1968: O ano que terminou há 50 anos

Uma breve reflexão sobre 1968

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

“Sejam realistas, exijam o impossível”. (Pichação nos muros da Sorbonne em maio de 1968)

1968 foi a culminância de décadas de lutas contra valores e sistemas tradicionais a permear o espírito de toda uma geração. Os ventos da mudança sopravam de todos os quadrantes. A possibilidade da instauração de um Paraíso na terra, da cessação de todos os males e injustiças, era sentido como algo real e verdadeiro. Descobria-se de repente uma fórmula às dúvidas desarrazoadas e vagas e que a vida não consistia necessariamente na aceitação de uma realidade única e indefectível. Tomava-se consciência, enfim, de uma alternativa a um modo de vida que até aí poucos tinham posto em cheque. E mesmo se naquela altura tal descoberta não fosse claramente definida, as perspectivas que se abriam provocavam uma poderosa e feliz vertigem. Até os conservadores mais arraigados chegaram a temer que algo falhara no projeto de continuidade, e que o futuro, tal como eles haviam planejado, não começaria.

Vivia-se sob o impacto de uma conjuntura açodada pelo acirramento de conflitos já não mais restritos às sociedades periféricas – onde o enfrentamento do colonialismo e das ditaduras assumia feições trágicas com a deflagração de processos de lutas e de guerrilhas. Os países centrais assistiam a explosão de uma onda de protestos comandados pela juventude. O fim da cultura ocidental parecia iminente. Nos Estados Unidos, um forte movimento de resistência pacifista contrapunha-se à Guerra do Vietnã. A deserção e a desobediência civil assumiam dimensões de radical atitude política.

O assassinato de Martin Luther King em 4 de abril, o mais importante líder do movimento pelos direitos civis, desencadeou a violência racial em mais de cem cidades. A capital viveu sob o toque de recolher durante uma semana.

A group of demonstrators holding signs reading ‘Union Justice Now’, ‘Honor King: End Racism!’ and ‘I Am A Man’ march in protest soon after the assassination of Dr. Martin Luther King, Jr., Memphis, TN, April 1968. (Photo by Robert Abbott) Sengstacke/Getty Images)

Surgia uma nova esquerda que explora o domínio da problemática pessoal ou de as reivindicações tidas como secundárias ou minoritárias – a libertação sexual, a luta dos negros, das mulheres, dos homossexuais, ecologistas, etc. O movimento hippie fervilhava, fazendo da sensualidade e da liberdade comportamental suas armas para combater o way of life industrializado. O uso das drogas para abrir portas de novas percepções, o amor livre e a expressão artística assumiam um sentido “contracultural”. A cultura, agora, estava posta a serviço da revolução. Novos símbolos e formas ganhavam corpo.

Também na Europa, a radicalização assumia contornos inusitados. Entre 10 e 11 de maio, com a decretação da greve geral, vinte mil estudantes enfrentaram os gendarmes (policiais da Gendarmerie Nationale, a Polícia Militar Francesa, que atua sob autoridade do Ministério da Defesa) na República do general De Gaulle. As ruas de Paris se transformaram em cenário de uma verdadeira guerra civil. Era o auge da revolta estudantil. Atraindo a solidariedade da intelectualidade e do operariado, que deflagraria uma greve geral arrastando dez milhões de trabalhadores, os estudantes franceses colocavam em prática novas formas de luta e de organização, questionando a um só tempo o establishment social e a política tradicional dos partidos de esquerda. “A imaginação no poder” era o grito dos que enfrentavam a repressão policial e o autoritarismo gaullista. Fatos semelhantes ocorriam na Itália, na Inglaterra e na Alemanha.

Paris tomada pelos estudantes em 6 de maio de 1968. Foto de Bruno Barbey.

Uma pichação na Universidade de Paris trazia a frase paradoxal, que logo virou slogan, repetido à exaustão: “É proibido proibir.” A juventude não se dava conta da estupidez da fórmula – se era proibido proibir, também deveria ser proibido proibir a proibição –, uma simplificação do mistério do sétimo grau do satanismo “Nada é verdade, tudo é permitido”. Os que são iniciados para o sétimo grau do satanismo, devem jurar que seguirão este princípio.[1]

No Leste, a insatisfação com os métodos das burocracias governamentais e partidárias despertava a oposição estudantil e operária, revelando sinais de desgaste no campo socialista. Na primavera, tanques do Pacto de Varsóvia desfilavam pelas ruas de Praga, atestando a disposição soviética de manter sob seu controle os rumos do socialismo europeu.

Estudantes de Praga cercam tanques soviéticos em frente ao prédio da estação de rádio tchecoslovaca no centro de Praga durante o primeiro dia da invasão liderada pelos soviéticos em 21 de agosto de 1968. (Foto:Reuters / Libor Hajsky)

No Brasil, a mobilização da juventude encontraria um ambiente marcado pelo desenvolvimento das contradições que a permanência no poder do regime de 1964 traria. Aqui, se a repressão política logrou os efeitos desejados para a desarticulação dos movimentos populares, em relação à classe média, especialmente no setor estudantil e intelectual, restou uma relativa margem de manobra que permitiria, com o acirramento das feições autoritárias e antipopulares do novo regime, a expressão do movimento de massas.

No início de outubro, travou-se uma guerra entre a esquerda universitária, com seu quartel-general na Faculdade de Filosofia da USP, na Rua Maria Antonia, e a direita universitária liderada pelo CCC, protegida na fronteiriça Universidade Mackenzie. A guerra vai das pedradas da Maria Antonia aos disparos de armas de fogo do Mackenzie, que acabam matando o estudante secundarista José Guimarães em 2 de outubro.

Num livro de texto gongórico,[2] Geopolítica do Brasil, influenciado fortemente pelo esoterismo do qual era um adepto incondicional, o general Golbery do Couto e Silva, apelidado de “bruxo” pela sua condição de maior comprador de livros de magia do país – intermináveis listas de compras enviadas a livreiros do Rio de Janeiro –, descrevia o cenário no qual a ditadura militar brasileira estava inserida e comprometida:

“No mundo de hoje, o antagonismo entre os Estados Unidos e a União Soviética, polarizando todo o conflito de profundas raízes ideológicas, entre a civilização cristã do Ocidente e o materialismo comunista do Oriente, e no qual se joga o domínio ou a libertação do mundo, arregimenta todo o planeta por seu dinamismo avassalador, ao qual não poderão escapar, nos momentos decisivos, os propósitos mais reiterados e honestos de um neutralismo, afinal de contas, impotente e obrigatoriamente oscilante. […] Essa é a guerra total, permanente, global, apocalíptica – que se desenha desde há muito no horizonte sombrio de nossa era perturbada. E só nos resta, nações de qualquer quadrante do mundo, preparar-nos para ela, com determinação, clarividência e fé […] Não basta a esses países dispor de um amplo arsenal nuclear de intimidação, resposta violenta e, por isso mesmo, exageradamente rígida, nem sempre aplicável no caso de ameaças limitadas. O que lhe convém é contar com forças militares organizadas, de preferência com elementos locais devidamente equipados e assistidos, reforçados, se necessário, por destacamentos dotados de armamento mais moderno e poderoso, e ademais disso, constituir um primeiro escalão de reserva geral, brigada de choque altamente móvel e superiormente equipada, capaz de atender no mais curto prazo, aqui ou acolá, como bombeiros internacionais de uma nova estirpe, aos focos de perturbação instigados pelos comunistas ou as ameaças de ataque, tanto da Rússia como da China, no amplo perímetro do mundo livre…”[3]

1968 foi, enfim, a culminância de tudo o que foi feito e preconizado por movimentos gnósticos que haviam surgido na Antiguidade e sido combatidos como heresias pela Igreja Católica para culminarem nos totalitarismos do século XX. Extraordinariamente reavivados dentro do espírito da “Era de Aquário” ou da “Nova Era”, o gnosticismo, com sua “revolta contra a realidade”, ressurgiu com uma força avassaladora e irresistível naqueles anos loucos.

1968: imagens, contracultura, guerra, revolução: título do Projeto Coletivo de Pesquisa, Ensino e Extensão anual do Grupo PET História da Universidade Federal do Paraná (UFPR) a ser executado em 2018.

Notas

[1] Wurmbrand, Richard. Era Karl Marx um Satanista?, Rio de Janeiro, Missão Editora Evangélica A Voz dos Mártires, 1980, p.32.

[2] Relativo a Luís de Góngora ou ao gongorismo, escola espanhola de poesia inspirada no modelo de Luís de Góngora y Argote, poeta espanhol dos séculos XVI e XVII, e caracterizada por um excesso de metáforas, antíteses, inversões, trocadilhos e alusões clássicas

[3] Mir, Luís, A Revolução Impossível: A Esquerda e a Luta Armada no Brasil, São Paulo, Best Seller, 1994, p.250-251.