Antonio de Jesus: Um escritor de ficção científica injustiçado e perdido no futuro

Texto de Cláudio Tsuyoshi Suenaga

Fotos de Derli Barroso para a Companhia Metropolitana de São Paulo-Metrô – 20 anos: 1968-1988. Publicação da Assessoria de Comunicação Social do Metrô, Secretaria de Transportes do Governo do Estado de São Paulo. 

Entre tantos escritores talentosos, desconhecidos e esquecidos porque jamais publicados ou bem divulgados, Antonio de Jesus (1949-2002) sem dúvida foi um dos mais injustiçados. Em 1986, seu primeiro e único livro, Deuses: Temíveis Guerreiros Cósmicos,[1] era lançado pela pequena e amadorística Editora Soma,[2] de Guido Fidelis e Torrieri Guimarães, já condenado a ser ignorado e desprezado devido à completa ausência de um esquema de distribuição. Encontrei o livro por acaso no ano seguinte em um atacado de livros na Avenida São João em meio a outros em oferta e liquidação a um preço aviltantemente baixo.

A fotomontagem da capa de Durval Mokarzel Guimarães ostentava sobre um fundo estrelado, na parte superior, a sonda Voyager I[3] indo em direção a galáxia do Sombreiro ou NGC 4594,[4] na parte central um microcomputador da época[5] “teclado” por um ET chifrudo que sai do canto inferior esquerdo e encimado por um cérebro humano flutuando no interior de um monitor transparente. À primeira vista, e até pelo título, pensei tratar-se de uma obra na linha dos deuses astronautas, logo desmentido pela contracapa que esclarecia e confundia ao mesmo tempo, dadas as disparidades:

“Em ficção científica: Discos voadores, origens e consequências; Alecrin: o 10º planeta do sistema solar e seus temíveis habitantes; Dilúvio e destruição de Sodoma e Gomorra; Asteroide: Antigo planeta dos Deuses destruído por armas jamais imaginadas pelo homem; Cérebro Humano: 90% afetado por bactérias enviadas de outro planeta, enfim a restauração após o apocalipse; Cidade do futuro e sistema metroviário; Telepatia, o novo sistema de comunicações de massas; Contração do Universo: tudo em chamas em suas marchas fúnebres em busca do nada. Fora de ficção científica o leitor irá encontrar o máximo em violência urbana. Cortiço Urbano: tragédia e humor; A morte o antídoto de um veneno chamado Vida; E outras estórias regionais paulistanas.”

Do espaço sideral, da ficção científica e ufologia aos protocolos literais da mais crua e ingente realidade das periferias paulistanas: tão atordoante salto não se via desde Matadouro 5 (Slaughterhouse-Five, lançado em 1969), de Kurt Vonnegut Jr. (1922-2007). A apresentação de Torrieri Guimarães patenteia que essa sua capacidade de transitar entre assuntos antitéticos e extremados deve-se mesmo às suas qualidades intrínsecas:

“O bom contista conhece-se pela agilidade da narrativa, pelos altos voos da imaginação e pela originalidade de suas histórias – entre outros preceitos. E aqui está um contista que reúne esses dons, capaz de levar o leitor pelos insólitos caminhos da ficção científica e de trazê-lo de volta aos problemas do cotidiano, à luta comum de todos nós, ao drama dos humilhados e ofendidos. Antonio de Jesus surpreende quando penetra fundo no magma social, revelando o sofrimento de trabalhadores arrastados à favelização, à indigência e à morte. De bancários, abnegados e heroicos e suas péssimas condições de trabalho. De famílias que sofrem a violência urbana. Mas também comove e encanta quando aborda as aventuras de jovens ou a coragem de um pai em defesa do filho. Aí está um autor novo, com o vigor de um veterano.”

A narrativa que faz transparecer o clima vigente à época – diga-se de passagem, incomparavelmente melhor do que o de hoje –, é por vezes entrecortada por observações filosóficas pungentes acerca dos aspectos mais terríveis da existência, um reconhecimento cruel do realismo, do que a vida de fato é. No conto “O grande cortiço”, lemos: “Na verdade ninguém respeita a pessoa humana. Sempre que alguém demonstra respeito por alguém, normalmente este alguém é mais forte de alguma maneira, fisicamente ou monetariamente, mas isso isoladamente não faz parte da dignidade humana, isso são condições secundárias indiferentes da natureza humana.”[6] Em “A garrafada”, temos que “O mundo dos fracos é triste e desumano, pois só os fortes querem levar vantagem. Aos fracos, resta apenas a servidão. Ninguém respeita ninguém, apenas tem medo do que possa acontecer-lhe.”[7] Em “O estupro”, ficamos com a  constatação de que “O Homem nascia com o alvorecer da violência, agora na aurora da mesma o homem é a própria vítima. Continuarão se matando entre si, numa sociedade malformada, onde todo mundo quer usufruir de todos os benefícios das invenções humanas. Só pode dar nisso: a violência é o troféu de honra ao mérito pelas suas próprias criações.”[8]

O breve texto “Contração do Universo”, que reproduzo abaixo na íntegra, é uma das mais belas e poéticas “visões” já tidas sobre o Apocalipse, a atestar uma tremenda paixão pela astronomia:

“A fina garoa caía lentamente sobre minha cabeça (era o começo do apocalipse) formando uma camada espessa sobre meus cabelos. Chuvas de verão se aproximavam fortemente, molhando todo meu corpo. No inverno a tempestade vinha forte, acompanhada de trovões e mortíferos relâmpagos, derrubando tudo que estava em sua frente. A tempestade se aproximava mais e mais, feroz inimiga. Meu corpo ficava mais pesado, meus passos já eram lentos e minha força, menor. Cada vez menor: era a atmosfera que se contraía. As nuvens já estavam próximas, a lua crescia e cada vez ficava maior e a velocidade aumentava para fugir da Terra. Via-se a Lua passar no céu como um cometa, e cada vez mais perto e mais veloz. A água estava mais pesada, as ondas do mar acabaram e a tempestade cessava: tudo se contraía. Não se ouvia mais o murmurar da relva saudando o Sol pelo seu sorriso, nem os lírios do campo nem as rosas nos jardins. O Sol aproximava-se queimando tudo em sua volta. A água que caía das nuvens agora era tão quente que chegava a ferver. De além do infinito apareciam galáxias jamais vistas ou imaginadas. Andrômeda vinha ao meu encontro, Alfa de Centauro estava ali. A estrela de Barnard vinha vindo. Lobo 359 ajudava a queimar-me. Sírio bem próxima: era um pesadelo. Hidra já devorava Prócion e em suas funestas marchas em círculos ameaçava Kapteyn. Van Maanen juntava-se a Altair para juntas lançarem seus raios mortais sobre mim. O pulsar do meu coração agora era mais fraco, agora tudo no Universo era mais fraco: tudo se contraía. Minha alma e meu corpo estavam aprisionados pelo Universo marchando sobre mim com sua força incontida. As Plêiades mais rápidas devoravam todas as outras estrelas em sua marcha em minha direção. Não falarei de Arcturo, Vega, Capela, Aldebarã e Canopo. Alfa do Cisne já vem com Beta. Ó Antares! por que queres ver meu fim? Rigel e Danebo já se lançam com Cão de caça sobre mim. Meu sangue petrificara-se, meu corpo não se mexia mais. Agora o corpo e a alma juntavam-se para sempre. Estava comprimido dentro do Universo. Mundos paralelos se uniam ao meu. Todas as dimensões juntavam-se e vinham ao meu encontro para devorar-me. O pulsar do meu coração estava cessando. Agora só latejava na última agonia do corpo, enquanto a vida se esvaía lentamente. Estava no centro do universo que se fechara sobre mim sem piedade. Agora tudo era menor do que uma bola de bilhar. Minha alma sentia, agora sozinha, o peso da solidão. Não sentia mais as dores do corpo. Estava vagando agora dentro de vários universos que se uniram em suas marchas para o nada. Agora eram menores que o minúsculo pólen de unia flor. Minha alma não sentia mais nada: o Universo sumira.”[9]

São os dois contos iniciais de ficção científica, todavia, que mais cativam pela inventividade, especulação e humor sutil. Vejamos a introdução de “Deuses, Temíveis Guerreiros Cósmicos”, que confere título ao livro:

“Não são deuses, apenas astronautas. Não vieram de outras galáxias distantes a velocidades inconcebíveis, devorando espaços imensuráveis. São oriundos do próprio sistema solar e nunca ultrapassaram a velocidade da luz dentro da própria Via Láctea, por não ser possível. Seus habitantes são hábeis navegadores cósmicos. Sua posição no sistema solar é a mais próxima possível da Terra. Seu nome é Alecrin e fica apenas a meia elíptica da própria Terra. O mesmo é diametralmente oposto à Terra com relação ao Sol. Alecrin possui as mesmas proporções do nosso planeta: tamanho, gravidade, distância do Sol, velocidade de translação, dia, mês, ano e por incrível que pareça a raça tem alguns traços semelhantes aos dos terrestres. São pouco menores que os terráqueos e são megacéfalos, enquanto a pele é branco-esverdeada. O aprendizado das crianças, na maioria das vezes, é nas próprias naves. Seus mestres são eletrônicos. A nave Epsilon viaja rumo à Terra levando no seu interior dois tripulantes. Um é o comandante da nave, o outro é aluno e filho do mesmo. Este tipo de nave é conhecida aqui na Terra como Disco Voador.”[10]

A premissa de Alecrin, “a apenas a meia elíptica da própria Terra” e “diametralmente oposto à Terra com relação ao Sol”, é a emulação de um conceito interessante, mas superado pelas explorações espaciais e observações telescópicas, da existência de um outro planeta com as mesmas dimensões e características da Terra a orbitar, exatamente com a mesma velocidade, do outro do Sol. O filme de ficção científica que melhor explorou esse conceito, acrescido ao de uma Terra paralela “replicada” ou “espelhada”, foi o cult britânico de 1969 Doppelgänger, também intitulado Journey to the Far Side of the Sun (Viagem ao Outro Lado do Sol), concebido, roteirizado e produzido pelo casal Gerry e Sylvia Anderson [os criadores das séries Thunderbirds (1965-1966) e Space: 1999 (1975-1977)], dirigido por Robert Parrish e estrelado por Roy Thinnes, o protagonista da série The Invaders (Os Invasores, 1967-68). Em Doppelgänger (termo alemão que significa “duplicata” ou “uma cópia de si mesmo” e que remete à lenda de que se você encontrar seu doppelgänger é o momento de sua morte), uma missão conjunta NASA-EUROSEC (Conselho Europeu de Exploração Espacial) envia no ano de 2069 (ying-yang e alusão sexual ao mesmo tempo) uma nave com dois astronautas para investigar um planeta em uma posição paralela a Terra atrás do Sol, o qual se revela uma cópia reflexa da Terra onde todos os aspectos da vida são idênticos e correm de maneira simultânea, mas ao contrário.

Pelo diálogo mantido entre Épicro, o filho do comandante, e o computador da nave que lhe ministrava aulas durante a viagem, ficamos sabendo que a luz quando viaja livre da gravidade desenvolve maior velocidade e que quando não está sob a influência de campos gravitacionais, chega a atingir mil vezes sua própria velocidade; que Deus quer dizer “ser andante”, pois deriva da palavra Déu, seu planeta de origem naquele aglomerado de asteroides entre Marte e Júpiter; que Deus passou a ser a designação genérica a todos seres oriundos do cosmo ou algo superior a eles; que foram eles que instituíram as primeiras normas aos primitivos terrestres; que os deuses eram exímios navegadores cósmicos e temíveis guerreiros e que todas as raças tinham que se submeter a eles, e quem se recusasse a cumprir suas exigências era destruído; que o povo de Épicro devia muito a eles, e que tudo que tinham havia sido legado por eles; que eles navegavam por toda a galáxia, instruindo e criando leis para o bem comum dos nativos, fazendo experiências genéticas em animais e transformando os escolhidos em seres dominantes; que um dia eles partiram para a galáxia de Virgem, mais precisamente para um gigantesco planeta que gira em torno de Spica (estrela principal da galáxia); que nossa galáxia gira em torno de Virgem (em um maroto trocadilho sexual complementar com Spica), juntamente com inúmeras galáxias, formando nosso aglomerado nebuloso, e todos os aglomerados nebulosos giram dentro do Universo; que eles travaram uma acirrada batalha e destruíram uma colônia avançada virginiana; que os virginianos os perseguiram por todo o Universo até que finalmente destruíram seu planeta de origem entre Marte e Júpiter; que os virginianos vieram até Alecrin onde também os afugentaram; que sem tempo de completarem o trabalho, os deuses fugiram, prometendo aos terrestres que voltariam; que até os dias de hoje os virginianos os perseguem para eliminar seu cerne do Universo, motivo pelo qual jamais retornaram ao nosso sistema solar; que Serafim era a designação hierárquica no topo da qual se encontrava o Deus supremo, o comandante-geral do planeta, seguido pelos altos comandantes, pelos Querubins e assim por diante; que no comando de uma nave cósmica o comandante também recebia a designação de Deus (por ser a autoridade máxima da nave); que na Pré-história uma nave contendo milhões de bactérias colidiu com a Terra e contaminou todos os seres vivos do planeta; que as bactérias resistiram a todos os tipos de drogas, e na tentativa de salvar a raça humana, conseguiram isolá-las em algumas pessoas, o que os levou a orientá-las separando os puros para depois provocar o Dilúvio na esperança de salvar a raça; que separaram Noé e seus parentes, guiando-os e orientando-os na construção da arca; que o Dilúvio havia sido provocado com várias naves distribuídas na atmosfera, as quais combinaram os gases existentes transformando-os em água até a Terra ficar totalmente coberta; que quando todas as formas de vida foram eliminadas, o processo foi invertido; que as mesmas naves distribuídas por todo o planeta decompuseram a água nos gases anteriores, daí porque a água do mar é salgada; que na terceira geração verificaram que os micróbios haviam criado resistência, pelo que foi preciso um novo método de isolá-los, até que o conseguiram definitivamente, tendo então de separar as pessoas escolhidas, pelo que destruíram Sodoma e Gomorra, onde estava o grande foco da praga; que séculos depois os micróbios começaram a minar a resistência de todos e evoluíram com as novas condições do planeta, alojando-se em uma parte do cérebro, no que se tornou impossível combatê-los; que a missão ora em curso visava destruir toda forma de vida na Terra e semear uma “raça totalmente pura” antes que alcançássemos outras civilizações nos sistemas próximos, propagando assim os micróbios naqueles povos; que só 10% de nossos cérebros funcionam porque foi afetado pelas bactérias; que a eliminação definitiva delas, para que sejamos tão inteligentes quanto eles, é um processo demorado que levará cerca de um milhão de anos, já que o cérebro vai sendo restaurado lentamente, de geração em geração; que a nova destruição iria ser feita mediante a eliminação do Cinturão de Van Allen, sem o qual os raios ultravioletas do Sol nos matarão em poucos dias; que quando tudo estiver acabado, esterilizarão todo o planeta de modo a evitar a proliferação de alguma forma de vida resistente, para só depois reconstituírem o Cinturão de Van Allen; que quando tudo estiver cientificamente controlado, trarão para cá os novos espécimes da raça pura, ao que a Terra voltará ao estágio propício para a nova vida.[11]

O melhor conto do livro é “Perdido no Futuro”, o relato de uma viagem no tempo que se realiza fortuitamente por meio de uma dobra ou buraco de minhoca que se abre em pleno trecho do túnel da linha norte-sul do Metrô de São Paulo. Geraldo de Mello, um pacato e típico jovem cidadão paulistano, casado, morador da zona sul, sai pela manhã para levar um presente à sua mãe (aniversariante naquele dia), que residia a um quarteirão da última estação do metrô (Santana):

“Ele entrou no primeiro carro do metrô. Logo que partiu, ficou olhando para a estação, instintivamente, como se estivesse olhando para o vazio. O percurso era feito em vinte minutos. Chegou no ponto final e saiu calmamente. Chegou na roleta de saída, passou despreocupado, sem se importar com a presença dos outros passageiros (se é que existia algum). Subiu as escadas que davam acesso à rua da residência da senhora sua mãe e, logo que chegou lá em cima, ficou atordoado ao olhar para os lados. Ficou boquiaberto ao ver no lugar da rua, uma enorme avenida de calçadão com gigantescos edifícios. Os carros em tráfego eram poucos. Todos desconhecidos. Os emblemas eram das fábricas conhecidas, as placas eram da própria cidade, mas os carros que ele estava acostumado a ver não viu nenhum. Era assustador e ao mesmo tempo fascinante, ver aquela enorme avenida com automóveis de todas as marcas e diversos formatos. Olhou para um ônibus que passava, o mesmo era constituído de dois andares. Em seguida outro. Logo, outro e mais outro. Não pôde contar a quantidade. Ônibus com dois andares! Incrível! Como é que eu nunca li nos jornais nem vi na televisão que lançaram aqui estes ônibus. Os ônibus também eram sanfonados. Sanfonados era comum, mas com dois andares nunca! Olhou para cima e percebeu que o sistema de contato elétrico era diferente (igual ao dos trens elétricos). Tentou contar os andares de um edifício mas não foi possível: 100, 200, 300, 400? Não era possível contar. Logo percebeu que todos tinham a mesma altura.”[12]

A um transeunte, Geraldo perguntou quantos andares exatamente tinha o edifício, ao que ouviu como resposta que “Qualquer criança sabe que todos têm 480 andares!” Ao sacar um cigarro e pedir que lhe acendesse, o transeunte olhou para o maço de cigarros, e, com um ar de espanto, perguntou-lhe onde o havia comprado, pois que aquele cigarro era de fumo e não era mais fabricado. O transeunte informou ainda ao atônito Geraldo que aquele cigarro pertencia agora ao “museu do cigarro”: “Sim, museu de cigarro! Além desta marca ainda há outras lá expostas com a história dos cigarros nocivos e de muitos pacientes que vieram a morrer de câncer e de outras doenças originadas por este e outros cigarros lá expostos”. Perguntado pelo transeunte se ele residia naquela cidade, Geraldo respondeu: “Absolutamente! Eu nasci aqui em 05-09-1998.” O transeunte “esboçou um pequeno sorriso e disse: Nós estamos no ano 2101. Isto quer dizer que o senhor tem exatamente 103 anos.”[13]

Geraldo entrou em um bar e pediu uma água mineral. O atendente disse-lhe que não havia água mineral, ao que ele pediu uma Coca-Cola: “Coca-Cola? o que é isso? Ele não discutiu, virou as costas, foi para uma praça próxima e sentou-se em um banco. Nisso vem um robô com um talão de notas. E com voz metálica disse: São Cr$ 1,00 (Um Mundi) = (nova moeda vigente no século vinte e um). É um mundi a taxa para sentar. Favor facilitar o troco.” Sem ter um mundi, Geraldo levantou-se do banco e resolveu voltar para casa, pois já era quase hora do almoço.[14]

A caminho do metrô, ouviu um barulho no ar e viu “um objeto com o formato de dois pratos, um em cima do outro, cujo diâmetro era superior a 300 metros”, parecido com “um disco voador que os antigos diziam que viam. Era um disco cheio de janelinhas com luzes piscando como um luminoso de propaganda. Ele não se conteve e perguntou a um moleque” o que era aquilo. O moleque lhe respondeu: “É um ônibus espacial. Por que, o senhor nunca viu?” Geraldo confirma nunca ter visto, e o moleque do futuro não perde a oportunidade para tirar um sarro de sua cara. “O senhor é desse planeta?”, pergunta a Geraldo, que comete o erro de responder que não. “Então deixa eu adivinhar! Bem! pela sua pergunta o senhor tem que ser do planeta Hidhi do sistema Hotha. Neste caso o senhor é um idiota, ra, ra ra ra ra ra. Enquanto o moleque saía rindo, Geraldo ficava olhando o mesmo afastar-se, com vontade de torcer-lhe o pescoço”.[15] Geraldo põe-se novamente a caminho do metrô, e ao chegar lá

“…viu uma placa de bronze escrito, indicando através de uma seta: metrô do século vinte. Visite os museus ao lado das estações. Cr$ 1,00 (um mundi a entrada). Mais adiante tinha um robô de pé próximo à catraca que ele tinha passado há pouco tempo atrás, e um guichê ao lado. Ele puxou uma nota de mil cruzeiros e deu para o robô-caixa. Logo em seguida veio a negativa: ‘Este dinheiro não vale. Foi recolhido em 10-09-2050’. Geraldo voltou e logo viu em frente no outro lado da avenida uma agência bancária. Ele atravessou, entrou na agência, dirigiu-se ao caixa e perguntou: É possível trocar esta nota? O caixa disse: Não podemos trocar. Este dinheiro só é comercializado no Banco do Brasil.”

Geraldo dirige-se então ao Banco do Brasil no nº 100 da mesma avenida, e ao mostrar a nota para o gerente, este lhe pergunta onde o havia conseguido. “Ele ia contar a estória real, mas logo lembrou que o gerente ia chamá-lo de louco ou, quem sabe, talvez chamar a polícia para prendê-lo.” Geraldo diz que a nota havia sido deixada como herança pelo seu pai e é certificado de que ela vale um milhão de mundi.[16]

“Geraldo saiu dali com aquela fortuna sem saber ao certo o seu valor real. Comprou a entrada, entrou no metrô, olhou para todos os lados e observou: era igualzinho. A estação era a mesma que ele tinha passado há algum tempo para ir à casa de sua mãe. Este metrô agora funcionava como coisa do passado. Não servia mais de condução, devido à sua lentidão e barulheira. Mas ainda andava por todas as estações com toda eficiência para o qual foi criado no seu século, mostrando aos habitantes da época como era a condução no passado. Todos os povos que saíssem de um extremo ao outro da cidade tinha que tomá-lo obrigatoriamente. Aquele metrô agora era para levar os turistas às estações-museus históricos da cidade, das quais ele fazia parte. Tudo que era obsoleto, agora estava exposto ao longo dos 40 km. Este museu histórico mostrava todas as invenções primordiais da raça humana, até o momento atual. Contava a história também do sistema de comunicações, desde os tambores da selva até a comunicação telepática em todos os detalhes. Quando Geraldo chegou à estação começou observar um aparelho quase igual a uma televisão, cujas proporções eram de dois metros de largura por quatro de comprimento, sendo que embaixo havia teclas com todas as letras do alfabeto e números de l a 0. Ao lado estava escrito Monitorfone.”[17]

O aparelho lhe permitia obter todas as informações que quisesse em poucos segundos pelo preço de um mundi. A imagem de um homem aparentando uns 50 anos apareceu no monitor e passou a lhe responder as perguntas. Quis saber quando ele próprio, nascido em 05-09-1998, havia falecido. “Nisso, Geraldo começou a ouvir um barulho rápido dentro da máquina. Um barulho de algo passando entre alguma coisa metálica.” Após fornecer informações adicionais que o diferenciassem de homônimos, ficou sabendo que havia sido dado como desaparecido em 10-05-2019, ou seja, no mesmo dia em saíra para levar o presente à sua mãe. Quis saber em seguida sobre sua esposa Conceição de Mello e seus possíveis descendentes, ao que lhe foi informado que ela havia falecido em 16-12-2022, deixando um filho por nome Geraldo de Mello Jr. “Geraldo não aguentou a notícia, saiu pulando como um louco. ‘Não é possível! incrível! Eu deixo um filho no mundo! O que eu mais queria era vê-lo! Mas, como? Não posso voltar para o passado, mas se eu pudesse, ah! Meu Deus, ajude-me!’ ”. O homem no monitor seguiu informando que seu filho havia se casado com Fátima Jouliete, com quem havia tido um filho de nome Geraldo de Mello Neto, formado em telepatia pela Faculdade de Telecomunicação Cósmica e que havia trabalhado em uma base militar na Lua como engenheiro de telecomunicação telepática. Por aqueles dias já estava aposentado e residia na Rua Antares, nº 6, no Centro. Curiosamente, descobri que esta rua não fica propriamente no Centro de São Paulo, mas próxima à Rodovia Presidente Dutra em São José dos Campos, sendo a via principal da Avenida Andrômeda, de onde saem também as ruas Sírius, Plêiades, Polar, Altair, Regulus, Gemini, Castor e Cefeu.

O homem no monitor completou informando que a frequência telepática de seu neto, que tinha quatro filhos com identificações idênticas, podia ser obtida em “dados adicionais”. Geraldo solicitou em dados adicionais a frequência telepática dele, mas não o obteve porque sua frequência telepática era confidencial e ele só podia receber mensagens através do Ministério de Defesa Galáctica e ainda “só em caso de invasão alienígena nos limites de segurança intergaláctica.”[18]

Impedido de contatar seus próprios descendentes, Geraldo quis saber “sobre corpos em mudança de tempo sem considerar espaço”, ao que lhe é informado laconicamente que “há apenas teorias a esse respeito. Não há até o momento caso consumado, mas há leves evidências a respeito do caso. Trata-se de segurança de Estado.” Quis saber também “sobre toda transformação da cidade nestes últimos 100 anos”, ao que lhe é explicado que “toda a cidade foi derrubada e em seu solo foi construída uma plataforma de ferro e concreto armado, com uma espessura de 20 metros, e em cima dessa plataforma foram edificadas as novas habitações atuais, de modo que, se houver terremoto, as bases sólidas aguentarão os edifícios. Estes edifícios foram construídos com a mesma altura: 480 andares. Há uma praça central de onde saem todas as avenidas principais. […] Os ferros (para construir toda esta cidade de ferro e concreto) vieram dos asteroides, pois ainda existem asteroides que podem fornecer ferro para nosso planeta tanto quanto o peso do mesmo. O cimento também pôde ser extraído dos asteroides.” Quanto ao novo sistema de transportes urbanos, lhe foi explicado que “o novo metrô funciona por dentro dos edifícios, sendo que as estações são dentro dos próprios edifícios”, de onde os passageiros sobem e descem por meio de “grandes elevadores com capacidade para 300 pessoas cada um, sendo que cada edifício-estação tem em média 30 elevadores. Há cinco linhas de metrô dentro dos edifícios no sentido sul e no norte a mesma quantidade nos edifícios em frente. Estes metrôs funcionam em todas as grandes avenidas que saem da praça central e dirigem-se para todos os pontos cardeais. Ainda há os metrôs circulares distantes uns dos outros apenas um quilômetro. Todos andando dentro dos edifícios.” Com isso, os automóveis haviam se tornado desnecessários dentro da cidade e o seu uso agora era restrito. “Somente algumas pessoas devidamente autorizadas pelo governo podem usá-los. Porém há as auto-estradas onde qualquer cidadão pode usar seu carro para se locomover para outras cidades ou estados.”[19]

Sem saber para onde ir, “Geraldo ficou pensativo […] Agora era um rico homem, mas sem a coisa mais importante: a família. E além disso era um homem estranho para quem quer que fosse. Pertencia ao século anterior e não poderia viver normalmente até que assimilasse a nova época. Os Robôs chegaram e disseram: ‘Acabou a visita a esta estação. Tempo esgotado, senhores’. Geraldo foi junto com os outros para a próxima estação que agora era a central. Ao chegar na estação central, saiu e entrou na cidade para não mais sair.”[20]

Histórias sobre viagens no tempo não constituem propriamente novidade desde pelo menos A Máquina do Tempo (1895), de H. G. Wells, mas o conto de Antonio de Jesus destaca-se por estar repleto de elementos originais e de antecipações (ou profecias) que se cumpriram de maneira quase exata ou aproximada. O movimento antitabagista move campanha implacável pela proibição total do fumo (do cigarro, não da maconha e de outras drogas, cujo consumo, paradoxalmente, vai sendo descriminalizado em todas as partes), enquanto leis antitabagistas draconianas impostas pela OMS [Organização Mundial da Saúde (World Health Organization), subordinada à ONU] vão banindo os fumantes que ainda restam para guetos cada vez mais restritos, tudo, claro, em nome da saúde. O “monitorfone” assaz se parece com os atuais terminais de internet espalhados por todos os cantos, prontos a oferecer as informações de que necessitamos. O “barulho rápido de algo passando entre alguma coisa metálica” que saía de dentro da máquina faz lembrar o ruído feito pelos HDs de nossos computadores (infelizmente ainda não totalmente silenciosos), principalmente quando exigimos que acessem ao mesmo tempo várias áreas da memória. O maior acerto de Jesus, contudo, foi o de ter previsto a adoção de uma moeda única mundial, que ele chama ainda mais acertadamente de “Mundi”, isso em uma época em que pouco ou nada sabíamos acerca da Agenda e dos planos globalistas. Longe de ser uma teoria conspiratória, o fato é que em novembro de 2011 a Conferência da Organização das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento [The United Nations Conference on Trade and Development (UNCTAD)], aventou abertamente a possibilidade de substituir o euro e o dólar por uma moeda global única. Houve até quem sugerisse na internet que essa moeda viesse a ser chamada, aliás muito apropriadamente, de “Mundi”! Um dos argumentos da ONU a favor da moeda global única é o de que ela protegeria os mercados emergentes da especulação financeira. A UNCTAD aventou ainda a hipótese da criação de um banco central global. Uma economia global unificada é um passo fundamental para a implantação definitiva de um Governo Único Mundial.

Entrevista com Armandina de Jesus, viúva de Antonio

Tarde demais, infelizmente, é que consegui localizar o paradeiro da ex-esposa de Antonio, a cabeleireira Armandina de Jesus, então com 53 anos, a quem entrevistei em 15 de março de 2003. Recebi então a triste notícia de que Antonio havia falecido exatamente nove meses antes, no dia 15 de junho de 2002, em decorrência de problemas causados pelo fumo. Quanta ironia. Antonio era um fumante inveterado e, como vimos, previu acertadamente que o cigarro seria banido no século XXI.

Armandina contou-me que Deuses, Temíveis Guerreiros Cósmicos foi escrito entre o final dos anos 70 e a primeira metade dos 80 e publicado às próprias expensas de Antonio, que em meio a muitas dificuldades teve de custear a impressão e cuidar da distribuição. Armandina ajudou a distribuir os livros em algumas livrarias (entre eles as da Rua Barão de Itapetininga), embora, como ela declinou, “sem muita esperança”. Já os livros que ficaram disponíveis no atacado da Avenida São João em sistema de consignação, foram para ali levados por Antonio. “Era preciso ficar verificando se estava vendendo ou não, e como estávamos com uma série de outros problemas, fomos deixando para trás”, lamentou Armandina, e ainda mais pelo prejuízo financeiro amargado, já que sobraram mais de mil exemplares.

Em suma, Antonio não obteve retorno nenhum. “Cada um vem ao mundo pra passar o seu pedaço, então vai fazer o quê?”, resignou-se Armandina. Antonio cursara até o segundo grau e sua formação era basicamente a de um autodidata. “O negócio dele era ler, ler, ler e escrever. Ele passava o tempo todo lendo. Gostava muito de ficção científica, ufologia e coisas exóticas, estranhas. O sonho dele era se tornar um grande escritor, mas como não deu certo, ficou magoado”, contou Armandina. Antonio teve de limitar-se a seu comércio de materiais de construção na rua Dr. Aureliano Barreiros, próxima à Rua Sabbado D’Ângelo, em Itaquera.

Em 1997, o casal se separou e Antonio passou a viver sozinho em uma residência na Estrada Itaquera-Guaianazes, no mesmo bairro. Armandina revelou que o conto sobre a viagem no tempo pode ter sido baseado nas regressões hipnóticas que Antonio costuma fazer. Segundo ela, ele havia feito cursos de regressão e aplicava em si mesmo o que aprendera a fim de saber sobre suas vidas passadas. Mas o que, afinal, vidas passadas teriam a ver com o futuro que tão bem previra? Eis uma questão que só Antonio de Jesus poderia ter respondido.

Notas

[1] Jesus, Antonio de. Deuses: Temíveis Guerreiros Cósmicos, São Paulo, Editora Soma, s.d.

[2] Então sito à rua Bráulio Gomes, 141, 8º andar, Praça da República, Centro de São Paulo.

[3] Lançada em 1977 e que deixou o sistema solar em 2013 tornando-se a primeira a chegar ao espaço interestelar, carregando consigo um disco de cobre revestido de ouro contendo mensagens e gravações para outras civilizações

[4] Galáxia espiral em formato de chapéu rodeado por um disco achatado, a 28 milhões de anos-luz de distância, descoberta em 1781 pelo astrônomo francês Pierre François André Méchain (1744-1804).

[5] Parecido com o console de um Codimex CD-6809, o primeiro dos clones de TRS Color fabricados no Brasil, baseado no esquema original do TRS-80 Color Computer da Tandy, com espantosos 32 Kb de RAM.

[6] Jesus, Antonio de, op.cit., p.43.

[7] Ibid., p.60.

[8] Ibid., p.86.

[9] Ibid., p.26-27.

[10] Ibid., p.7.

[11] Ibid., p.7-16.

[12] Ibid., p.17-18.

[13] Ibid., p.18-19.

[14] Ibid., p.19-20.

[15] Ibid., p.20.

[16] Ibid., p.20-21.

[17] Ibid., p.21-22.

[18] Ibid., p.22-24.

[19] Ibid., p.24-25.

[20] Ibid., p.25.