Sarmento. Uma janela grande do segundo andar foi quebrada. No Edifício Hélio, oito janelas se quebraram e os estilhaços fizeram mais de vinte furos nas paredes.

O secretário da segurança, Ely Lopes Meirelles, anunciou que “por ser um quartel do Exército, as investigações estão a cargo da Polícia do Exército, mas a Polícia Estadual poderá colaborar com as autoridades federais, se for preciso”. Dias antes, havia afirmado: “Isso é o elo de uma cadeia de terrorismo de âmbito nacional.”[10]

Quem confeccionou a bomba foi Estefani José Agoston, então com 29 anos. Aladino incumbiu-o da missão, que consistia em atirar o petardo através da janela do edifício defronte, com vistas a atingir o QG. Confiante e subestimando contratempos, por sua própria conta e risco, Agoston levou consigo Raul, filho de Aladino, com apenas 14 anos.

Aladino garantira que ele mesmo havia preparado o local, destravando a janela a ser utilizada. Na hora e no lugar indicado, Agoston acendeu o pavio. Ao tentar abrir a janela, porém, constatou que esta ainda se encontrava travada. Desesperado, já que não era mais possível desativar a bomba a tempo de evitar sua explosão – uma vez aceso o pavio, os parafusos dos canos teriam de ser desatarraxados –, forçou a janela com o máximo de suas forças até que conseguiu abrir uma fresta. Na pressa, arremessou a bomba sem calcular a direção, fazendo com que ela caísse no lugar errado, um andar acima do Gabinete de Sarmento.

Agoston contou-me que confeccionava as bombas com canos grossos de ferro, adquiridos em estabelecimentos comerciais diversos para não despertar suspeitas. Os recursos para a compra dos artefatos saíam na maioria das vezes de seu próprio bolso. Os canos eram preenchidos com dinamite. O comprimento do pavio era calculado de acordo com o tempo previsto para cada missão. Em várias ocasiões, as bombas foram transportadas já com o pavio queimando.

Quanto ao atentado no Oleoduto de Utinga, perto do terminal da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí, Agoston ressalvou que o plano original consistia na colocação da bomba num trecho que, ao explodir, provocaria uma reação em cadeia, incendiando boa parte das reservas de petróleo do país. Por motivos que não quis declinar, na última hora desistiu da ideia e jogou a bomba num outro trecho, causando um estrago de bem menores proporções.

Dois documentos em poder dos advogados do grupo, publicados em Última Hora, provavam cabalmente que Aladino seguia ordens superiores. Uma carta manuscrita, com o timbre do Ministério da Guerra, Comando do 2º Exército, datada de 23 de janeiro de 1968, vinha assinada pelo coronel Edgard Bernardes: “Prezado senhor Dinotos. A pedido do cel. Floriano Campelo, estou pronto para ouvi-lo hoje, às 15h15, no Edifício do Cine Paissandu, nº 78, apt. 1.711. O local é um apartamento meu, onde estaremos mais à vontade. Antecipadamente grato pela sua presença, apresento-lhe minhas cordiais saudações.”

Última Hora, 21 de setembro de 1968, p.10. Fonte: Arquivo do Estado de São Paulo.

Outra carta, só que datilografada, com o emblema da República e o timbre do Ministério da Justiça e Negócios Interiores, Departamento de PF, datada de 8 de maio de 1968, vinha assinada pelo coronel Firmiano Pacheco: “Prezado senhor Dinotos. Recebi a carta e desde já aceite meus agradecimentos pelas informações nela contidas. Encaminhei imediatamente cópia das informações ao meu diretor, tendo ele ficado também impressionando e levará o assunto às autoridades superiores. Esperando contar com a valiosa cooperação que o senhor vem prestando, aguardo novas notícias.”[11]

Última Hora, 21 de setembro de 1968, p.11. Fonte: Arquivo do Estado de São Paulo.

Para o delegado de Polícia adjunto do DOPS, Benedito Sidney de Alcântara, e os investigadores do DOPS, entretanto, as cartas eram apenas uma maneira de Aladino “impressionar seus adeptos e, dessa forma, ser tido em elevada consideração, fazendo supor que essas autoridades apoiavam seus planos diabólicos”.[12]

As autoridades, de fato, negavam ter determinado qualquer missão a Dinotos. Apenas dizem que do mesmo recebiam informações, denúncias, de caráter grave, sobre a situação do país. O que o delegado e seus asseclas não levaram em conta é que a única atitude que se poderia esperar dos militares era que negassem participação naqueles atos, fazendo toda a culpa recair sobre Aladino, um perfeito bode expiatório.

Por trás do “louco”, do “místico” e do “visionário”, ocultava-se uma gigantesca rede conspirativa que ao longo dos anos assumiu o controle da nação.

Na carta de 3 de maio – classificada como Confidencial pelo Centro de Informações do Exército –, a qual instou a resposta de 8 de maio do coronel Pacheco,[13] fica patente o quanto Aladino estava comprometido com setores do próprio governo que agiam nas sombras, sob seu intermédio:

Sábado Dinotos, Carta a Pacheco, 03-05-1968. Fonte: Arquivos dos DOPS.

“Caro Pacheco. Não me foi possível escrever-lhe antes por causa de muitos embaraços que meus inimigos têm criado em meu caminho. Você mesmo foi testemunha daquela farsa que a FP preparou contra mim. As ciladas continuam, porque eles sabem que eu posso barrar-lhes a marcha. Eis o que eu tenho a lhe dizer: Conforme lhe informei – e agora tudo se confirmou – nenhum esquema revolucionário havia para 1º de maio. Disse-lhe também que de 15 a 20 é perigoso. As últimas informações que tenho são as seguintes:

1) Os estudantes querem fazer explodir mais uma bomba no Consulado Norte-Americano, mais ou menos no dia 15. A data pode ser transferida, mas isso já está assentado. Então continuarão com uma série de atentados. Que você acha de introduzirmos alguns ‘revolucionários’ nossos entre os estudantes?;

2) Se tudo der certo para eles, poderão explodir um movimento revolucionário do dia 20 em diante. Eles já conseguiram um comandante militar que se responsabilizará pelos planos de operações;

3) Diversos depósitos de cargas já foram constituídos em vários pontos desta capital. Um dos chefes desses depósitos é um cidadão chamado ‘Stempe’ (seria nome de guerra?),[14] líder comunista.[15] Dezenas de metralhadoras já estariam em mãos dos estudantes. Segundo consta entre os estudantes, unidades do Exército e da FP aderiram;

4) Ontem houve uma reunião dos comandantes de unidades (coronéis) da FP de São Paulo, presidida pelo próprio Comando Geral e na presença de dois oficiais do Exército. Essa reunião foi feita no QG da FP. Um dos assuntos tratados: derrubada do governador Abreu Sodré. Meu informante não me esclareceu bem os termos do modus aprendi. Se isso for verdade e essa loucura consumar-se neste instante de perigo, a nação poderá ser lançada em uma guerra civil.

Quero lhe adiantar que não são os oficiais do Exército que estão propondo à FP essa violência, valendo-se do ódio que alguns oficiais da Força têm contra o governador. Embora esta seja uma carta particular, tomo a liberdade de remeter ao doutor Abreu Sodré uma cópia, sem assinatura, para que ele possa ficar prevenido. Embora o governador não goste de mim – pelo que sei – nunca apreciei assistir impassível a queda de um homem apunhalado pelas costas mesmo que o apunhalado seja meu inimigo. Espero que vocês tomem todas as medidas no âmbito federal, e, inclusive, que investiguem essas coisas em seus detalhes, pois a mim me faltam certos meios e recursos econômicos. A PF os têm. Desejo-lhe bastante sucesso profissional e prosperidade pessoal. Sinceramente, Sábado Dinotos.”[16]

O general de brigada Paulo Trajano da Silva, reformado, então com 54 anos e pai de seis filhos, foi apontado no relatório do DOPS como um dos que tomaram parte nos propósitos de Aladino, servindo como elemento de ligação entre este e as altas patentes do governo. Conhecia-o há vários anos, mantinha sólidas relações de amizade e frequentava sua residência e seu escritório.

Ouvira de Aladino em janeiro de 1968, a denúncia referente ao movimento golpista para depor o presidente da República, acreditando piamente em sua veracidade. Diante da gravidade da situação, solicitou a elaboração de um relatório circunstanciado que faria chegar às mãos de Costa e Silva.

Redigido o documento, eis que o general rumou para o Rio de Janeiro, onde, em companhia do general Moura de Castro e Cunha, entregou-o ao delegado regional da PF da Guanabara, general Luiz Carlos Reis de Freitas, que por sua vez apressou-se em cientificar o seu chefe imediato, o diretor-geral do Departamento de PF, coronel Florimar Campelo. Após uma cuidadosa leitura, Campelo intimou Aladino a fim de que prestasse esclarecimentos adicionais sobre as graves denúncias.

Às 15 horas de 15 de janeiro, em companhia do general Paulo Trajano, Aladino embarcou para o Rio de Janeiro pela ponte aérea, apresentando-se no dia seguinte no Gabinete do general Freitas. Dali foram chamados ao Gabinete de Campelo, a quem expôs de viva voz tudo o que escrevera no relatório e acrescentou novos detalhes.

As denúncias foram tomadas tão a sério que Campelo viajou a São Paulo pouco antes de 25 de janeiro, mantendo encontros secretos com Aladino em um apartamento do Othon Palace Hotel. O coronel manifestou desejo de localizar os depósitos clandestinos de armas aludidas por Aladino, que no entanto esquivou-se da diligência alegando que se a PF aparecesse nas investigações ficaria mal situado perante seu grupo. Campelo alertou também o coronel Edgard Barreto Bernardes, chefe da 2ª Seção do 2º Exército, a ele recomendando futuras diligências para apurar a procedência das denúncias.

Foi em decorrência disso que o coronel Edgard remeteu a Aladino um cartão com timbre do Ministério da Guerra, convidando-o a uma conversa no apartamento 1.711 do edifício nº 78, do Largo Paissandu. Aladino compareceu acompanhado do general Trajano, assegurando ter à sua disposição uma força de blindados capaz de tomar a cidade de São Paulo e expondo um plano de ação concomitante.[17]

Nos interrogatórios a que foi submetido no DOPS, Trajano assentiu que logo após entregar o relatório ao general Freitas, Aladino provavelmente levara o assunto ao conhecimento do presidente da República, pois houvera grande movimentação de tropas militares. Admitiu que: sempre consultava Aladino quando precisava inteirar-se de alguma novidade; assistiu a todas as reuniões de Aladino com os militares aludidos; a PF de São Paulo fornecera a informação de que Aladino fora um colaborador da Contrarrevolução de março de 1964; continuou a manter contatos com Aladino, pois era solidário a Costa e Silva, com quem servira na vida militar e de quem recebera valiosos apoios; Aladino assegurava possuir uma tremenda estrutura para combater os que combatiam a contrarrevolução, a qual incluía cinquenta carros blindados da empresa Brinks, tropas aerotransportadoras do Rio de Janeiro e o concurso da Guarda Civil de São Paulo.

No primeiro semestre de 1968, na residência de Aladino, Trajano ouvira dele a notícia de que, ante a aproximação da data marcada para o início do movimento golpista, várias armas haviam sido furtadas do QG da FP de São Paulo. Embora Aladino não tenha revelado os autores do furto, desconfiou que deveriam ser elementos do próprio grupo. Trajano negou que: tivesse sugerido ou ordenado o furto conforme acusação imputada pelos próprios companheiros, mas tomou ciência dele somente após o fato; soubesse dos atentados terroristas que estavam sendo executados pelo grupo de Aladino, já que ele lhe dizia que aquilo era obra do pessoal da FP e de elementos radicais de esquerda; tivesse participado de qualquer ato terrorista em São Paulo ou em outro lugar; tivesse dado ordens a Aladino ou a qualquer elemento do seu grupo para a prática de atos terroristas; servisse de intermediário para trazer ordens do governo ou de seus colegas de farda a Aladino; tivesse dito que daria um jeito para que a Polícia não levantasse impressões digitais nos locais em que o grupo de Aladino agisse e que se algo houvesse contra os seus sequazes alegaria que eles estariam caçando consigo no estado do Mato Grosso. Por fim, Trajano garantiu que nem ao menos passava pela sua cabeça o fato de sua presença nessas reuniões poder contribuir para incentivar as ações terroristas.[18]

As negativas de Trajano não demoveram o grupo de Aladino a apontá-lo frontalmente como aquele que ordenara o furto de armas no QG da FP. Sugerida numa das reuniões, a ideia contou com o apoio do general, que antes consultou a PF do Rio de Janeiro. Alguns dias depois, retornou à residência de Aladino autorizando-lhe o furto. Como possuía amigos na Polícia, adiantou que não se preocupassem pois daria um jeito dos peritos não levantarem impressões digitais. Ainda que surgisse alguma suspeita, alegaria que teria estado caçando com os membros do grupo em Mato Grosso.

Face às divergências, o DOPS acareou Trajano junto a Aladino, Juracy Gonçalves Tinoco, Edson Vieira, Jessé Cândido de Moraes e Cláudio Fernando Pereira Lopes. Os acusadores, simples graduados e soldados da FP, e portanto seus subordinados, o enfrentaram com firmeza, reafirmando os depoimentos.

Concluiu-se que embora o general não tivesse participado diretamente dos atentados, concorreu decisivamente em suas execuções. Ademais, sabia dos fatos e mesmo assim não levou ao conhecimento dos superiores. Na pior das hipóteses, pecou por omissão. Além disso, a simples presença de um general num grupo constituído por subordinados já manifestaria uma tácita solidariedade. Agiu deliberadamente intencionando incentivar as atividades terroristas. Pela sua conduta, foi também considerado um terrorista e indiciado nos autos, não obstante as dúvidas acerca dos motivos que o levaram a agir: “Seria esse general do Exército mais uma vítima da astúcia de Sábado Dinotos? Sua boa fé ou, admitindo-se sua possível ingenuidade, o levaram a uma vinculação a esse maquiavélico e misterioso homem? Ou, muito ao contrário, tratando de um oficial general, tarimbado da vida, tinha plena consciência de sua conduta e assim poderia mesmo estar se servindo do grupo de Dinotos para desencadear ações de interesse dos extremistas da direita ou da esquerda?”[19]

Nos autos anexados ao relatório do DOPS, lê-se que vários indiciados citavam os nomes do major Edson Isaac Corrêa,[20] da FP, do capitão Zofiel Gouveia de Matos,[21] primeiro-tenente reformado do Exército, e do tenente Moacir Ribeiro de Freitas, da FP de São Paulo, como elementos que privavam da amizade de Aladino e frequentavam a residência e escritório deste. Os três foram ouvidos e nada autorizava suas implicações nos atos delituosos. Outros oficiais foram citados como componentes do grupo revanchista da FP. Contudo, não havia no inquérito elementos que indicassem responsabilidade de outras pessoas.

Em seu interrogatório, o sargento Rubens Jairo dos Santos declinou os nomes que privavam da amizade e mantinham contato frequente com Aladino: general Paulo Trajano da Silva, sargento Esdras de Mattos, major Edson Isaac Corrêa, tenente Moacyr e o tenente Cardoso, todos pertencentes à FP de São Paulo, com exceção de Trajano. Entre os civis estavam Dom Lírio Prado Fontes, da Igreja Ortodoxa Brasileira, o advogado Constantino, o ex-governador Laudo Natel e sua secretária Belmira.

O sargento Jairo confessou que: tomou parte na colocação bombas na EFSJ, na Lapa, e na passagem para pedestres sob os trilhos da EFS; fez explodir uma bomba na composição da EFCB, na Estação Roosevelt; a bomba foi atirada por Agoston contra o QG do 2º Exército em observância a uma ordem que viera do Rio de Janeiro através do general Trajano. A finalidade era alertar o general Syzeno Sarmento, à época comandante do 1º Exército e aliado da FP de São Paulo. Negou conhecer os autores das bombas colocadas no jornal O Estado de S. Paulo, no QG do 2º Exército, no Ibirapuera e no Consulado Norte-Americano. Referiu-se aos transportes de armas dos túneis da FP para o QG do Barro Branco, feitos pelo coronel Canavó.[22]

Por sua vez, Jessé Cândido de Moraes admitiu em seu interrogatório que: há tempos vinha notando frequentes e desusados movimentos por parte de um grupo de oficiais da FP (majores e capitães), sendo que o capitão Cid Benedito Marques participava dessas reuniões em meio a oficiais superiores; vários componentes do Departamento da PM, da FP, entre eles o coronel Cabeti, o capitão Cid e o coronel Canavó, participavam do movimento revanchista; Aladino externava que para seu desiderato dispunha de vários grupos combatentes, sendo que um, por medida de segurança, não deveria conhecer os outros; ouvira de Aladino informações sobre a existência de armamentos escondido em túneis que ligavam os quartéis da FP; aprendera a confeccionar apetrechos explosivos com Aladino, o qual construíra a primeira bomba que servira de modelo para as demais; era o autor da montagem de várias bombas que explodiram, com exceção da que fora colocada no QG do 2º Exército; a bomba colocada no QG da FP fora feita por Aladino e colocada por ele, Jessé, e pelo sargento Juracy Gonçalves Tinoco; colocou uma bomba à porta do prédio ocupado pela Bolsa de Valores; furtou em várias etapas junto com Aladino, Juracy, Cláudio, Ataliba, Juarez, Paulo Francisco Alves e Pierino Gargano, cerca de trezentas bananas de dinamite da Pedreira Panorama, em Perus; em companhia do sargento Juarez e do cabo Edson furtou diversas armas e munições do QG da FP; houve um IPM no QG da FP, presidido pelo capitão Cid Benedito Marques, o qual não conseguiu identificar os autores do furto de armas, isso porque na ocasião os coronéis degladiavam-se em busca de altos cargos e não se preocuparam devidamente com o caso, na suposição de que o desaparecimento das armas seria obra de sabotagem de alguns oficiais; a bomba colocada no Departamento de Alistamento da FP fora confeccionada por ele e colocada pelo sargento Cláudio; junto de Antonio Pereira, do sargento Cláudio e do civil Gregório Cutcheravia, fizeram explodir bombas defronte ao DOPS e nas 4ª e 5ª Varas Distritais; a bomba detonada no DOPS visava desmoralizar o órgão governamental; a bomba colocada na 4ª Vara Distrital destinou-se a conseguir o adiamento de uma ação de despejo a que respondia Aladino e que a bomba colocada na 5ª Vara Distrital, no bairro da Lapa, visava despistar o interesse de Aladino em destruir o Juízo onde respondia a ação de despejo; a bomba colocada no pontilhão da EFSJ fora feita e colocada por ele, em companhia de Pierino Gargano e do soldado Luiz Ataliba da Silva; a bomba explodida no vagão estacionado na Estação Roosevelt foi feita por ele, assim como a do viaduto da Via Anhanguera, colocada pelo próprio em companhia do sargento Cláudio e do soldado Muniz; a bomba explodida no túnel da EFS, no bairro da Lapa, fora feita por ele e colocada pelos sargentos Jairo e Cláudio; Aladino foi quem confeccionara a bomba colocada por Jessé e o sargento Juracy Gonçalves Tinoco no elevador do QG da FP; a bomba do Oleoduto de Utinga fora feita por ele e detonada por Estefani José Agoston e pelo sargento Juracy; Aladino tinha ciência de todos esses atos terroristas e estava concorde com eles. Jessé negou sua participação nas explosões verificadas no prédio do jornal O Estado de S. Paulo, no edifício onde se situa o Consulado Norte-Americano, no prédio do Departamento de PF, na residência localizada à Avenida Rebouças e no QG do Exército, no Ibirapuera.[23]

O capitão Cid Benedito Marques, citado por Jairo e Jessé, foi designado para o IPM que apurava a explosão da bomba no QG da FP. No mesmo dia, foram presos como suspeitos Juarez, e os próprios Jairo e Jessé. Na ocasião em que entrevistei Marques, já então coronel da reserva, chegou até a pensar em consultar seus superiores da PM antes de falar qualquer coisa a respeito do assunto, mas acabou ponderando que depois de quase três décadas não haveria problemas. Marques negou veementemente as insinuações de Jairo e Jessé de que na FP o golpe seria encabeçado por ele e pelos coronéis Canavó, Adauto e Malvásio. Para Marques, Aladino era um “sujeito inteligente e perigoso”. Foi ele quem presidiu o IPM contra Aladino, vindo a conhecê-lo devido a bomba colocada no QG da FP. “E me queimei porque todo mundo queria pôr a mão nele – Serviços de Inteligência do Exército, da Marinha, da Aeronáutica, da PF, do DOPS. Minha companhia o temia. Todo mundo querendo agarrar alguém que estava agitando aí.”

Nos documentos do DOPS consta que Aladino acusava Marques e outros de encabeçar um movimento golpista contra a Contrarrevolução. “Isso não tem fundamento nenhum. Eu sempre defendi a Contrarrevolução de 1964. Inclusive fui ajudante de ordem do general Figueiredo”, rebateu. Mas como e por que surgiu essa versão?

“Sei lá. O Aladino falava coisas desse tipo. Eu de forma alguma participei desse alegado movimento golpista, uma vez que na época estava de prontidão e aquilo foi em âmbito federal. Isso me fere profundamente. Por isso estou querendo desfazer esses enganos. O Canavó já era reformado, tinha sido comandante-geral. Um homem legalista. O Adauto também. Éramos todos antigolpistas.”

Na avaliação de Marques, o assunto disco voador era usado por Aladino como uma fachada, visando encobrir atos subversivos: “Escuta, por que o Aladino estaria se encontrando com o pessoal da FP? Ele alegou que estava se reunindo no Prédio Martinelli para discutir discos voadores. No entanto, para discutir não seria preciso fazer reuniões. Poderia abrir uma sessão pública para o comparecimento do maior número de pessoas.”

Marques se encontrava com Aladino praticamente quase todos os dias em que este esteve preso:

“As audiências eram longas, ele divagava, falava sobre várias coisas. Era uma pessoa inteligente, não posso dizer que não era. Pelo menos deu uma demonstração de sabedoria, de conhecimento alentado. Ele falava que eu era um assassino, que eu matava soldados e os jogava no Rio Tietê… Aí eu conversei com meu comandante, pedindo-lhe calma, pois nos defenderíamos das leviandades.”

Um grande amigo de Marques era o delegado Romeu Tuma. Perguntado se ele estava inteirado do caso Aladino, respondeu: “Sim, porque ele já era do DOPS. Tinha ligações diretas com ele. Mas nenhum deles me informou nada, nem Marinha, nem Exército.”

Sobre os soldados da FP, Juarez Nogueira Firmiano, Cláudio Fernando Pereira Lopes e Edson Vieira, seus subordinados, disse que além de imputarem-lhe várias acusações, desviavam o rumo das investigações com declarações falsas. “Uma vez me garantiram que quem havia colocado a bomba eram funcionários de uma empresa de elevadores. Eu ouvi mais de cem pessoas dessa empresa, perdendo um tempo enorme. Todos eles foram expulsos da FP, mas no outro inquérito, não no meu.”

Ao indagá-lo se o movimento de Aladino teria de alguma forma contribuído para instar a decretação do AI-5, respondeu:

“Nessa época eu estava na Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Dizia para meu colega que as coisas não podiam ficar daquele jeito. As feras estavam soltas. Vivíamos uma situação parecida com a que antecedeu 1964. A ordem social determinava a tomada de medidas drásticas. Imagine só fazer uma Contrarrevolução em pleno regime democrático. Juristas de renome foram chamados e elaboraram as medidas. E o governo aplaudiu. Estava uma baderna, um negócio que ninguém conseguia segurar. E ainda havia Cuba agitando tudo isso. O Brasil caminhava para o esfacelamento. Os subversivos agiam sem limites, arrebentavam tudo. Afora isso o Aladino queria fazer sua revolução particular. Ele tinha lá suas ideias grandiosas. Partiu para o ataque, para as bombas, e aí é que a coisa ficou séria.”

Quais teriam sido as causas determinantes para a decretação do AI-5?

Muito se discutiu a respeito e ainda não se estabeleceu um consenso. Em termos econômicos, o governo não foi verdadeiramente ameaçado. A inflação de 1968 foi de 25,4% e o PIB cresceu em espantosos 9,8%. Não era ainda o “milagre econômico”, mas as classes média e alta – apesar do susto político – consideravam-se protegidas pelo modelo implantado. Por essa razão, alguns pensam que o que ocorreu naquele ano foi o esgotamento de uma etapa iniciada em 1964, que consistiu na tentativa de conciliar a manutenção de um mínimo de democracia com o projeto autoritário de reformas na infra-estrutura.

A oposição ao regime, em termos gerais, estava com seu perfil ampliado. Dois anos antes a ela aderiu um dos homens-chave de 1964, Carlos Lacerda, articulador da Frente Ampla. O movimento foi colocado na ilegalidade pela portaria 177, promulgada por Costa e Silva em 4 de abril, não por acaso logo em seguida às denúncias de Aladino de que um golpe estava sendo preparado.

Para Carlos Heitor Cony, o AI-5 foi o “instrumento de força provocado pela Frente Ampla e não pelas passeatas. Muito menos pela música de protesto. […] Não fosse a Frente Ampla, não teria havido o AI mais truculento de nossa história.”[24]

A minha conclusão foi a de que os historiadores subestimaram o papel exercido pelo grupo de Aladino Félix – responsável por quase metade de todos os atentados ocorridos no período em São Paulo – no quadro político que antecedeu a decretação do AI-5. Os militares radicais buscavam justificativas que reforçassem o enfoque básico da política de contenção da subversão oposicionista. As forças ativas de Aladino contribuíram sobejamente com suas diretrizes ao pressionar o governo para a aprovação do estado de sítio, sugerindo que o regime de 1964 estava em perigo, o que não foi tarefa fácil, pois tiveram de fazer muitas manobras nos bastidores, mas no fim o AI-5 foi deflagrado.

Os complexos aspectos que envolvem as atividades subversivas praticadas pelas alas contrárias ao regime pediam cuidados especiais nas ações objetivando a sua contenção. Os excessos ou desacertos porventura praticados nessa ação poderiam provocar, forçosamente, resultados contrários aos desejados e prejudicar tanto o almejado apoio da opinião pública quanto a necessária compreensão da maioria ainda não seduzida pelas ideias de esquerda. Esses dois últimos aspectos poderiam significar para o governo a abertura de áreas de fricção piores do que as que se desejava eliminar. No fato em exame, a probabilidade de criar essas áreas de fricção ficou tão claramente evidenciada, que os militares linha dura decidiram recorrer ao terrorismo, instando um clima de crescente radicalização.

Reivindicado por um grupo clandestino que se autoposiciona de extrema-direita, os atentados poderiam provocar ainda a reação de extremistas de posição oposta, suscitando uma confrontação de grupos e um processo de represálias de imprevisíveis consequências para a ordem pública. Poder-se-ia atribuir a autoria dos atentados a extremistas de esquerda, interessados na subversão genérica, inconformados com a condução da política governamental, abrindo caminho para a “Contrarrevolução dentro da Contrarrevolução”, o qual, sem a participação do grupo de Aladino, não teria sido possível.

Notas:

[1] José Amaral et alii. A Direita Explosiva no Brasil: A História do Grupo Secreto que Aterrorizou o País com suas Ações, Atentados e Conspirações, Rio de Janeiro, Mauad, 1996, p.5.

[2] Ibid., p.16-17.

[3] Ibid., p.14.

[4] Ibid., 16-17.

[5] Ibid., p.19.

[6] Ibid., p.319.

[7] Ibid., p.11.

[8] Alcântara, Benedito Sidney. “XXVIII-Conclusão”, in Relatório de Inquérito do DOPS, São Paulo, 18-12-1968, p.44.

[9] “Bomba era para general”, in Jornal da Tarde, São Paulo, 16-4-1968, nº 703, ano 3, primeira página e p.24.

[10] “Bomba explodiu no quartel”, in Jornal da Tarde, São Paulo, 17-4-1968, p.7.

[11] Montero, Armando, et alii., op. cit., p.10-11; DOPS, São Paulo, 25-9-1968, nº 30Z/160/129-A.

[12] Alcântara, Benedito Sidney. “XII-Documentos oficiais”, in Relatório de Inquérito do DOPS, São Paulo, 18-12-1968, p.18.

[13] Documento Confidencial (Informação nº 83/69/S-102-CIE) do Gabinete do Ministro do Exército, general Aurélio de Lyra Tavares, datado de 10-1-1969 e com o carimbo do 2º Exército (QG, protocolo sigiloso, Estado-Maior nº 000287, 15-1-1969), aponta o coronel como elemento ligado a Aladino: “Firmiano Pacheco, ex-oficial da FP de SP, veio servir no Departamento Federal de Segurança Pública (DFSP), trazido pelo coronel Jaime Santos (FP/SP), no governo Jânio Quadros. Com a renúncia de Jânio, Firmiano foi o único oriundo da FP/SP a permanecer no DFSP, sob a chefia do coronel Carlos Molinari, na chefia do Serviço de Informações do DOPS. Durante os primeiros dias de março de 1964, Pacheco ausentou-se do serviço, negando-se a comparecer, sob a alegação de encontrar-se gripado. O epigrafado continua como chefe do SI/DOPS. É ligado a Sábado Dinotos (Aladino Félix), conforme carta anexa por cópia.” (DOPS, São Paulo, nº  50D/18/2245)

[14] Esse “nome de guerra” talvez fosse uma alusão a Bernhard Rudolf Stempfle [também chamado pelos pseudônimos de Redivivus e Spectator Germaniae (1882-1934)], padre confessor de Hitler e seu amigo íntimo que o teria ajudado a editar o Mein Kampf (Minha Luta, livro essencialmente autobiográfico publicado em 18 de julho de 1925) e que sabia muito de seu trágico relacionamento com Angela Maria “GeliRaubal, a segunda filha de Leo Raubal e Angela Franziska Johanna Hammitzsch, meia irmã de Hitler. Geli Raubal, objeto de paixão doentia de Hitler, tornou-se sua amante ainda na adolescência, e segundo certos rumores, foi levada ao suicídio pelo alto grau de controle que o führer exercia sobre ela. Já os historiadores afirmam que ela teria se suicidado quando soube que seu tio preferia a filha de um mercador de Berchtesgaden, cidade alemã situada nos Alpes bávaros, no extremo sul da Alemanha e da Baviera, a 30 quilômetros ao sul de Salzburg, cidade no oeste da Áustria.

[15] As relações de Aladino com os terroristas de esquerda, até onde se sabe, eram apenas fortuitas. Um relatório reservado de Santos (SP), datado de 9-9-1968, informava que o PCB mandara imprimir panfletos, mas não autorizara sua imediata distribuição, já que aguardava investigações que estavam sendo feitas em torno das atividades do grupo chefiado por Dinotos. Certificando-se de que não havia notícia de vinculação dos atos de terrorismo de Aladino com o partido, autorizou sua distribuição. Em Santos, entretanto, não foi encontrado nenhum desses panfletos (Serviço de Informações do DOPS, 28-11-1973, fl.2). Informação reservada do Serviço de Informações do DOPS, datada de 20-1-1970, destacava que o jornal Notícias Populares de São Paulo publicara o “quadro de acesso” à promoção de oficiais da FP, figurando, entre outros, elementos ligados a Carlos Lamarca e a Aladino Félix (Ibid., fl.7).

[16] DOPS, São Paulo, 1968, nº 50D/18/2244.

[17] Alcântara, Benedito Sidney. “XI-Atuação do general Paulo Trajano da Silva”, in Relatório de Inquérito do DOPS, São Paulo, 18-12-1968, p.16-18.

[18] IDEM, “XIII-Interrogatório do general Trajano”, in Relatório de Inquérito do DOPS, São Paulo, 18-12-1968, p.18-19.

[19] IDEM, “XIV-Acusações ao general Trajano”; “XV-Acareações”; “XVI-Considerações sobre atuação do general Trajano”, in Relatório de Inquérito do DOPS, São Paulo, 18-12-1968, p.19-21.

[20] Documentos do Serviço de Informação da Polícia dão conta que Edson Isaac Corrêa – recém promovido a tenente-coronel – frequentava a casa de Aladino, juntamente com os sargentos Rubens Jairo dos Santos, Juraci e outros, posteriormente presos e expulsos da FP como réus confessos de atos terroristas. Certa vez, Aladino o alertou que estava para eclodir um movimento no âmbito da FP, recomendando a ele (Isaac) que se afastasse do quartel, devendo, para tanto, quebrar uma perna ou cortar um pé. Por “coincidência”, o epigrafado cortou um pé quando jogava uma partida de futebol. Alegou que comparecia às reuniões no Edifício Martinelli apenas para participar de estudos sobre discos voadores. Embora mantivesse relações com o grupo de Aladino, não lhe foi imputado qualquer punição, já que não tomara parte nos atos terroristas. Exerceu depois a função de assistente militar na Assembleia Legislativa do Estado, onde se infiltrou no Gabinete da Presidência. Estando ali, divulgou pela imprensa que seria criada a Casa Militar da Assembleia Legislativa. Suas atitudes levaram o presidente do Legislativo, deputado Salvador Julianelli, a solicitar providências urgentes em telefonema ao comandante-geral, coronel Cabette, a quem pediu o afastamento daquele oficial (DOPS, São Paulo, 1975, nº 50D/18/2426).

[21] Conversei por telefone com o capitão Zofiel Gouveia de Matos, residente num edifício do Largo do Arouche, centro de São Paulo. Dizendo-se engenheiro, nacionalista e obediente às ordens do Exército, negou-se a prestar maiores esclarecimentos, admitindo somente que costumava frequentar as reuniões de Aladino porque se interessava por discos voadores. Zofiel o teria conhecido na seção esotérica de uma livraria da Rua Riachuelo. Quem o ajudou a ficar livre de qualquer suspeita de ligação com o grupo foi o general Mena Barreto.

[22]Alcântara, Benedito Sidney. “XVII-Personalidade e Atuação do sargento Jairo”, in Relatório de Inquérito do DOPS, São Paulo, p.21-24.

[23] IDEM, “XVIII-Considerações sobre o sargento Jairo”; “XIX-Personalidade e atuação do soldado Jessé”, in Relatório de Inquérito do DOPS, São Paulo, p.24-27.

[24] Cony, Carlos Heitor. “1968, outra vez”, in Folha de S. Paulo, 7-5-1998, opinião, p.2, c.1.