Existiram de fato as amazonas?

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

Cronistas e aventureiros que se embrenharam na Amazônia acreditaram piamente durante séculos na existência das valentes mulheres guerreiras sem marido.

Lugar-tenente de Francisco Pizarro (1476-1541) e o primeiro europeu a descer o Amazonas, Francisco Orellana (1511-1546) topou com um comando de dez ou doze mulheres guerreiras quando travava combate com um grupo de indígenas na embocadura do Rio Negro.

Francisco Orellana
As amazonas, segundo Frei Gaspar de Carvajal

O dominicano Frei Gaspar de Carvajal (1504-1584), cronista da viagem – cujo trajeto completo nenhum ser humano voltou a repetir –, as descreve como altas, brancas e de cabelos compridos. Usavam somente uma cinta e combatiam com arco e flecha, com grande bravura, liderando os índios e forçando-os a sustentar a luta, sob pena de os massacrar se desertassem. Somente depois que os espanhóis mataram sete ou oito das guerreiras é que os índios debandaram. Segundo Frei Gaspar, as tribos daquela região estavam sujeitas às amazonas, que mantinham o domínio pela força. Baseado em depoimentos de prisioneiros, narra o cronista que as amazonas habitavam casas de pedra em cidades muradas nas quais havia cinco templos dedicados ao Sol.

Cristóbal de Acuña

O padre jesuíta Cristóbal de Acuña (1597-1675) percorreu o Amazonas em 1639 e também atestou a existência da tribo de mulheres guerreiras. De um dos índios que interrogou, soube que 36 léguas (200 quilômetros) abaixo do último aldeamento de tupinambás encontravam-se os cunuris (índios imberbes da margem esquerda do Amazonas, confundidos pelos espanhóis com mulheres, tendo vindo daí talvez a lenda das amazonas), depois os apantos, os taguaus e, finalmente, os guacaras. Esta última era a tribo com a qual as amazonas mantinham intercâmbio comercial e com cujos homens se acasalavam anualmente.

Charles Marie de La Condamine

De todas as tribos amazônicas que interrogou ao longo do curso do rio em 1743, o francês Charles Marie de La Condamine (1701-1774) ouviu invariavelmente a mesma versão dando conta de uma poderosa tribo de mulheres guerreiras. Conforme apurou, teriam elas se retirado subindo o Rio Negro ou um de seus afluentes, rumo ao norte. Foi nesta região, entre os topayos ou tapajós, que ele encontrou as famosas pedras verdes, chamados pelos índios de muyrakytã, já que sua dureza resistia a instrumentos de aço. Os topayos diziam que haviam recebido os amuletos verdes de seus pais, que os teriam recebido das cougnantainsecouima, ou mulheres sem marido. Um antigo soldado de Cayenne disse a Condamine que havia participado de uma expedição às nascentes do Oyapoc, região onde nascia outro rio que desaguava no Amazonas. Aí teriam encontrado as índias que usavam amuletos verdes pendurados no pescoço, presenteados pelas mulheres sem marido.

Os muiraquitãs suscitam as lendas mais desencontradas e as revelações mais contraditórias. De todas elas, porém, a que mais caracteriza a pedra verde da Amazônia é a de que eram dados como lembrança das icamiabas, mulheres sem marido, aos homens que as visitavam e com quem se acasalavam anualmente, ou, segundo outras versões, somente àqueles com quem tinham concebido filhas. A tradição adornou esse ato de galas e de festas, vestiu essa visitação de romantismo e de enlevo. Graças a isso, convencionou-se que as tribos de mulheres nas noites de luar, colhiam no fundo do lago as pedras ainda umedecidas e moles, lavrando-as sob diversas formas e dando-lhe feitios de batráquios, serpentes, quelônios, bicos, chifres, focinhos, conforme nos apresentam os estudos do botânico Ladislau de Souza Mello Netto (1838-1894), diretor do Museu Nacional do Rio de Janeiro, e do engenheiro, naturalista e botânico mineiro João Barbosa Rodrigues (1842-1909). Tempo houve em que era fácil o comércio desse amuleto. As pedras foram, porém, escasseando, constituindo hoje uma raridade tanto mais desejada, quanto se lhe atribui a virtude de favorecer ao seu possuidor a aquisição de coisas imponderáveis como a felicidade, o bem-estar, o amor e outras prendas furtivas.

João Barbosa Rodrigues

Incumbido de explorar o vale do Amazonas em 1871, João Barbosa Rodrigues realizou extensas pesquisas sobre o muiraquitã e as celebrou –  com uma certa dose de imaginação, talvez, mas com edificante e curiosa contribuição – no seu livro O Muyrakytã e os Ídolos Symbólicos, de 1899. Para ele, o artefato foi trazido ao Amazonas por tribos da Ásia Central, portadores de cultura superior, que aí se instalaram, misturando-se às tribos locais. Um indicativo disso é que a rocha de que é feito, conhecida pelo nome de nefrite ou jade oriental, era considerada por Confúcio como o símbolo da virtude. “Ainda hoje, para muitos, o muiraquitã é uma pedra sagrada”, escreve Barbosa Rodrigues, “tanto que o indivíduo, que o traz no pescoço, entrando em casa de algum tapuio, se disser: muyrakitan katu, é logo muito bem recebido, respeitado e consegue tudo o que quer”.[1]

Já para o arqueólogo Aurélio de Abreu, a com quem conversei pessoalmente, “a existência de ídolos de pedra, encontrados na região amazônica, que não parecem ter sido de confecção local”, bem como “a adoração dos muiraquitãs, pequenos ídolos de jadeíta, pedra especialmente apreciada pelos povos da América Central”, seriam explicadas pela vinda ao Brasil dos povos dessa região, “que tanto poderiam ter vindo por terra – e existem muitos sinais de migrações, detectáveis na Nicarágua, Panamá, Colômbia e Venezuela – como por mar, utilizando embarcações a partir de Honduras”.[2]

Cláudio Tsuyoshi Suenaga com Aurélio Medeiros Guimarães de Abreu em seu escritório na Rua 24 de Maio, 116, 4º andar, conj. 22 e 23, República, São Paulo, SP. Foto tirada em 23 de janeiro de 1997 por Pablo Villarrubia Mauso.

Fernando G. Sampaio defendeu em seu livro As Amazonas, a Tribo das Mulheres Guerreiras, que os muiraquitãs, encontrados justamente nos locais associados às lendas, atestariam a “realidade por atrás da lenda das amazonas”. Lembra Sampaio que

“os muiraquitãs são sempre reproduções de animais sempre batráquios, isto é, sapos ou rãs. É por demais conhecido que a rã é um símbolo feminino e, ainda mais, da fertilidade da mulher, por excelência, sendo os órgãos sexuais femininos conhecidos em muitas regiões do interior, até mesmo no Rio Grande do Sul, como ‘sapinho’, ‘perereca’ e outras denominações que tais… Não devemos esquecer que a rã também é um ente místico, que evoca mistério e é muito utilizado nas práticas de feitiçaria e magia negra. […] Não há dúvida que a rã esculpida nas pedras verdes é um símbolo teogônico antiquíssimo, que figura em várias mitologias, inclusive no Velho Mundo, ao lado do peixe, e está relacionado com o culto lunar matriarcal da Grande Mãe Terra, entidade protetora e criadora de onde provinha tudo e, ao mesmo tempo, era – e ainda é – o símbolo da fecundidade máximo.”[3]

A versão mais completa da lenda dos muiraquitãs, citada por Sampaio,[4] foi coletada pelo historiador de Belém do Pará Frederico José de Santa-Anna Nery, ou Barão de Santa Anna Néry (1848-1901), entre várias tribos, sendo apresentada pelo historiador amazonense Mário Ypiranga Monteiro (1909-2004) no seu Roteiro do Folclore Amazônico:

“Em determinadas épocas do ano, as amazonas celebravam a data da vitória sobre os homens. Elas se preparavam para essa celebração gloriosa com uma purificação simbólica. Chegado o dia da festa, desciam da sua colina e arribavam aos bandos para as margens do lago mais belo entre todos os outros, o lago Iaci-uaurá – O Espelho da Lua. Lá, durante a noite, enquanto a Lua refletia sua luz doce no espelho do lago, as amazonas banhavam seus corpos morenos nas águas lustrais. Depois, purificadas por esse banho tradicional, elas invocavam a mãe do Muiraquitã, da pedra verde como a floresta vizinha, e ela, condescendente, dignava-se aparecer no ‘sabat’ noturno. A fada misteriosa presenteava a cada uma das suplicantes uma pedra verde, o muiraquitã, portando desenhos simbólicos e com a forma que a amazona preferisse. A índia levava seu talismã que, exposto à luz do Sol, aos raios do dia (uarací), endurecia e guardava a forma definitiva que nada podia mudar. Esse talismã mágico, ela não o conservava para si. Era o presente que reservava ao índio que recebia cada ano, em época determinada. O índio levava-o, suspenso no pescoço, essa ‘pedra das Amazonas’, que ainda se encontra nos dias de hoje (por volta de 1880) entre eles. Ela, a pedra, os preservava de malefícios e lhes assegurava felicidades nas suas empresas.”[5]

Uma das crendices e um dos enigmas arqueológicos mais interessantes, esses raros e maravilhosos artefatos de jade foram encontrados, graças à paciência de ilustres naturalistas, no Baixo Amazonas, especialmente nas fozes ou embocaduras dos rios Tapajós, Trombetas e Nhamundá, bem como nas praias da cidade de Óbidos. Devido a ausência de jazidas de jade em estado natural, muitos atribuem uma origem extracontinental a essas pedras. O jade é uma rocha esbranquiçada ou esverdeada, algo semelhante a um vidro opaco, constituída essencialmente de piroxênio.

Pude ver e fotografar três raros exemplares de muiraquitã no Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP) durante a exposição “Formas de Humanidade”, que se realizava em janeiro de 1997, conforme foto abaixo.

Notas

[1] Rodrigues, João Barbosa. O Muyrakytã e os Ídolos Simbólicos. Estudo da Origem Asiática da Civilização do Amazonas nos Tempos Pré-históricos, Rio de Janeiro, Biblioteca Nacional, 1899 Cconsiderado um dos clássicos da antropologia e, principalmente, da arqueologia brasileira, o trabalho de João Barbosa Rodrigues é bastante original por criar uma metodologia de análise arqueológica um tanto diferente das tradições europeias e americanas. Seu trabalho foi focado no norte do Brasil, principalmente na Amazônia. A obra trouxe, à época, conhecimentos inéditos sobre os muiraquitãs, sua cultura, seus simbolismos e sua sociedade.

[2] Abreu, Aurélio M. G. de. Reinos Desaparecidos, Povos Condenados, São Paulo, Hemus, s.d., p.62.

[3] Sampaio, Fernando G. As Amazonas, a Tribo das Mulheres Guerreiras: A Derrota do Matriarcado pelos Filhos do Sol, São Paulo, Aquarius, 1976, p.45-46.

[4] Ibid., p.44.

[5] Monteiro, Mário Ypiranga. Roteiro do Folclore Amazônico, Manaus, Editora Sergio Cardoso, 1964.