Os 50 anos do fim do terrorismo-messiânico de Aladino Félix, o contatado que abalou o Regime Militar

A verdadeira história de Dino Kraspedon ou Sábado Dinotos, o contatado, líder messiânico e terrorista que queria ser o rei do mundo

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

Foto: Jornal da Tarde, com arte digital de Antonio Celso Barbieri.

Há pouco mais de 50 anos, em 22 de agosto de 1968, Aladino Félix, que usava os pseudônimos de Dino Kraspedon e Sábado Dinotos e se auto-intitulava o “Messias” do povo judaico e alegava manter contatos com extraterrestres de Júpiter, era preso pelo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) e demais órgãos da repressão política do Regime Militar (1964-1985) junto com vários de seus seguidores em decorrência do único assalto a banco que cometeram, para angariar fundos. Com esse desatino, chegava ao fim, de maneira constrangedora e deprimente, o tão acalentado projeto de dominação mundial de Aladino, que pretendia cumprir à risca as profecias bíblicas e de Nostradamus, que ele mesmo traduziu.

Embora tenha conseguido escapar por duas vezes da prisão, Aladino acabou recapturado. Depois de cumprir pena e ser solto no início de 1972, desapareceu no ostracismo, sem que suas megalomaníacas pretensões se tornassem realidade. Essa inacreditável história, porém, não termina aí: em 1994, nove anos depois de sua morte, um farsante, o bancário aposentado Oswaldo Pedrosa, de 90 anos de idade, tutelado por dois ufólogos estelionatários, assumiu a identidade de Dino Kraspedon, abjurando, porém, qualquer ligação com Dinotos, e passou a apresentar-se em congressos e simpósios de ufologia como sendo o primeiro brasileiro a manter contatos com extraterrestres!

Personalidade polifacética, Aladino Félix valeu-se dos heterônimos de Dino Kraspedon,[1] Sábado Dinotos[2] e Dunatos Menorá,[3] escreveu livros como Contato com os Discos Voadores – clássico da literatura ufológica mundial traduzido para a língua inglesa, vendido também na Dinamarca, França e Alemanha –, A Antiguidade dos Discos Voadores – que se antecipava a Erich von Däniken –, Mensagens aos Judeus e O Hebreu – os quais reforçavam seu papel de salvador –, além de chefiar, no final da década de 60, um grupo terrorista sui generis, de cunho milenarista e messiânico, um ádvena naquele conturbado período da história do Brasil, mergulhado na ditadura.

Conforme ia tentando decodificar de modo apriorístico os significados linguísticos dos pseudônimos, fui sendo levado, pouco a pouco, a revisitar uma antiga e problemática história, edificada num entroncamento em que se cruzam uma infinidade de variantes. Como no final de 1994 realizava pesquisas no Arquivo do Estado de São Paulo para minha tese de mestrado na Unesp (Universidade Estadual Paulista), a primeira no Brasil sobre o Fenômeno OVNI, aproveitei para consultar os recém liberados documentos do DOPS, ali depositados, e qual não foi minha surpresa ao descobrir várias pastas contendo centenas de páginas de processos e relatórios do DOPS e do Serviço Nacional de Informações (SNI) relacionados a Aladino Félix! Por coincidência, naquele mesmo dia, 19 de dezembro de 1994, Edson Chicaroni Vieira, um dos seguidores de Aladino, ali comparecia em busca de detalhes oficiais a respeito da história da qual tomara parte.

Edson Vieira, um dos seguidores de Aladino Félix, consulta pela primeira vez os documentos do DOPS nos quais foi citado. Foto de Cláudio Tsuyoshi Suenaga.

À medida que ia escutando-o, sentia que os acontecimentos passados ainda estavam vivos e presentes para Edson. Embora tenha conhecido outros militantes políticos que guardam fortes recordações, certamente em nenhum deles elas pesavam tanto. Edson não conseguira suplantá-las, e permanecia vivendo numa espécie de tempo contínuo, que anulava as chances de um rompimento. O mais impressionante foi notar que as ideias de Aladino continuavam a influenciá-lo, não tão fortemente quanto na época das ações, mas de qualquer forma orientando sua maneira de viver e de pensar. Para cada questionamento, Edson possuía um arsenal de respostas, quase sempre preservando a legitimidade dos atos praticados. Defendeu enfaticamente que “se” tudo tivesse saído como o planejado, “o mundo estaria bem melhor, no seu verdadeiro rumo”. A vida de Edson fundiu-se espiritual e organicamente com a do movimento preconizado por Aladino, de tal modo que se tornou impossível uma desvinculação.

Edson Vieira e Cláudio Suenaga no Arquivo do Estado de São Paulo, que abrigava os documentos do DOPS. Foto de Alfredo Moreno Leitão.

Alguns meses depois, também graças a Edson, conheci Edgard Alves Bastos, um dos melhores amigos de Aladino. Em sua companhia fui à casa de Raul Félix, filho de Aladino, que guarda uma coleção de obras e uma série de documentos – cartas, atestados, certidões, manuscritos, etc. – de seu pai. Seguiram-se outras entrevistas e uma intensa troca de correspondências com personalidades que de alguma forma estiveram envolvidas com a fantástica história.

Cláudio Suenaga ao lado de Raul Félix e Edgard Alves Bastos na residência de Raul em 12 de outubro de 1995. Foto de Antonio Manoel Pinto.

Cinco anos de laboriosas buscas em empoeirados arquivos, cinco anos de fatigantes investigações, cinco anos de estudos especializados e de consultas a jornais, revistas antigas e fotografias, cinco anos debruçados sobre documentos, decodificando fichas, rascunhos e apontamentos – eis quanto exigiu de mim a apuração da verdadeira história de Aladino Félix, a qual reconstituo, em detalhes épicos e monumentais, no livro ainda inédito O Brasileiro que Queria Governar o Mundo: A História Oculta de Aladino Félix (Sábado Dinotos), o Terrorista que Abalou o Regime Militar [ou A História Oculta do Regime Militar: Verdades Suprimidas pela Comissão da Verdade – O Terrorismo Messiânico de Aladino Félix (Sábado Dinotos), o Brasileiro que Queria Governar o Mundo]. Metade de minha tese de mestrado defendida em 1999 no Departamento de História da Unesp foi dedicada à história de Aladino, bem como o mais longo capítulo do meu primeiro livro Contatados: Emissários das Estrelas, Arautos de uma Nova Era ou A Quinta Coluna da Invasão Extraterrestre?, publicado em 2007 pela Biblioteca UFO. Dedico também um longo capítulo a Aladino em meu outro livro inédito Sangue no Céu: A Agenda Apocalíptica das Religiões, Seitas e Sociedades Secretas.

No antigo prédio do Arquivo do Estado de São Paulo, na rua Dona Antônia de Queirós, 183, no bairro da Consolação, centro de São Paulo, localizei no final de 1994 os documentos do DOPS sobre Aladino Félix (vulgo Dino Kraspedon e Sábado Dinotos). Este foi o arquivo em que passei mais tempo pesquisando, vários anos de total dedicação para trazer à tona um assunto até então ocultado e proibido. Fotos de Cláudio Tsuyoshi Suenaga e César Augusto Atti (as que estou segurando os documentos do DOPS sobre Aladino).

Refarei aqui, ainda que sucintamente e de trás para frente, sua trajetória meteórica de contatado influenciado por George Adamski a líder de um grupo sectário responsável por cerca da metade de todos os principais atentados políticos ocorridos em São Paulo em 1968, que se confundiram com aqueles cometidos pela esquerda, e que contribuíram sobremaneira para disseminar o clima de agitação e desordem que abriria o leque de justificativas para o fechamento total do Regime Militar por meio da decretação do Ato Institucional Nº 5 (AI-5), em dezembro daquele ano.

Ligado aos altos escalões do Governo Militar, embora muito mais identificado, em suas convicções, pregações e ações, às facções esquerdistas, Aladino insurgiu-se como o primeiro a alertar que uma revolução dentro da Contra-revolução (termo que prefiro a Golpe ou Revolução de 64, uma vez que se tratou de uma legítima reação militar e de setores conservadores à tentativa de instauração de um regime comunista no Brasil) de 31 de março de 1964 estava em vias de ser desencadeado, e a denunciar, junto com seus sequazes, as torturas a que foram submetidos nas dependências do DEIC, o que instou a formação de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para apurar acusações assacadas contra autoridades policiais.

Apesar de aparentemente díspares, os demais grupos revolucionários e o de Aladino possuíam semelhanças intrínsecas, não somente pela recorrência ao terrorismo, mas pela característica fundamental de evocarem para si objetivos superiores que transcendiam interesses limitados, parciais, circunstanciais e partidários. A instalação do paraíso na terra, que no caso de Aladino se anunciava, em perfeita conjunção e consonância com seu tempo, com o fim de uma era e o começo da reconstrução, em pleno trópico abençoado, da Jerusalém Celeste, continua sendo o mote tanto dos movimentos socialistas, comunistas e globalistas, como dos messiânicos e milenaristas em geral.

Do golpe que não houve ao AI-5

Em março de 1968, aos 48 anos de idade, Aladino Félix, imbuído da crença de ser “O Escolhido” na Terra para reunir as 12 tribos de Israel e depois governar os hebreus, único povo que, segundo ele, escaparia da destruição mundial, preconizada no Apocalipse, enquanto os demais povos pereceriam nas chamas, por serem impuros e se originarem de Vênus, Marte, Saturno e outros planetas considerados de categoria inferior, estava prestes a pôr em execução seu mirabolante plano de dominação mundial.

O velho Prédio Martinelli na rua São Bento, Centro de São Paulo, QG de Aladino, em foto de Cláudio Suenaga.

No minúsculo escritório que mantinha no Prédio Martinelli, na rua São Bento, centro da capital paulista, ministrava “cursos” sobre discos voadores, religiões e profecias. Em ocasiões oportunas, desviava o assunto e abordava questões políticas. Expedindo conceitos ousados e externando situações reconhecidamente existentes, impressionava a qualquer pessoa que se dispunha a ouvi-lo. Os que ali compareciam possuíam fortes motivos para nele acreditarem e por isso o defendiam incondicionalmente. O cabedal de conhecimentos que desfilava acerca dos mais variados assuntos, principalmente os atinentes às esferas reservadas de poder, tornava-o ao mesmo tempo temido e respeitado. Com tantas qualificações, passou a ser encarado como um elemento de utilidade em prol da segurança nacional. Realmente conhecia muita gente e conseguia circular em altos escalões das esferas estaduais e federais. Suas palavras eram recebidas com reservas pelas autoridades, porém não eram desprezadas, tanto que, em decorrência delas, foram tomadas providências acauteladoras.

De início atraía seus correligionários com a isca dourada dos assuntos referentes a “discos voadores”. Cooptados, eram conduzidos e doutrinados politicamente, transformando-se em instrumentos úteis, facilmente manejados pelo “Escolhido de Jeová”. Em seus contatos com oficiais do Exército, tentava contagiá-los, e graças aos informes que difundia, encontrava certa receptividade. Nele acreditaram, aceitaram suas ideias alarmantes, expostas de forma austera e convincente.

Em tom de realismo fantástico, os jornais começavam a publicar uma série de reportagens bombásticas em 5 de março de 1968, apontando Aladino como aquele que evitara um golpe de Estado em 27 de janeiro, dia em que o presidente da República, o marechal Arthur da Costa e Silva, mobilizara as Forças Armadas depois de ter recebido um bilhete de um amigo, no qual se denunciava uma conspiração contra o regime. “Eu entreguei o bilhete”, assegurou Aladino. De acordo com o que o bilhetinho dizia, Carlos Lacerda – o líder da Frente Ampla, grupo que se opunha ao regime –, em seu discurso no Teatro Municipal de São Paulo, iria pronunciar as duas palavras – Sábado Dinotos – que constituíam a senha para o golpe de Estado. De norte a sul do país, um levante militar teria sido preparado para depor o governo. E quem financiava e inspirava essa rebelião? Nada menos que o presidente da França, general Charles de Gaulle.

O Jornal da Tarde, em sua edição de 5 de março de 1968, destacava as revelações e denúncias políticas de Aladino Félix em tom de realismo fantástico. Fonte: Arquivo do Estado de S. Paulo.

O golpe se devia ao fato do Brasil estar profundamente envolvido na disputa política internacional. A conspiração, segundo Aladino, era chefiada por De Gaulle, com o apoio da URSS, RAU, Argélia e Perón; no Brasil, a Frente Ampla desviava a atenção do governo, enquanto Adhemar de Barros articulava o golpe. Alas lacerdistas do 2º Exército, da Força Pública, da Brigada Gaúcha e das Polícias Militares de Minas Gerais, Santa Catarina e Paraná o sustentariam. Costa e Silva seria assassinado quando viesse a São Paulo em 25 de janeiro, após o que sobreviria o tumulto. Precavido por Aladino, o presidente cancelou sua viagem a São Paulo sem explicar os motivos. Como não veio, o golpe foi transferido para o dia 27 e acabou novamente adiado porque as Forças Armadas entraram de prontidão.

A história viria a comprovar que Aladino não podia ser simplesmente taxado de louco ou irresponsável. Agindo às expensas – ou à revelia, conforme seus próprios interesses – do Governo Militar, contribuía, voluntária ou involuntariamente, na gestação do rebento que nasceria nove meses depois e que por uma década evitaria o assalto do poder pelos esquerdistas, cada vez mais armados, violentos e incisivos em seus atos terroristas de provocação, agressão e retaliação: a Contra-revolução dentro da Contra-revolução de 1964. Não por acaso, logo a seguir às denúncias alardeadas por Aladino de que Lacerda e a Frente Ampla conspiravam perigosamente contra o regime, Costa e Silva esteve a ponto de decretar um novo Ato Institucional, o de nº 5. Na segunda-feira, 1º de abril, quarto aniversário da Contra-revolução, rumores de que o governo iria editar um novo ato ou decretar o estado de sítio invadiram o Congresso.

Atentados, prisões, torturas, julgamentos e fugas

As ações terroristas em São Paulo haviam principiado em fins de 1967 com algumas ocorrências isoladas – assaltos a bancos e carros pagadores. Em 16 de janeiro de 1968, foram furtadas da reserva de armas da Companhia de Comando do QG da Força Pública (FP), uma metralhadora Ina, mais três pistolas Walther e 13 revólveres Taurus, além de diversos carregadores e farta munição. Não obstante, o ciclo agudo dos atentados principiou em fins de março e início de abril, justamente depois das declarações de Aladino aos jornais e simultaneamente às investidas dos militares ultradireitistas em apressar a implantação do AI-5.

Em 10 de abril, um petardo explodiu sobre o elevador do QG da FP. Em 15 de abril, uma bomba foi atirada contra o Gabinete do Comandante do II Exército. Em 15 de maio, um petardo explodiu na entrada do prédio da Bolsa de Valores. Na noite de 19 de maio, uma bomba danificou os sanitários do Departamento de Alistamento da FP. Entre um atentado e outro, a população parecia mais propensa a ver coisas estranhas no céu. A imprensa noticiou que os discos voadores rondavam São Paulo e faziam manobras no bairro da Vila Mariana. Na madrugada de 7 de julho, houve cinco explosões quase simultâneas de bombas em linhas férreas: no pontilhão da Estrada de Ferro Central do Brasil (EFCB); na estação Engenheiro Goulart; na ponte da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí (EFSJ); no terminal do Oleoduto Santos-São Paulo, em Utinga, e na passagem subterrânea de pedestres onde ficavam os trilhos da Estrada de Ferro Sorocabana (EFS). Em 12 de julho, bombas explodiram nos vagões de dois trens, um da EFCB e outro da EFSJ. Em 1º de agosto, por volta das 10h00, um grupo armado de metralhadora e revólveres assaltou uma agência do Banco Mercantil e Industrial de São Paulo, no distrito de Perus. Na madrugada de 20 de agosto, três novas explosões abalaram São Paulo: defronte ao prédio do DOPS, e nos prédios ocupados pelos 4º e 5º Fóruns Distritais.

Jornal da Tarde, 11 de abril de 1968. Fonte: Arquivo do Estado de São Paulo.
Notícias Populares, 8 de julho de 1968.
Última Hora, 20 de agosto de 1968. Fonte: Arquivo do Estado de São Paulo.
Atentado na Bolsa de Valores, no Centro de São Paulo, cometido pela seita de Aladino Félix em 15 de maio de 1968. Foto: Arquivos do DOPS/Arquivo do Estado de Paulo.

Os roubos e atentados – que por sorte provocaram apenas danos materiais e ferimentos leves em algumas pessoas – mencionados correspondiam a quase metade de todas as principais ações terroristas registradas no período. Antes mesmo de qualquer investigação mais apurada, os agentes da repressão atribuíram a autoria das ações a grupos armados de esquerda. Tal pressuposto, justificável pela confusão em que a opinião pública se lançava com o início da luta armada, norteou os trabalhos até o fim das diligências. Assim, quando descobriram que eram de autoria do grupo liderado pelo messiânico Aladino Félix, custaram a reconhecer a verdade.

A edição de 20 de agosto de 1968 do jornal Última Hora já adiantava, em sensacional furo, o envolvimento de Aladino Félix no assalto a banco e nos atentados terroristas que vinham abalando a cidade de São Paulo. Fonte: Arquivo do Estado de São Paulo.

A captura de Aladino e de parte de seus seguidores em decorrência do único assalto a banco que praticaram, para angariar fundos, levou muitos a se precipitarem, atribuindo-lhes os demais atentados. No dia seguinte, em 23 de agosto, Aladino e seguidores foram interrogados e torturados no DEIC pelo delegado Ernesto Milton Dias. Sem opor resistência, Aladino confessou sua participação nos atentados terroristas e discorreu, com detalhes, sobre as bombas que mandara explodir. Removidos para o DOPS, tiveram a prisão preventiva decretada pela 9ª Vara Criminal e pela Justiça Militar.

O jornal Última Hora em sua edição de 24 de agosto de 1968, detalhava os atentados terroristas cometidos pela seita de Aladino Félix.

O Boletim Informativo do Serviço Nacional de Informações (SNI) comunicava, em 29 de agosto, que Aladino e seus seguidores haviam assacado no DOPS gravíssimas acusações contra o general Paulo Trajano, a quem apontavam como “mentor intelectual” do movimento golpista. Em 28 de novembro, Aladino e seu grupo eram transferidos do DOPS para a Casa de Detenção no Carandiru.

O delegado de Polícia adjunto do DOPS, Benedito Sidney de Alcântara, mal terminara de finalizar um extenso relatório sobre o grupo, em 18 de dezembro, quando recebeu a notícia de que Aladino “escapara”. O Boletim Informativo do SNI notificou que “por um equívoco”, o preso na Casa de Detenção fora posto em liberdade por força de alvará expedido pela 9ª Vara Criminal, alusivo ao assalto contra o banco em Perus, o mesmo não ocorrendo com os seguidores detidos no DOPS.

O juiz Marzagão Barbuto, embora ciente de que Aladino se encontrava com prisão administrativa decretada pelo Comando do 2º Exército em função do atentado que se verificou contra esse QG, relaxou a prisão expedindo o alvará de soltura, encaminhado ao diretor da Casa de Detenção pelo próprio filho do juiz, que ocupava o posto de 1º tenente na FP e exercia a função de assistente militar do secretário da Justiça. Estranhamente, o diretor da Casa de Detenção, que costumava sair entre as 18 e 18h30, ficou à espera do alvará de soltura até às 19h30, despachando-o de imediato e colocando Aladino em liberdade. O próprio diretor acompanhou-o até o lado de fora do presídio onde um tenente da FP já aguardava por Aladino, em cuja companhia se retirou num automóvel particular. O que se afigurava mais suspeito, porém, é que o alvará de soltura fora entregue em mãos, quando a praxe era que fosse levado pelo oficial de justiça no horário normal de expediente. Veio-se a descobrir que o juiz Barbuto mantinha ligações com todos os oficiais subversivos da FP, conforme assinalou o relatório do DOPS.

À recaptura de Aladino, liberado “por engano”, deu-se prioridade total. Duas equipes de investigadores diligenciaram buscas em vários pontos da cidade. O seu paradeiro não demorou a ser localizado. Em 7 de janeiro de 1969, a 4ª Zona Aérea informava ao DOPS que Aladino se encontrava homiziado em uma fazenda em Campinas.

Feita a recaptura, entrava-se na fase dos julgamentos. A primeira sentença referia-se ao assalto contra a agência bancária de Perus. Apontado como o mentor intelectual do movimento, o general da reserva Paulo Trajano negou qualquer participação nas tramas engendradas, alegando que frequentava esporadicamente o escritório e a residência de Aladino na qualidade de curioso em assuntos bíblicos e em discos voadores, nunca tendo tomado parte de reuniões subversivas. Trajano, todavia, não escapou de ser indiciado.

De modo surpreendente, em meados de setembro de 1969, Aladino lograva o feito de escapar novamente da prisão. As circunstâncias que o revestem permanecem um tanto quanto nebulosas, pois nenhuma das fontes consultadas forneceu detalhes a respeito. Em 23 de setembro, um capitão da Aeronáutica prendera Aladino na cidade de Cruzeiro, a cerca de 230 km da capital paulista, e em 6 de outubro, este prestava declarações à Operação Bandeirantes (Oban). O procurador militar da 2ª Auditoria de Guerra foi quem ofereceu a denúncia, em novembro de 1969, enquadrando-os nos artigos 21, 23 e 25 da Lei de Segurança Nacional.

Jornal da Tarde, 28 de novembro de 1969. Fonte: Arquivo do Estado de São Paulo.

O Conselho Permanente da 2ª Auditoria de Guerra, em 31 de março de 1970, condenava Aladino a cinco anos de reclusão. A primeira turma do Supremo Tribunal Federal (STF) em Brasília recusa o pedido de habeas-corpus. Algum tempo depois, o Superior Tribunal Militar (STM) reduziu a pena para oito meses. O DOPS expediu a relação dos nomes que se encontravam presos no Recolhimento de Presos Tiradentes no exercício de 1971, figurando entre outros, o de Aladino, que cumpria mais do que os oito meses estipulados.

Só em 14 de janeiro de 1972, por força do Alvará de Soltura expedido pela 2ª Auditoria da 2ª RM, conforme ofício nº 96/72 daquele presídio, é que Aladino foi finalmente posto em liberdade, sendo acolhido por seu filho Raul e o restante da família.

O fim

As agruras da prisão não o abalaram a ponto de desencorajá-lo a retomar sua carreira literária. Decorrido pouco mais de um mês, em 24 de fevereiro, já havia finalizado O Impacto do Novo Século, editado no ano seguinte pela editora de Adolfo Bloch, dono de uma das revistas de maior circulação à época, a Manchete. Uma parte da obra talvez tenha sido redigida no cárcere, mas o mais provável é que um amigo o auxiliara na compilação e organização dos originais dessa que pode ser considerada uma espécie de coletânea autobiográfica. O amigo era o gaúcho Adelpho Lupi Pittigliani, quem aliás assina o livro, conferindo-lhe um tom apócrifo. Obviamente, caso fizesse constar o seu nome ou um de seus pseudônimos na capa, os exemplares acabariam inevitavelmente apreendidos e ele novamente preso. Preferiu assim lançar mão do velho expediente de permanecer incógnito sob a identidade de outrem.

Um tanto receoso, Aladino não tornou a tergiversar com o mesmo ímpeto sobre os assuntos que lhe renderam tamanhas desgraças, enterrando todas as ambições messiânicas que porventura ainda tivesse.

O grupo fora completamente desmantelado. Aladino esperava que os fatos obedecessem a um roteiro prévio, cinematográfico, com cada personagem desempenhando um papel pré-definido. O processo histórico mostrou-se muito mais complexo, com um repertório inesgotável de possibilidades.

Pelo modo como a Justiça encarava Aladino, um “sui generis Antonio Conselheiro dotado de mente mórbida que conseguiu iludir um general”, entende-se porque os seguidores foram absolvidos e alguns até reconduzidos à ativa na FP. O fiasco do movimento, entretanto, afastou-os em definitivo de Aladino.

Aladino viveu seus últimos anos praticamente recluso e no anonimato, tentando compreender o fracasso do projeto messiânico. Recebia velhos amigos, trocava ideias, arriscava-se a escrever e traduzir algumas passagens. Dentre os poucos a continuar mantendo contatos estavam Silvio Canuto de Abreu e Edgard Alves Bastos.

Edgard Alves Bastos. Foto de Cláudio Tsuyoshi Suenaga.

Em novembro de 1985, ano em que o país se redemocratizava, Aladino preparava-se para submeter-se a uma cirurgia de hérnia. Segundo Edgard, um medicamento que tomou levou a complicações. Não resistindo, faleceu em 11 de novembro e foi cremado dois dias depois.

O maior equívoco de Aladino, na avaliação de Raul, foi o de ter buscado seguidores nos meios militares, policiais e em outros constituídos geralmente por indivíduos desprovidos de formação intelectual sofisticada: “Assim que ele se aproximou desse pessoal da FP, os velhos amigos foram se afastando, em função do nível cultural discrepante. Os que acabaram presos não eram amigos, mas entusiastas da revolução política. Veja o caso do Edgard. Ele não foi nem mesmo interrogado, já que a amizade que mantinha com meu pai não visava o terrorismo, e sim o aprimoramento intelectual.” Os amigos não concordavam com os rumos tomados por Aladino, mas nenhum deles tinha coragem de questioná-lo. Edgard fora o único a fazê-lo, debalde: “A turma toda estava de ouvido baixo e aceitavam sem discussão o que ele falava. Mas eu ainda argumentava na esperança de demovê-lo daquelas ideias.”

Vida e vinda do “Messias”

Foto de Aladino Félix publicada na edição de 21 de setembro de 1968 do jornal Última Hora.

Sétimo filho do casal de portugueses Ernesto Félix e Augusta da Silva Félix, Aladino nasceu no dia 1º de março de 1920, em Lorena, cidade a cerca de 190 km da capital paulista. A família era humilde, e por isso começou cedo a trabalhar para ajudar no sustento da casa. Seu avô, de origem judaica, costumava ensinar-lhe a Bíblia, lendo, para seu encantamento, passagens do livro sagrado. Sua mãe devotava-se ao catolicismo e conservava com veneração uma imagem de Nossa Senhora, vista com pouco respeito pelo seu avô.

Não suportando as frequentes humilhações a que era submetido pelos seus irmãos e irmãs, fugiu de casa, nunca mais voltando. Ainda menor de idade, serviu o Exército em Piquete, uma cidade próxima. Eclodindo a Segunda Guerra Mundial, serviu na Força Aérea Norte-Americana (United States Air Force, USAF). Terminado o conflito, fixou-se em Chicago, onde estudou numa universidade local, tendo colaborado em pesquisas científicas. Para custear o seu sustento, manteve um pequeno escritório comercial naquela cidade, cuja clientela constituía-se principalmente de brasileiros.

Voltando ao Brasil, casou-se em Minas Gerais com Marta, uma moça de Campo Belo, com quem gerou cinco filhos – Augusta, Raul, Mansueto, Tarsila e Germânia. Nessa cidade, foi redator do jornal local, o que lhe proporcionou seus primeiros contatos políticos, vindo a conhecer o então governador de São Paulo, o populista Adhemar Pereira de Barros. Transferindo-se para a capital paulista, começou a ganhar a vida como professor num colégio de bairro. Seus exíguos proventos não eram suficientes para sustentar a família em crescimento. Começou a escrever, e ganhava algum dinheiro como “escritor fantasma” (que escreve obras que outros assinam). Porém, sua capacidade literária só se revelaria mais tarde, em decorrência dos acontecimentos de que tomaria parte.

Os dados biográficos citados, fornecidos pelo próprio Aladino em seus livros, praticamente são os únicos conhecidos referentes à sua infância e juventude, já que, conforme assinalou Raul Félix, seu filho, não existia praticamente qualquer informação acerca de seu passado. Aladino nunca falava sobre seus pais, parentes ou irmãos, dos quais estava irremediavelmente afastado. Raul só veio a conhecer as irmãs de seu pai quando estas os visitaram em Campo Belo, logo após sua prisão. “Meu pai não falava, apesar de insistirmos. Ele só dizia que lutara na guerra e mencionava alguns tipos de aviões que pilotara.” A única coisa concreta que Raul viu foi uma foto de quando estava no Exército. “No Prédio Martinelli, meu pai me mostrou uma foto em que ele aparecia numa dessas barras de fazer ginástica. Estava magrinho e usava uma camiseta do Exército.”

Afora isso, logo após o casamento, Marta encontrou no meio dos objetos pessoais de Aladino uma foto em que aparecia ao lado de um homem muito alto, negro, de quase dois metros de altura. Ao fundo, via-se um navio de guerra coberto de neve. “Minha mãe perguntava que lugar era aquele, o que fazia lá e quem era o negro ao seu lado. Mas ele desconversava, até que numa certa noite teve um pesadelo. Gritava o nome de Charles. Acordou chorando, apavorado. Aí ele acabou confessando à minha mãe que Charles era o homem da foto. Durante a guerra, o navio em que estavam fora avariado e Charles não pôde embarcar no bote, pois não havia mais espaço. Antes de morrer afogado, o homem ficou pedindo a Aladino que não o deixasse lá, mas ele nada pôde fazer.”

O comandante do disco voador

Durante cinco anos, Aladino Félix diz ter conservado em segredo o contato que manteve com os tripulantes de um disco voador na Estrada de Angatuba, interior de São Paulo, em novembro de 1952. A edição de 28 de agosto de 1957 do jornal carioca O Globo, publicou uma reportagem a respeito com um título bastante sugestivo: “Além de visitar o disco recebeu o comandante em casa, para um almoço!”. A matéria assinalava que com a celeuma surgida com o caso do professor de Direito Romano na Faculdade Católica de Santos (litoral sul paulista), o advogado João de Freitas Guimarães, que disse ter feito um passeio num disco voador, elementos empolgados com o assunto haviam promovido na noite anterior uma mesa-redonda no Clube dos Inapiários, conseguindo atrair numerosa assistência.

O Globo, 28 de agosto de 1957. Ao que parece, esta foi a primeira reportagem publicada sobre os contatos extraterrestres de Aladino Félix, vulgo Dino Kraspedon.

Projeções de fotografias de discos, argumentos e relatos foram feitos de entremeio às repostas que o advogado José Augusto da Costa Júnior, o médico Walter Karl Bühler – foi nessa ocasião que conhecera Aladino – e Valdir Cortinhas deram às perguntas formuladas por Oto Gluck, que presidiu os trabalhos. Na impossibilidade de explicações mais coerentes sobre a existência dos discos, a matéria diz que se procurou preparar psicologicamente a plateia para a próxima chegada dos tripulantes dos aparelhos interplanetários.

Finalmente foi concedida a palavra a Kraspedon, “homem simples e até meio retraído”, segundo o jornal, que passou a relatar a sua aventura com o comandante de um disco voador. Conforme contou, em novembro de 1952 retornava a São Paulo no seu jipe de uma de suas costumeiras viagens ao Estado do Paraná. Em sua companhia viajavam um rapaz e um menino. Ao chegar próximo à Estrada de Angatuba, o menino chamou-lhe a atenção para cinco pontos luminosos que se locomoviam no espaço. A princípio não acreditou em nada, mas, devido à insistência, parou o jipe na estrada e levantou a cabeça, vendo, realmente, os cinco objetos. Naquele momento, não lhe ocorreu que eram discos voadores, mesmo porque não acreditava neles. Não dando importância ao fato, prosseguiu viagem até a capital paulista, aonde chegou horas mais tarde.

À noitinha, intrigado com a história, voltou novamente ao local, onde permaneceu durante três dias esperando pela volta dos estranhos objetos. No terceiro dia, à tarde, notou uma chama meio esverdeada ao lado da estrada. Aproximou-se com o jipe e colocou uma de suas rodas sobre o fogo. Depois, estendeu sua mão, notando, com surpresa, que não sentia nenhuma queimadura. Estava assim abaixado, quando sentiu uma força incontrolável que lhe fez olhar para trás. Viu, então, um objeto circular parado sobre a estrada, a poucos metros de onde se encontrava. Do seu bojo interior uma escada metálica e sem beira descia até o chão, tendo a seu lado um indivíduo alto e vestido com uma roupa colante, espécie de macacão de nylon. Sem que trocassem qualquer palavra, foi induzido a entrar no estranho aparelho e no interior notou de 10 a 15 indivíduos iguais ao primeiro, todos altos, com a mesma roupa e de cabeças raspadas. Procurou ver nas paredes algum símbolo ou palavra escrita em qualquer dos idiomas conhecidos na Terra, porém nada viu, exceto alguns desenhos parecidos com figuras geométricas. Após ter permanecido alguns instantes em seu interior, foi convidado, ainda mentalmente, a sair do aparelho, o que também fez obedecendo ao mesmo impulso inicial. Mal pisou o solo o aparelho desapareceu numa velocidade vertiginosa, sem qualquer ruído, deixando-o atordoado no meio da estrada.

A seguir, Kraspedon contou a inesperada visita que recebeu do comandante do disco voador um ano depois, o mesmo que o convidara a entrar no aparelho. Nos dias seguintes, acompanhados de um astrônomo do Observatório de São Paulo, muito seu amigo, encontrou-se novamente com o comandante na Praça da República, bem na esquina da rua Barão de Itapetininga. Conversaram então os três, sobre diversos problemas de física, astronomia e matemática, prolongando-se a palestra até altas horas da madrugada.

A conversa foi feita toda em português, tendo o personagem, após marcar novas visitas para 1956 e novembro de 1959, no mesmo local, se despedido, dizendo que tão cedo não se encontrariam de novo. “A princípio”, conforme declarou, “não contei nada a ninguém, mas com a publicação do fato em uma revista, começaram os telefonemas e visitas de curiosos. Já sem tempo para me dedicar aos meus afazeres, resolvi, então, de comum acordo com esse astrônomo meu amigo, escrever sobre o que se passou e sobre a discussão que travamos com o estranho personagem. Isso tudo escrevi em apenas quatro dias e publiquei no livro Contato com os Discos Voadores. Pelo que me foi dito pelo comandante do disco, esses estranhos objetos interplanetários devem a sua alta velocidade ao vácuo que formam com o bombardeio de raios catódicos – elétrons emitidos em movimento rápido pelo catodo de um tubo de descarga –, dispostos em toda sua parte externa, formando um túnel de 45º. Tendo o vácuo sempre a sua frente, o disco pode movimentar-se sem qualquer atrito e em qualquer velocidade. Fácil é também o seu governo, pois que esse vácuo pode ser transferido em todas as direções.”

Acrescentou Kraspedon que “o disco, para destruir um aparelho dos nossos, bastaria ir em uma direção fazendo-se cair em uma zona de baixa pressão. Depois, invertendo a direção do vácuo, a atmosfera produziria um fabuloso choque contra o aparelho, destruindo-o. Isso foi o que aconteceu com o capitão Mantell da Força Aérea Norte-Americana, ao perseguir um disco voador na Base Aérea de Fort Knox.” Encerrando sua exposição, Kraspedon afirmou que “eles” já estiveram em contato com autoridades norte-americanas, como lhe foi relatado pelo comandante Auriphebo Berrance Simões, que esteve nos Estados Unidos e que soubera disso por uma pessoa, ligada ao Pentágono. O relato de Aladino é um tanto menos místico e muito mais técnico do que o dos contatados norte-americanos, mas certamente foi baseado neles, principalmente nos de Adamski e Bethurum. O livro de Aladino – o primeiro no Brasil do gênero “contatados” – alcançou relativo êxito entre os primeiros aficionados pelo assunto e oito meses depois foi lançada uma segunda edição, vindo a ser considerado um clássico. Examinemos o seu conteúdo, atentando para os pontos em comum com os seus congêneres norte-americanos.

ET disfarçado de pastor protestante

Aladino conta que, num certo domingo, um homem de quase dois metros de altura, disfarçado de pastor protestante, trazendo uma Bíblia nas mãos, tocou a campainha de sua porta. Residia então na rua Iguatemi, nº 274, no bairro de Chácara do Itaim, zona oeste de São Paulo. Quase todos os domingos apareciam protestantes ou meros pregadores que tentavam doutriná-lo ou fazer convites para o culto. Assim, Aladino pensou inicialmente que se tratava de mais um deles. Ateu em toda a extensão do termo e avesso a tudo que cheirasse religião, aborrecia-se com tais tipos de pregações. Teve impulsos de perder a compostura e mandá-lo embora, mas conservou o cavalheirismo e procurou sorrir. Marta abriu a porta e fê-lo entrar e sentar no sofá da sala. Aladino foi ao seu encontro e deparou-se com um indivíduo apuradamente vestido, trajando um lindo costume de casimira inglesa que lhe caía bem no corpo atlético. Os pastores costumavam ser modestos, mas esse estava demasiadamente decente. Tinha a camisa alva e o colarinho engomado, com gravata azul de desenhos brancos geométricos. Apenas o sapato demonstrava ter sido usado uns dois meses. Chamou sua atenção as luvas que usava, de um tecido muito fino, fazendo-o pensar onde havia visto outra igual. “Encarei-o de frente, e tive a voz embargada pelo inesperado: tinha diante de mim o comandante de um disco voador.”[4]

Nesse momento, Marta anunciou que o almoço estava posto, e que convidasse o “pastor”. Ela iria levar as crianças para passear e só voltaria à noite. Durante o almoço, Aladino quis testar os conhecimentos linguísticos do hóspede e descobrir a sua origem pelo sotaque. Encaminhou o assunto para a religião cristã e pediu-lhe que o fizesse recordar as primeiras palavras da Bíblia em língua hebraica, ao que ele atendeu prontamente, sem demonstrar o menor constrangimento ou embaraço: “Breshit bara Elohim…” (“No princípio criou Deus…”), recitando um longo trecho. Sem deixar que ele notasse que estava sendo testado, Aladino continuou no mesmo assunto. Em certo momento, fez-se de esquecido. Começou falando: “Hodie si audieritis vocem mean…” (“Hoje se ouvirdes a minha voz….”), ao que ele completou: “…nolite obdurare corda vestra” (“…não endureçais os vossos corações”).

Usando o mesmo sistema, o comandante disse: “Nolite putare quoniam veni solvere lege aut prophet; no veni solvere, sed adimplere” (“Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim destruir, mas completar”). Aladino falou ainda em inglês e grego. “A tudo ele respondeu com perfeição. Não só conhecia as línguas, mas sabia aprofundar-se no assunto a que eu me reportava, indicando a data, o lugar dos acontecimentos históricos e o nome dos protagonistas. Apenas dava, algumas vezes, interpretação diferente do nosso ponto de vista ortodoxo. Sua língua pareceu-me arrastar somente quando se expressou em inglês. Entretanto, a proficiência com que dissertava sobre questões mais diversas, deixava-me perplexo.”[5]

Ao voltarem à sala de estar, Aladino quis verificar até onde chegavam os seus conhecimentos científicos, “porque uma coisa é tratar de assuntos religiosos e históricos e possuir o dom de poliglota, e outra é falar de ciência. É lógico que falando de ciência, devia não só ter os conhecimentos que temos, mas apresentar algo mais elevado. Caso contrário revelaria ser habitante da própria Terra.” Com veemência, o comandante foi demonstrando conhecimentos sobre ciência e história da humanidade que o impressionaram grandemente, pois transcendiam a esfera comum. Revelou proceder de dois satélites de Júpiter, Io e Ganimedes,[6] podendo viver em qualquer um deles. Em um mesmo satélite havia “homens pequenos e grandes, loiros, pretos ou morenos”, tal qual na Terra.[7]

A parte do livro de Aladino considerada científica – ou científica-espiritual, já que conceitos científicos e religiosos são justapostos – resultou de cinco encontros que manteve com o comandante: uma vez no próprio disco, uma vez em sua residência, duas vezes na Praça da República, e uma última na Estação Roosevelt. As duas conversas que tiveram na Praça da República foram assistidas por um professor de física e matemática, cujo nome foi mantido em sigilo.[8]

Nova Era Messiânica

A matéria e a energia seriam, conforme explicou o comandante, a expressão de outra coisa que nós não percebemos, fundada em princípios antes teológicos do que matemáticos. “O homem só pode realmente compreender os fenômenos da natureza quando compreende a natureza de Deus”. Natureza essa intrinsecamente racionalista: “Deus é uma reta isotrópica (todo meio homogêneo para o qual as propriedades físicas são idênticas em todas as direções traçadas por um ponto qualquer), paralelo a si mesmo e sobre si mesmo vibrando num ângulo de 90º. É como um sistema de eixos, cujo ponto de interseção das linhas estivesse em toda a parte ao mesmo tempo. Logo múltiplo em si, porque nele contêm dimensões – para servir-me de uma definição terrestre – que contravariadas, ‘n’ seria igual ao infinito.”[9]

O comandante explicou que um corpo ou uma partícula não pode fazer indefinidamente um movimento no espaço porque ele perde energia, e que todo corpo carece de força aceleratória. Aladino retrucou mencionando que para a física newtoniana todos os corpos podem ser considerados como um ponto no espaço. Levando em conta que a Terra é uma simples partícula, teríamos dois movimentos – o da rotação terrestre e o da revolução que o nossa planeta faz no espaço – que negariam a teoria esposada. O comandante  rebateu dizendo que o caso da Terra é diferente.

A analogia que os físicos quiseram ver entre os movimentos dos astros e planetas com o movimento interatômico não existiria: “No átomo temos ondas estacionárias, em estado vibratório permanente; a Terra é um corpo impulsionado por uma força constante. Ainda que ela não tivesse energia intrínseca, movimentar-se-ia no espaço. O que se passa com ela é o mesmo que se dá com o radiômetro. Nesse aparelho, as pás sofrem uma diferença de potencial. Enquanto as faces pretas absorvem a luz solar, entram em rotação em torno do seu eixo. A intensidade do movimento depende da intensidade da luz solar que as faces negras conseguem reter. A Terra, também, tendo uma face iluminada e a outra no escuro, é presa de uma diferença de potencial, diríamos melhor um binário, e roda em torno do seu eixo. Observe que no radiômetro é mister fazer-se baixa pressão no seu interior, caso contrário não giram as pás. Também a Terra tem nas altas camadas a baixa pressão necessária, que vai até ao vácuo.”

Com isso, o comandante pretendeu postular que o sol e os planetas se sustentam no espaço de forma contrária a que a ciência terrena apregoa. O sol não atrairia os planetas, mas provocaria uma repulsão. Enquanto a Terra seria atraída para um hipotético centro magnético do sistema, sofreria a repulsão da luz. Esta, segundo o comandante, repeliria o campo magnético terrestre, da mesma forma que o raio de luz de uma estrela seria repelido e sofreria desvio ao aproximar-se do centro magnético do sistema. A translação terrestre seria, pois, o resultado da velocidade de rotação e da camada etérea, que lhe daria um plano de sustentação ou de rolamento sob a ação das duas forças concorrentes. A razão de sua órbita não ser excêntrica dever-se-ia ao fato de que o sol gira em torno do centro ao mesmo tempo em que a Terra faz a sua revolução no espaço. Os planetas que, de acordo com essas suposições, passassem pela oposição ou conjunção com o sol e o centro, sofreriam uma perturbação da órbita, com os conseqüentes atraso ou adiantamento dos movimentos de rotação e revolução. A elipse descrita pelos planetas seria consequência da ação entre as duas forças.[10]

Se até então a ciência terrestre não encontrara solução para o problema dos três corpos, brevemente – até o final do século –, alertara o comandante, haveria maior dificuldade com a inclusão de um outro sol em nosso sistema. Aliás, essa seria uma das razões porque aqui eles se encontravam, além de vir prevenir-nos contra os perigos a que estávamos expostos com o advento da Era Atômica: “Esse corpo é um monstro, que em breve poderá ser visto na direção de Câncer, de luz apagada. A luz de um sol só passa a brilhar quando penetra num campo magnético secundário como o nosso. Penetrando no sistema, toma um movimento de rotação, deforma o espaço e gera correntes que lhe darão brilho. Se viesse luminoso, sua luz provocaria forte repulsão e seria desviado da sua rota. Sem brilho, ele sofre a pressão do nosso sol, mas o seu momento cinético lhe garantirá a penetração. De início será uma luz avermelhada, depois azul. Após vencer a zona das grandes massas planetárias, terá a oposição solar pela frente, mas na retaguarda terá o peso das grandes massas a impulsioná-lo por uma ação repulsiva. A repulsão contra os planetas, pela retaguarda, a sua luz brilhando e o volume de sua massa descomunal fará o sol atual deslocar-se das proximidades do centro magnético, situando-se mais longe. Então os dois sóis demarcarão as suas órbitas, ficando o de maior massa e menos luz mais próximo do centro.”[11] 

Todos os planetas teriam suas órbitas modificadas. A Terra, por exemplo, sob a pressão combinada de dois sóis, iria ocupar a zona onde hoje se encontra o cinturão de asteroides, entre Marte e Júpiter. A Terra não sofreria com o choque, pois a sua camada etérea ofereceria proteção. Haveria um abalo, porém suportável porque o novo sol só aos poucos iria influir com a sua força repulsiva. Ao atingir o máximo de sua luminosidade, a Terra já estaria no lugar devido no sistema. Apenas cairia uma chuva de pedras sobre a superfície, principalmente na zona compreendida pelo sul europeu, norte da África, Ásia Menor, norte da América do Sul e sul da América do Norte. Haveria uma transformação do tipo biológico terreno, mas a vida ainda continuaria, talvez em melhores condições.

O evento cósmico é associado à chegada de uma nova era e a de um messias: “A Terra começará o seu novo milênio com uma nova fonte de luz a iluminar os seus prados. Muitos desaparecerão para sempre do cenário terrestre, mas um pequeno rebanho restará, obediente às leis de Deus, e não haverá mais as lágrimas que aqui existem. Haverá paz e abundância, justiça e misericórdia. As almas injustas terão o castigo merecido, e só os bons terão guarida. Nesse dia o homem compreenderá o triunfo dos justos, e verá porque Deus não puniu imediatamente os maus. O sol, que há vir, será chamado o ‘Sol da Justiça’. O seu aparecimento nos céus será o sinal precursor da vinda daquele que brilha ainda mais que o próprio sol.”[12]

Funcionamento dos discos voadores

Acerca do funcionamento dos discos voadores, o comandante explicou, sem qualquer inconveniente, que o segredo residia no emprego correto da pressão atmosférica e do vácuo, e não na anulação da gravidade. Tendo o vácuo sempre à frente, o disco pode movimentar-se sem qualquer atrito e em qualquer velocidade. Fazem o vácuo na direção que desejam seguir. “Se temos baixa pressão de um lado, do outro obtemos a pressão atmosférica integralmente. Qualquer aparelho, seja ele o que for, só se pode mover obtendo uma diferença de potencial […] Podemos transferir esse vácuo para qualquer sentido. Com uma simples alavanca numa semi-esfera transferimo-lo para onde queremos seguir. Se queremos ir para um lado, provocamos o vácuo para ele, e imediatamente a atmosfera exerce pressão naquele sentido. Digamos: estamos voando no plano horizontal. Se queremos fazer um ângulo de 90º, basta transferirmos o vácuo para cima ou para um dos lados, e iremos com a mesma velocidade naquele sentido. Não precisa uma curva. Quanto ao processo de fazer-se o vácuo externamente, não haveria dificuldade técnica alguma. Você sabe que os raios catódicos têm a estranha propriedade de decomporem a atmosfera, por onde passam. Os elementos atmosféricos, sob a ação desses raios, retornam ao estado etéreo. A essa propriedade, juntamos a de fazer que os raios catódicos se cruzem com os anódinos num ângulo de 45º. Isso fazemos empregando elevadas voltagens e amperagem.”

Desenho de Aladino Félix (Dino Kraspedon) sobre o vácuo formado em torno do disco voador durante o seu voo (Contato com os discos voadores, 2ª ed., p.66)

A energia atômica, da forma como vinha sendo usada pelos cientistas terrenos, tenderia a desencadear o apocalipse e o fim do mundo. O comandante frisou, todavia, que não era o uso da energia atômica que oferecia risco direto à humanidade, e sim o ódio guerreiro, aliado a ela. “A energia atômica é uma dádiva de Deus, desde que usada com parcimônia e com finalidades pacíficas. O seu uso imoderado e o emprego na guerra pode ser o extermínio total e inapelável da vida nos padrões hoje conhecidos no seu planeta. […] Um planeta é um organismo delicado, cujo equilíbrio natural não pode ser destruído impunemente. O surto radioativo começa por influir no cérebro do homem, perturbando-o sensivelmente. Logo verão a loucura campear sobre a Terra.”

O comandante teria advertido que as explosões atômicas estavam alterando a camada superior da atmosfera terrestre. Esta camada é um filtro supremo que decompõe os raios solares, transformando-os em luz e calor. Se os governos e cientistas continuassem com suas explosões nucleares, chegaria o dia em que o filtro já não seria capaz de analisar e decompor os raios solares em luz e calor. Então veríamos o sol negro como silício e a luz vermelha como sangue e sobre a superfície da Terra uma cor vermelho-ferruginosa. “A Terra receberá a energia em ondas ultravioletas, com velocidades de milhões de quilômetros por segundo. […] Na marcha que prosseguem as explosões atômicas, o calor médio da Terra já começa a ser alterado e assim prosseguirá em 0,3 graus anualmente. Se vier então a guerra de hidrogênio será o pandemônio. Com o que já tem as altas camadas basta para derreter a calota polar e inundar as cidades baixas. Em 20 anos haveria uma diferença de seis graus centígrados. Antes disso estaria derretido todo o gelo dos polos. Doenças estranhas aparecerão. O fígado é o laboratório orgânico, e ficando atacado pela ingestão de elementos radiativos espalhados pelo mundo, perderá a sua capacidade de produzir os elementos de defesa. […] Que ele continue no caminho atômico que está seguindo. Um dia o fim há de chegar. Ou nós o próprio homem – alguém apertará um botão, encerrando a história de uma humanidade que preferiu morrer a viver feliz nas leis que Deus lhe deu.”[13]

Ora, o que Aladino ouviu do “comandante” do disco voador, não é menos delicado do que Adamski e demais “escolhidos” ouviram de alegados tripulantes de naves interplanetárias. Dos pontos de vista científico e religioso, porém, as revelações de Aladino sobrelevam às dos demais, o que confere ao livro uma maior importância. Transparece em cada linha um sentido salvacionista, de cunho milenarista e messiânico. São deveras dignas de atenção as advertências nele contidas. O funcionamento dos discos voadores é amplamente pormenorizado.

Sentido salvacionista

Os conceitos exarados, entretanto, não resistem a uma análise científica rigorosa. O físico e astrônomo Renato Levai efetuou três leituras do texto – uma dinâmica, uma crítica e uma revisão –, concluindo que “o texto mistura resultados científicos aceitos com proposições duvidosas, uma espécie de camuflagem.” Levai notou que a citada obtenção química da energia nuclear é deveras semelhante à fusão a frio, grande fiasco da física em 1989. Há uma certa confusão entre ionização dos átomos por raios catódicos, e aniquilação da matéria. Os raios catódicos não aniquilam a matéria, apenas a ionizam. Ao falar de rotação natural e camada etérea, Aladino apenas promoveu o retorno a conceitos antigos; campos magnéticos e a pressão da luz são empregados artificiosamente. Um grave equívoco de Aladino: falar em novo século ou milênio, sem notar que na Era Islâmica o século atual é o XV, e na Era Hebraica estamos no 5º Milênio – o mesmo erro que os astrônomos cometem contra os astrólogos, sobre os signos zodiacais. Outros sutis enganos – mas fatais para a teoria apresentada – detectados por Levai: erro ao considerar a alavanca de direção do disco; erro de cálculo na espessura da atmosfera atravessada pela luz; interpretação ambígua na exposição de Roemer – aliás, a velocidade da luz é medida por outros meios. Arremata Levai: “Enfim, o texto apresenta um saldo negativo nas questões técnicas. A conotação moralista achei muito primária. No fundo me pareceu tratar-se de literatura de ficção, essencialmente psicológica. O fato de ser best-seller apenas reforça a opinião que fazemos. Porém, todos têm a liberdade de exprimir pontos de vista diferentes; se faço esses reparos, não é por preconceito – também sou crítico da oficialidade científica –, mas fundado em largos anos de observação, estudo e reflexão.”

O que aqui nos importa destacar, sobretudo, é o sentido salvacionista do livro: ele como que preparava o terreno para os acontecimentos que adviriam. Até a política social e a  distribuição de verbas posta em prática pelo governo de Juscelino Kubitschek de Oliveira e dos demais Estados foram criticadas: “Suponho que a despesa do seu país orce, anualmente, pela casa dos Cr$ 65 bilhões. Dessa importância, Cr$ 45 bilhões são gastos com as forças armadas, Cr$ 15 bilhões são despendidos com o funcionalismo, assembléias, juros da dívida pública, amortizações, banquetes, despesas governamentais, Ministério do Exterior, viagens protocolares, máquina eleitoral etc. Resta uma pequena parte que se dedica a bons fins, como a educação, saúde e agricultura. Imagine se todo esse potencial econômico fosse revertido na construção de estradas, escolas, hospitais, igrejas, centros de pesquisas, saneamento, indústrias novas, habitação, agasalho, medicamentos, transporte… Calcule se toda essa imensa legião de desocupados que se vê perambulando pelas ruas durante o dia passasse a ser uma nova fonte de produção. Toda a verba consumida pela República ainda não é tudo. E as despesas estaduais? Já verificou todo o dinheiro gasto com o governo, funcionalismo público, polícia? Quantos policiais há no seu Estado? Fique certo que só a despesa com os cavalos mantidos para os desfiles daria para alimentar e agasalhar uma multidão de famintos que perambulam pelas ruas sob o sereno e a chuva. E parece irônico que numa sociedade cujos membros sofrem fome e frio, vivam cavalos com rações balanceadas, cobertos com boas mantas de lã.”[14]

Academia de Ciências Soviéticas

A segunda edição de Contatos com os Discos Voadores saiu em novembro de 1957, revisada e acrescida de 34 páginas. No prefácio, Aladino assinalou que não esperava que tão em seguida muitos fatos viessem a comprovar a veracidade de suas afirmações. Não só os contatados referendavam Aladino. O papel mais significativo era cumprido pela própria ciência oficial. Nações como os Estados Unidos e a Inglaterra anunciavam a pretensão de construir naves interplanetárias propelidas a íons, semelhante ao sistema descrito no livro. Aladino havia proposto que a gravidade é um conjunto de fenômenos, nos quais influi poderosamente a atmosfera. Pondo em cheque a exatidão da Lei de Newton, ratificou que, no vácuo, duas massas diferentes possuem a mesma velocidade de queda porque as massas são atraídas pela componente vertical do magnetismo.

E eis que o Sputnik soviético veio demonstrar que ele estava correto: “…havendo os ‘vermelhos’ anunciado que tinham lançado um satélite artificial e pesando 86 kg, os americanos, aferrados à lei da gravidade e à relatividade, puseram em dúvida a palavra dos soviéticos, dizendo que naquela órbita indicada só poderia ter estabilidade um corpo pesando 5 kg. Revidaram os bolcheviques, dizendo que não só um satélite pesando 86 kg estava a revolucionar, como até a terceira seção do foguete que o transportou havia contrariado os cálculos e entrara a revolucionar em torno da Terra. E o foguete pesa muito mais que o satélite… Esboroou-se, pois, a gravitação. Nessa altura, livre da atmosfera e enfraquecida a componente vertical do magnetismo, o corpo ficou sujeito apenas à componente horizontal e se propagou com certa velocidade, que corresponde a relação existente da sua massa e a impulsão magnética. Como as linhas magnéticas têm um movimento esférico em torno do planeta, ambos os corpos lançados passaram a revolucionar em torno de nós. […] eis que ainda os soviéticos anunciaram também que os planetas são repelidos pela luz solar e não atraídos. Ora, tal princípio está contido neste livro, e podemos dizer que é ele a espinha dorsal do sistema que descrevemos.”[15]

Sugerindo um tanto presunçosamente que os russos se valeram de suas informações, Aladino estampou a cópia de uma carta timbrada endereçada pela Academia de Ciências Soviéticas a um de seus amigos cientistas, cujo nome não declinou. Eis o que diz a carta, redigida em espanhol e assinada por Konstantin Chugunov, chefe do Departamento Americano da VOKS: “Comunicamos que hemos recibido su carta y libro Contato com Discos Voadores los hemos hecho llegar al Consejo de Astronomia de la Academia de Ciencias de la URSS (Rua Bolchaya Gruzinekaya, 10), pidiendo que la conteste directamente. Creemos que los astrónomos soviéticos con mucho interés conocerán las obras de sus colegas brasileños.”

Fac-símile da carta da Academia de Ciências Soviéticas dirigida a Aladino Félix, vulgo Dino Kraspedon, que fez questão de reproduzi-la na segunda edição do livro Contato com os discos voadores.

Esse amigo de Aladino teria enviado um exemplar do livro a um outro amigo da União Soviética, sem pedir-lhe nenhuma apreciação da Academia de Ciências. Quis somente mostrar-lhe a importância que era dada aos discos voadores no lado Ocidental. Sendo homem de ciência e não querendo passar por “estúpido” ou “louco” perante os bolcheviques, disse ao seu amigo soviético que o livro era um romance apenas, que indicava uma nova espécie de literatura ocidental.

Todavia, o chefe da VOKS, que também era cientista, tomando conhecimento do caso, providenciou para que a Academia o estudasse. Diante disso, perguntou Aladino: “Seriam idiotas os vermelhos? Concentrar-se-iam para estudar um simples romance? Ou teriam eles visto outra coisa além de literatura balofa?” A remessa postal foi feita em junho, e só em outubro a União Soviética publicou o resultado das suas pesquisas sobre o efeito de repulsão da luz solar. “Longe de nós a veleidade de dizer que o pugilo de sábios renomados da União Soviética se baseou no nosso livro; mas ainda que o fosse, só nos restaria dizer-lhe: muito obrigado pelo apoio moral que nos deram. Que aceitem as teorias científicas, e que não se esqueçam de reservar um lugar na cachola para as conclusões morais. Façam o coração equacionar as coisas de ordem religiosa ou humana tão bem como equacionam com o cérebro as coisas científicas.”

A órbita da Terra e a gravitação

O pseudônimo Dino Kraspedon seria usado por Aladino pela segunda e derradeira vez num livro de 101 páginas que praticamente só os que fizeram parte de seu círculo restrito de amigos chegaram a conhecer. Lançado em janeiro de 1959 pela mesma editora, A Órbita da Terra e a Gravitação afigura-se como um apêndice de Contatos com os Discos Voadores. Ao complementar e aprofundar os dados relacionados à composição das forças do universo, Aladino procurou restringir-se às questões pertinentes à órbita da Terra e à gravitação. Propôs novos métodos para determinar a distância da Terra ao sol e de interpretação dos diversos fenômenos e movimentos do nosso planeta na sua órbita.

A gravitação é apresentada como uma transformação mecânica aplicável tanto a Terra como às nebulosas, por mais distantes que estejam. Para não alongar desnecessariamente o trabalho, excluiu muitas considerações que naturalmente poderiam ser apreciadas perante essas novas teorias, deixando ao critério do leitor o trabalho de fazê-las. Sintetizou o assunto em poucas palavras e resumiu as fórmulas matemáticas de forma a arejar o assunto. Mesmo assim, estava ciente de que se tratava de um tipo de leitura pouco atraente e cansativa, que dificilmente agradaria e só com muita boa vontade poderia ser tolerado. Apesar da complexidade das fórmulas e equações, Aladino ressalvou que “Procuramos escrever de acordo com essa simplicidade que emana do próprio universo”, já que ele “se recusa a se deixar analisar por abstrações que se não coadunam com a sua própria simplicidade. Toda dificuldade está em nós, e não na natureza.”[16]

A ciência emprega dois métodos principais para fazer a determinação da distância média entre o sol e a Terra, o método de James Bradley [astrônomo inglês (1693-1762) que estudou os satélites de Júpiter, descobriu a aberração da luz e apresentou a fórmula empírica da refração] e o da paralaxe. Sobre o primeiro, Aladino diz que “nem se lhe podia dar essa classificação de método, porque ele é tão só e simplesmente um erro de trigonometria que até agora passou despercebido aos olhos dos homens de ciência.”[17]

Tomando o diâmetro médio da Terra (12.735,3 km) e calculando de acordo com a figura da órbita, Aladino concluiu que o verdadeiro centro da Terra acha-se deslocado. Assim, um corpo em queda livre no espaço sofreria um pequeno desvio em relação ao plano da superfície. O eixo de rotação seria aquele em torno do qual gira a Terra, mas o seu movimento de revolução estaria ligado ao eixo magnético que deve ligar os dois pólos desse nome. “O resultado desse movimento de revolução ligado aos pólos magnéticos seria o planeta, em conseqüência da rotação, sofrer um afastamento e aproximação de 340 km por dia em relação ao sol, principalmente o Pólo Sul, enquanto o Pólo Norte terá pouca variação.”[18]

À medida que os satélites artificiais subiam e iniciavam – tremulando as bandeiras da Guerra Fria – a marcha nas suas respectivas órbitas, Aladino via suas teorias se confirmarem, ao passo que “o antigo mundo da ciência com as suas crendices científicas, com o seu orgulho, com a sua pretensa infalibilidade”, ruía. “Quase podemos dizer que já pertence aos fatos históricos aquele ar de superioridade que caracterizava os homens de ciência que de público gostavam de exibir os seus conhecimentos. […] As grandes leis da física foram por terra, e com elas muitos nomes ilustres – com os quais os nossos antigos mestres deslumbrava a nossa mente quando ainda não tínhamos os cabelos grisalhos – apagaram a resplandecência que ostentavam no zimbório negro deste céu da nossa ignorância.”[19]

Muito embora Aladino reconhecesse o imenso valor e utilidade que tiveram as teorias de Isaac Newton (1642-1727) até a nossa época, para ele sua validade chegava ao fim. “Não o Newton-homem, não o cientista sincero e muito humano, não o profundo pensador que iluminou não só a Velha Albion como o mundo inteiro e o seu século. Caiu aquele Newton, não este. Este não, porque o seu valor pessoal jamais poderá ser destruído, ainda que aos céus fossem enviados tantos satélites artificiais quanto sejam os homens da nossa época.”

Juntamente com Newton, na acepção de Aladino, outros gigantes teriam tombado, principalmente Albert Einstein (1870-1955). “A Relatividade, que tanto deslumbra o espírito dos nossos contemporâneos, já não é outra coisa que vá além de uma curiosidade capaz de revelar até onde o espírito humano pode prosseguir com a sua capacidade de fantasia […] Esses dois foram os principais. Mas com eles tombaram os modernos homens de ciência, inclusive os próprios que atiraram foguetes ao espaço. Sim, porque mesmo estes verificaram que tudo era diferente do que acreditavam.”[20]

O magnetismo, entendido como uma transformação mecânica dos movimentos terrestres, seria afetado com baixas magnéticas no sul do Brasil e aumento principalmente no Oriente Médio e na região oriental onde se situam a União Soviética e o Japão. Outrossim, na zona do Pacífico, onde se encontram o Chile, o Equador, a Bolívia e o norte do Brasil, formar-se-ia uma grande linha de aumento magnético. Todas essas regiões estariam sujeitas ao aparecimento de vulcões e tremores de terra.

Apesar do caráter científico-filosófico do livro, repleto de fórmulas e equações fisicistas, citações a Pascal, Platão e Lemaitre e contestações às teorias de Newton, Bradley e Einstein, Aladino preferiu alcunhá-lo não como científico, e sim como religioso! “Eu não diria que este livro é de ciência. […] E isto por muitos motivos. Primeiramente porque só é considerado científico aquilo que é empolado e incompreensível, aquilo que exige da alma da gente a coragem para largar o chão empoeirado onde vivemos e voar rumo ao reino da fantasia, do irreal, daquilo que não existe no universo. […] Em segundo lugar é porque eu preferiria o nome de livro religioso, embora ele não forneça qualquer definição teológica. […] porque, leitor, nós o escrevemos mais com essa finalidade, e menos como contribuição à ciência. Para nós pouco importa se a rotação é relativa à revolução, se os corpos são atraídos ou pressionados para baixo, se a luz impele ou não os corpos. Isso em nada, em coisa alguma pode contribuir para que nos tornemos melhores e mais humanos uns com os outros […] É um livro religioso, leitor, porque ele também é uma resposta àqueles que fugiram da luz do sol dos mandamentos divinos para ficar abrigados sob o guarda-sol gigantesco formado pelo cogumelo da bomba de hidrogênio. Serve para lhes dizer que eu e tu, que todos nós que amamos e respeitamos acerca das coisas do universo, e que a nossa crença não nos impede de imaginar como eles imaginam.”[21]

O escolhido de Deus

Numa noite de 1959, surgiu inesperadamente um fato que mudaria definitivamente o curso da vida de Aladino. Nas centúrias de Nostradamus que já vinha traduzindo e interpretando, pensou ter encontrado uma referência à sua pessoa. Certas passagens mencionariam o seu nome e de seus parentes e falariam de particularidades que só ele mesmo conhecia. Impressionado com tudo aquilo, proferiu uma oração e adormeceu. Naquele estado intermediário de sonolência, projetou-se para fora do corpo e, ao descer as escadas de sua residência, ouviu uma voz que dizia: “Eu sou Jeová dos Exércitos. Dou-te toda a força de que necessitas para lutar e vencer. Vieste ao mundo para reunificar meu povo. Ninguém poderá suportar tua força, porque sou eu que te dou a força, eu sou Jeová dos Exércitos. Onde puseres tua mão prevalecerás.”

Atônito, viu-se de súbito no quintal e entrou em luta corporal, que se prolongou pela madrugada, com um varão de elevada estatura, fortíssimo, barbudo, que tentou feri-lo na coxa, nada menos do que o patriarca Jacó, o mesmo que lutara com um anjo do Senhor e fora por isso chamado Israel. De modo a marcar o ingresso na nova fase, Aladino abandonou em definitivo o pseudônimo Dino Kraspedon e passou a adotar dois novos: Sábado Dinotos, igualmente formado com a radical de seu nome, e Dunatos Menorá. O primeiro livro que escreveu como Dinotos foi um romance histórico intitulado O Hebreu, Libertador de Israel, lançado ainda em 1959 pela São Paulo Editora. Em vigorosas e poéticas 508 páginas, retraçava a vida de Otiniel, conhecido por Hebreu, o primeiro juiz desse povo e guerreiro de Judá, que lutou contra o rei Cusã-Risataim da Mesopotâmia.

 

Imbuído de sua “missão”, que aos poucos ia se delineando, Aladino lançou em abril no ano seguinte, pela Editora Minimax, sob o pseudônimo de Dunatos Menorá e os auspícios financeiros de empresários judeus, Mensagem aos Judeus: O Nascimento do Messias, numa tentativa direta de sensibilizar os patrícios, procurando convencê-los a aceitarem Jesus Cristo como o verdadeiro profeta anunciado pelos textos sagrados. Procurando as palavras faladas e escritas modernamente em cada idioma e buscando na língua de origem, o hebraico antigo, a respectiva correspondência, Aladino escreveu o que seria sua obra mais erudita e alentada, o Dicionário Hebraico-Português, editado em 1962 por seu amigo empresário Henri Koersen e tido como o primeiro no gênero já publicado, contendo cerca de 30 mil verbetes.

O seu alcance transcendia os propósitos de um dicionário. “Há nele coisas que nunca os judeus sonharam, que nunca os teólogos pressentiram, e haverá dificuldade inicial para aceitá-lo. Mas o Senhor Deus nos garante a vitória”, proclamou Aladino.

Simultaneamente à edição do dicionário, começaram a aparecer nos bondes e ônibus das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, assim como nos toaletes de muitos bares e restaurantes, inscrições misteriosas com a Estrela de Davi e as palavras Sábado Dinotos. Sem dúvida, uma autopropaganda, rabiscada por alguns de seus seguidores.

Bira Câmara e Cláudio Suenaga.

A inclinação de Aladino para o profetismo e suas ligações com o poder ficam patentes nessa declaração do pesquisador de religiões Bira Câmara: “Ouvi o nome de Sábado Dinotos quando era ainda menino, no início dos anos 60, pela televisão onde vez ou outra aparecia para falar sobre o assunto discos voadores. O que mais me impressionou neste personagem, foi uma previsão feita por ele no final de 1963 num programa de rádio, dizendo que haveria uma importante transformação política em 1964, fato que iria alterar radicalmente o destino do Brasil, segundo ele para melhor. O impressionante é que fez questão de dizer que não seria propriamente uma revolução, mas um movimento político que levaria o país para um novo estágio de desenvolvimento, com enorme progresso social. Chegou até a prever que aconteceria por volta de março de 1964. Isto ficou na minha memória porque foi uma das raras previsões que vi realizar-se em curto espaço de tempo.”

Naquele ano, logo após a deflagração da Contra-revolução de 31 de março de 1964 (termo que prefiro a Golpe ou Revolução de 64, uma vez que se tratou de uma legítima reação militar e de setores conservadores à tentativa de instauração de um regime comunista no Brasil) que conduziu os militares ao poder, Aladino anunciava haver terminado de traduzir a Bíblia Sagrada diretamente do texto hebraico-massorético, da qual foi publicada o Pentateuco (os cinco primeiros livros), com a ajuda do amigo Silvano Doll, que o financiou. Por iniciativa própria, Doll mandou encadernar vários exemplares da obra, distribuindo-os gratuitamente aos amigos, entre eles Edgard. Pelo seu método, Aladino destrinça os elementos gramaticais do antigo hebraico, chamados por ele de “o som perdido”, e aponta os absurdos das traduções anteriores, indo aos extremos do deísmo tecnicista, bem antes de Däniken, admoestando: “Se nós, homens do século XX, já dispomos de máquinas aéreas, e até já saímos da atmosfera em gigantescos foguetes, não teria Deus outros meios mais evoluídos? Como pretendem os pregadores de religião convencer-nos de que estão falando sério? E quem poderia aceitar um livro que contivesse tais absurdos como verdadeiros?”

Sub-repticiamente, Aladino identifica a figura do comandante do disco voador com quem se encontrou pela primeira vez em 1952 com o Deus dos hebreus. Posicionando-se ao lado do sionismo, afiança ser Jeová um extraterreno. Explicitamente, afirma que os anjos e querubins bíblicos eram alienígenas, antes que isso se tornasse moda.

 Profecias sobre o Grande Rei

Preparando o terreno para os fatos mirabolantes que em breve iriam eclodir – boa parte deles instados por ele próprio –, Aladino lançou em 1965 pela São Paulo Editora, sob o pseudônimo de Sábado Dinotos, As Centúrias de Nostradamus, que, como o Pentateuco, foi anunciado como uma tradução direta do texto original, nesse caso do provençal (uma mistura do francês e português). Curiosamente, o contatado espanhol Alberto Sanmartin, que aliás fora colega de Aladino, publicou no mesmo ano o livreto Profecias de Nostradamus sobre o Grande Rei.[22] É quase certo que o verdadeiro autor da obra era mesmo Aladino. Edgard nos assegurou que Sanmartin apenas emprestou o seu nome, na condição de testa-de-ferro.

Na sua interpretação das centúrias, Dinotos tomou liberdades que nenhum outro jamais tomara, chegando ao extremo de afirmar, como lhe convinha, que o Grande Rei não deveria nascer na região de Alsácia-Lorena, na França, e sim na cidade paulista de… Lorena, ou seja, onde Aladino Félix nasceu! “O Menino” – que em hebraico é Aladen – referido na quadra 3:42, seria o mesmo do qual se diz na quadra 3:55, que nasceria em meio lusitano, e o mesmo, também, chamado de giboso na quadra 3:41. Na quadra 2:7 há uma referência a esse “homem de dois dentes”, que nasceria numa ilha – o Brasil. A expressão “dois dentes” era um de seus apelidos, Denoth. Uma das características físicas mais marcantes na figura de Aladino era justamente seus dois dentes incisivos frontais projetados para fora, conforme vemos retratado em fotos e caricaturas.

Concluiu ele que o Grande Rei de Terror, o Anticristo, teria a ajuda de Jeová – o chefe supremo dos extraterrestres provenientes do planeta Júpiter – na batalha final contra a Besta ou as forças do mal, cujos maiores representantes seriam a Igreja Católica e o cristianismo, chamados por ele de “misticismo colonizador”. Depois disso, seria restaurada a justiça e uma nova era de ouro começaria na Terra, com as nações unificadas em um único governo sob seu controle. De todas as profecias, somente uma única, a da quadra 6:14, parece realmente ter se cumprido: “Loing de sa terre Roy perdra la bataille,/Prompt eschappé poursuivy suivant prins./Ignare prins soubs la doree maille,/Soubs fainct habit et l’ennemy surprins”. (Longe de sua terra o Rei perderá a batalha,/Pronto escapa, perseguido, em seguida preso./Ignaro prende sob a dourada malha,/Sob falso hábito, e o inimigo surpreende). Indicaria essa passagem o prenúncio do fracasso de sua missão? Eis uma profecia verdadeira e que no entanto não foi por ele interpretada!

Guerra interplanetária

Com A Antiguidade dos Discos Voadores, o trabalho de Aladino atingia o ponto culminante. O último livro escrito antes da eclosão do movimento messiânico já em curso, lançado pela São Paulo Editora em março de 1967, sob o pseudônimo de Sábado Dinotos, punha termo à longa série de traduções e reconduzia os leitores ao centro da questão, iniciada 10 anos antes em Contato com os Discos Voadores. A capa ostentava inclusive o mesmo desenho – um disco voador aproximando-se da Terra. O livro antecipava-se a Eram os Deuses Astronautas?, de Däniken, com a diferença de que procurava convencer, por meio de uma linguagem doutrinária, quase panfletária, que uma guerra entre duas facções contrárias de seres interplanetários, disputando a supremacia sobre o nosso planeta e a humanidade, estaria sendo travada desde os tempos bíblicos.

 

Uma, representando os ensinamentos do Velho Testamento, teria sua base em Júpiter – não por acaso o local de origem do comandante do disco voador –; outra, da qual teria derivado o Novo Testamento, procederia de Vênus, que seria o Lúcifer da tradição hebraica e latina, que se rebelou contra as hostes divinas. A guerra interplanetária, segundo Aladino, seria o motivo principal da preocupação por parte dos governos, forçando-os a manterem sigilo sobre tudo o que se relaciona aos discos voadores.

Exemplar de A Antiguidade dos Discos Voadores, de Aladino Félix, vulgo Sábado Dinotos, autografado pelo filho deste, Raul Félix.

A correlação entre Vênus e Lúcifer é sobejamente conhecida: na tradição cristã representa o opositor de Deus, o anjo decaído, as forças do mal. Aladino, por sua vez, subverteu a simbologia atribuindo tal papel a Jesus, à Igreja e ao cristianismo. Para ele, Buda – “que nasceu com a cruz suástica desenhada na sola dos pés” – e Maomé também foram agentes do opositor de Deus, “que apelava para o misticismo, usando sempre as armas do engano”. Cristo teria sido um extraterrestre produzido por inseminação artificial para servir de instrumento aos alienígenas rebeldes. De acordo com ele, o nome Jesus – Jeshua – tem origem no termo hebraico Heshu, significando serpente. Na fuga do Egito, Maria teria sido levada com ele a bordo de uma nave espacial, a mesma que foi vista nos céus de Roma à época de César Augusto. “E é assim que o leitor, compenetrado de que o chefe de Vênus era Heshu, a serpente, poderá perceber qual foi o agente que tentou o primeiro casal. Só raciocinando em termos universais ele pode decifrar o grande enigma.”

Manifestando desprezo a outros povos que não o judeu, Aladino identificou-os com os seres nefastos de Vênus: “Uma outra vez tentaram a conquista, conforme narra o capítulo 6 da Gênesis, mas fracassaram. Nessa época tentaram uma colonização em massa. Vieram amarelos, que povoaram o Oriente; negros que se localizaram na África e se tornaram selvagens; os antigos habitantes das Américas. Vem daí que Heshu, a serpente, era cultuada entre os maias, astecas e incas. Entre os incas, a sua língua se chamava Heshua, que hoje, por causa da corruptela através dos séculos, chamamos quéchua. Ainda é falada na Bolívia e no Peru. Ao escrever o número 666, que designava o chefe do mal, os gregos, com as letras que compõe esse número, escreveram exatamente Heshua.”

Associando a imagem da cruz com o símbolo das forças do mal, chefiadas pelos alienígenas de Vênus, Aladino ressalvou, todavia, que a rebelião não partiu originalmente de Vênus: “Esse planeta apenas aceitou ideias importadas de outros sistemas. A origem do mal foi na constelação do Cruzeiro do Sul – donde a cruz passou a ser o símbolo de todos os que aceitaram a sua filosofia.”[23] Por ironia do destino, depois da segunda fuga, Aladino foi preso na cidade paulista de Cruzeiro, quando tentava fugir para Minas Gerais…

Refletindo acerca das concepções desenvolvidas ao longo daqueles anos, instava a população a atender o seu chamamento: “O mundo, atualmente, embora tema, sente a necessidade de uma intervenção extraterrestre comandada por Deus. E, bem no fundo de sua consciência, sabe que a intervenção virá infalivelmente. Será na hora final, quando tudo já parecer perdido. Não virá para apaziguar os ânimos, mas virá como um poder mais forte para destruir os poderosos da Terra. Isso ficou escrito na Bíblia. Foi chamado de o ‘Dia de Deus’. Lugar de aterrissagem: Jerusalém. Data: 7 de maio de um ano que não se sabe ao certo.”[24]

Por fim, Aladino anunciava que havíamos chegado ao crepúsculo desta civilização e ao alvorecer de uma nova era, que se iniciaria com a Restauração. Os discos voadores de Júpiter estavam prontos para intervir. Só mais um pouco e viria o desfecho. “Os judeus, depois de tomarem posse de Jerusalém, proibirão os cultos idólatras em sua capital. Virá a reação. Roma proporá uma nova cruzada para libertar os lugares sagrados, e o mundo todo unir-se-á para conquistar Jerusalém. Aí será o fim.”[25]

Para Aladino, entretanto, era só o começo do fim.

As provas irrefutáveis de que Aladino Félix era Dino Kraspedon

Conquanto a mentira já tenha se consagrado, havemos de fazer com que a verdade seja ouvida, principalmente para que seja estímulo e força impulsionadora para todos aqueles que, desajudados da fortuna, negados pelos ignorantes, perseguidos pelos invejosos, ironizados pelos medíocres, infamados pelos pseudo-eruditos ou crucificados pelos estúpidos, fanáticos e incréus, tenham coragem bastante e a necessária força de vontade para prosseguir na luta pela verdade e pela justiça.

Ao assumir a identidade de Kraspedon, o bancário aposentado Oswaldo Pedrosa necessariamente teria também de alterar a sua personalidade em todos os aspectos que esta comporta. Não foi o que fez, entretanto. No intuito de restabelecer a verdade histórica – ciosos que somos por ela –, passarei a apresentar provas documentais incontestáveis de que o bancário aposentado não é nem nunca foi o autor de Contato com os Discos Voadores.

Um dos argumentos mais capciosos e recorrentes dos ufólogos que referendam e defendem o bancário, é o de que Dino Kraspedon e Sábado Dinotos seriam personagens distintos. Para eles, Dino seria o bancário, o contatado, e Sábado, Aladino Félix, o líder messiânico e terrorista. Nada mais falso e enganoso. Como se já não bastassem os testemunhos de todos os que conheceram Aladino, incluindo sua família, os quais garantem que o autor de Contato com os Discos Voadores era de fato Aladino Félix, apenas e tão somente ele, tenho em meu poder uma cópia fotográfica de uma edição de 24 de agosto de 1968 do jornal Última Hora de São Paulo (n° 5.090, ano XVII), que traz nas páginas 8 e 9 uma reportagem cujo título principal é “Os caminhos do terror”, e na página 10, um perfil do contatado e terrorista, sob o título “O incrível Aladino ou Sábado Dinotos ou Dino Casperton” (sic!). Embora o jornal tenha errado na grafia, fica patente que na época a própria imprensa já reconhecia Dino e Sábado como sendo a mesma pessoa, ou seja, Aladino Félix.

Última Hora, 24 de agosto de 1968, p.8-9. Fonte: Arquivo do Estado de São Paulo.

A Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, instituição oficial que centraliza os registros de livros e demais obras intelectuais para fins de proteção de direitos autorais, enviou-me em 24 de novembro de 1995 um documento assinado pela Chefe da Divisão de Informação Documental Anna Naldi e referendado pela pesquisadora Cássia Krebs, confirmando que Dino Kraspedon e Sábado Dinotos são a mesma pessoa, ou seja, Aladino Félix. Em sua lista, constam como sendo de Félix as obras Bíblia Sagrada (Pentateuco); Contato com os Discos Voadores; O Hebreu, o Libertador de Israel; Mensagem aos Judeus: o Nascimento do Messias; e A Órbita da Terra e a Gravitação.

A Biblioteca Municipal de São Paulo Mário de Andrade, por sua vez, por meio da Seção de Referência e Informação, enviou-me em 27 de novembro de 1995 um ofício assinado pela bibliotecária-chefe Suely de Oliveira, que igualmente confirmou serem Dino Kraspedon e Sábado Dinotos a mesma pessoa. Dos livros de Aladino, a Biblioteca Mário de Andrade possui Contato com os Discos Voadores, A Órbita da Terra e a Gravitação e O Hebreu: Libertador de Israel.

Poucos meses antes de seu falecimento, em 13 junho de 1996, mantive intensa correspondência com o ilustre médico e pioneiro da ufologia no Brasil, Walter Karl Bühler, fundador e presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Discos Voadores (SBEDV),  com quem Aladino estivera ligado na década de 50, conforme registra o livro A Antiguidade dos Discos Voadores: “Quando nada, pessoas que tiveram experiências com discos voadores e que preferiam conservar o seu silêncio, conhecemos às dezenas. Até em que profundidade eles penetraram no problema? Impossível saber. Sabíamos que tais pessoas poderiam contar suas experiências se encontrassem um ambiente discreto e amigo, que lhes desse ouvidos. Em 1956 o Autor, juntamente com o dr. Walter Bühler, médico da Policlínica do Rio de Janeiro, começou a organizar, naquela cidade, uma sociedade que fosse composta de pessoas sérias. Ali as pessoas poderiam contar suas experiências sem sofrerem qualquer ordem de vexame ou de pressão.”

Segue transcrição textual da carta de Bühler datada de 22 de outubro de 1995: “Quanto ao sr. Dino Kraspedon (Aladino Félix), há pouco recebemos propaganda comercial, dando conta da reedição do livro de Dino. Isso nos causou estranheza pois a dita propaganda era muito formal, não se fazendo acompanhar de algumas linhas, a nós dirigidas, afinal tivemos no passado um bom relacionamento com Dino, especialmente intenso (veja Boletim Informativo da SBEDV nos 72/73, p.140), nos anos 1957 e 1958, após a fundação da SBEDV. Agora, através de sua carta estamos começando a entender a situação ‘real’: a pessoa que se faz passar por Dino deve ter outro objetivo em mente – não é de faturar alguns ‘reais’, pois as editoras não se interessam pelo assunto UFO e nem os livros rendem tanto assim. Se a matéria UFO está sendo hostilizada pela política dos governos, devemos suspeitar que os serviços de ‘desinformação’ têm algumas coisas em mira com essa reedição. […] A nós, Dino parecia pessoa corajosa, inteligente, porém impulsiva, a lutar para alcançar os seus objetivos, não medindo conseqüências – e isto em matéria hostilizada e ‘minada’ – Até hoje – por todos os serviços secretos, o que envolve grandes riscos para o ufologista civil e apolítico […] Seria extremamente perigoso a pessoa deixar-se seduzir e procurar apoio na política, especialmente em tempos extraordinários ou de sítio. Parece que Dino Kraspedon enveredou para estes caminhos o que o prezado missivista com facilidade poderá computar pelos recortes de UH de São Paulo, pois o Boletim Informativo da SBEDV nos 72/73, editado no início de 1970, deu conta de nossa surpresa com a atividade terrorista de Dino e sua prisão perante a sua família e filhos.”

Em entrevista concedida ao jornal Bavic, Bühler reafirmou: “No início não entendíamos a razão dos ataques feitos, por algumas pessoas, contra o assunto disco voador – para nós, já naquela época, oriundos do espaço cósmico. Foi com a aproximação à SBEDV do ufólogo paulista Aladino Félix (aliás Dino Kraspedon), na época egresso de um curso de recrutamento de pessoal para a CIA – órgão norte-americano encarregado de espionar o estrangeiro – realizado em Chicago, é que ficamos sabendo da real extensão do problema disco voador. Era, sem dúvida, um assunto temido por políticos e militares, razão pela qual em conjunto com outros serviços secretos internacionais, estenderam em torno do globo uma rede de informação e contra-informação à respeito do tema extraterrestre.”[26]

Exemplar de A Antiguidade dos Discos Voadores, de Aladino Félix, vulgo Sábado Dinotos, autografado pelo filho deste, Raul Félix.

Como que antevendo a usurpação do nome, em o Livro Branco dos Discos Voadores, escrito em 1985, Bühler fez questão de declinar em várias passagens[27] o verdadeiro nome de Kraspedon, isto é, Aladino Félix: “A real existência de tais contatos esporádicos entre governos terrestre e extraterrestre foi-nos confirmada na mesma época adicionalmente por outro membro da Comissão Confidencial de São Paulo. Trata-se do comandante da companhia de aviação Cruzeiro do Sul, Auriphebo Berrance Simões.[28] Os intermediários desta comunicação foram os dois amigos em comum: o primeiro, Dino Kraspedon, pseudônimo de Aladino Félix; o segundo, o arqueólogo norte-americano George Hunt Willianson.[29] Ambos relataram-nos que o comandante, na época de 1958, perdera a prova que antes havia recebido de altos escalões de Washington.[30] Esta consistia de efígie de medalhinha apresentando, em um dos lados, rosto parecido com o humano, mas com orelhas pontiagudas. Essa medalhinha, segundo Simões, Willianson[31] e Félix, teria caído do bolso do extraterrestre. Este escorregou no chão ensaboado do túnel que ligava em Washington os dois edifícios do legislativo, lavado à noite, na ocasião quando, por este túnel, o extraterreno estava àquela hora para interrogatório por legisladores.”[32]

E em outra passagem: “O resultado da pesquisa varia, obviamente, de acordo com a tendência, filosofia, educação e experiência de cada investigador. Assim, as deduções que tiramos no início de nossas pesquisas, entre 1956 e 1960, foram de ordem adamskiana, confirmadas entre nós pelos casos de Freitas Guimarães, e de Aladino Félix (de pseudônimo Kraspedon);[33] os ufonautas provinham do nosso sistema solar e eram morfologicamente idênticos a nós, respeitando ainda o nosso livre-arbítrio.”[34]

Por ocasião da visita que fiz ao veterano ufólogo Fernando Cleto Nunes Pereira em seu apartamento na histórica rua Toneleros, em Copacabana, Rio de Janeiro, no dia 21 de fevereiro de 1996, aproveitei para mostrar-lhe a edição de 6 de março de 1968 do Jornal da Tarde com a matéria “O golpe fantástico”, que traz uma foto de Aladino Félix, a quem certa vez hospedou. Ao vê-la, Cleto logo reconheceu o velho colega. Acima da foto, escreveu: “Acredito que este é o Dino Kraspedon que conheci na década de 50”.

O exemplar do Jornal da Tarde de 6 de março de 1968 com o reconhecido por parte de Fernando Cleto Nunes Pereira de que o homem da foto (p.6), Aladino Félix, era de fato o Dino Kraspedon que conhecera.

O ufólogo decano Fernando Grossmann, em carta datada de 4 de maio de 1997, escreveu-me: “Concordo plenamente com o amigo de que o papel político-histórico de Aladino Félix foi subestimado. Mas não por mim. Tive sempre curiosidade por essa folclórica figura, que aparecia freqüentemente nos jornais, relacionado com assuntos fora da rotina. Sem sombra de dúvida, o amigo pode contar conosco, para o que der e vier, no sentido de aprofundar as pesquisas sobre Aladino Félix e suas múltiplas facetas. […] O folhetinho que estou enviando xerocopiado, Argentino, da ‘Nova Era’, apenas menciona e presta homenagem a Dino Kraspedon.”

Fernando Grossmann e Cláudio Suenaga no Arquivo do Estado de São Paulo

O pesquisador e estudioso das religiões Bira Câmara, em seu livro A Farsa da Nova Era: Nem Apocalipse, Nem Era de Aquário, uma crítica lancinante aos mentores e propaladores de falsas crenças, seitas e religiões, aduziu: “Esta figura controvertida […] morreu em 1985. Mas a sua história não termina por aqui: nos anos 90 surgiu nos meios ufológicos um cidadão apresentando-se como Dino Kraspedon e autor da obra Contatos com os Discos Voadores, utilizando inclusive a mesma capa da edição original. Ora, é pública e notória a verdadeira autoria deste livro, pois Dino Kraspedon era um dos vários pseudônimos de Aladino Félix. Causa estranheza que alguém se faça passar por ele e ainda tenha a ousadia de se apresentar em congressos e simpósios de ufologia como um dos ‘primeiros contatados’ pelos extraterrestres!”[35]

E em outro trecho: “Em 1968, quando Aladino Félix, o verdadeiro personagem por trás dos pseudônimos Sábado Dinotos, Dino Kraspedon e Dunatos Menorá, foi preso como terrorista, fiquei tão surpreso como a maioria das pessoas que estavam acostumadas a vê-lo em programas de televisão ou ler suas controvertidas entrevistas em jornais. O seu envolvimento em atividades terroristas, sua prisão e fugas misteriosas, impressionaram-me tanto quanto suas ideias excêntricas. No decorrer dos anos sempre estranhei o silêncio dos historiadores em torno da sua figura, já que seus livros mais conhecidos, Antiguidade dos Discos Voadores e Contato com os Discos Voadores, eram citados como referência pelos aficionados da temática ufológica.”[36]

Notas

[1] “Dyx em grego ou em russo significa juiz. Em aramaico, espírito. De Dyx saiu Dinotos. Assim, a expressão Shaboda Dyx significa da água e do espírito, elementos arquetipais que simbolizam o renascimento. Dinoth ou Tinoth no hebraico também significa ‘dois dentes’ ” (Aladino Félix, in Centúrias de Nostradamus e Dicionário Hebraico-Português).

[2] “O Sábado é o dia mais sagrado no judaísmo. Deus criou o mundo em seis dias, e no sétimo dia descansou. O Sábado (do hebraico Shabat) inicia-se na sexta-feira com as primeiras estrelas no céu, quando os fiéis oram, e termina no Sábado, com as primeiras estrelas no céu, quando os fiéis tornam a orar. No Parashá desta semana, Ki Tissá, somos lembrados do significado singular do Shabat, que é um sinal de ligação entre nosso povo e Deus. Como dizia Achad Ha-am, os judeus mantiveram o Shabat e o Shabat manteve os judeus (Shemot, 21:11 a 34:35). Na Cabala (ocultismo judaico) se diz que a Divina Providência conduz os acontecimentos de uma forma velada aos homens. O faraó, rei bárbaro e cruel, ordenou que atirassem todos os filhos israelitas recém nascidos ao Nilo. Todavia, Deus escolheu a filha do próprio faraó para salvar das águas aquele que deveria ser um dia o libertador de seu povo” (Interpretação de Fernando Grossmann).

[3] “O candelabro de vários braços (sete ou nove) é chamado de Menorá. Assumiu várias formas ao longo da história, mas sua característica essencial tem sido oito braços menores e um nono separado, usado na festa de Chanucá. É uma referência ao candelabro dourado de sete braços do antigo Templo de Jerusalém, que significava, entre outras coisas, os sete dias da criação. Todas as cerimônias religiosas do judaísmo são iluminadas por velas (na atualidade, antigamente usava-se óleo de oliva). ‘E tu ordenarás ao filho de Israel, que te tragam azeite puro de oliveira’ (versículo 20). Ao ouvir a recomendação de Moisés, os israelitas disseram: ‘Tu, ó Deus, que estendes a luz sobre a Terra, nos ordenaste iluminar o Santuário’. Na Torá (livro sagrado dos judeus), lê-se: ‘Como iluminaremos, a quem criou a luz? Não é para mim que acendereis, porém para a gente que ainda permanece na escuridão. A fim de que eles sejam iluminados e conheçam o criador’ (Êxodo, Parashá Tetzave, Cap. XXVII 20, Cap. XXVIII 30). Os castiçais usados na iluminação chamam-se ‘Menorá’. A ‘Menorá’ do Templo, quando for reconstruído o Templo, comportará oito velas ou oito lamparinas de óleo de oliva” (Interpretação de Fernando Grossmann).

[4] Kraspedon, Dino. Contato com os Discos Voadores, São Paulo, São Paulo Editora, 1957, p.21-22.

[5] Ibid., p.23-25.

[6] A revista científica norte-americana Science anunciou em sua edição de 10-10-1997, que as duas maiores luas de Júpiter, Ganimedes e Calisto, possuem material orgânico, isto é, as mesmas substâncias químicas que são consideradas a base para o surgimento da vida na Terra. “A composição química da superfície desses objetos – os satélites de Júpiter – são de interesse porque dão dicas sobre a origem do nosso sistema solar e porque contêm moléculas orgânicas que são essenciais para o início da vida”, declararam os autores da descoberta, uma equipe de 12 cientistas dos EUA, liderada por Thomas B. McCord, da Universidade do Havaí. Para eles, os quatro grandes satélites de Júpiter – Ganimedes, Calisto, Io e Europa – constituem um verdadeiro “sistema solar” em miniatura. As substâncias descobertas chegaram até aqui, provavelmente, junto com cometas ou meteoros, que poderiam ter, segundo uma teoria, “inseminado” a Terra e outros planetas com as sementes daquilo que viria a ser a vida – substâncias orgânicas, isto é, construídas em torno do carbono. Na Terra, a vida prosperou por encontrar solo fértil. O mesmo pode ou não ter ocorrido em outros pontos do sistema solar. Os satélites jupiterianos são quatro laboratórios excelentes por possuírem atividades muito variadas. Ao contrário de Calisto e Ganimedes, Io tem vulcanismo e Europa pode ter mesmo água líquida debaixo de uma crosta de gelo, e talvez alguma forma de vida primitiva. Cada um desses quatro satélites, chamados de galileanos porque foram descobertos pelo cientista italiano Galileu Galilei, possuem características que os tornam semelhantes a planetas. Eles equivalem, em tamanho, à Lua terrestre ou são maiores que o planeta Mercúrio. A descoberta do material orgânico só foi possível graças à sonda espacial – que a NASA, em homenagem ao cientista, batizou de Galileo – lançada pelo ônibus espacial Atlantis em 1989. Pouco antes, a sonda já havia tirado fotos da lua Europa, os quais indicavam que ali poderia existir um oceano de água. As imagens feitas pela sonda revelaram uma superfície coberta por crostas de gelo e evidências de atividade geológica. A Galileo igualmente produziu imagens de um vulcão em Io. Embora as descobertas estivessem longe de comprovar a existência de vida inteligente fora da Terra, atestaram que Aladino e outros contatados, assim como vários escritores de ficção científica, intuíram corretamente ao apontarem Io e Ganimedes como locais privilegiados de morada de seres extraterrestres (Bonalume Neto, Ricardo. “Luas de Júpiter têm substâncias da vida”, in Folha de S. Paulo, São Paulo, 10-10-1997, mundo/ciência, p.18, c.1).

[7] Nota-se aqui que Aladino deixou-se influenciar pelo caso dos irmãos argentinos Jorge e Napy Duclout. Praticantes do espiritismo, numa série de sete sessões – a primeira efetuada em 9 de julho e a última em 6 de setembro de 1952 –, alegaram que conseguiram entrar em contato mediúnico com uma entidade extraterrestre. As captações foram registradas num livro ao mesmo tempo fascinante e inacreditável, com o extenso título de Origen, Estructura y Destino de los Platos Voladores: Transcripción de las grabaciones, sobre alambre, registradas durante experimentaciones psíquicas, con varios esquemas y 1 apéndice, editado em Buenos Aires em fevereiro de 1953. Jorge Alberto, o mais velho, à época com 50 anos, era um engenheiro de vasto curriculum. Fabricou e instalou os primeiros radiotransmissores da Argentina, assim como o primeiro transmissor e receptor de televisão em 1928. Construiu o primeiro gravador de som com película de 35 milímetros, escreveu 25 livros de divulgação técnica e inventou um processo simplificado de terceira dimensão para o cinema. Foi professor da Faculdade de Engenharia de Buenos Aires e da Sorbonne, e foi o primeiro Diretor de Navegação e Portos da Argentina. Ele é que fez o papel de médium nas experiências psíquicas. Napy, à época com 43 anos, era jornalista, escreveu programas de rádio, colaborou com programas de televisão, preparou argumentos para 12 películas cinematográficas e dirigiu filmes. No livro em questão, começam tecendo considerações de coisas que a maior parte das pessoas não podiam compreender e admitir por estarem além de seus conhecimentos. E logo fazem uma série de revelações fantásticas. Segundo a entidade comunicante, os discos voadores que nos visitavam com relativa freqüência, provinham do maior dos quatro satélites principais de Júpiter, aquele que os nossos astrônomos chamam de Ganimedes. Com um diâmetro aparente de 5.730 km, era o único habitado por seres humanos, ou melhor, humanóides: “Temos os satélites de Júpiter que são: Io, Europa, Ganimedes e Calisto. Os dois primeiros são pequenos e quase não têm atmosfera. Calisto é quase nebuloso, muito leve. É uma esponja. E Ganimedes é o mais interessante porque não é frio como dizem, mas tem uma atmosfera densa, de 100 km de espessura. E é daí que vêm os discos voadores. Junto com a Terra e Marte, é um dos três únicos corpos habitados do nosso sistema solar”. O livro terminava com a revelação de que, em 1967, a Terra entraria em novo conflito mundial, fato que não se realizou. E que haveria uma misteriosa intervenção dos ganimedianos, visando acabar com a guerra e salvar a humanidade da catástrofe (Martins, João. “Na esteira dos discos voadores, parte II:  Plato Volador sobre Buenos Aires”, in O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 09-10-1954, p.68-72).

[8] Kraspedon, Dino, op. cit., p.25-28.

[9] Ibid., p.29-31.

[10] Kraspedon, Dino, op.cit., p.29-47.

[11] Para Aladino, a penetração desse novo corpo já teria sido predita na Bíblia e por Nostradamus (Kraspedon, Dino, op.cit., p.53-54). “Sucederá que, naquele dia, diz o Senhor Deus, farei que o sol se ponha ao meio-dia, e entenebrecerei  a terra em dia claro” (Amós, 8-9). “La grande estoille para sept jours bruslera, Nuce fera deux soleils apparoir” (“Por sete dias a grande estrela brilhará, nuvem fará dois sóis aparecer”, centúrias, II, quadro 41).

[12] Kraspedon, Dino, op.cit., p.52-57.

[13] Ibid., p.153-165.

[14] Ibid., p.146-147.

[15] Ibid., p.15-16.

[16] Kraspedon, Dino. A Órbita da Terra e a Gravitação, São Paulo, São Paulo Editora, 1959, p.95.

[17] Kraspedon, Dino, op.cit., p.12; 21-22.

[18] Ibid., p.49-50.

[19] Ibid., p.52.

[20] Ibid., p.53.

[21] Ibid., p.96-99.

[22] Sanmartin, Alberto. Profecias de Nostradamus sobre o Grande Rei, São Paulo, (s.n.), 1965.

[23] Dinotos, Sábado. A Antiguidade dos Discos Voadores, São Paulo, São Paulo Editora, p.132.

[24] Ibid., p.103.

[25] Ibid., p.156.

[26] “Pioneiros”, in BAVIC, Belém (PA), s.d., nº 2, p.2.

[27] Para reforçar isso, ao citar o livro Contato com os Discos Voadores, fez questão de assinalar: “Dino Kraspedon é pseudônimo de Aladino Félix” (Bühler, Walter Karl & Pereira, Guilherme. O Livro Branco dos Discos Voadores, Petrópolis, Vozes, 1985, p.167).

[28] Em seu livro Os Discos Voadores: Fantasia e Realidade (São Paulo, Edart, 1959, p.173), Simões faz uma referência velada a Aladino Félix (F.A.): “O sr. F.A., de São Paulo, que diz ter estado em um disco voador, também notou o que, para certos observadores, poderia parecer um jogo de três esferas, igualmente espaçadas, na parte inferior do disco. Entretanto, segundo o senhor F.A., não se trata de esferas e sim de três aparelhos muito parecidos com os pesos dos halterofilistas. Esses ‘halteres’ – contou-nos ele – estão em posição vertical, de maneira que só as esferas da parte inferior são vistas; ao contrário do que se pensa, não constituem um trem de aterragem: são dispositivos electromagnéticos e fazem parte integrante do sistema de propulsão dos discos; têm pequenos movimentos de inclinação para um lado e para o outro.”

[29] Boletim da SBEDV, Rio de Janeiro, setembro de 1958, nº 5, p.2-3; op.cit., dezembro de 1961 a março de 1962, nº 24/25; op.cit., setembro de 1976 a abril de 1977, nº 112/115.

[30] IDEM, novembro de 1958, nº 5, p.3-4; op.cit., maio de 1961, nº 21; op.cit., julho-novembro de 1961, nº 22/23; “Com. A. B. Simões traz proposta do governo norte-americano; “Com. A. B. Simões atende congresso internacional de astronáutica”, in O Globo, Rio de Janeiro, 10-01-1959; “Prova da existência de extraterrestres nas mãos do com. A. B. Simões”, in O Jornal, Rio de Janeiro, 10-08-1958.

[31] O arqueólogo Willianson foi uma das seis testemunhas do primeiro contato de Adamski com um extraterrestre em Desert Center.

[32] Bühler, Walter Karl & Pereira, Guilherme, op.cit., p.159.

[33] Boletim da SBEDV, Rio de Janeiro, março de 1960, nº 14, p.14.

[34] Bühler, Walter Karl & Pereira, Guilherme, op.cit., p.167.

[35] Câmara, Lobo. A Farsa da Nova Era: Nem Apocalipse, Nem Era de Aquário, São Paulo, edição do autor, 1998, p.90.

[36] Ibid., p.195.

Extras

Matéria de minha autoria intitulada “A verdadeira história de Dino Kraspedon e Aladino Félix” publicada na edição nº 134 da Revista UFO, junho de 2007.