A Lista de Mendes: A história esquecida do diplomata português que salvou 30 mil do nazismo

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

Em 14 de junho de 1940, a França é ocupada pelas tropas nazistas e o marechal Pétain (1856-1851) assina o armistício, instalando em Vichy a sede de um governo colaboracionista. Na cidade de Bordéus, sudoeste do país, afluem multidões de refugiados com a esperança de chegar à fronteira, atravessar a Espanha, entrar em Portugal e dali embarcar para a América. A Espanha do ditador Francisco Franco (1892-1975), apesar de oficialmente neutra, era descaradamente pró-nazi, de modo que só aqueles que podiam provar, com um visto português, que não tinham a intenção de permanecer, eram autorizados a entrar e passar – depressa – pelo território do país. Esta era outra tremenda dificuldade que se interpunha, pois poucas semanas depois do início da Segunda Guerra Mundial com a invasão da Polônia pelas tropas nazistas em 1º de setembro de 1939, o ministro dos Negócios Estrangeiros, o próprio ditador Antônio de Oliveira Salazar (1889-1970), igualmente alinhado com Hitler, já havia decretado instruções formais para a não emissão de vistos a determinadas categorias de refugiados, considerados indesejáveis – nomeadamente judeus, comunistas e antifascistas –, sem autorização prévia.

Foi em meio a esse quadro de perseguições, desalento e desespero que o cônsul-geral português em Bordéus, Aristides Sousa Mendes, se pôs a emitir vistos de entrada em Portugal a qualquer um que necessitasse, convertendo sua própria residência (imediatamente atrás dos escritórios do consulado, no Quai Louis XVIII) em abrigo temporário de refugiados. Dali partiam para Portugal, permanecendo em sua casa em Cabanas de Viriato, distrito de Viseu, enquanto não conseguiam embarcar para outros continentes.

Aristides Sousa Mendes

Originário de uma família aristocrática, Aristides Sousa Mendes do Amaral e Abranches nasceu em 19 de julho de 1885, em Cabanas de Viriato, filho do juiz José de Sousa Mendes e de Maria Angelina Ribeiro de Abranches Castelo Branco. Tal como seu irmão gêmeo, César, licenciou-se em Direito na Universidade de Coimbra, em 1907. No ano seguinte casou-se com sua prima Angelina, com a qual teria 14 filhos. Em 1910 ingressou na carreira diplomática. Foi cônsul de Demerara (Guiana Francesa) em 1910; Zanzibar (África Oriental Britânica), entre 1911 e março de 1918, com exceção de grande parte de 1914 e 1915, que passou em Portugal por motivos de saúde; Curitiba, no Estado do Paraná, em 1918; São Francisco (EUA), entre 1921 e 1923; São Luís, no Maranhão, em 1924; Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, em 1926; Vigo (Galiza-Espanha), em 1927; Antuérpia (Bélgica), em 1929; e Bordéus, a partir de 1º de agosto de 1938.

Na cidade de Curitiba, Sousa Mendes foi suspenso de suas funções e colocado na situação de disponibilidade, com uma redução considerável do vencimento. O despacho ministerial o apontava como elemento hostil ao regime político republicano e democrático então vigente em Portugal. César, que por essa altura era encarregado de negócios na Embaixada Portuguesa no Rio de Janeiro, ajudou na defesa de seu irmão enviando ao Ministério dos Negócios Estrangeiros uma representação assinada por 34 cidadãos portugueses residentes em Curitiba em defesa de Aristides “como protesto contra uma campanha miserável que ali lhe têm movido criaturas sem vislumbre de senso moral”. A defesa surtiu efeito e revogou-se a suspensão das funções diplomáticas. A punição que recebeu pelas suas convicções monárquicas e anti-republicanas só serviu para reforçá-las. Aristides aumentou legalmente o seu nome para Aristides de Sousa Mendes do Amaral e Abranches, reafirmando assim as suas raízes aristocráticas. Seu irmão fez o mesmo.

Ao ser nomeado para o prestigioso e lucrativo posto de cônsul-geral da Antuérpia, na Bélgica, em 7 de setembro de 1929, a carreira de Sousa Mendes chegava ao auge. No entanto, a duplicidade, a deslealdade e a intriga que caracterizavam o funcionamento interno do Palácio das Necessidades o revoltavam. Sonhava em ser capaz de algum dia desmascarar a corrupção no seio do Ministério dos Negócios Estrangeiros, mas ponderava que isso era impossível sob o regime vigente. “Quando um dia pudermos falar”, escrevia ele a César, “não nos calaremos”. Infelizmente esse dia nunca chegou. Seriam necessários muitos anos e a sua própria tragédia pessoal para que o seu descontentamento se cristalizasse em termos políticos. Ante a falta de decoro da cena política nacional, refugiava-se na fé. Daí as imagens religiosas em sua casa.

Entre 1936 e 1938, sem remuneração adicional de qualquer espécie, ocupou a posição de decano do corpo diplomático em Antuérpia, a despeito dos gastos adicionais que isso obviamente trazia. Logrou enorme êxito nessa função, como demonstram os numerosos artigos publicados na imprensa de língua francesa e flamenga. O rei belga Leopoldo III (1901-1983) lhe conferiu duas condecorações, fazendo-o oficial da Ordem de Leopoldo e comendador da Ordem da Coroa, a mais alta condecoração da Bélgica.

Sousa Mendes escreveu a Salazar em 1938, recordando-lhe, entre outras coisas, que era “o número 2 no respectivo quadro, sendo o mais antigo de todos os funcionários que preferiram a passagem ao corpo diplomático, em resposta a um inquérito do Ministério dos Negócios Estrangeiros”. Requerendo a chefia da missão de 2ª classe na missão diplomática chinesa ou na japonesa, em vez disso, em 1º de agosto daquele ano, Salazar transferiu-o para Bordéus, um lugar pouco atrativo. Sousa Mendes enviou dois telegramas ao ditador, pedindo para ser mantido em Antuérpia, mas não obteve reconsideração. Desta vez a renitência de Salazar revelar-se-ia positiva: o seu resultado final seria um incontável número de vidas salvas.

Católico dos mais conservadores, Sousa Mendes era, até ali, um partidário e funcionário fiel da ditadura salazarista. Somente causas profundas poderiam pôr em cheque suas convicções e mudar sua postura. E foram elas que o fizeram em 16 de junho de 1940. Ao sair do consulado, viu-se cercado pela multidão. Entre os aflitos, encontrou um amigo, o rabi Krueger, pai de cinco filhos e pensou que tinha de fazer algo por ele. Levou-o para o consulado e depois de refletir, decidiu que iria desrespeitar a ordem e emitir vistos para salvar aquela família. Ao propor isso ao rabi, ele teria respondido que só aceitaria se o cônsul desse vistos a todos os seus irmãos que estavam na rua.

Diante do impasse entre ajudar a salvar milhares de vidas humanas e cumprir a ordem de Salazar, Sousa Mendes enveredou pelo que chamou de “desobediência moral”, ou seja, “o dever de desobedecer que assiste aos funcionários e agentes da administração pública, quando a ordem não reúna todos os requisitos legais”. E assim, afirmou: “Não vou ficar impassível à janela e assistir à matança dos inocentes. Não, não e não! Não sou cúmplice da chacina, vou desobedecer a Salazar, vou passar os vistos e salvar os perseguidos. De agora em diante, darei vistos a todos. Não há mais nacionalidades, nem raças, nem religiões. Decidi seguir esse princípio mesmo que seja destituído. Devo agir corno cristão, como manda a minha consciência! Prefiro estar com Deus contra um homem, do que estar com um homem contra Deus”.

Durante três dias – 17, 18 e 19 de junho de 1940 –, quase sem dormir, Aristides de Sousa Mendes, com a ajuda da mulher, Angelina, do filho, Pedro Nuno, e do secretário José da Silva Ferreira de Seabra, atendeu milhares de pessoas que formavam longas filas nas escadas, dentro do edifício de Legação e fora deste, na rua, comprimindo-se em busca do almejado visto. Muitos foram assinados em plena rua, em uma pequena mesa que instalou na tentativa de salvar o maior número possível de refugiados. Em uma atitude considerada estranha, foi a diplomacia inglesa que alertou o governo de Portugal a respeito do cônsul que desafiava o protocolo diplomático, trabalhando fora de hora e em locais “impróprios”.

Começou por assinar o nome completo, a certa altura passou a assinar Sousa Mendes e, por fim, só assinava Mendes. Mais tarde mandou confeccionar um carimbo especial para que o processo pudesse caminhar ainda mais rápido.

Por ser o cônsul-geral na França, contatou os outros consulados e ordenou que também emitissem vistos. Entretanto, o cônsul de Bayonne, Faria Machado, recusou-se, alegando simplesmente a falta de pessoal. Sousa Mendes deslocou-se então àquele consulado e assumiu o comando da situação, apresentando-se aos colegas boquiabertos dizendo-lhes que agora já tinham mais um funcionário. Em ato contínuo, pôs-se a passar vistos, ajudado pelo funcionário consular Manuel Braga. Tudo em simples papéis carimbados, em que escrevia: “O governo português requer ao governo espanhol a cortesia de permitir ao portador circular livremente pela Espanha. Ele é refugiado do conflito europeu e está a caminho de Portugal”.

Aristides Sousa Mendes, Visto

O cônsul passava vistos na rua, dentro do carro, em qualquer situação, em qualquer lugar e a qualquer pessoa que o solicitasse. Ao todo, entre judeus, perseguidos políticos ou apenas cidadãos que fugiam do fogo das armas, calcula-se que tenha salvado em torno de 30 mil pessoas. E nunca cobrou nada para passar os vistos, embora muitos lhe tivessem oferecido vultosas quantias. De acordo com o historiador israelense Yehuda Bauer (1926-), Sousa Mendes “foi responsável pela maior operação de resgate empreendida por uma única pessoa durante a barbárie nazista”.

Em 24 de junho de 1940, Salazar enviou dois telegramas acusando-o de “concessão abusiva de vistos em passaportes de estrangeiros” e ordenando que regressasse imediatamente a Lisboa. Acompanhado da família, o cônsul acatou a ordem, mas, mesmo a caminho de casa, continuou a distribuir vistos, às vezes quando os nazistas já estavam “nos calcanhares de suas vítimas”.

Ao passarem por Hendaya, já quase na Espanha, foi surpreendido por uma cena trágica: muitas centenas de refugiados apinhavam-se na zona da fronteira. O governo espanhol havia recebido a informação de que os vistos emitidos por ele já não eram válidos e não estavam permitindo que os refugiados entrassem no país. Desembaraçando-se dos agentes, não desistiu. Pediu aos refugiados que o seguissem e formou uma enorme caravana, que conduziu até outro posto fronteiriço.

Já em Portugal, o diplomata foi forçado ao exílio interno até sua morte. Viu a sua carreira de 30 anos de diplomata acabar, de forma drástica. Foi destituído do Ministério dos Negócios Estrangeiros e ficou em situação de “disponibilidade” com grande corte no vencimento. Também foi impedido de exercer atividades políticas e advocatícias.

Terminada a guerra em 1945, desaparecem as contingências que desaconselhavam a reapreciação de seu processo. Em carta enviada ao Presidente da Assembléia Nacional, refere-se a si próprio na terceira pessoa e reclama:

“Não pode porém suportar a evidente injustiça com que foi tratado e conduziu ao absurdo, a que pede seja posto rápido termo, de o reclamante ter sido severamente punido por factos pelos quais a Administração tem sido elogiada, em Portugal e no estrangeiro, manifestamente por engano, pois os encômios cabem ao país e à sua população cujos sentimentos altruístas e humanitários tiveram larga aplicação e retumbância universal, justamente devido à desobediência do reclamante. Em resumo, a atitude do Governo Português foi inconstitucional, antineutral e contrária aos sentimentos de humanidade e, portanto, insofismavelmente ‘contra a Nação’. Pede deferimento (a) – Aristides de Sousa Mendes.

Não recebe qualquer resposta. É, pois, definitivamente condenado à miséria, ao ostracismo e à desonra.

O destino ainda lhe reservava outra tragédia pessoal. Em 25 de julho de 1948, sua esposa Angelina falecia aos 59 anos de idade, vítima de uma hemorragia cerebral, depois de ter permanecido em coma durante vários meses. O seu casamento, como todos os casamentos, não fora isento de problemas, mas Sousa Mendes amava profundamente a mulher e ela retribuía-lhe esse amor com uma devoção total a ele e à família. Ela aprovava e apoiava inteiramente as decisões que havia tomado em Bordéus, sem jamais tê-lo censurado pelas desastrosas conseqüências pessoais advindas. Ao seu modo discreto e apagado, partilhara os sofrimentos do marido, mas estes acabaram por rebentá-la antes a ela do que ele. Aos poucos os seus 12 filhos (dois haviam falecido) venderam os bens e dispersaram-se por vários países. Em 1949, muitos deles emigraram para os EUA. Em outubro daquele ano, Sousa Mendes resolve casar por procuração com a francesa Andrée, com quem tivera uma filha. No entanto, sabia ele que casar com Andrée poderia trazer graves conseqüências devido à instabilidade mental dela e à profunda hostilidade da família dele em relação a ela. Um dos motivos para efetuar o casamento parece ter sido o desejo de legitimar a filha, bem como, e principalmente, aplacar a solidão.

Aristides de Sousa Mendes, fardado

Em 3 de abril de 1954, aos 69 anos, Sousa Mendes morre pobre e desonrado, assistido apenas por um sobrinho, no Hospital da Ordem Terceira, um convento franciscano na rua Serpa Pinto, em Lisboa. A causa do óbito foi uma trombose cerebral agravada por pneumonia. Sua casa de Cabanas de Viriato, bem como os seus bens, foram vendidos em leilão público para saldar dívidas, ficando o seu interior completamente vazio e à mercê de invasores que ao longo dos anos a usaram para galinheiro, pocilga ou mesmo abrigo de rebanhos. A sua morte passou despercebida em Portugal. Em Léopoldville, capital do Congo Belga, um refugiado o qual ele ajudara lembrou-se do cônsul e escreveu na necrologia de um jornal: “Un grand ami de la Belgique est mort”.

A verdade sobre o que realmente tinha acontecido foi silenciada pelo regime de Salazar. Nem mesmo durante o processo disciplinar, realizado à porta fechada, se apurariam todos os fatos.

Cabe lembrar que foi a abertura política e a instauração da democracia em Portugal com a Revolução dos Cravos em abril de 1974, que permitiram a reelaboração de novas visões e concepções acerca da história e da identidade nacional, agora desvinculadas de uma postura nacionalista estreita e voltadas à recuperação das heranças árabe e judaica. Abriram-se assim os arquivos e se fez surgir à luz do dia a riqueza da contribuição judaica, desde os primórdios da nacionalidade até o decreto de expulsão, no século XV, bem como os horrores das conversões forçadas e das torturas infligidas pela Santa Inquisição. Portugal reencontra-se com os seus judeus, incrementando-se o interesse dos historiadores e demais estudiosos sobre as questões judaicas, em um processo de identificação histórica por parte de setores significativos da população.

Concomitantemente, só então se começou a conhecer os pormenores da situação vivida por esse diplomata e compreender a importância do seu gesto, iniciando-se uma ampla campanha pela reabilitação de seu nome, que só se concluiu em 1988, quando o Parlamento o livrou dos opróbrios lançados em seu currículo pelos “inquisidores” de Salazar

Reconhecimento tardio

Em 1958, Joana, uma das filhas de Sousa Mendes, que vivia em Nova York, escreveu ao primeiro-ministro israelita, David Ben-Gurion (1886-1973), falando-lhe de seu pai. Este ordenou uma investigação sobre as alegações de Joana e, em 1961, o gabinete do primeiro-ministro a informou que 20 árvores haviam sido plantadas em memória de seu pai na Floresta dos Mártires, em Jerusalém.

A Floresta, situada nos terrenos do Museu Israelita do Holocausto Yad Vashem, recorda as vítimas e “gentios justos” que ajudaram judeus durante a Segunda Guerra. Hoje o bosque conta com 30 mil árvores, simbolizando cada uma das vidas que salvou. Yad Vashem (Autoridade para a Recordação dos Mártires e Heróis do Holocausto), é a organização estatal israelita que autentica as declarações sobre gentios justos. Muitos dos refugiados que Sousa Mendes salvou emigraram mais tarde para Israel.

Yad Vashem tornou a homenagear Sousa Mendes em 1967, desta vez com a sua mais alta distinção, uma medalha comemorativa com a inscrição do Talmude “Quem salva uma vida humana é como se salvasse um mundo inteiro”. A cerimônia, que ocorreu em Nova York, sequer foi noticiada pela imprensa portuguesa, amordaçada pela censura salazarista.

Sentindo-se encorajada com as honrarias prestadas por Israel, em 18 de janeiro de 1969 Joana escreveu diretamente ao presidente português Américo Tomás: “A minha maior aspiração é ver a memória de meu pai reabilitada pelo Governo da Nação Portuguesa, pois a sua grande obra humanitária enaltece e dignifica profundamente Portugal e o seu nobre povo, assim como a nossa história diplomática. É pois do íntimo da minha alma que rogo a V.Ex.ª se digne interceder junto do Governo pela reabilitação da memória do meu querido pai.”

Não obteve resposta à sua solicitação.

Em Portugal, a família de Sousa Mendes só conseguiu a atenção de dois jornalistas. Em 4 de maio de 1976, duas semanas antes de Melo Antunes ordenar a investigação do caso, o Diário Popular publicou um artigo de António Colaço intitulado: “À espera de reabilitação póstuma de um português que Salazar castigou por ter salvado milhares de judeus das garras nazis”. Em 22 de fevereiro de 1979, António Carvalho escreveu em A Capital acerca de “um justo português”, no artigo “Testemunhas do Holocausto”.

Ainda em 1979, o presidente Mário Soares concede, a título póstumo, a “Ordem da Liberdade” a Aristides de Sousa Mendes.

Em 1988, depois de muitas resistências, a Assembléia da República e o governo português, pressionados pelos filhos de Sousa Mendes e pelos norte-americanos (entre estes o congressista Tony Coelho), finalmente procedem à reabilitação do cônsul.

Em 1998, o jornalista José Alain Fralon, do jornal Le Monde, lança o seu livro Le Juste de Bordeaux (sem tradução para o português), que recupera em parte a história do diplomata.

“Quando aparece alguém como Aristides de Sousa Mendes podemos acreditar que a humanidade ainda existe. Sempre que há guerras e horrores, há também a esperança, que nos chega através destes homens e mulheres”, afirmou António Moncada de Sousa Mendes, neto do cônsul, durante um jantar em homenagem a este organizado pelo Rotary Clube de Silves, na Fábrica do Inglês, em 26 de outubro de 2000. António Moncada e o conselheiro da Embaixada de Israel em Portugal, Reda Mansour, foram a Silves a pedido do Rotary, que todos os anos, em determinadas épocas, destaca algumas pessoas e as suas atividades, durante as suas reuniões. Ambos traçaram o perfil e expuseram os fatos que fizeram de Sousa Mendes um homem especial e perseguido.

Os presentes nesse encontro, entre os quais João Leal (representante do governador civil), José Manuel Pearce de Azevedo (ex-cônsul britânico no Algarve), Ralf Pinto (representante da comunidade judaica do Algarve) e Francisco Aleixo (representante do governador do distrito rotário), ficaram visivelmente impressionados com tudo o que foi dito sobre Sousa Mendes.

No início de 2002, a revista Visão, de Portugal, realizou uma ampla pesquisa para eleger o “personagem de língua portuguesa” do século XX. O ditador Oliveira Salazar, devido a sua forte – e polêmica – presença na história recente do país, foi o nome mais lembrado. Em segundo lugar, para surpresa geral, à frente de personalidades como Fernando Pessoa, Amália Rodrigues e tantas outras, foi eleito Aristides Sousa Mendes!

Fundação Aristides Sousa Mendes, Campanha de Dádiva de Sangue

Em 23 de abril de 2002, as comunidades luso-brasileira e judaica em São Paulo prestaram conjuntamente uma homenagem ao cônsul. Durante o evento, realizado no clube A Hebraica, em São Paulo, a maior e mais tradicional instituição judaica da América Latina, foi descerrado o busto de Sousa Mendes, esculpido pelo artista plástico Santos Lopes e oferecido à comunidade judaica paulistana pelo Conselho da Comunidade Luso-Brasileira do Estado de São Paulo. Além disso, uma exposição organizada pela Hebraica, pelo consulado geral de Portugal em São Paulo e pelo Instituto Camões, procurou recontar a história de Mendes por meio de 21 painéis com fotos e documentos vindos diretamente do Museu da República e Resistência da Fundação Aristides de Sousa Mendes, de Lisboa.

A iniciativa teria partido do membro do Conselho Permanente das Comunidades e ocupante de outros cargos na comunidade luso-brasileira, o advogado Antonio de Almeida e Silva, juntamente com José Magalhães e Rui Mota e Costa.

Os destaques foram a presença do neto de Aristides Sousa Mendes, Álvaro dos Santos Mendes, que veio de Portugal especialmente para a homenagem, e de Maria de Jesus Barroso Soares, presidente da Fundação Aristides de Sousa Mendes e esposa do ex-presidente de Portugal, Mário Soares. Também estiveram presentes o presidente de A Hebraica, Hélio Bobrow, o cônsul de Israel, Medad Medina, o cônsul de Portugal, Domingos Fezas Vidal, e o presidente do Conselho da Comunidade Luso-Brasileira do Estado de São Paulo, Antônio dos Ramos.

Em 17 de junho de 2004, marcando a data em que Sousa Mendes começou a passar vistos aos refugiados e em memória aos 50 anos de sua morte, igrejas e sinagogas de mais de 30 cidades por todo o mundo prestaram-lhe homenagens. Em Lisboa, a missa foi celebrada pelo cardeal-patriarca dom José Policarpo, e contou com a presença de representantes das comunidades judaica e muçulmana, membros da família Sousa Mendes e da fundação com o seu nome. A iniciativa partiu da Fundação Raoul Wallenberg, com o apoio do Vaticano, da Presidência da República e do Ministério dos Negócios Estrangeiros português, do Comitê Internacional Ângelo Roncalli e de várias fundações.

Aristides Sousa Mendes, Sugihara e outros (Selo)

Sousa Mendes integra uma restrita lista de heróis humanitários da Segunda Guerra Mundial, ao lado de nomes como Oskar Schindler (1908-1974), do diplomata sueco Raoul Wallenberg (1912-1947), que salvou 20 mil judeus húngaros do extermínio, do chefe de Polícia do Cantão de St. Gallen (leste da Suíça), Paul Grüninger (1891-1972), que em 1940 falsificou passaportes, salvando três mil judeus, e de Chiune Sugihara (1900-1986), vice-cônsul japonês em Kaunas, então capital da Lituânia, que em 1940 concedeu vistos para seis mil de judeus fugirem passando pelo Japão, mesmo contra a vontade do governo japonês e num cenário político de alto risco. Sua ação, tal como a de Sousa Mendes, acarretou-lhe a exoneração de Ministério das Relações Exteriores. Ao retornar ao Japão, em 1947, enfrentou graves problemas financeiros.

De todos eles, Sousa Mendes talvez seja o nome menos conhecido, embora tenha salvado o maior número de vidas.

Vasco Marques Paula

O pesquisador Vasco Marques Paula, nascido em 1926 na cidade portuguesa de Cintra – onde seu pai, um oficial do exército anti-salazarista, servia no campo de aviação – desembarcou no Brasil em 1941, em plena Segunda Guerra Mundial, na condição de exilado político. Justamente por ter sofrido, juntamente com sua família, as injunções de quem é sumariamente expulso de sua pátria por um regime totalitário, tornou-se um dos maiores defensores e propaladores dos atos de Sousa Mendes, a ponto de, a partir de março de 2002, mesmo sem contar com outros recursos financeiros a não ser o minguado salário de aposentado e de vendedor de lembrancinhas num quiosque da Praça de Artesanato de Mongaguá (cidade balneária do litoral sul paulista), onde mora, começar a enviar cartas – todas elas devidamente acompanhadas de uma fita cassete contendo a gravação da reportagem de uma rádio portuguesa sobre o cônsul – a vários meios de comunicação, embaixadas, consulados, governos, prefeituras, organizações, associações etc., incluindo o próprio presidente da República do Brasil (à época Fernando Henrique Cardoso), conclamando-lhes pelo reconhecido público da figura de Sousa Mendes. Sobre esse seu devotado empenho, diz ele: “Eu tenho que fazer, eu tenho que divulgar, já que a imprensa, o rádio e a televisão não fazem nada. E as embaixadas e os consulados nada fazem. Então resolvi fazer alguma coisa, que é pouco, mas é alguma coisa”.

Qualquer comparação com Schindler é veementemente repudiada por Vasco: “Não há como comparar Schindler com Sousa Mendes. Schindler era um nazista, portanto um porco irracional, um sujo. Schindler jamais pensou em salvar quem quer que fosse. Schindler simplesmente explorou judeus com cujo trabalho em sua fábrica de panelas enriqueceu. Ele tinha fábrica de panelas e talheres que fornecia ao exército alemão. Arranjou uma fortuna extraordinária, porque não pagava a mão-de-obra, dava apenas comida. Não há comparação possível entre um porco e um homem extraordinário como Aristides de Sousa Mendes, que concedeu os 30 mil vistos de entrada em Portugal, graças aos quais 30 mil judeus se safaram das câmaras de gás e da morte, ao passo que arruinou-se e a própria família, mulher e 14 filhos. E acabou por morrer na miséria, abandonado e esquecido por todos os 30 mil que salvou”.

Vasco Marques Paula e Cláudio Suenaga, em foto de Northon Salomão de Oliveira

Frequentemente surgem correlações entre a figura de Schindler, que tinha até carteirinha do Partido Nazista, e a de Sousa Mendes, que até os 55 anos era um salazarista ferrenho. Schindler e Sousa Mendes salvaram milhares de pessoas dos campos de concentração nazistas, mas são figuras bem distintas. Enquanto o primeiro era um bon vivant, um homem sem princípios, orientado unicamente pelo propósito de enriquecer, o segundo era um devotado pai de família e diplomata. Como asseverou Vasco, Schindler se interessava pelos judeus apenas como mão-de-obra barata para sua fábrica, daí ter poupado mil vidas; Sousa Mendes se preocupou em ajudar as pessoas, indiscriminada e desprendidamente, atendendo aos apelos dos refugiados. Agiu por conta própria, contra a lei do Estado Novo salazarista, sem ajuda de ninguém e sem ganhar nada, e fê-lo em 1940, no início da guerra, enquanto Schindler só agiu em 1944. Por esses motivos é que a preferência do cineasta Steven Spielberg em filmar a vida Schindler tenha soado tão mal, mormente àqueles que conheciam a vida e os feitos de Sousa Mendes e de outros muito mais autênticos e inquestionáveis beneméritos.

Apesar das inúmeras homenagens que foram prestadas ao cônsul – aliás, todas tardiamente –, ainda não se fez justiça a esse homem extraordinário que sempre recusou a notoriedade e nunca viu seus atos como dignos de grandes honrarias, julgando ter apenas agido segundo sua consciência. Seu nome precisa ser reverenciado à altura, e seus feitos divulgados massivamente e integrados ao currículo escolar, não ficando restrito apenas a determinados círculos e segmentos. É dever precípuo dos historiadores, sociólogos e demais especialistas em ciências humanas, debruçarem-se sobre a sua vida e produzirem obras de peso resgatando as lições e os legados que deixou para as gerações futuras. Todas as iniciativas, portanto, são importantes para que o mundo, enfim, tome conhecimento de uma personalidade que marcou o século XX e para que o espírito humanitário, que se encontra cada vez mais ameaçado, jamais pereça.

Fontes consultadas

Dorlhiac, Gabriella. “O ‘Schindler português’ salvou 30 mil”, in O Estado de S. Paulo, 22-04-2002.

Leitão, Olga e Salomão, Levy. “O Schindler Português: Aristides Sousa Mendes”, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1998-99.

“Aristides Sousa Mendes, uma esperança no tempo triste da guerra”, in Naus’s (Revista luso-brasileira), maio de 2002, n° 79, ano 7, p. 13-15.

“Casa do Passal assegura apoio ao Governo e da Câmara”, in Diário de Coimbra, 18-05-1999.

“Aristides de Sousa Mendes: O cônsul injustiçado”. Documentário com duração de 58 minutos produzido por Teresa Olga e Fátima Cavaco em 1992 para a RTP/RTC.
Paula, Vasco Marques. Entrevista a nós concedida em Mongaguá (SP) pelo pesquisador de história e militante em prol do reconhecimento da figura e dos feitos de Sousa Mendes.

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